Ao considerar que o processo de construção de identidades profissionais não parte do nada, e sim de referenciais obtidos ao longo do percurso de formação dos professores, solicitamos as nossas partícipes, conforme já nos referimos anteriormente, a elaboração de uma síntese, retratando seus percursos profissionais. Com base nessas premissas, procuramos compreender as inter-relações entre suas trajetórias escolar e profissional.
Partícipe Tulipa – A professora Tulipa cursou o ensino infantil em escola municipal, uma parte do
ensino fundamental, 1ª a 4ª série em escola estadual e 5ª a 8ª na CNEC (Companhia Nacional de Escolas da Comunidade). Cursou o pedagógico na rede pública estadual na Escola Normal Oficial de Picos e prosseguiu com os estudos adicionais na cidade de Ipiranga. Cursou o 3º grau recentemente em Letras/Português na Universidade Estadual do Piauí- Campus de Picos (período especial) em Picos-PI. Começou a lecionar na CNEC em 1988 em turmas de 5ª, 6ª e 7ª séries nas
disciplinas de educação artística e estudos sociais e também educação física com turmas femininas. No mesmo ano iniciou suas atividades como professora da educação infantil onde descobriu o interesse em trabalhar nesta etapa de ensino. De acordo com a professora tulipa, “com o passar do tempo fui adquirindo experiências significativas que veio fortalecer o meu perfil profissional”. Participou da capacitação para a educação infantil estudando o Referencial Curricular Nacional para a educação infantil, os PCNs, e o PROFA. Para a referida professora ser professor hoje “é um desafio que requer responsabilidade, é ser um transformador consciente, capaz de educar a todos sem discriminação, respeitando as diferenças de cada um, comprometendo com o fortalecimento de uma sociedade democrática, justa e solidária”.
Partícipe Girassol – Iniciou sua vida estudantil na rede pública municipal e o ensino
fundamental em São Paulo-SP concluindo-o em Ipiranga-PI na CNEC (Companhia Nacional de Escolas da Comunidade). Prosseguiu seus estudos na cidade de Picos cursando o magistério e estudos adicionais em valença-PI. Cursa Licenciatura em geografia na Universidade Estadual do Piauí- UESPI (período especial) em Picos-PI. Fez capacitação do Referencial Curricular Nacional para a educação infantil e participa freqüentemente de palestras, mini-cursos e seminários, pois de acordo com a referida professora “essas experiências são importantes para aprimorar os conhecimentos e para propiciar o crescimento pessoal e profissional”. Iniciou sua carreira no magistério aos dezessete anos e sempre trabalhou na educação infantil, além de outras experiências profissionais no ensino fundamental e no ensino médio. Para a professora girassol, ser professor hoje é “ser munido de responsabilidade e consciência, é transformar alunos em cidadãos, viabilizando a sua participação política e democrática na sociedade”.
Partícipe Violeta – Iniciou sua vida estudantil em escola pública municipal, prosseguindo na
rede estadual de ensino cursando as primeiras séries do ensino fundamental. Ingressou posteriormente na CNEC (Companhia Nacional de Escolas da Comunidade) para cursar as últimas séries do ensino fundamental, transferindo-se para a cidade de Picos onde concluiu o pedagógico na Escola Normal Oficial de Picos-PI. Cursou os estudos adicionais em Ipiranga-PI e atualmente cursa o 3º grau em Letras/português na Universidade Estadual do Piauí-UESPI (período especial) em Picos-PI. Iniciou a vida profissional em 1990, lecionando no ensino infantil do município e de acordo com a professora Violeta “com essas experiências adquiridas pude ampliar a minha prática educativa já que a construção do conhecimento se processa de maneira integral e global”. Também é professora de 5ª e 7ª série em escola municipal. Para a referida professora ser professor hoje “é um desafio por profundas transformações”.
Partícipe Cravo – Iniciou sua vida escolar na rede municipal de ensino, prosseguindo na CNEC
(Companhia Nacional de Escolas da Comunidade). Cursou o magistério e Licenciatura em Pedagogia e atualmente é professora da pré-escola municipal em Ipiranga-PI, também é professora das últimas séries do ensino fundamental. As experiências mais significativas para a professora Cravo “foi lecionar em turmas multisseriadas pois embora tenha sido uma experiência difícil aprendi muito”. A professora entende que enquanto profissional do ensino deve agir com seriedade, levando em conta as particularidades de cada aluno para que a aprendizagem seja proveitosa. Em sua opinião ser professor hoje “é preparar o aluno para a vida, onde ele seja capaz de enfrentar os obstáculos do dia-a-dia de cabeça erguida sem nunca desistir”.
Partícipe Hortência – Iniciou sua vida escolar na rede pública, freqüentando esse tipo de
instituição até a 5ª série do ensino fundamental. Em seguida ingressou na escola particular, concluindo o ensino fundamental e cursando o ensino médio. No momento está cursando o 3º grau em Ciências Biológicas e iniciou sua carreira no magistério ministrando aulas no ensino fundamental. A referida professora considera que as experiências mais significativas na construção do seu perfil profissional foi a participação nos cursos de formação continuada PCNs e PROFA e entende que o seu papel enquanto profissional da educação é de mediador do conhecimento, que “juntos, professor e aluno podem construir uma aprendizagem onde não só o professor ensina, mas também aprende e todos chegam a um só objetivo, que é estar preparados
para exercer o papel de cidadão”. De acordo com a professora Hortência, ser professor hoje “é ensinar e aprender, pois a vida é um contínuo aprendizado”.
Partícipe Papoula – Iniciou seus estudos em escola pública na cidade de São Paulo e concluiu
em sua cidade natal, Ipiranga-PI. Cursou o ensino fundamental na CNEC (Companhia Nacional de Escolas da Comunidade) prosseguindo com o curso pedagógico. Fez um curso à distância de Tecnologia na Educação e atualmente cursa Licenciatura em Educação Física na Universidade Estadual do Piauí-UESPI (período especial) em Picos-PI. Após concluir o pedagógico iniciou sua vida profissional como professora do ensino infantil na zona rural do município de Ipiranga- PI. De acordo com a professora Cravo “no início foi muito difícil pois me sentia muito insegura e sem apoio da coordenação e dos pais dos alunos”. Participou de vários cursos, PCNs e PROFA e entende que o seu papel como educadora “é de não apenas passar os conteúdos mas tornar os meus alunos cidadãos críticos e responsáveis”. Segundo a professora ser professor hoje “é muito difícil, em primeiro lugar é que os alunos não ligam mais para os estudos, dá para se ver o desinteresse, desde à educação infantil eles não querem e os pais sequer obrigam as crianças a ir para a escola”.
Partícipe Jasmim – Iniciou sua vida estudantil na zona rural do município de Ipiranga-PI e
prosseguiu o ensino fundamental na CNEC (Companhia Nacional de Escolas da Comunidade). Cursou o segundo grau na cidade de Inhuma-PI, contabilidade e magistério, concluindo este último em 1988. Em seguida começou a trabalhar numa creche da zona urbana de Ipiranga, fez algumas capacitações na área da educação infantil e também os PCNs e PROFA. Concluiu recentemente o 3º grau em Letras/português na Universidade Estadual do Piauí- UESPI (período especial) em Picos-PI. A referida professora entende que “o profissional da educação tem como desafio promover o crescimento global do indivíduo procurando desenvolver o potencial de cada um através de métodos e técnicas adequadas para cada faixa etária” e que ser professor hoje “é ter compromisso e consciência do papel de educar diante das inúmeras dificuldades que atravesso, especialmente em virtude das desigualdades sociais”.
Partícipe Margarida – Iniciou seus estudos em escola pública e prosseguiu o ensino
fundamental na CNEC (Companhia Nacional de Escolas da Comunidade). Participou de alguns cursos de formação continuada e cursa o 3º grau em Normal Superior. Já foi professora de jovens e adultos e hoje trabalha no ensino infantil e ensino fundamental. Para a professora as experiências mais significativas foram o próprio trabalho com crianças em idade pré-escolar, pois “como educadora procuro desenvolver um trabalho voltado para o aluno para que no futuro sejam cidadãos críticos, capaz de irem em busca de seus direitos”. No entendimento da professora Margarida ser professor hoje “requer em primeiro lugar gostar muito do que faz ter coragem e consciência das dificuldades e tentar resolvê-las da melhor forma possível”.
Partícipe Rosa – Sempre estudou em escola pública e após concluir o curso pedagógico se
submeteu a concurso público para lecionar na educação infantil. Durante o curso teve oportunidade de participar de uma capacitação oferecida pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras- FECLRB-USP em São Paulo-SP intitulado “Conhecendo a infância” que na opinião da professora Rosa facilitou grandemente o seu trabalho com as crianças. Também participou dos PCNs e atualmente cursa Licenciatura em Pedagogia na Universidade Estadual do Piauí-UESPI (período especial) em Picos-PI. Para a professora Rosa nesses seis anos de carreira descobriu que trabalhar com crianças é muito gratificante, mas também muito difícil e desgastante e que “todas as experiências de sala de aula são significativas para aprimorar e melhorar cada vez mais o nosso trabalho”. A referida professora entende que é necessário impor limites para conseguir bons resultados e que ser professor hoje é “é um desafio muito grande devido o perfil do aluno que temos e é também ser um mediador para que a criança possa aprender a pensar, criar e desenvolver-se em todos os aspectos”.
Partícipe Orquídea – Iniciou suas atividades estudantis em escola pública prosseguindo na
CNEC (Companhia Nacional de Escolas da Comunidade) onde concluiu o ensino fundamental. Continuou com o Logos II na rede pública estadual e quarto ano adicional em escola particular. Participou do programa de educação continuada PCNs e no transcurso de sua vida profissional ministrou aulas para alfabetização estando no momento trabalhando com o ensino infantil na rede municipal de educação do município de Ipiranga-PI. A professora orquídea entende que diante de tantas exigências que o mundo globalizado nos impõe a educação “é indispensável na formação de todo e qualquer ser humano, sendo ela cabível nas mais diversificadas culturas do mundo. A educação é a base da construção social”. Ainda de acordo com a referida professora, ser professor hoje “é peça fundamental na construção e transformação da sociedade, é ser um guerreiro incansável na busca pela melhoria da educação”.
Partícipe Lírio – Iniciou seus estudos em escola pública prosseguindo com o ensino
fundamental na CNEC (Companhia Nacional de Escolas da Comunidade) onde cursou as primeiras séries. Concluiu o ensino fundamental na modalidade supletivo na capital do estado. Cursou magistério na vizinha cidade de Inhuma transferindo-se posteriormente para a Escola Normal de Picos e retornando depois a Inhuma onde concluiu o curso magistério em 1992, iniciando suas atividades como professora no ensino infantil. Atualmente cursa o 3º grau em geografia na Universidade Estadual do Piauí-UESPI (período especial) em Picos-PI. Após participar de vários encontros “passei a ganhar confiança e segurança em mim mesma, mesmo sendo difícil trabalhar com crianças” esclarece a professora. E ainda de acordo com a referida professora“ essa é uma profissão muito pouco valorizada diante de tudo que fazemos para tentar melhorar”. Para a professora Lírio ser professor hoje “é ser de tudo um pouco, é ser mãe, pai e amigo, é saber dividir os conhecimentos e passar confiança”.
Partícipe Crisântemo – Iniciou seus estudos em escola pública prosseguindo o ensino
fundamental na CNEC (Companhia Nacional de Escolas da Comunidade). Cursou habilitação em magistério, iniciando suas atividades profissionais no ensino infantil da zona rural de Ipiranga-PI. Atualmente está cursando o 3º grau em pedagogia na Universidade Estadual do Piauí-UESPI (período especial) em Picos-PI. Participou dos programas de formação continuada PCNs e PROFA e no seu entendimento a experiência mais significativa foi o próprio trabalho com crianças em idade pré-escolar. A professora Crisântemo revela que o seu papel enquanto profissional da educação é sempre trabalhar com amor a profissão, com honestidade, perseverança e responsabilidade, no sentido de formar crianças cidadãs. Conclui o texto afirmando que ser professor hoje é “ser um mediador , um agente ativo e transformador, é buscar sempre novas experiências, conhecimentos, procurar aprender novas teorias e práticas para desenvolver uma boa relação pedagógica para os alunos”.
Mediadora – Iniciou seus estudos em escola pública e graduou-se em Educação Física pela
Universidade Federal do Piauí- UFPI no ano de 1982. Foi professora e coordenadora da área de Educação Física na rede Estadual de ensino e professora da Universidade Estadual do Piauí- UESPI nos cursos de Educação Física e Pedagogia. É Especialista em Ensino e Mestra em Educação. No momento está cursando doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Norte- UFRN. É professora do Departamento de Fundamentos da Educação- DEFE no Campus Universitário Ministro Petrônio Portella, membro da Academia de Letras da Região de Picos- ALERP, e Coordenadora Adjunta da Base de Pesquisa FORMAR. Suas experiências mais significativas foram as situações vivenciadas nos cursos de educação continuada, especialmente os de mestrado e doutorado, bem como a própria atividade profissional docente. Na condição de formadora de futuros professores, a mediadora entende que o seu papel, assim como ser professor hoje, é criar condições favoráveis à reelaboração do conhecimento e a construção de uma identidade profissional autônoma.
A síntese demonstra que a totalidade das partícipes estudou em escola pública e estas têm a formação inicial em Magistério (antigo Magistério do 2º Grau). Desse total, 03 (três) possuem curso superior completo (duas em Letras/Português e uma em Pedagogia). 08 (oito) partícipes estão cursando o 3º Grau (duas em Geografia, 01 (uma) em Letras/Português; 01 (uma) em Ciências Biológicas; 01 (uma) em Educação Física; 01 (uma) em Normal Superior; e 02 (duas) em Pedagogia). Apenas 01 (uma) não está cursando 3º Grau.
Nenhuma delas aponta a formação inicial como uma experiência significativa no percurso profissional. Apenas 03 (três), 25%, estão dando continuidade à formação na área; 02 (duas) em Pedagogia e 01 (uma) em Normal Superior. A maioria (66,6%) participou dos Cursos de Formação Continuada, envolvendo o estudo dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) e o Programa de Formação para Professores Alfabetizadores (PROFA) oferecidos pela Secretaria Municipal de Educação do município. Dessas, 41,6% atuam no ensino infantil e em outros níveis.
No entendimento das partícipes, ser professor na sociedade contemporânea agrega significados que vão desde o educar para a vida quanto questões mais abrangentes, como, por exemplo, as dificuldades que permeiam a profissão.
É preparar para a vida É educar para a cidadania É educar para transformar a sociedade
É ser um mediador na apreensão do conhecimento É ter consciência do seu papel e das dificuldades da profissão 25% 16,6% 25% 16,6% 16,6%
Gráfico 5- O que as partícipes consideram ser professor na sociedade contemporânea.
Fonte: Pesquisa direta realizada com doze partícipes no município de Ipiranga-PI, no ano de 2004.
A esse respeito, destaca Campos (2002), o papel de educadores e educadoras requer o domínio dos conhecimentos que lhes possibilite serem autores de sua própria prática (autonomia pessoal e intelectual quanto às escolhas de materiais, identidade profissional definida, condição para um bom contato com as famílias e abertura para incorporar novos conhecimentos e práticas).
Essas condições são adquiridas ao longo do processo de escolarização básica, na formação profissional prévia e em serviço, nos processos de educação continuada e na experiência profissional refletida e constantemente revista.
Nessa mesma perspectiva, Oliveira-Formosinho (2002) acrescenta que existe na educação da infância uma interligação profunda entre educar e cuidar, o que contribui para ampliar o papel do profissional docente em relação aos outros níveis de ensino. Os profissionais da área precisam de um saber fazer que englobe a vulnerabilidade das crianças e a sua competência, o que requer o desafio de cultivar as disposições para ser, saber, sentir e agir, viabilizado por processos de colaboração, posto que isso não ocorre pela via do isolamento, pondera a autora (Id. ibid.).