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Os ecomuseus

Em outubro de 1984, em meio à década em que os princípios da chamada Nova Museologia começam a ser sistematizados, o I Ateliê Internacional Ecomuseu/Nova Museologia adota, na Declaração de Quebec, uma série de princípios que inverte a lógica de constituição das coleções museológicas: o público passa a ter participação ativa, colaboradora e essencial.

As questões afetivas, volitivas e cognitivas da comunidade, relacionadas com a memória presente, tornam- se a base sobre a qual se constrói a relação com o passado e o legado patrimonial. Com preocupações de ordem científica, cultural, social e econômica – visando ao desenvolvimento das populações – esse movimento se propõe adaptar a cada meio e projetos específicos todos os processos de que se utiliza a museologia: coleta, conservação, pesquisa, restituição e difusão, criação.

Ao encontro das funções políticas e sociais do museu, essa tendência, entretanto, não se iniciava ali. Experiência antecipatória e pioneira fora realizada nos Estados Unidos, no final dos anos 1960, coordenada pelo museólogo afro- americano John Kinard, sob os auspícios do Smithsonian

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ABRACALDABRA Uma aventura afeto-cognitiva na relação museu-educação

Institute. O Museu de Vizinhança de Anacostia, situado em Washington D.C., aberto ao público em 1967, tinha como objetivos tratar dos problemas relacionados ao meio ambiente urbano, fazer o levantamento da história das comunidades, dos temas africanos e da situação social dos negros.

Por outro lado, o conceito de ecomuseu (e seus derivados) é apropriado pelos movimentos museológicos internacionais, capitaneados pelo Conselho Internacional de Museus – ICOM/UNESCO, no início da década de 1970. Em 1971, a IX Conferência Geral do ICOM, em Grenoble, França, discute as funções do museu a serviço do homem. No ano seguinte, realiza-se em Santiago, Chile, mesa-redonda para a reflexão do papel dos museus na América Latina. Há, nesse sentido, uma tomada de consciência por parte dos profissionais, de que, de fato, não conheciam verdadeiramente as cidades onde habitavam e trabalhavam. Dessa reflexão surge o conceito de museu integral, que levava “em consideração a totalidade dos problemas da sociedade”; e o de museu-ação, isto é, o museu como “instrumento dinâmico de mudança social” (Araújo e Bruno, 1995, p.18).

A referência mais significativa para o conceito de ecomuseu, criado por Hugues de Varine, é, no entanto, uma experiência comunitária francesa, na região industrial das cidades de Creusot (siderurgia) e Montceau les Mines (carvão), entre os anos 1971-1982. Nascido, segundo Varine (1987), sob a égide das noções de ecologia humana, comunidade social, e entidade administrativa e, mais, a partir da definição do território e da vontade de contribuir para seu desenvolvimento, o Ecomuseu da Comunidade Urbana Le Creusot-Montceau les Mines representou, para as populações envolvidas, um fator de construção comunitária, apresentando uma nova concepção de relação entre patrimônio e sociedade: os testemunhos do passado, traços de identidade de um território, eram de responsabilidade coletiva, servindo de instrumento de educação popular e visando à invenção criadora do futuro.

Paulatinamente, começam a surgir experiências como as do México, com a Casa del Museo, os museus comunitários e os escolares, implementados pelo Instituto Nacional de Antropologia e História – INAH. No Canadá, as experiências em Quebec foram pioneiras, entre os anos 1979-1982, com destaque para a de Haute-Beauce.

Nos anos 1980, as experiências mundiais vão proliferar, principalmente, na França, em Portugal, no Canadá, na Noruega e na África. Na América Latina, capitaneados pela OEA e UNESCO, surgem, na Nicarágua, no Equador, na Costa Rica, na Colômbia e no Brasil, os Museus Didático-Comunitários.

Em 1992, realiza-se, em Caracas, Venezuela, o seminário “A Missão do Museu na América Latina Hoje: novos desafios”. Novamente se discute o papel do museu como agente de desenvolvimento na região, integrado às suas comunidades, realizando, de acordo com Maria de Lourdes Parreiras Horta, “ações e processos que contemplam e consideram as particularidades de cada contexto local e específico, no qual atuam e se situam” (Araújo e Bruno, 1995, p.35).

Segundo Varine (1995, p.19), “a doutrina de Santiago, renovada pela Declaração de Caracas, amplia-se até incorporar a utilização do patrimônio natural e cultural, mesmo fora do âmbito dos museus. A ideia do território enquanto museu faz seu caminho, quer seja em Seixal (Portugal), Santa Cruz (Rio de Janeiro) ou Molinos (Aragão, Espanha)”.

A primeira década do novo milênio testemunha importantes experiências ecomuseológicas e/ou comunitárias, sob paradigmas historiográficos, sociológicos e antropológicos direcionados ao multiculturalismo ou pluriculturalismo, e ao conceito de deslocamento das identidades culturais, levantados por estudiosos do fenômeno da globalização.

No Brasil, destacamos os trabalhos do Ecomuseu do Cerrado, Goiás, abrangendo os municípios de Pirenópolis, Corumbá, Cocalzinho, Abadiânia, Alexânia, Santo Antônio do Descoberto e Águas Lindas; os trabalhos

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YÁRA MATTOS

em curso do Ecomuseu do Quarteirão, em Santa Cruz, Rio de Janeiro; do Ecomuseu da Amazônia, em Belém do Pará; do Ecomuseu de Maranguape, Ceará; e outros em realização no Rio Grande do Sul como, por exemplo, o Museu de Percurso, Museu de Rua Picada Café. Em Minas Gerais, em parceria com o Projeto de Implantação do Parque Arqueológico das Ruínas do Morro da Queimada, desenvolvem-se as ações do Ecomuseu da Serra de Ouro Preto.

Das características comuns a todos os modelos de ecomuseus/museus comunitários vigentes, ressalte-se: 1. a participação ativa, criadora e colaboradora da população envolvida;

2. as ações e processos inspirados nas especificidades locais; 3. a importância da ideia de território (espaço vivido) como museu; 4. a apropriação coletiva do patrimônio/coleção.