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Passemos agora a algumas considerações sobre sistemas de meios de ensino de história e o papel dos museus nesse sistema. Em primeiro lugar, deparamo-nos com duas vertentes fundamentais afetas à questão conceitual ligada a sistemas de meios de ensino: aquela direcionada ao campo didático-pedagógico propriamente dito, “uma vez que se ocupa, fundamentalmente, com os processos ensino-aprendizagem relacionados com a disciplina história” (MACHADO, 2002, p. 11. Tradução nossa)30, e aquela direcionada ao processo ensino-

aprendizagem em museus, já que “a aprendizagem em museus e instituições semelhantes é vista, de maneira quase consensual, como um processo marcado por enorme liberdade” (COLINVAUX, 2002, p. 2).

Trata-se então da realização de uma proposta de interação dialética entre dois sistemas conceituais, quais sejam, os sistemas utilizados pela educação formal e aqueles utilizados pela educação não formal.

De acordo com alguns autores, como Saviani (1981), o ensino como “ato de sistematizar, uma vez que pressupõe a consciência refletida, é um ato intencional. [...] Sistematizar é dar intencionalidade, unidade à multiplicidade. E o resultado obtido, eis o que se chama de sistema” (p. 72-73). O que, para ele, é “a unidade de vários elementos intencionalmente reunidos, de modo a formar um conjunto coerente e operante” (p.75).

Para Ilza Jardim, o sistema de ensino é “um conjunto de instituições escolares (escolas, bibliotecas, museus...) oferecendo oportunidades educacionais, com articulação progressiva entre si e caracterizando-se por uma organização estrutural e funcional” (JARDIM, 1998, p.25 apud STREHL e RÉQUIA, 1998).

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ABRACALDABRA Uma aventura afeto-cognitiva na relação museu-educação

Ao complementar esse conceito, STREHL e RÉQUIA (1998) enfatizam que “essas instituições devem estar relacionadas entre si na consecução de objetivos comuns, a fim de atender às necessidades de uma determinada população situada em um espaço geográfico que compreende o território da nação” (STREHL e RÉQUIA, 1998, p.25-26).

A ciência museológica, por seu turno, torna-se bastante complexa, à medida que interage com as ciências cuja fonte de estudo e pesquisa é o homem como ser social, inserido num espaço-tempo, produtor de bens e manifestações – artísticas, religiosas, políticas, econômicas – que vão caracterizar a cultura de uma determinada sociedade.

O museu, nessa perspectiva, possui dupla função: como instituição guardiã e, ao mesmo tempo, difusora dos bens produzidos, consumidos, coletados e preservados pelo homem, para o homem, o museu passa a ser, ele próprio, um produto cultural usufruído pela sociedade. Mais: possui uma missão educativa fundamental, permitindo aberturas a diferentes caminhos. Esses caminhos – segundo documento elaborado pelo Comitê Brasileiro de Educação e Ação Cultural em Museus, filiado ao Conselho Internacional de Museus/CECA/ICOM/UNESCO – deverão ser pautados por determinadas premissas que, além de estarem em consonância com os componentes do processo formal ensino-aprendizagem, irão funcionar como elementos definidores quando da criação de vínculos entre os respectivos sistemas. Dentre essas premissas, destacamos:

A ação transformadora dos museus exige que seus profissionais tenham consciência da posição política que ocupam nesse processo; cada ação educacional em museus deve ser minuciosamente elaborada, aplicada e avaliada e ser expressão de princípios claramente estabelecidos da missão e da política institucionais; a política de educação museal deve ser de interesse público e baseada na missão do museu, no seu acervo, na pesquisa e em princípios educacionais; a ação educativa em museus deve possibilitar ao educador e ao público se colocarem como sujeitos e autores desse processo (STUDART, CABRAL, VALENTE, 2002, p. 6-7).

Considerando que o homem é um doador de significados ao mundo à sua volta, o museu passa a ser um espaço privilegiado de atribuição e revisão transformadora de significações da realidade. De acordo com o historiador Ulpiano Bezerra de Meneses,

[...] a evocação e celebração da memória devem estar obrigatoriamente presentes no museu histórico. Não, porém, como objetivo e, sim, como objeto de conhecimento. Em última análise, uma das principais funções e o melhor potencial de um museu histórico refere-se ao entendimento da construção, usos e reciclagem da memória nacional (MENESES, 1992, p.6).

Portanto, a importância do trabalho educativo de um museu está exatamente na forma de decodificação dessa realidade, para que as mensagens de conteúdo histórico sejam entendidas em um processo de inter- relação e interdependência entre os objetos e documentos originais (coleções/acervos) e os outros meios visuais, gráficos e simbólicos.

Vejamos um exemplo: o relógio que pertenceu a Tiradentes, em exposição na então Sala das Relíquias do Museu da Inconfidência, hoje já não faz mais a leitura das horas, como se supõe fê-lo nos idos de 1700. Ele agora é um objeto carregado de conteúdos simbólicos e de significados históricos, poéticos, mágicos, socioculturais.

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YÁRA MATTOS

Isso porque pertenceu ao próprio Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, único conjurado a morrer na forca, por ordem da Coroa Portuguesa, hoje transformado num dos principais mitos da História do Brasil.

A assim denominada Sala das Relíquias expunha objetos e documentos relacionados ao Movimento da Inconfidência Mineira, acontecido em 1789. Essa sala antecedia ao Panteão dos Inconfidentes, onde repousam os restos mortais dos outros conjurados, mortos em degredo na África, e que se constituiu no próprio núcleo inicial do museu. Dessa forma, fez-se um recorte, em duas salas, da exposição “permanente”, para apresentar determinados objetos, documentos e protagonistas, extraídos de um contexto sociopolítico e cultural do passado com considerável carga simbólica, a serviço de toda uma gama de relações a serem trabalhadas no sistema de meios de ensino, para ampliar os conhecimentos históricos do estudante de nível médio em Ouro Preto.

Em síntese, os museus como sistema de meios de ensino servem àquele momento em que, segundo Saviani, “[...] educar passa a ser objeto explícito da atenção, desenvolvendo-se uma ação educativa intencional” (1981, p.77). Para esse autor, esse é o fator diferenciador: “quando educar se apresenta ao homem como algo que ele precisa fazer e ele não sabe como fazê-lo. É isto o que faz com que a educação ocupe o primeiro plano na sua consciência” (1981, p.78).

Os estudos realizados no sentido de abordar o Museu da Inconfidência como um sistema de meios de ensino, vinculando as coleções sob sua guarda e os componentes do processo ensino-aprendizagem de história, tiveram, assim, a finalidade de servir como instrumento de interação dialógica e dialética entre duas instituições oficiais do sistema socioeducacional brasileiro, a serviço da comunidade estudantil ouro-pretana.