5.4 Comparisons of LET d and RBE
5.4.2 Comparison of the RBE Distributions
“Você tem boa memória?”
“Estou com problemas de memória.”
“Quase não tenho memória da minha infância.”
“Prefiro matérias de raciocínio a essas que a gente tem que memorizar.”
A que ideias ou conceitos a palavra memória se refere em todas essas frases, expressões comuns no cotidiano de todos nós? Em termos temporais, a ideia é a de que falamos do passado. “Boa memória” significa a capacidade de lembrar com facilidade eventos, fatos, informações, conhecimentos, etc. Evocações. “Problemas de memória”, por outro lado, relacionam-se às dificuldades que possamos ter para acessar essas mesmas informações. O mesmo vale para “ter (ou não) memória” de algum período da vida ou acontecimento específico: passou, lembro-me (ou não).
Da mesma forma, quando alguém diz que não gosta das “matérias em que precisa memorizar”, aquelas conhecidas como “decoreba”, está traçando uma igualdade conceitual entre memória e registro. A igualdade se aplica também a quando alguém diz “saber” tal e qual coisa “de memória”.
Nesses usos, o traço comum é a compreensão da memória como “coisa do passado”, “registrada e guardada” em algum arquivo (material ou cerebral). Nada a estranhar, uma vez que nem mesmo os dicionários (até onde sabemos) apontam qualquer acepção da palavra que não inclua na definição as ideias de reminiscência, lembrança, registro, armazenamento.
A contraposição entre raciocínio e memória, embora não encontre respaldo, nem nos dicionários, nem em textos especializados, ilustra outra tendência conceitual de senso comum: memórias são “dados” de registro e, como tal, são informações compiladas, gravadas, guardadas, que, ao serem reproduzidas, são consideradas “corretas” enquanto iguais a si mesmas. Nesse caso, há “decoreba”, e não “raciocínio”, porque os dados não permitem manipulações criativas, ou o encontro de novas soluções, ou transformações e reformulações de qualquer tipo. Assim, por exemplo, história costuma ser considerada uma disciplina “de decoreba”, enquanto a matemática goza fama de ser “de raciocínio”.
A memória, nesses casos, acaba por sofrer algumas associações não muito abonadoras: passado leva a antigo, que leva a ultrapassado, que leva a superado. Registro, reminiscência, leva a saudosismo, que leva à superestima do passado, que leva a anacronismo, que leva a conservadorismo. “Memorizar” é o efeito da repetição, que leva ao pensamento mecânico, que leva à falta de raciocínio, que leva à ausência de criatividade e de sentido crítico.
Mas, afinal, a memória é isso mesmo?
Do ponto de vista biológico, a memória está longe de poder ser comparada a um registro acabado e fechado daquilo que passou. Ao contrário, como descreve Rita Carter (2009),
Quando nos lembramos de um evento, os neurônios envolvidos na geração da experiência original são reativados. Contudo, lembranças não são reproduções fiéis do passado, mas reconstruções dele. O objetivo
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ABRACALDABRA – Uma aventura afeto-cognitiva na relação museu-educaçãoprimário da memória é prover informação para guiar nossas ações no presente e, para fazê-lo com eficiência, nós geralmente retemos apenas aquelas experiências que de algum modo nos são úteis. Nossa lembrança do passado é, portanto, seletiva e não confiável40 (p.152, tradução nossa).
A noção de que a funcionalidade da memória está ligada às nossas ações no presente é de radical importância no contexto de nosso argumento. Essa é uma ideia apoiada por estudos científicos da memória e da aprendizagem, marcando profundamente a relação entre ambas: não lembramos por lembrar, ou para “fixar padrões culturais para apenas ‘preservá-los’” (GADOTTI, 1991). Nosso cérebro retém, e nos torna disponível esse material de lembranças, para que possamos, com os dados aprendidos a partir da experiência, lidar com as situações aqui e agora.
Mais do que isso: é com o material de que são feitas as memórias que fazemos as operações e generalizações que liberam a cognição dos limites do aqui e agora para o planejamento e visão de possíveis – a memória futura. Como ensina o neuropsicólogo Elkhonon Goldberg (2002, p.47), “para evocar uma representação interna do futuro, o cérebro precisa ter a capacidade de tomar certos elementos de experiências anteriores e configurá-los novamente de um modo que, em sua totalidade, não corresponda a nenhuma experiência passada real”.
Mas os “certos elementos de experiências anteriores” são nada mais que memórias, no plural, como deve ser, porque na verdade não dispomos de uma memória, mas de várias, codificadas em diferentes áreas do cérebro, e disponíveis para as diferentes relações e configurações com as quais podemos traçar, de um lado, as ações que vão responder a nossas necessidades presentes e, de outro, aquelas que vão servir aos planejamentos futuros.
Aprender envolve a memória e em muitos sentidos se confunde com ela. “Aprender é um processo”, escreve Rita Carter, “no qual neurônios que disparam juntos para produzir uma experiência particular são alterados de modo a tender a disparar em conjunto novamente”41. E como se forma a memória de um evento?
A percepção inicial de uma experiência é gerada por um grupo de neurônios disparando juntos. Disparos sincrônicos tornam os neurônios envolvidos mais inclinados a disparar novamente juntos no futuro, uma tendência conhecida como “potenciação”, a qual recria a experiência original. Se os mesmos neurônios disparam juntos com frequência, eles eventualmente se tornam permanentemente sensíveis uns aos outros, de tal modo que, quando um dispara, os outros também disparam. Isso é conhecido como “potenciação de longa duração” (Carter, 2009, p. 156, tradução nossa.)42.
40 "When we remember an event, the neurons involved in generating the original experience are reactivated. However, recollections
are not replays of the past, but reconstructions of it. The primary purpose of memory is to provide information to guide our actions in the present, and to do this efficiently we generally retain only those experiences that are in some way useful. Our recall of the past is therefore selective and unreliable.”
41 "Learning is a process in which neurons that fire together to produce a particular experience are altered so that they have a
tendency to fire together again” (p.156, tradução nossa).
42 “The initial perception of an experience is generated by a subset of neurons firing together. Synchronous firing makes the neurons
involved more inclined to fire together again in the future, a tendency known as “potentiation”, which recreates the original experience. If the same neurons fire together often, they eventually become permanently sensitized to each other, so that if one fires, the others do as well. This is known as “long-term potentiation”.
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YÁRA MATTOS
Assim, podemos perceber a relação estreita entre memória e aprendizagem, como também especificam Gazzaniga, Ivry, e Mangun (2006):
O aprendizado é o processo de aquisição da informação, enquanto a memória refere-se à persistência do aprendizado em um estado que pode ser evidenciado posteriormente (Squire, 1987). O aprendizado, então, tem um resultado a que chamamos de memória. Colocando isso de outra maneira, o aprendizado acontece quando uma memória é criada ou reforçada pela repetição (p.320, grifos dos autores).
Fica evidenciado, nessa relação, o papel da memória no desempenho cognitivo: ela é a evidência da persistência de um aprendizado, o resultado de um processo de aquisição e conservação de informações que podem ser recuperadas para servir ao indivíduo em seus processos de estar e agir no mundo.
A funcionalidade dessas informações codificadas no cérebro serve aos procedimentos, hábitos e habilidades físicas, e também às operações mentais que nos levam das reações às ações. Nossas memórias provêm da experiência, mas a realidade evocada por elas não é estática e sempre igual a si mesma, nem o são os processos de relação entre a realidade da experiência e a respectiva memória, e posteriormente entre essa memória e a sua evocação.
Usamos a memória de um modo tal que somos capazes de correlacionar, transformar, generalizar, distorcer, reconfigurar, recombinar as informações disponíveis. Essa capacidade nos liberta de um repertório reativo fixo, permitindo-nos lidar com a novidade, com a ambiguidade, com a representação mental de alternativas, com o planejamento, com a intencionalidade. Nas palavras de Goldberg (2002),
A transição do comportamento principalmente reativo para o principalmente pró-ativo é provavelmente o tema central da evolução do sistema nervoso. Somos capazes de formar objetivos, nossas visões de futuro. Então agimos de acordo com nossos objetivos. Mas para orientar nosso comportamento de um modo sustentável, essas imagens mentais do futuro devem tornar-se o conteúdo de nossa memória; assim as lembranças do futuro são formadas (p. 156).
É dessa memória proativa, cujas evocações do passado servem ao presente e à construção do futuro, que tratamos quando nos referimos aos campos de identificação – interseção de memórias individuais e coletivas – que marcam a relação do ser humano com o seu mundo, qualificando a sua presença e a sua prática em um espaço que é, não apenas físico, mas histórico, cultural e social.
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