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In document Global Health Research (sider 19-22)

Apesar da enraizada colonização portuguesa, os nobres brasileiros, incluindo os paulistas, continuavam tendo como ponto de irradiação principal a fervilhante Paris e a cultura do país francês, para onde se dirigiam no sentido de absorvê-la e disseminá-la no retorno à terra pátria.

No sentido elucidatório, Costa, E. V. (2000, p. 279), explica que a influência francesa esteve presente no Brasil durante todo o século XIX, acentuando-se sua importância com o passar dos anos. O resultado foi surgirem já no fim do século homens como Santos Dumont e Antônio Prado, para citar apenas dois dos mais significativos nomes da época, verdadeiros representantes do espírito francês, vivendo em ambiente brasileiro. Não constituíram eles exceção dentro de seu tempo, como se poderia imaginar, mas representaram toda uma geração que se formou segundo os moldes franceses.

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O Brasil adota a França, então um dos centros de poder econômico da Europa, como modelo cultural de seu projeto de urbanização e, por consequência, das práticas de consumo: "longe de adquirir identidade própria, a sociedade brasileira era uma réplica da parisiense". (Volpi apud Hoff, 2008, p. 172).

Era nítido o fascínio das elites pela beleza, refinada cultura e sofisticação oferecida no país de além-mar, e Costa, E. V. (2000, p. 285), destaca que na segunda metade do século XIX, a sociedade paulista afrancesava-se como as suas irmãs e embora um pouco tardiamente, identificava-se com elas. Daí para diante a influência francesa em São Paulo cresceu sempre em intensidade, atingindo seu clímax com o desenvolvimento da cultura cafeeira e a melhoria dos meios de transportes no fim do século, quando fortunas brilhantes levaram para a Europa famílias inteiras de fazendeiros, quando os filhos destes, frequentando as Universidades da França, ao voltarem traziam consigo a insatisfação e o desejo de transplantar para sua terra, suas fazendas, suas casas, um pouco do ambiente francês que tanto lhes agradara e ao qual se haviam acostumado.

As fortunas permitiam viagens á Europa e propiciavam aos paulistas "mais do que nunca entrarem em contato com a cultura francesa e assimilarem-na em grande parte". A cidade, desta forma, transformava-se e por isso demandava novas necessidades. Ao "aburguesamento" dos gostos e do modo de vida também estava imbricado o desenvolvimento do comércio, dos serviços e depois das incipientes indústrias. (Bivar, 2008, p. 5).

Tradicional no centro da capital, um estabelecimento inaugurado em 1895, também de origem francesa, era a Casa Fretin, especializada em instrumentos cirúrgicos, que manteve suas atividades até o ano de 2002, sendo perceptíveis as ligações da família proprietária com a pátria de origem:

Além disso, por muito tempo mantiveram-se dentro da colônia francesa de São Paulo: por exemplo, ainda em 1939, Jean Louis Fretin, neto do fundador da Casa Fretin, fazia primeira comunhão na Capela Francesa então existente na rua da Tabatinguera, com santinho em língua francesa, impresso em Paris. As cores da bandeira francesa - azul, branco e vermelho - ainda podem ser encontradas em selos e

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brindes da loja que, com isso, mantém-se associada à ideia de requinte de que continuam a gozar os produtos franceses, embora, hoje, estes estejam longe de constituir a maior parte das mercadorias à venda na Fretin, importadas de outros países ou de fabricação nacional. (Barbuy, 2006, p. 146–147).

Tal ascendência não ficava circunscrita somente à reprodução de nomes, pois arquitetos e engenheiros, formados em países da Europa, importavam para o Brasil estilos e materiais de construção e acabamento, de acordo com a estética dominante à época, conforme relatado a seguir:

Os jardins do Museu do Ipiranga, atual Museu Paulista, foram construídos entre 1907 e 1909, projetados pelo paisagista belga Arsenius Puttemans, com base nos jardins barrocos franceses, como os de Versailles. (Tirapeli e Silva, 2007, p. 121).

Foto 21: Museu do Ipiranga (atual Museu Paulista).

Corroborando esta influência, Mattos (1999) informa que desde os tempos de Luiz XIV, Versailles havia se tornado, para a França e para o mundo, o paradigma de monumento de culto à Nação, e mesmo na longínqua São Paulo as associações entre o “Palácio do Ipiranga” (projeto do arquiteto Tommaso Gaudenzio Bezzi) e o Complexo de Versailles eram recorrentes. Assim, podemos ler em um artigo comentando a decoração de Taunay

99 (Affonso D’Escragnolle Taunay, filho do famoso visconde) em setembro de 1922:

O salão de honra é bela sala ornada com o conhecido quadro de Pedro Américo, a Proclamação da Independência, o qual produz boa impressão aos visitantes. A tela é completada por alguns retratos de D. Pedro I à paisana, D. Pedro II, de José Bonifácio. Que esplêndido palácio de evocação poderia ser o Ypiranga, espécie de Versailles paulista. Iniciativa, gosto, amor à história e o monumento do Ypiranga será sempre grande página do passado a fortalecer os contemporâneos, a mostrar-lhes um Brasil que se construiu com muita honra, com muito esforço, com muita rapidez. (Mattos, 1999, p. 136).

Como visto anteriormente, e de forma complementar, Barbuy (2006, p. 174), referenda que, independente da nacionalidade de seus proprietários, uma grande quantidade de casas de moda paulistanas apresentava nomes franceses. O dado que se perdeu, porém, é de que muitos desses nomes não eram criados localmente e sim transpostos de conhecidas casas de modas parisienses. Esse fato demonstra que a influência francesa não era algo totalmente difuso e genérico, como se costuma imaginar, mas, ao contrário, era recebida por meio de parâmetros muito concretos. Em outras palavras, a França, ou pelo menos Paris, não era um lugar distante do qual se tivesse aqui apenas uma vaga ideia, mas uma realidade conhecida, em pormenores, de boa parte dos comerciantes locais (franceses ou não), assim como dos consumidores.

Daí que nomes como Louvre, Au Printemps, À Pygmalion, Au Paradis des Enfants; Au Bon Diable, À Ia Ville de Paris; Au Bon Marché e À Ia Belle Jardiniere correspondiam a célebres casas parisienses e funcionavam como palavras-chave para acesso imaginário à "capital do mundo". Além destes, houve também aqueles nomes apenas em francês, muitos fazendo referência a Paris, que por si só era sinônimo de moda, refinamento e cosmopolitismo: Grand Bazar Parisien, Au Figaro de Paris, À Bota de Paris, Palais Royal, L’ opéra, La Saison, Petit Bazar, Au Rendez-Vous des Dames; Aux Nouveautés Parisiennes/Aron Soeurs; À Ia Capitale, Aux 100.000 Paletots e Paul Coiffeur. Barbuy (2006, p. 174).

Além da grande proliferação dos nomes listados, Barbuy (2006, p. 303), também informa que onze estabelecimentos sediados em São Paulo

100 mantinham casas de compras em Paris, visando o intercambio de mercadorias europeias.

Evidenciando o mesmo texto de Barbuy, e levando em consideração até uma possível influência literária, no início dos anos de 1910, é inaugurada a loja Au Bonheur des Ames, homônima do romance (editado no Brasil como O Paraíso das Damas) de Émile Zola, que tinha como ambiente o competitivo mundo do comércio voltado para a moda, tendo como pano de fundo os grands magasins, conforme citação anterior.

Levando em consideração o fervilhar da moda oriunda de Paris, podemos considerar, além das lojas com seu apelo especifico, também a literatura que chegava em forma de jornais e revistas editadas na língua francesa, o que era, para alguns, motivo de efusivas leituras, além de sedimentadoras para novos comportamentos. E, corroborando tal efervescência, Ribeiro, M. I. B. (2008, p. 83), informa que o gosto do paulistano de então tinha bases firmemente ancoradas na Paris belle époque. Suas referências artísticas eram o ecletismo fin-de-siècle, balizado pelos ditames das escolas de belas artes, pelos quais a absorção das novas propostas estéticas acontecia na medida em que eram absorvidas pelo gosto e incorporadas ao vocabulário do bom-tom.

A profusão de casas voltadas para o vestuário gerou uma efetiva "cultura de moda" na cidade, e novidades estrangeiras encontravam mecanismos de divulgação local. O primeiro deles eram as publicações de moda que circulavam na cidade, levando às confecções, mas também às senhoras paulistanas, no interior de seus lares, uma grande profusão de modelos que mostravam qual a maneira de bem vestir- se, segundo os cânones europeus. A Casa e Livraria Garraux, por exemplo, fina fornecedora de artigos franceses, anunciava, no ano mesmo de sua própria inauguração, aceitar assinaturas para os principais jornais da Europa, inclusive os de modas: Conseiller des dames, Magasin des demoiselles, Journal des dames, Journal des demoiselles, Elegant journal des tailleurs. O Messager de Saint Paul, um dos órgãos da colônia francesa em São Paulo, também oferecia esse tipo de publicação, colocando à venda, em seu escritório, ampla gama de títulos: La Mode illustrée, La Mode élegante, Paris figurine, La Mode nouvelle, Le Journal des modistes, Le Salon de Ia mode, La Mode de style, L’ Avenir de Ia mode, La Mode palace, La Poupée modele, Toilette des Enfants, Journal des demoiselles, Revistas brasileiras de modas, realizadas sobre modelos franceses, também se multiplicaram. [...] Essas publicações representavam um poderoso elemento na cadeia de bens materiais por meio da qual se introduziam as maneiras cosmopolitas de se vestir e de se comportar e, concomitantemente, o mundo de valores burgueses da sociedade industrial. (Barbuy, 2006, p. 203-204).

101 Continuando esta ligação existente entre os países, Almeida e Carvalho (2012, p. 14–15), referendam que no século XIX, o diálogo entre França e Brasil oscila entre o fascínio da utopia do lugar ideal para criar “uma sociedade perfeita, sem pecado nem culpa e protegida da podridão europeia” e o horror de uma pátria comprometida culturalmente pela miscigenação das raças.

Revelando uma ênfase expansionista, Combeau (2011, p. 69), sustenta que o século XIX confirmou Paris em sua condição de primeira cidade francesa. Ao mesmo tempo que as cidades provinciais passavam por uma época de estagnação (tanto em população como em crescimento), a capital não parou de se expandir, sendo mais do que nunca o grande polo urbano do país. O número de habitantes aumentava de forma espetacular.

O mesmo autor (2011, p. 73), parece narrar São Paulo, quando rememora as precisas e preciosas descrições do escritor Eugène Sue19 em Os mistérios de Paris: ruas estreitas, pardieiros de vários andares e uma grande densidade demográfica nos bairros mais pobres do centro da cidade (muitos milhares de habitantes por quilômetro quadrado).

Apesar de realísticos, tais relatos podiam ser contestados, já que supostamente desprovidos de consistência por quem se manifesta, pois Marx (2012, p. 149) descreve Sue como um visionário social pequeno-burguês sentimental, que o proletariado poderia aceitar no máximo como uma piada para agradar as grisettes, que eram moças bem situadas ou empregadas que também trabalhavam como cortesãs.

As comparações podem ser efetuadas entre quaisquer grandes cidades, mas o laço interpretativo que erige este texto está lastreado nesta ligação enraizada, edificada entre o fim do século XIX e seu predecessor, que deixaram marcas, das mais variadas formas na capital paulista, e apesar do tradicional desrespeito às memórias de um povo, tão pungente em nosso país, esperamos que não se esvaia por completo no futuro de vislumbre inexato.

19 Eugene Sue (1804-1857). Popular romancista da vida urbana e principal expoente de uma

série de jornais. Um dândi parisiense, viveu no exílio após o golpe de estado de 1851. Autor de Les Mysteres de Paris (1842-1843), Le Juiferrant (1844-1845). (The Arcades Project, 2002, p. 1050).

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Mas aquele aspecto europeizado da cidade não iria durar muito. O fascínio pelo requinte francês em breve cederia lugar ao entusiasmo pelo industrialismo norte- americano. As grandes sensações do momento passaram a ser o foxtrote, o cinema falado em inglês, o automóvel da Ford e os arranha-céus. (Cavalcanti e Delion, 2004, p. 71).

Para entender tais transformações, é necessário retroceder algumas décadas, onde Quintaneiro et al (2009, p. 10), informam que a partir da segunda metade do século XVIII, com o nascimento do proletariado, cresceram as pressões por uma maior participação política, e a urbanização intensificou- se, recriando uma paisagem social muito distinta da que antes existia. Os céus dos grandes centros industriais começaram a cobrir-se da fumaça despejada pelas chaminés de fábricas que se multiplicavam em ritmo acelerado, aproveitando a considerável oferta de braços proporcionada pela gradual deterioração da propriedade comunal, remanescente das instituições feudais.

Apesar de devastada pela guerra, a França foi a fonte de inspiração mais visível no processo de importação do modernismo artístico pela intelectualidade brasileira ao tempo da gestão do Ministro Gustavo Capanema (1934-1945), quando de fato se definiram as linhas de ação governamental em cultura no Brasil. (Durand, 2013, p. 167).

Atualmente, já se torna mais difícil perceber as influências relatadas, pois décadas se passaram e as mudanças que vão sufocando tais indícios, soçobram em meio à pressa das grandes cidades.

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