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No Brasil, para que a educação escolarizada cumpra sua finalidade de formar, desenvolver e socializar o educando, observando seus aspectos totalizantes, ou seja, a interação entre as esferas cognitiva, afetiva, volitiva e física, é mister que utilizemos, em nossas teorias e práticas educativas, conceitos que nos permitam desenvolver todos esses aspectos de forma integradora. De acordo com o grupo de pedagogia do Instituto Central de Ciências Pedagógicas do Ministério de Educação de Cuba,

A educação tem que ser concebida como um elemento de caráter liberador, genuina- mente dialético, o que permite ao sujeito que aprende desenvolver sua consciência crítica, favorecer sua criatividade e converter-se em protagonista de seu momento histórico, com um grande sentido de solidariedade humana. [...] tem que alcançar um adequado equilíbrio entre a formação científica e técnica e o pleno

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desenvolvimento espiritual do homem (1998, p.7. Tradução nossa).24

Dessa forma, processo de ensino-aprendizagem é considerado

[...] a forma essencial de manifestar-se o processo educativo, e inclui o momento de maior sistematicidade a partir do cumprimento dos objetivos e conteúdos formulados no currículo. Como seu nome indica, inclui dois processos que estão em permanente relação: o ensino e a aprendizagem (BORONAT, et. al., 1998, tradução nossa)25.

Sabemos que, nesse campo, o processo se realiza quando se percebem mudanças graduais quantitativas, tanto no aspecto dos conhecimentos e habilidades do estudante como na sua maneira de sentir e atuar no mundo em que vive. Tais mudanças se constituem em fases ou etapas que, por sua vez, vão formar a dinâmica do processo, sujeito a leis objetivas que atuam pela conduta subjetiva de professores e alunos. Seu caráter dialético é evidenciado pelas contradições e rompimentos existentes entre os imperativos da sociedade e os desejos e aspirações pessoais dos indivíduos; entre as tarefas teóricas e práticas apresentadas e o nível de conhecimento, atitudes e desenvolvimento que possuem os alunos. Para a resolução dessas contradições, é necessário que o processo de ensino-aprendizagem apresente uma organização sistemática, planificada, criativa, flexível e motivante. No caso particular da disciplina História, “[...] sugere-se tratar objetivos, métodos e meios como componentes ou elos orgânicos da aula” (RODRÍGUEZ, 1998, p. 19. Tradução nossa)26.

Os métodos de ensino são fundamentais para o sistema de ações educativas, o qual, quando funciona adequadamente, permite que os objetivos sejam alcançados quanto à aquisição de conhecimentos, à formação de habilidades e hábitos, ao desenvolvimento das capacidades cognoscitiva e afetiva (que envolve interesses, sentimentos, atitudes, convicções ideológicas, políticas e morais), com a finalidade de contribuir para a formação de homens capazes de compreender e transformar o mundo em que vivem.

O professor e historiador Arthur Versiani Machado, em sua tese defendida no Instituto Central de Ciências Pedagógicas/ Cuba, realiza no capítulo I interessante análise sobre métodos e meios de ensino aplicados à disciplina História. Dessa análise, destacamos alguns pontos considerados comuns com o nosso trabalho. Machado defende que

Os métodos compreendem as estratégias e os procedimentos adotados no ensino por professores e alunos; caracterizam-se por ações conscientes, planejadas e controladas, e pretendem alcançar, ademais dos objetivos gerais e específicos propostos, algum nível, ainda que limitado, de generalização (MACHADO, 2002, p. 11. Tradução nossa)27. 24 “La educación tiene que concebirse como un elemento de carácter liberador, genuinamente dialéctico, lo que permite al sujeto

que aprende desarrollar su conciencia crítica y favorecer su creatividad y convertirlo en protagonista de su momento histórico con un gran sentido de solidaridad humana. [...] tiene que lograr un adecuado equilibrio entre la formación científico-técnica y el pleno desarrollo espiritual del hombre”.

25 “El proceso de enseñanza-aprendizaje es la forma esencial de manifestarse el proceso educativo e incluye el momento de mayor

sistematicidad a partir del cumplimiento de los objetivos y contenidos planteados en el currículo. Como su nombre lo indica incluye los procesos que están en permanente relación: la enzeñanza y el aprendizaje”.

26 “[...] Se hace sugerente tratar los objetivos, métodos y medios como componentes o eslabones orgánicos de la clase”.

27 “Los métodos comprenden las estrategias y los procedimientos adoptados en la enseñanza por profesores y alumnos; se caracterizan

por acciones conscientes, planeadas y controladas y pretenden lograr, además de los objetivos generales y específicos propuestos, algún nivel, aunque limitado, de generalización”.

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O autor chama a atenção para uma questão fundamental: trata-se do caráter dinâmico do método de ensino, “[...] já que está determinado por objetivos que mudam em função do dinamismo da realidade sociocultural em que o processo está inserido”28 (MACHADO, 2002, p. 13. Tradução nossa). Por último, faz menção ao caráter

dinâmico dos conteúdos, que necessitam de permanente revisão, bem como à relação de dependência entre método e meio, levando em conta o contexto educativo e as características gerais da clientela.

Já o autor cubano Vicente González Castro considera que,

[...] os meios são uma parte componente essencial do processo de aquisição de conhecimentos, hábitos, habilidades e convicções dos quais não podemos prescindir. [...] sem componentes materiais e objetivos, o processo de ensino-aprendizagem seria oco e falso, careceria dessa relação direta com a realidade concreta que atua como base e início da percepção sensorial que dá origem ao processo de conhecimento (1990, p. 46. Tradução nossa)29.

Assim sendo, verifica-se a necessidade de a escola estabelecer métodos e meios que propiciem ao professor e ao aluno o fortalecimento das emoções e sentimentos, a reconstrução do passado pela imaginação, por meio de ações criativas e de reconstituição ficcional a partir de materiais – objetos e ideias – que os conectem à própria realidade. É de fundamental importância a interação afetiva e cognitiva entre os alunos e a história que deverão aprender, pois é nesse momento que se dá a integração dos aspectos instrutivos e educativos em nível científico, propiciando o desenvolvimento integral do educando.

No caso particular da metodologia criada para o desenvolvimento da tese, partiu-se do pressuposto de que

A história é ordenada culturalmente de diferentes modos nas diversas sociedades, de acordo com os esquemas de significação das coisas. O contrário também é verdadeiro: esquemas culturais são ordenados historicamente porque, em maior ou menor grau, os significados são reavaliados quando realizados na prática. A síntese desses contrários desdobra-se nas ações criativas dos sujeitos históricos, ou seja, as pessoas envolvidas. Porque, por um lado, as pessoas organizam seus projetos e dão sentido aos objetos partindo das compreensões preexistentes da ordem cultural. Nesses termos, a cultura é historicamente reproduzida na ação (SAHLINS, 1999, p.7).

Dessa forma, estima-se que professores e alunos, ao vivenciarem o processo ensino-aprendizagem de História, possam trabalhar cada vez mais na perspectiva denominada por Guiraldelli Jr. da história em zigue-zague, que se processa entre avanços e recuos vivenciados pelos confrontos entre as classes sociais. A história se processa de forma dialética, é uma história na perspectiva do homem-ação.

28 […] “ya que está determinado por objetivos que mudan en función del dinamismo de la realidad sócio-cultural en que el proceso

está inserto”.

29 (...) “los medios son una parte componente esencial del proceso de adquisición de conocimientos, hábitos, habilidades y convicciones

de los cuales no podemos prescindir (...) sin componentes materiales y objetivos, el proceso de enseñanza-aprendizaje seria hueco y falso, careceria de esa relación directa con la realidad concreta que actúa como base e inicio de la percepción sensorial que da origen al proceso del conocimiento”.

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Por conseguinte, aspectos considerados essenciais ao desenvolvimento efetivo desse processo recebem especial atenção. O primeiro trata da necessidade de estabelecer uma relação entre passado e presente, ou entre dois momentos no tempo, já que o ensino de história implica a transmissão de conhecimentos do passado. Mas as ferramentas conceituais utilizadas precisam fazer sentido no presente, ou seja, deve-se levar o aluno a apropriar- se dos elementos básicos do processo histórico, por meio das relações de causa e efeito, do significado dos acontecimentos, e da utilização de fontes primárias, como documentos e objetos testemunhos. Nesse sentido, a professora Ana Gracinda Queluz observa que

Há duração e extensão no presente, porém seus limites são fluidos, flexíveis, sendo tanto o agora como o hoje ou a época, fazendo com que todas essas formas pareçam incrustarem-se umas nas outras, mas ficando subordinadas à noção de tempo vivido (QUELUZ, 1997, p. 95).

A respeito do passado, a autora destaca que este vem sempre associado à memória e que tem a função de “abrir-nos o futuro!”, pois,

[...] este não se desdobra diante de nós sob a forma de etapas sucessivas, pelo contrário, ele se dobra sobre si mesmo, condensando-se ao máximo, sem por isso perder a sua força. Diante de nós temos então um passado concentrado, recolhido, do qual brota de novo nosso impulso para o futuro (QUELUZ, 1997, p. 95).

O segundo aspecto a ser considerado vai ao encontro da teoria da síntese dos contrários de Sahlins (1999), e se refere às influências ideológicas e políticas determinantes dos conteúdos históricos que estão sujeitos às “versões oficiais” dos grupos sociais controladores do poder político. Nesse caso, é importante apresentar ao aluno visões alternativas.

Um terceiro aspecto diz respeito às diversas posições historiográficas e, consequentemente, às diferentes versões dos fatos históricos, de acordo com as teorias do historiador. É necessário que os alunos tenham conhecimento, senão de todas, da grande maioria dessas correntes.

O quarto aspecto vai se referir à importância da narrativa oral como via para o estudo da história, forma que poderá ser explorada de diferentes maneiras, principalmente, na construção de conceitos relativos à tradição e à memória. Nesse sentido, Kenski (1997) explica que,

No plano social mais amplo – um determinado grupo, um país, uma região – também se recorre às memórias dos que vivenciaram acontecimentos significativos para aquela sociedade. O relato das vivências destes personagens é recurso importante para a elaboração da narrativa histórica e para a determinação de valores culturais a serem transmitidos às novas gerações (p. 138).

O quinto e último aspecto, por se constituir no vértice da espiral do processo ensino-aprendizagem, trata da questão dos valores, fundamentais para que os alunos possam participar da história como atividade cognoscitiva e afetiva.

Esse é o ensino de história a que aspiram, acreditamos, professores e especialistas de museus. Para ser efetivo, deverá se constituir na síntese dos cinco aspectos acima referidos. Para ser alcançado, torna-se necessário

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que o professor utilize métodos e meios que propiciem a construção ativa do conhecimento, e que levem os alunos a pensar, a refletir e a formular conceitos, bem como a desenvolver valores nos campos ético-moral e estético.

Esse é também o tipo de ensino que, na experiência da tese que defendemos, se objetivou alcançar. A estratégia elaborada teve como objetivo geral detectar possibilidades efetivas de utilização do potencial pedagógico existente nas coleções do Museu da Inconfidência, com vistas a satisfazer as condições teóricas expostas e a contribuir para o desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem de história, partindo do pressuposto de que,

Além de evocar e celebrar o passado, um museu deve organizar-se de maneira a mostrar a sociedade como organismo vivo, sujeito a mudanças. Assim, o museu histórico contribui para o enriquecimento da consciência histórica, isto é, a percepção da vida social como produto da ação humana que a gera e transforma (MENESES, 1992, p. 7).

O acervo do Museu da Inconfidência como sistema de meios