Chapter 2 Synthetic Results and Discussion
2.5 Trifluoroacetylation of electron-rich thiophenes
Segundo Coelen (2008) os três temas pedagógicos encontrados nas obras de Foucault, que estabelecem uma ligação entre a pedagogia e o cuidado de si, nas relações mestre-aluno, são: “disciplina”, “confissão” e “educação do eu”. Dos discursos e das práticas de pais e professores sobre os temas da educação para a sexualidade, a serem abordados em sala de aula, foram extraídos alguns fragmentos discursivos que envolvem esses três aspectos. Os exemplos abaixo não só estarão sob a perspectiva da análise do discurso de Foucault, mas de algumas reflexões ligadas à OTIES (UNESCO, 2010), que serão abordadas mais adiante.
Temas como o “prazer”, a “obrigação de cidadania” e a “busca da felicidade” surgiram no discurso do coordenador disciplinar, ao ser questionado pela pesquisadora sobre as questões relativas à sexualidade, que deveriam ser debatidas em sala de aula. Para ele, esses temas necessitariam buscar “o apoio de outras áreas do conhecimento”.
Uma visão filosófica foi trazida, pela diretora pedagógica, como início de inserção de temas ou questões da sexualidade. Ela disse: “dentro da filosofia, mesmo, quando se está
estudando o ser, com questões tais quais ‘quem sou eu?’ e ‘como eu sou?’, já se pode começar a discutir temas da sexualidade em sala de aula”. Um trecho do seu discurso
revelou que no ensino:
fundamental I, as professoras colocavam muito o assunto, principalmente no 5º ano, quando entrava a questão da reprodução. Mas, depois, elas próprias foram percebendo, com a orientadora educacional, que já cabia, isso, muito antes: lá na antiga 1ª série – que hoje é o primeiro aninho – com os questionamentos das crianças.
A diretora ainda respondeu que, atualmente, outros temas ou questões, tais quais aborto, DST, gravidez na adolescência e abuso, somente eram discutidos nas aulas de ciências. Por isso, a escola acabou “terceirizando” as competências pedagógicas na contratação de palestrantes, pois, muitas vezes, “o professor em sala de aula não consegue,
no contato diário, responder” às indagações dos alunos sobre algum tema que envolva a sexualidade.
A orientadora educacional do ensino fundamental I dividiu os temas sobre a educação para a sexualidade de acordo com os anos. Ela disse que no primeiro ano, a escola aborda a questão do nascimento e, no segundo, a questão da amizade. No “terceiro, quarto e quinto
anos os professores já começam a falar sobre o namoro e as mudanças que acontecem” na passagem para a adolescência. Desse modo, o saber sobre a sexualidade traçou o mesmo modelo de fragmentação encontrado na compartimentação das disciplinas do currículo escolar.
De maneira geral, os temas: afeto, amizade, busca da felicidade, namoro, relacionamento, respeito e respeito ao outro, contemplaram o conceito chave “relacionamentos”, proposto pela UNESCO (2010) para a elaboração do currículo da educação para a sexualidade. A equipe técnica e pedagógica também sugeriu o debate de temas e/ou questões sobre: autoconhecimento fisiológico, corpo humano, cuidado com o corpo, desenvolvimento do corpo, mudanças do corpo, nascimento e respeito ao corpo. Estes temas se encontram de acordo com o conceito chave denominado “desenvolvimento humano”, da OTIES (UNESCO,2010). Os temas de higiene, mudanças, mudanças de interesses e prazer, contemplaram o conceito chave “comportamento sexual”. O tema
obrigação de cidadania se encaixou na proposta da UNESCO (2010) quanto ao conceito chave “cultura, sociedade e direitos humanos”. Por fim, o tema existencial de como eu sou e de quem eu sou, podem integrar os tópicos do conceito chave “valores, atitudes e habilidades”.
Com relação aos professores, vários temas da educação para a sexualidade foram elencados como sendo importantes de serem discutidos em sala de aula. No entanto, destaque foi dado a algumas vozes. Por exemplo, a professora do quarto ano disse que os temas de “higiene”, “saúde” e “cuidados” eram abordados quando ela “trabalhava fungos”. Sem que a participante tivesse esclarecido a relação entre fungos e sexualidade, ela revelou que ao ensinar sobre os fungos, em sala de aula, ela aproveita a oportunidade, junto aos alunos, para abordar esses três temas que, para ela, eram os principais assuntos ligados à sexualidade.
A professora do quinto ano sugeriu que temas como “o estupro, a prostituição, a
prostituição por drogas, o abuso por pais, a homossexualidade e o respeito aos gays”, sejam trabalhados com os alunos em sala de aula. Em sua opinião, “o que falta, hoje, é a gente
pesquisar o que está acontecendo e quais são os níveis de dúvidas que esses meninos têm, para que a gente possa atingi-los, da melhor maneira possível”.
Outro enunciado, a ser ressaltado, foi o do professor de música. Para ele, o principal tema a ser tratado, no ensino fundamental, foi a estrutura familiar, pois acreditava na construção de uma “sociedade saudável” a partir de uma “família saudável”. Ainda afirmou que “se não houver uma estrutura familiar não é possível haver um processo de instrução e
nem de educação”. Isso porque “a partir do momento em que você resgata os valores
familiares, facilita o processo de educação e, até de instrução sexual”. Assim, a família, bastante idealizada, era vista como garantia de estabilidade emocional, o que vem a reforçar a questão do controle social sobre a sexualidade via controle familiar.
Para a professora de filosofia, o divórcio deveria ser um dos temas abordados em sala de aula. Em seu discurso, ela justificou que:
a criança, cujos pais não estejam mais juntos, chega para você em sala de aula falando baixinho. Porque se falar alto... “Ah, seu pai arrumou uma amante? Seu pai está transando com outra pessoa?” Parece que o casamento só acaba por causa de sexo. Na realidade, tem um monte de outras coisas que levam ao casamento a chegar ao seu fim.
Vale esclarecer que o término do casamento, seja em função do sexo ou qualquer outro motivo, não escapa do elemento repressivo em que a sexualidade se une aos dispositivos do saber e poder. Portanto, o divórcio é um dos temas que pode ser pensado por alunos e professores, em sala de aula, contemplando, assim, os tópicos do conceito chave “relacionamentos”, da UNESCO (2010).
O discurso da professora de ciências apontou para as práticas dos professores frente a nova questão da vacinação das meninas contra o HPV:
Até há pouco tempo, as meninas do 6º ano tomaram a vacina contra o HPV. E os alunos não sabiam para que servia, sabe? Aí, os professores começaram a explicar o porquê que as meninas estavam tomando aquela vacina. E, aí, elas começaram a ficar interessadas. Então, elas nunca tinham tido uma aula sobre sexualidade. Nada disso. As professoras de ciências do 6º ano começaram a explicar algumas coisas, a respeito, por causa dessa vacina. Mas, se isso já tivesse sido feito, anteriormente, não teria sido necessária essa intervenção, depois da vacina. Eu acho que é sempre importante a gente já ter explicado, anteriormente, às meninas: “Ah, elas já estão programado as vacinas?”. Então, vamos explicar o porquê disso, o que está acontecendo.
Problematizar os discursos e as práticas desses professores foi o mesmo que por em evidência as contradições entre o jogo do saber ou do desejo e o interesse institucional. E isso pode ser observado no discurso da professora de ciências, sobre o HPV. No entanto, até mesmo no caso em que a educação para a sexualidade ocorra, nas escolas, em função da prevenção de uma doença pela prática da vacinação de meninas, ainda assim, se instaura um pano de fundo que põe à sombra o cuidado de si.
Higiene e cuidados são temas recorrentes nos enunciados dos professores. Porém, de acordo com Reis (2000), os cuidados de si também se reduzem aos cuidados do asseio e da assepsia, onde existe a valorização da higiene e do amor próprio. Então, fica clara a mesma preocupação do Estado e das políticas públicas nos discursos e nas práticas dos professores entrevistados, especialmente quando se percebe que pais, professores e instituição escolar reduzem o cuidado de si, um dos aspectos da educação para a sexualidade, às práticas de higiene e cuidados corporais.
Resumindo, os temas e/ou questões, sobre a educação para a sexualidade, a serem abordados junto aos alunos do ensino fundamental, segundo o ponto de vista dos professores pesquisados foram: abuso por pais, assuntos que dependam da curiosidade da criança, ato sexual, conflito entre casais, cuidar do corpo, cuidados, diferença de gênero, drogas, DST, estudo do corpo, estupro, estrutura familiar, exposição, gravidez, homoafetividade, homossexualidade, higiene, métodos contraceptivos, mudança do corpo, órgãos genitais, postura, preservar o corpo, prostituição, reprodução, respeito aos gays, saber se colocar, saúde e virgindade feminina. Assim, alguns tópicos chave da OTIES (UNESCO, 2010) foram contemplados.
Por exemplo, a professora de alfabetização contemplou: “relacionamento”; “valores, atitudes e habilidades”; “desenvolvimento humano”; e, “comportamento sexual”. Estes dois últimos tópicos chave também foram referenciados pela professora do segundo ano e, o segundo tópico, acima, foi considerado no discurso do professor do terceiro ano.
Higiene e cuidados, presentes nos discursos da professora do quarto ano, do professor de música e da professora de ciências, estariam inseridos no tópico chave “comportamento sexual”, que está fortemente presente nas séries correspondentes ao ensino fundamental II, ou seja, a partir do sexto ano, que também estabelecem ligações com os tópicos “desenvolvimento humano” e “saúde reprodutiva e sexual”.
Por último, com relação aos temas e/ou questões, sobre a educação para a sexualidade, sugeridos pelos pais, a mãe de uma aluna do primeiro ano, que também é professora de inglês, respondeu que o “processo de desenvolvimento físico”, a “menstruação” e a “menarca” são temas que deveriam ser discutidos em sala de aula.
Porém, para os alunos que estivessem no primeiro ano, seria de fundamental importância, que fossem abordadas as “questões das diferenças”. A responsável afirmou que “quando a criança está vivendo em família, ela já começa a perceber que o pai é diferente da
mãe. (...) Ela vai perceber que o pai tem órgãos genitais diferentes dos da mãe”.
É importante destacar que, no discurso da mãe acima, foi colocada em evidência a questão de que essa abordagem “tem que ser” realizada “naturalmente” e de “uma forma
lúdica”. Assim, mais uma vez, volta a discussão da polícia dos enunciados, realizada mais acima, atrelada ao regime controle e repressão, em que o “naturalmente” e a “forma lúdica” se submetem ao saber e ao poder.
O resumo do discurso dos pais, sobre os temas e/ou questões a serem abordados em sala de aula, que dizem respeito à educação para a sexualidade, foram divididos pela representatividade desses pais por anos do ensino fundamental, conforme mostra o Quadro 15.
Encerrando, os discursos dos pais se alinharam com todos os tópicos chave da OTIES (UNESCO, 2010): relacionamentos; valores, atitudes e habilidades; cultura, sociedade e direitos humanos; desenvolvimento humano; comportamento sexual; e saúde sexual e reprodutiva. Porém, com base na teoria de Michel Foucault, tais quais as normas técnicas internacionais da UNESCO, também o discurso dos pais, sobre os temas e/ou questões a serem abordadas em sala de aula ou na escola, sobre a educação para a sexualidade, revelou vários aspectos ligados ao controle da sexualidade.
De acordo com Foucault (2012b), vários são os procedimentos de controle do discurso nas sociedades. No caso dos discursos dos pais, isso pode ser verificado na frequência significativa em que ocorreram as necessidades de acesso a informações sobre os temas controle de natalidade e práticas preventivas. Assim, ocorreram as formas de controle e de delimitação do discurso, que se referem ao jogo existente entre o poder e o desejo. Enfim, a
circulação, a disseminação e o compartilhamento dos enunciados, que formam as práticas discursivas estão presentes na escola (SOMMER, 2007), sobretudo nas identidades, na materialização da educação escolar e também nas práticas não discursivas de pais e professores de filhos/alunos do ensino fundamental.
Quadro 15 – Temas e/ou questões sobre a educação para a sexualidade sugeridos por pais de alunos do ensino