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In document Global Health Research (sider 22-28)

Vivemos no século XXI, e de que maneira podemos refletir sobre o que é moderno, e também o que já foi moderno. No entanto, tudo é uma questão de tempo, pois até o pós-moderno pode já estar antigo, dependendo do ponto de vista do expectador.

Ao nos fixarmos no século XIX, como ponto de partida no sentido de traçarmos o paralelo entre o hoje das galerias de São Paulo e as de Paris antiga, conforme especificado, e buscando nosso lastro nos escritos de Walter

103 Benjamin, o espectro da modernidade se clareia e podemos fixá-lo no panorama do tempo.

A Paris do século XIX é o prenúncio da modernidade que a São Paulo do século XXI ostenta na pós-modernidade. Benjamin antecipa em Paris o que viria a acontecer em São Paulo e outras megalópoles do hemisfério sul um século depois. (Freitag, 2012, p. 32).

Na obra Benjaminianas, Matos (2010, p. 93), ensina que dá-se, na modernidade, a ultrapassagem dos pilares do conhecimento objetivo que até hoje estabeleciam a relação ou separação entre sujeito e objeto (consciência, razão, ética, liberdade). Pois, se nada depende de uma relação particular entre um sujeito e um objeto, ou é universalizável em sua união ou separação, tudo pode ser fetiche, como também todo fetiche pode deixar de sê-lo.

Esta modernidade, da maneira que podemos interpretá-la, foi coadjuvante, em sua existência, do flagelo de duas grandes guerras mundiais, e Muricy (2010, p. 195), nos traz impressões de Benjamin, quando constata como a segunda década do século XX assistiu, estupefata e impotente, à queima geral da tradição. Sua liquidação derradeira - a guerra mundial- deixou como herança uma extrema miséria de experiências comunicáveis. Benjamin se refere àquela "geração que ainda fora à escola num bonde puxado por cavalos" e que assistirá, nos campos de batalha, ao aniquilamento de experiências acumuladas ao longo de gerações. Na paisagem destruída da guerra de 1914, não sucumbe apenas o "frágil e minúsculo corpo humano", exposto a uma tecnologia inesperada, morre também a já declinante capacidade comunicativa da experiência. Esses homens que voltam "mais silenciosos" das trincheiras, incapazes de narrar a horrível experiência, são os homens da modernidade. Destituídos da sabedoria - "o lado épico da verdade" - que lhes foi arrancada pela ruptura abrupta com um passado de "experiências transmissíveis de boca em boca", resta-lhes a assunção de sua pobreza.

A modernidade diz respeito à emergência do indivíduo, como singularidade, discernimento, afirmação, atividade, autoconsciência, luta, ambição, derrota ou ilusão.

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Esse o indivíduo que se desenha nas realizações científicas, artísticas e filosóficas, iniciando e desenvolvendo os tempos modernos. [...] Daí nascem o flâneur de Baudelaire, o blasé de Simmel, o Homo economicus de Alfred Marshall e o individualismo metodológico de Hayek e Popper. (Ianni, 2000, p. 194).

Os personagens são vários e todos nos trazem a contemplação da cidade, que inerte em seu aglomerado cinzento, demonstra a vida pulsando no verbo dos autores, narrando tais intérpretes das cenas que emolduram a modernidade e seus desdobramentos imperceptíveis nos diversos quadrantes do emaranhado que se confunde entre seu centro e as diversificadas periferias.

A grande cidade pode ser o lugar por excelência da modernidade e da pós- modernidade. Juntamente com a urbanização, o mercado, o dinheiro, o direito e a política, bem como com a secularização, a individuação e a racionalização, aí também florescem a arte, a ciência, e a filosofia. É na grande cidade que se desenvolvem a arquitetura, o urbanismo e o planejamento, assim como aí surgem o partido político, o sindicato, o movimento social, a corrente de opinião pública e o próprio Estado. As distinções nítidas e matizadas entre o público e o privado, a civilidade e a privacidade, a população e o povo, os grupos sociais e as classes sociais a reforma e a revolução, a tirania e a democracia desenvolvem-se, refinam-se e embaralham-se na cidade. E na grande cidade que aparece a multidão, a massa ou a turba, assim como o líder, dirigente, demagogo, condottiere. Aí se formam o cidadão e a cidadania, o solitário e a solidão, o radical e o fanático, o suicida e o profeta, o artista e o cientista, assim como o aventureiro, o blasé, o flâneur. (Ianni, 2000, p. 125).

De modo claro, Ianni (2000, p. 125-126), leciona que embora traços e fragmentos de modernidade se encontrem por toda parte na sociedade moderna - o que pode significar que nos lugares mais óbvios os seus segredos permanecem indecifrados -, há não obstante dois lugares nos quais sobressaem acima dos outros: na metrópole e nas relações sociais capitalistas. Ianni diz que para Benjamin, em sua visão pessoal, Berlim, mas, na sua mais ambiciosa teoria social da modernidade, Paris no meio do século XIX. No que se refere ao capitalismo, Benjamin focalizou o processo de troca e circulação de mercadorias, compreendendo o fetichismo da mercadoria.

Os horrores de ambas as guerras, após sua finalização, acabam com a reconstrução necessária das nações dizimadas, trazendo a prosperidade aos países industrializados e detentores do capital, fortalecendo a cultura capitalista nos vários estados vencedores do ocidente, além dos derrotados, incluindo-se

105 aí, o Japão, no oriente, que passa a produzir toda a sorte de pequenas mercadorias para o significativo consumo do outro lado do mundo.

A evolução tecnológica, que pode ser considerada proveniente da chamada modernidade, sempre avança de forma significa após as guerras que são funestos laboratórios que cobram o preço do novo, à custa de milhares de mortes, e com a destruição, logo após vem a reconstrução, fator que incentiva a produção de bens em variados pontos do planeta. Mas até onde chega a ética das classes dominantes?

A sociedade que entra no século XXI não é menos "moderna" que a que entrou no século XX; o máximo que se pode dizer é que ela é moderna de um modo diferente. O que a faz tão moderna como era mais ou menos há um século é o que distingue a modernidade de todas as outras formas históricas do convívio humano: a compulsiva e obsessiva, contínua, irrefreável e sempre incompleta modernização; a opressiva e inerradicável, insaciável sede de destruição criativa (ou de criatividade destrutiva, se for o caso: de "limpar o lugar" em nome de um "novo e aperfeiçoado" projeto; de "desmantelar", "cortar", "defasar", "reunir" ou "reduzir", tudo isso em nome da maior capacidade de fazer o mesmo no futuro - em nome da produtividade ou da competitividade). (Bauman, 2001, p. 40).

Aumentando nosso entendimento, Matos (2010, p. 255), afirma que já se caracterizou a modernidade como a época do fenômeno do fetichismo generalizado. E, lembra que próprio Marx analisava a reificação e o estranhamento decorrentes da cultura capitalista.

Marx compara o fetichismo da mercadoria ao fetiche religioso. As mercadorias fetiches que os homens criam, mas cultuam como se fossem portadores de todas as características do "em si", atribuindo poderes sobrenaturais a objetos materiais. Para Marx, o fetichismo não é uma representação invertida da realidade, mas a própria inversão da realidade: "Eis por que", escreve Marx, "as relações sociais que mantêm seus trabalhos privados aparecem aos produtores como são, isto é, não como relações imediatamente sociais entre as pessoas no próprio trabalho, mas, ao contrário, como uma relação de coisas e como uma relação das pessoas com as propriedades sociais dessas coisas" (Bottomore, 2012, p.222-393).

Interpretando o postulado por Marx, é possível lembrarmos-nos dos significativos altares que as pessoas constroem em suas residências para glorificar seus objetos de desejo, ícones da adoração e antítese da utilidade.

106 Neste caminho, Slater (1997, p. 112), explica que com Marx, nós começamos a ver nas mercadorias possibilidades estruturais e práticas para a transformação da forma como o mundo transparece, tanto o mundo exterior das coisas e o mundo interior das necessidades. E, continuando, Richards (apud Slater, 1997, p. 112) traça os modos em que, ao longo do século XIX, através das exposições e da publicidade, através da maneira de exibição das coisas, as mercadorias desenvolvem “formas de representação", ao longo das linhas do fetichismo, para a apresentação dos objetos como místicos, como coisas independentes dotadas de vida e de objetivos aparentes.

Isto é alinhado com a obra de Benjamin, centrada precisamente no reencantamento do mundo moderno científico e industrial através das propriedades mágicas das coisas vendidas. (Slater, 1997, p. 113).

Como o sonho e suas sobreposições ilógicas as antíteses têm por função ligar a modernidade à proto-história, a consciência desperta ao mundo esquecido, o labirinto das ruas e edificações ao subsolo e ao inconsciente da cidade. O sonho é o limiar de mito e razão, de natureza e cultura, de campo e metrópole. Assim, se a natureza e a comunidade primitiva são o sonho de igualdade e da sociedade sem classes, a cidade é o sonho de luxo e dos palácios de cristal. A cidade é a pátria do flâneur e do revolucionário, pátria dos sem-pátria. (Matos, 2010, p. 12).

Como referência inicial desta modernidade, e ancorando nosso raciocínio nos produtos e mercadorias, Giddens (2002, p. 21), nos assevera que a "modernidade" pode ser entendida como aproximadamente equivalente ao "mundo industrializado" desde que se reconheça que o industrialismo não é sua única dimensão institucional. Ele se refere às relações sociais implicadas no uso generalizado da força material e do maquinário nos processos de produção. Como tal, é um dos eixos institucionais da modernidade.

Quando começa (ou começou) a modernidade? A história não escrita da modernidade está repleta de ironia e paradoxos, começando pelo fato de que a própria palavra modernus é um termo medieval. (Burke, 2008, p. 25).

107 Conforme Retondar (2007, p. 23), a consolidação da modernidade nos séculos XVIll e XIX foi marcada por um conjunto de transformações nas práticas sociais políticas e culturais que estiveram, de modo crescente, orientadas pelo processo de racionalização da vida social, desde a secularização da cultura até a mecanização da produção, um processo de "desencantamento" que se tornou um dos elementos essenciais da práxis da organização social moderna, articulando modos de vida e percepções de mundo, ideologias e imaginários, ações e relações sociais.

Contudo, no direcionamento deste estudo, nossa intenção é a de seguir o caminho mostrado por Ortiz (1998, p. 31), onde o tema modernidade caminha ao lado da cultura de mercado, do consumo e da racionalização da sociedade.

Ainda assim, o autor (1998, p. 264), sedimenta sua teoria ao explicar que a modernidade coloca em andamento o indivíduo. Por isso vamos encontrá-Io como ator político, consumidor, viajante. No imaginário dos homens modernos o indivíduo ocupa um lugar de reverência; ele é o fulcro da ideologia liberal, o núcleo das estratégias publicitárias, o centro do narcisismo das modas e do consumo.

Nos países de Terceiro Mundo, a modernidade não formou culturas nacionais, mas uma cultura de elite, que deixou de fora a maioria da população. É comum vermos então grandes porções de determinadas sociedades vivendo processos de modernização – e sendo estimuladas e atropeladas por ela - sem nunca se terem descoberto como modernas. Vive-se a modernização sem nunca se ter experimentado o que a gerou. (Canclini apud Rocha, A. M., 1998, p. 24).

Quando refletimos sobre o mercado, é necessário o entendimento baseado nas palavras de Giddens (1991, p. 21), esclarecendo que a ordem social emergente da modernidade é capitalista tanto em seu sistema econômico como em suas outras instituições. O caráter móvel, inquieto da modernidade é explicado como um resultado do ciclo investimento-lucro- investimernto que, combinado com a tendência geral da taxa de lucro a declinar, ocasiona uma disposição constante para o sistema se expandir.

108 O mesmo teórico (1991, p. 152), afirma que o capitalismo, simplesmente, é uma via irracional para dirigir o mundo moderno, porque ele substitui a satisfação controlada das necessidades humanas pelos caprichos do mercado.

Então, fica claro que esta sociedade racional, não tão racional, que se utiliza da compra monetária no sentido de satisfazer seus instintos de consumo em um ciclo interminável que potencializa o dinheiro-mercadoria como solução para os anseios desta sociedade.

No sentido de iluminar este raciocínio, Rocha, A. M. (1998, p. 18), nos explica que o crédito, considerado por muitos estudiosos como o principal artífice dos valores hedonistas que caracterizarão a modernidade, pois antes era preciso poupar para se obter o desejado. O credito permite a imediata satisfação do desejo, impondo com isso a cultura do consumo que influencia definitivamente todos os segmentos da vida nesse século.

O ritmo frenético da produção capitalista que valoriza o "sempre novo" acentua a rapidez da passagem do tempo e, portanto, a fugacidade de todos fenômenos. O que é moderno hoje, se torna antigo amanhã. [...] O que se perde na modernidade é justamente essa instância segura e imutável que servia de apoio para pensar a efemeridade humana. (Camara, 2012, p. 55).

E, São Paulo, tal qual Paris do século XIX, apresenta ainda hoje, altos índices de furtos e roubos, bairros insalubres, muitos órfãos, além da imensa superpopulação, espalhada em seus 1.523 km².

A cidade global é um organismo em constante evolução e os processos externos e internos da metrópole nunca podem ser completamente compreendidos, teorizados, ou mesmo documentados. (Grech, 2006, p. 155).

Todos os atributos negativos das grandes cidades, espelhados entre si, de maneira próxima ou distante, representam o estigma da chamada globalização, e Sarmento (2008, p. 124), nos apresenta a discussão em torno da condição da pós-Modernidade, onde Harvey (apud Sarmento, 2008, p. 124),

109 oferece uma análise da construção do lugar sob as condições da globalização. Apoiando-se nas ideias de Lefebvre, Harvey (apud Sarmento 2008, p. 124) explora a forma como os lugares enquanto objetos materiais são construídos e vividos, como são representados em discursos e como são usados como representações de si próprios, relacionando essas transformações de identidades culturais a processos de compressão espaço-tempo que encorajam a homogeneidade e a diferença.

Nesse processo, Harvey (apud Sarmento 2008, p. 124) nos direciona para a forma como as noções de lugar são cada vez mais (e não menos) importantes num período de globalização, defendendo que a alegada especificidade dos lugares é crítica na perpetuação de processos espaciais de acumulação de capital.

Após um longo período de incubação: primeiro secreto com o romantismo, discreto com o surrealismo e, depois, escancarado nos anos 50 do século XX, assistimos a chegada da pós-modernidade. (Maffesoli, 2012, p. 113).

Sem embargo, Taschner (2009, p. 27), nos instiga à reflexão quando externa que a pós-modernidade aparece ora como um momento que sucede à modernidade, ora como um momento que se contrapõe a ela, ora como um evento que, como tal, rompe com ela e seu quadro referencial, evidentemente implicando significados distintos. Nos casos em que aparece como momento, a periodização por ele envolvida é cambiante também: o que para uns é pós- Modernidade, para outros é apenas alta modernidade e a pós-Modernidade não passa de uma possibilidade no horizonte.

E, completa destacando o pensamento de Habermas ao rejeitar a expressão pós-modernidade, quando argumenta que a modernidade é um projeto que ainda não se completou. (Habermas apud Taschner, 2009, p. 42).

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