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In document Global Health Research (sider 28-67)

Somente quem conhece a capital paulista consegue perceber sua grandeza, algo impossível de imaginar até pelos habitantes de grandes

110 metrópoles em outras partes do planeta, como Cidade do México, Nova Iorque, Tóquio e outras.

Em um caldeirão multifacetado construído com a imigração de variadas etnias, que aqui deixaram sua marca, principalmente nas tradições ligadas ao modo de comerciar característico de cada estrangeiro que aqui aportava, exemplificado nas cadernetas, nas negociações acaloradas, no ato de pechinchar, no modo de exposição das mercadorias, construindo uma característica peculiar não exclusiva, mas delineadora de uma metrópole aberta às culturas que chegavam.

Até a década de 1860 - 1870, quase isolada no planalto, com um comércio suprido apenas por caminhos precários, percorridos por tropas de mulas, a população de São Paulo apresentava padrões extremamente simples de vida cotidiana. Mesmo entre os setores de renda mais alta, os modos de vida eram quase franciscanos: poucos móveis, pouquíssimos equipamentos domiciliares, fogões a lenha, ausência de instalações hidráulicas e sanitárias, uso de esteiras e redes em lugar de camas. Sem um sistema de iluminação, a não ser precárias lamparinas de óleo de baleia, a vida das famílias era regulada pelas horas do dia e pelas estações do ano: café da manhã às 5 horas, almoço às 9 horas, jantar às 17 horas no inverno e, talvez, às 18 horas no verão para aproveitar a luz do sol. O comércio seguia um horário semelhante. Sem iluminação, as lojas tinham pouca profundidade, expondo parte das mercadorias nas portas da rua. Daí a presença constante dos proprietários ou seus prepostos na parte externa dos estabelecimentos, para proteger o material exposto. (Bueno, 2012, p. 9).

Após a passagem de algum tempo no país, trabalhando como empregado no comércio ou na lavoura, bastava um mínimo capital suficiente para a abertura do pequeno negócio, e lá ia o imigrante em busca do sucesso econômico proporcionado pelo novo mundo.

Desde a fundação da cidade de São Paulo, em 1554, até a segunda metade do século XIX, a demanda por comércio era muito pequena em consequência do reduzido tamanho da população, seu pequeno poder aquisitivo e o baixíssimo padrão de consumo da época, restrito quase que aos gêneros alimentícios ou de primeira necessidade, que eram obtidos graças ao fluxo de mercadorias entre o interior e o litoral. (Oliveira, A. M. B. D., 2006, p. 25).

A maior parte dos negócios surge da sociedade entre famílias brasileiras, no entanto, Deaecto (2002, p. 120), nos aclara que em segundo

111 lugar, aparecem em maior número os negociantes italianos. Nesse caso, eles estão mais propensos às sociedades firmadas entre brasileiros, portugueses e franceses, que aparecem em menor número. Os italianos se concentram no ramo de gêneros alimentícios e bebidas e no de comissão e representação, tal como os portugueses, que são os terceiros da lista. Em quarto lugar aparecem os sírios, cujo ramo de atividade dominante é o de fazendas e armarinhos. Os alemães se dedicam principalmente ao comércio de produtos químicos, no qual têm a seu favor uma indústria bastante desenvolvida e no ramo de comissões e representações, reafirmando o interesse no comércio exterior. Os franceses se distribuem nos ramos de hotelaria, bares e cafés, confecção, vestuário, papelaria e automóveis, ou seja, dedicam-se ao comércio de bens de consumo.

Outros tipos importantes na formação do comércio no início de século são os imigrantes que chegam do Oriente Médio: armênios, árabes, libaneses, sírios, mas todos com a alcunha de “turco”, que se aventuram como mascates, vendendo mercadorias de porta em porta.

Eu passei a infância no Bexiga, onde meu pai era conhecido como o "Turco das prestações". “E “turco significava o prestamista que comprava por atacado nas manufaturas então estabelecidas em São Paulo e, com grandes pacotes nas costas, oferecia mercadoria à prestação de porta em porta”. Segundo o autor, dessa atividade inicial seu pai pôde acumular o capital necessário para organizar um comércio próprio, dando-se, a partir daí, a sua escalada morro acima, até vir morar nas vizinhanças da Avenida Paulista. Os sírios e libaneses gozavam de uma condição econômica mais estável no bairro, pois muitos já haviam estabelecido uma loja e não raro podiam contar com a ajuda de algum familiar bem instalado na 25 de Março.(Grünspun apud Deaecto, 2002, p. 114).

Em São Paulo as galerias comerciais surgiram no século XX, tendo como base a ideia francesa somada com a intenção de aumentar as áreas "rentáveis" dos edifícios. A grande maioria delas existe até hoje e está localizada no Centro Novo da cidade. Com seus usos destinados ao comércio e serviços, muitas delas acabaram por se especializar em algum tipo de produto. São utilizadas também como passagem para os pedestres que querem apenas cruzar as quadras através de seu interior. (Perez, 2009, p. 42).

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A consolidação das galerias comerciais no Centro ocorreu, efetivamente, a partir da década de 1930, como uma solução ao problema da escassez de lotes voltados para o comércio do Centro Novo. A região era procurada pelos principais investidores, como lugar para o sucesso de empreendimentos imobiliários e comerciais. A construção dessas galerias mostrava-se uma alternativa aos investidores interessados em ter seus pontos comerciais com frente para os espaços de passagem dos transeuntes. (Costa, S. S. F., 2012, p. 87).

Elguezabal apud Braida (2010, p. 7), apresenta alguns elementos constantes nos desenhos de galerias que tiveram êxito, destacando-se: (1) acesso a partir de uma avenida ou rua comercial importante (especialmente para grandes galerias); (2) importância de uma comunicação ou saída em outra via; (3) uma única planta; (4) ausência de grandes desníveis; (5) locais com vitrines não muito extensas; (6) recursos de equipamentos e ambientação de acordo com o caráter da obra.

O animado footing na rua Direita, com direito a um bom-bocado na Confeitaria Fasoli, uma parada para ver as novidades chegadas da França na Livraria Garroux, na XV de Novembro, e uma espiada nas vitrines das lojas femininas, como La Grand Duchesse e Notre Dame de Paris. Depois, uma passadinha na Galeria Werbendorfer, a bisavó dos shopping centers, com seus 76 metros de extensão e 16 de altura, para apreciar a deslumbrante cobertura de vidros de cristal sobre arcos de ferro. (Souza, O., 2003, p. 90-91).

Impressionados com as galerias que conheciam em Paris, arquitetos e engenheiros, em conjunto com detentores de grandes capitais monetários, sonhavam em edificar no centro paulistano réplicas de tais monumentos em ferro e vidro, como exemplificado no esboço que permaneceu estático em papel, apresentado à prefeitura no ano de 1890 pelo empresário francês Jules Martin (o mesmo que idealizou o viaduto do Chá), seu projeto previa nove galerias interligadas, construídas no interior das quadras do centro velho, comunicando as ruas São Bento, 15 de Novembro, do Comércio (atual Álvares Penteado), da Quitanda, Direita e José Bonifácio. O complexo teria três andares com lojas, além de corredores com pé direito triplo e cobertura transparente (de crystal, segundo alguns documentos, ou de christal, por outros informativos) para garantir a iluminação natural. O empreendimento, que exigia um grande número de desapropriações e demolições, chegou a ser aprovado

113 pela prefeitura em 1896, mas emperrou nos altos custos e questões legais. (adaptado de Barbuy, 2006; Kühl, 1998 e Segawa, 2004).

Ilustração 5: Foto 22:

Projeto da Galeria de Cristal (1890). Galeria de Cristal (a outra edificada).

A concretização de tal sonho se realizou em outra Galeria de Cristal, cujo batismo extraoficial era Galeria Werbendorfer, que será motivo de maiores informações introdutórias na sequência do texto.

A travessia do século teve, na arquitetura para comércio em São Paulo, um símbolo marcadamente cosmopolita: a Galeria de Cristal. Como que figurando a ligação entre um século e outro, entre um conceito e outro de cidade (e de comércio), foi inaugurada, em 1900, apesar da crise econômica que o país atravessava, uma passagem para pedestres, com cúpula de ferro e vidro e fileiras de lojas, indo da rua 15 de Novembro à rua da Boa Vista, nos moldes das muitas galerias comerciais que se construíram na Europa desde a primeira metade do século XIX. (Barbuy, 2006, p. 205).

Porém, o objetivo primordial que era atender aos mais abastados que, em tese, se sentiriam em Paris, não foi atingido, pois as lojas locadas refletiam o momento atual, que era da proliferação dos prestadores de serviços, como explica Barbuy:

Não receberia, porém, no interior de suas lojas, aquele abarrotamento de mercadorias luxuosas que davam literalmente brilho às suas congêneres europeias. Na interpretação local, isto é, em seu uso, a galeria tornou-se uma espécie de centro de serviços, com barbeiros, sapateiros, engraxates, alfaiatarias, botequins, lotéricas e representantes comerciais de algumas firmas. (Barbuy, 2006, p. 208).

114 Enquanto as construções das galerias parisienses tiveram como determinantes o espaço existente e suas edificações operavam sobre a estrutura da urbe e da dinâmica da vida urbana, na cidade de São Paulo, é a vida na urbe que dita a ocupação do espaço. (Fernandes e Souza, 2010, p. 5).

Da mesma maneira que as galerias europeias do século 19, essa tipologia arquitetônica precisava ser atraente, a ponto de desviar a atenção da multidão passante para seus corredores de lojas e seus “atalhos”. A disposição das lojas ao longo de um corredor interno possibilitava a exposição de um número maior de vitrines e, consequentemente, maior rentabilidade comercial dos espaços, uma vez que todas as subdivisões estariam expostas aos passantes, possíveis consumidores. Criando trajetos alternativos por dentro das quadras, ampliava-se o perímetro de vitrines de lojas. (Costa, S. S. F., 2012, p. 87).

Apesar da citada influencia francesa na capital, onde a burguesia paulistana regozijava-se por importar tudo da França – comida, bebida, idioma e cultura, foram os italianos que aqui chegaram aos milhares, na observação de Souza:

São Paulo, a cidade dos mil sotaques. 3,5 milhões de imigrantes entraram no Brasil desde o início do século XIX para trabalhar na agricultura. Desse contingente, mais da metade fixou-se em São Paulo. Só entre 1875 e 1900, a cidade recebeu 800 mil imigrantes, dos quais 600 mil italianos. Para se ter uma ideia do que esses números significam, basta dizer que, na virada do século, havia dois italianos para cada brasileiro na cidade. (Souza, O., 2003, p. 44).

Todavia, apesar da beleza plástica apresentada nas imagens das galerias europeias já reproduzidas, existe uma realidade nacional que não podemos relegar ao refletirmos sobre as palavras de Holanda (2003, p. 31), quando explica que a tentativa de implantação da cultura europeia em extenso território, dotado de condições naturais, se não adversas, largamente estranhas à sua tradição milenar, é, nas origens da sociedade brasileira, o fato dominante e mais rico em consequências. Trazendo de países distantes nossas formas de convívio, nossas instituições, nossas ideias, e timbrando em manter tudo isso em ambiente muitas vezes desfavorável e hostil, somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra. Podemos construir obras excelentes, enriquecer nossa humanidade de aspectos novos e imprevistos, elevar à perfeição o tipo

115 de civilização que representamos: o certo é que todo o fruto de nosso trabalho ou de nossa preguiça parece participar de um sistema de evolução próprio de outro clima e de outra paisagem.

Conquanto, em São Paulo, (cf. Costa, S. S. F., 2012, p. 87), o que se entende por “galeria comercial” apresenta um desenho que se diferencia da proposta original europeia, em especial a francesa. Configuram-se como corredores de ligação entre ruas (na maioria das vezes, duas) com frentes de lojas voltadas para seu interior. Essas galerias ligavam vias com um alto fluxo de passagens de pessoas. Não apresentavam iluminação zenital, nem se destacavam pelo corredor central com pé-direito duplo ou triplo, porque, em geral, localizavam-se no pavimento térreo de edifícios de vários andares.

Na capital paulista, inicio do século XX, a aristocracia burguesa, detentora da riqueza proporcionada pela cultura do café e depois com a industrialização do país, tendo o Estado de São Paulo como principal propulsor, absorvia as tendências europeias, com grande ênfase nos modismos franceses, o que nos faz considerar que a metrópole paulistana possuía muitos pontos em comum com a Paris contada por Walter Benjamin.

Os saudosistas pensam que as ruas de comércio, como as conhecemos hoje, com lojas e vitrinas, existiram desde sempre. Mas não é bem assim. Na verdade, são novidades dos últimos anos do século XIX e do início do século XX. São partes de um processo de mudança que ainda está em curso. Em meados do século XIX, as ruas de São Paulo, cruzadas por poucos veículos, não tinham ainda os passeios como os conhecemos hoje. Existiam apenas as "calçadas”, isto é, amontoados de pedras irregulares junto às fachadas das casas, para protegê-Ias das águas lançadas pelos beirais. As pessoas andavam pelas partes centrais das ruas. Até então as lojas, pouco numerosas não eram especializadas. Vendiam um pouco de tudo que, dadas as dificuldades de transporte, era quase nada. (Bueno, 2012, p. 9).

A cidade de São Paulo cresceu desordenadamente, refém do embate entre os grandes produtores rurais residentes nas áreas centrais e a população proletária confinada nos extremos da metrópole que já se agigantava.

A polarização entre as "terras altas", nos bairros de Campos Elíseos, Higienópolis e Avenida Paulista, e as "terras baixas", nos bairros do Brás, Bom Retiro e Barra Funda, que opunha industriais e barões do café a operários no início do século XX, atravessou as décadas e reproduziu-se em outros territórios da capital paulista. Ao

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lado de uma ideologia reacionária, que substituiu a mentalidade higienista da elite paulistana do início do século pela especulação imobiliária pura e simples sobre terrenos ocupados pela população de baixa renda, sempre se manteve historicamente o desejo de auto isolamento dos mais ricos e a tendência de concentração, num mesmo espaço urbano, das atividades de gestão do grande capital e a moradia das camadas mais abastadas da população. É por conta desta conjunção de fatores que a história da urbanização da cidade de São Paulo é a história da periferização da pobreza e da criação e do abandono de centralidades. (Iglecias, 2002).

Esta mescla pode ser compreendida quando Lévi-Strauss nos conta sobre a impressão de seu mestre, Georges Dumas, em relação ao Brasil.

Nessa espécie de amor à primeira vista que ia nascer entre ele e a sociedade brasileira, com certeza manifestou-se um fenômeno misterioso, quando dois fragmentos de uma Europa velha de quatrocentos anos - da qual certos elementos essenciais se haviam conservado, de um lado, numa família protestante meridional, de outro, numa burguesia muito requintada e um pouco decadente, vivendo em ritmo lento sob os trópicos - encontraram-se, identificaram-se e quase se amalgamaram. (Lévi- Strauss, 1996, p. 19).

Como aponta Lourenço (1995): Os anos 30 e 40 representam o momento de significativas mudanças em todas as órbitas, englobando o projeto moderno, que caminha do modernismo para a maturidade, vale dizer, modernidade. Seu alvo principal é tornar-se uma cultura urbana, chegando ao transeunte através de uma convivência cotidiana, que denominamos cotidianização do moderno.

Neste período começam a serem pensadas as grandes avenidas, e Segawa (2004, p. 17), informa que as grandes reformas urbanas na administração do Barão de Haussmann em Paris (1853-1870) e o empreendimento similar pelo Prefeito Pereira Passos no Rio de Janeiro (1903- 1906) inspiravam iniciativas de mesma natureza em São Paulo.

117 Ilustração 6: Plano geral de transformação de Paris (1853).

Foi então elaborado, pelo Prefeito Prestes Maia, o Plano de Avenidas, visando à reestruturação da cidade como um todo, mas com concentração em sua porção central.

Os planos urbanísticos do alcaide, inspirados nas obras de Paris realizadas pelo urbanista francês a serviço de Napoleão III, estabeleceram, por meio de eixos e conexões sistêmicas, a integração dos bairros centrais, estendendo os limites da cidade com uma infraestrutura viária própria a sua expansão.

Parte do projeto, nos anos 1940, culminou em uma reforma urbana que acabou com a circulação dos bondes (e trens interurbanos), para abrir largas avenidas, túneis, subterrâneos e elevados, a fim de dar conta do crescente trânsito motorizado da cidade. (Freitag, 2012, p. 129).

No entanto, como é possível visualizar na ilustração a seguir, o prefeito visionário não conseguiu concluir seu interessante projeto, visto que nossa urbe continua carecendo de novos escoadouros de tráfego em razão de sua grande população motorizada.

118 Ilustração 7: Plano de Avenidas de Prestes Maia (1947).

Bardi (1986), recém-chegado da Itália, descreve a cidade de São Paulo que encontra na Década de 1940: "São Paulo já era uma grande cidade, acolhedora, ainda gostosamente provinciana. Viajava-se de bonde, poucos os cafés para encontros e conversas, imponente o Teatro Municipal, vistosos os Museu Paulista e a Pinacoteca do Estado, esta num grande edifício situado no bairro da Luz, projeto de Ramos de Azevedo20." [...] "outro curioso e simpático recreio, o clube do Trianon se distinguia pelas festas de sabor aristocrático. Faziam-se visitas ao benemérito Liceu de Artes e Ofícios, responsável pelo ensino artesanal e alavanca dos primeiros passos para o desenvolvimento industrial." [...] "Surpreendeu-me encontrar uma única galeria comercial, numa estreita travessa da rua Barão de Itapetininga.

Pelas palavras do grande entusiasta das artes, podemos imaginar o quanto, nesta época, São Paulo se assemelhava com as grandes metrópoles

20 Desde o final do Século XIX até falecer, Ramos de Azevedo (arquiteto graduado na Bélgica,

1851-1928) e seu escritório dominavam a construção de edifícios, marcando de forma significativa a paisagem paulistana, com seu ecletismo trazido da Europa e que correspondia à sua visão de mundo. Dois exemplos merecem destaque: o Palácio do Comércio e um prédio de escritórios de propriedade da condessa Álvares Penteado, ambos no largo do Tesouro. A ressonância francesa do prédio de escritórios manifesta-se claramente no desenho do edifício: o telhado com mansardas. (Campos e Simões Junior, 2006, p. 62).

119 europeias, como Paris, Londres, Milão, e suas galerias, diferentemente destas urbes, ainda não haviam proliferado.

A metrópole cria uma ordem inédita que indica um "tempo" diverso do simplesmente atual. É alegoria do passado e também recordação íntima. Nela espaço e tempo realizam "trânsitos" entre lugares de peregrinação em busca do objeto de desejo, espaços rituais, dissolvendo-se, assim, as rígidas contraposições entre o sagrado e o profano, entre o "sensitivo" e o "racional". (Matos, 2010, p. 138).

Hoje, a capital paulistana é um pobre arremedo dos tempos relatados por Bardi, pois em razão de variados fatores de essência negativa ocorridos nas décadas sequentes, como golpe de estado, processo inflacionário, altas taxas de juros, crescimento populacional desmedido, além de péssimas gestões político-administrativas, resultando em um panorama que não lembra o comparado pelo famoso critico e historiador, mas a Paris superpovoada, sufocante e miserável, tão bem descrita por Victor Hugo, em suas obras literárias.

Todos circulando por entre embates e disputas pelas ruas das grandes cidades com os trapeiros e miseráveis. (Paim e Guimarães, 2012, p. 3).

Continuando nosso raciocínio comparativo, esta Paris do século XIX, que apresenta os extremos da opulenta riqueza em contrapartida ao grande contingente proletário com pouco acesso aos bens de consumo massificados de todas as formas, tão desejados, e tão longínquos, cena que se aplica de forma cabível a nossa inequívoca realidade.

A cidade é o lugar onde pessoas de todos os tipos e classes se misturam, ainda que relutante e conflituosamente, para produzir uma vida em comum, embora perpetuamente mutável e transitória. (Harvey, 2014, p. 134).

120 Bolle apud Freitag (2012, p. 31-32), opina que se a Paris do século XIX falava por si em seus cartazes de Toulouse-Lautrec21, São Paulo se anuncia em painéis luminosos, os outdoors modernos, espalhados pelas ruas, edifícios, pontes e postes. [...] Se as ruínas de prédios do passado marcam o espaço urbano parisiense, São Paulo ostenta uma grande coleção de prédios em ruínas como velhos gasômetros, galpões, armazéns, fábricas e estações de trem abandonadas.

Quanto à arquitetura, valho-me de observação de visitantes registrados por outro geógrafo, Pasquale Petrone: "George Clemenceau chegou a afirmar que a cidade de São Paulo era tão curiosamente francesa em alguns de seus aspectos que, no decorrer de toda uma semana, esqueceu-se de que se achava no estrangeiro”. (Toledo, 1983, p. 169).

Fornecendo feições comparativas complementares, Campos e Simões Junior (2006, p. 230), denotam que, na capital paulista, a arquitetura eclética de inspiração francesa era, entretanto, a marca da Primeira República, tendo modificado as feições antigas da cidade no início do século XX, imprimindo-lhe uma imagem de progresso e modernidade, com a abertura de boulevards; jardins públicos e a implantação de infraestrutura e redes de transporte. A forte

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