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No contexto da abordagem sociohistórica, como nos referimos anteriormente, a teoria da atividade permite a compreensão de que a educação exerce um papel de destaque no desenvolvimento do indivíduo, reforçando o caráter interativo do sujeito no processo educativo. Assumindo essa perspectiva, compreendemos que a apropriação da experiência humana está na dependência da atividade do próprio sujeito, e é a base do processo da educação. Dessa forma, torna-se necessário destacar a importância do brincar na educação infantil, como um tipo especial de atividade propiciadora de desenvolvimento.

No trabalho com crianças em idade pré-escolar, procurar compreender a forma como as crianças aprendem e se desenvolvem recupera necessariamente o brincar infantil como atividade principal no ambiente escolar, o entendimento das questões relacionadas ao desenvolvimento da criança e o conceito de educação infantil norteador das ações pedagógicas cotidianas.

As significações elaboradas pelas partícipes com relação às implicações do ato de brincar no processo de desenvolvimento da criança pré-escolar revelam que estas não conseguem estabelecer as relações entre brincar e se desenvolver. As relações por elas estabelecidas se situam em um nível empírico, referindo-se ao que é diretamente observável como revelam as falas que se seguem:

Bom, eu acho que o brincar é um processo muito importante na educação infantil porque a partir das brincadeiras elas vão se descobrindo. O faz de conta, por exemplo, ali é o mundo delas. Então começando daí, o brincar é o mundo em que ela começa a despertar seu mundo, seu outro mundo. E também, em primeiro lugar pela idade, criança já quer dizer criança, então tem que brincar na escola, porque é importante, o brincar é um muito importante mesmo, é uma atividade muito importante que nós professores temos que ta por dentro desse brincar dessa criança, participar brincando com elas, orientando, observando e etc. Tulipa

Porque é através da brincadeira que ele está se desenvolvendo, é através da brincadeira que ele aprende mais. O ato de brincar eu vejo assim que é muito importante, porque é justamente o que eu falei agora, que é através da brincadeira que se desenvolve todas as atividades da pré-escola. Jasmim

O ato de brincar na educação infantil é de suma importância, é imprescindível porque a partir da brincadeira é que a criança aprende, espontaneamente e também de forma prazerosa. Eu acho

que é devido a idade dela, se a gente não brincar muito com ela na educação infantil, se a gente deixar a brincadeira de fora, então a criança ela vai deixar de ser criança, e é muito importante a gente nunca trabalhar a criança como um adulto e sim como criança, e pra isso, a brincadeira é fundamental. Margarida

Como a gente brinca com a criança? ...porque a gente faz a brincadeira com ela... A gente brinca de roda conta historinha. Se a gente ensinar a música do bom dia , a gente ta ensinando ela dar bom dia ao coleguinha, eu acho que é isso. Orquídea

Bom é o que mais eles gostam de fazer. O que mais eles gostam de fazer lá é brincar. Bom, pra mim, eu vejo que eles participam muito bem das brincadeiras apesar de eu estar precisando assim um pouquinho de reciclagem, mas eles gostam, eles dançam, lá é muito distante a escola e por isso a gente tem muita dificuldade porque a escola é pequena, não tem um som, tudo que a gente faz é... o professor tem que se rebolar e é difícil pra gente trabalhar desse jeito. Se a escola tivesse um som e na escola tivesse CD aí não, aí a gente podia deixar eles a vontade. Mas mesmo assim é muito bom e eles participam ativamente das brincadeiras. Lírio

Eu vejo assim nas crianças, elas gostam, elas participam também, gostam muito de brincar, agora, tem umas que tem aquela diferença, não quer pegar na mão do coleguinha, não quer pegar na minha mão ai eu vou ensinando a elas que tem que pegar na mão de cada um, que são colegas dele, mas eles participam muito bem, eles gostam muito de brincar. Crisântemo.

Do mesmo modo, por não terem elaborado o conceito desenvolvimento, as partícipes, Girassol, Papoula, Cravo, Violeta e Hortência, relacionam o brincar com o próprio conceito de educação infantil internalizado. Dessa forma, o brincar é concebido como o meio pedagógico através do qual são desenvolvidas as habilidades da criança, preparando-as para que possam ingressar nas séries subseqüentes.

Eu acho que o brincar é assim uma atividade essencial, fundamental na vida da criança, porque através do brincar a criança desenvolve enes habilidades. Ela desenvolve principalmente o faz-de-conta, e esse faz-de-conta desenvolve o seu imaginário. E isso contribui demais para o desenvolvimento dela. Eu acho que o brincar desenvolve várias habilidades. Ele desenvolve o seu imaginário como um todo, ele desenvolve sua imaginação e assim ele vai se desenvolvendo. Girassol

É porque através do brincar que ela vai se relacionar melhor é que ela vai, descobrir sua coordenação motora, trabalhar a coordenação motora, trabalhar sua percepção...e também adquirir sua autonomia sua maturidade e todos os fatores que vão ser importante na sua idade adulta. O ato de brincar ele é muito importante porque através do brincar que a criança vai formular suas hipóteses de maturidade como ela vai descobrir sua autonomia ela vai se relacionar com as pessoas, descobrir como vai se relacionar com as pessoas, muitas coisas, formas, tudo isso é muito importante para ela. Papoula

É que eles brincando eles tão desenvolvendo várias partes do corpo, tanto eles estão desenvolvendo a coordenação motora a psicomotora, é porque a brincadeira movimenta com ele todo, mexe com ele todo. Eu acho que ele leva a vida em uma brincadeira, eles vêem assim a vida como se fosse uma brincadeira e é nessa faixa etária assim de pré-escola que ele aprende brincando. Cravo

Eu vejo assim, a criança ele, quando ela começa a ir pra escola agora é que ela está despertando mais para o mundo. Então a partir dali é que eles vão conhecendo outras crianças vão conhecendo também novas brincadeiras e daí eles vão criando também novas brincadeiras, vão se desenvolvendo e através do contato com outras crianças eles vão criando.

Porque através da brincadeira é que eles vão aprendendo, brincando também é que se aprende. Na medida que eles vão brincando é que estão aprendendo Violeta

A brincadeira eu acho que ela é muito importante porque muitas vezes tem várias brincadeira que dão muita noção assim para a aprendizagem. Noção de espaço de tempo, noção corporal, o ritmo, a brincadeira em grupo ajuda ela a se socializar, se integrar umas com as outras e contribui muito, a brincadeira é muito importante, porque ela passa a aprender através da brincadeira. Hortência

A compreensão de Rosa, por sua vez, pode ser apreciada na perspectiva de Kuhlmann Jr. (1998). O autor admite que a discussão das políticas públicas para a educação infantil em diversos Estados brasileiros desconsidera o universo cultural da criança, direcionando suas ações para o desenvolvimento cognitivo de modo compartimentadas com ênfase na alfabetização.

Eu acho que o brincar é importantíssimo na educação infantil, embora ultimamente a gente tenha deixado um pouco de lado devido as cobranças do sistema. Porque o sistema cobra hoje em dia que na pré-escola a criança saia sabendo isso, sabendo aquilo e aí você fica preocupada com o saber da criança em relação a leitura e escrita, em conhecer, porque também se você não trabalhar muito com isso, se a criança não sair sabendo escrever é fazer o certo mesmo, escrever bonito, conhecendo o alfabeto, conhecendo pelo menos de 0 a 10 a gente é tachada com um mau professor. Hoje a gente ta se preocupando mais com isso do que com o brincar propriamente, mais a gente trabalha assim, através de jogos, o brincar é muito importante, porque através do brincar a criança usa a imaginação, ela entra no mundo da imaginação, num mundo encantado que não deve ser tirado da criança. Através do faz-de-conta, quando ele brinca de faz-de-conta, vários jogos da educação também são ótimos, é importante, eu acho que a gente não deve deixar de trabalhar o brincar com a criança. Por mais que tenha a cobrança a gente não deve se limitar muito a isso senão a criança vai aprender e deixar o brincar de lado, a gente não deve fazer isso. Rosa

Conforme destacamos anteriormente, essa discussão se tornou mais divulgada a partir do entendimento de que as instituições de atendimento às crianças pequenas precisavam deixar de ser assistenciais para se tornarem educativas, o que colaborou para que se desse ênfase apenas aos processos formais de aprendizagem.

Nessa perspectiva, foi projetado para a educação infantil um modelo educacional em que se privilegia a aprendizagem formal em detrimento dos aspectos mais característicos da criança nessa idade. Com relação a esse aspecto, Kuhlmann Jr. (1998) aponta para a necessidade de se compreender que a educação da criança pequena não pode excluir de suas atribuições a transmissão do conhecimento elaborado historicamente, nem esquecer a importância de articular seus conteúdos com o ensino fundamental. No entanto, o modelo de escola primária é inadequado para essa faixa etária específica. Para fundamentar suas afirmações o supramencionado autor explicita que:

A questão não é educação versus assistência;

→Na sua história, as instituições pré-escolares destinaram uma educação de baixa qualidade para as crianças pobres e isso é o que precisa ser superado; →No interior da instituição sempre está ocorrendo algum tipo de educação- seja boa ou ruim para a criança que a recebe;

→A educação de uma criança pequena envolve o seu cuidado, por isso destaca-se o papel de educar e cuidar atribuído às instituições de educação infantil. (KUHLMANN JR., 1998, p. 208).

As respostas emitidas pelas partícipes permitem compreender que os conceitos elaborados por elas apresentam as características dos conceitos espontâneos, uma vez que não são feitas associações e relações fora das situações imediatas. Considerando que o desenvolvimento dos indivíduos é o resultado das condições reais de sua vida, e, por conseguinte, da educação e do ensino oferecido, é possível afirmar que as experiências de aprendizagem formal a que tiveram acesso não possibilitaram uma compreensão sistematizada sobre o brincar infantil.

Os significados de determinados conceitos encontram-se, ainda, relacionados às percepções das partícipes e as relações organizam-se a partir das experiências. (FERREIRA, 1995). Nessa perspectiva, não podemos dizer que representam significados conceptuais propriamente ditos, pois, para elaborar um conceito, é necessário combinar análise e síntese; os traços abstraídos devem ser novamente sintetizados, e a síntese abstrata resultante desse processo torna-se o principal instrumento do pensamento, afirma Vygotsky (2001).

Conforme pudemos constatar, especificamente em relação ao brincar infantil enquanto atividade principal, a totalidade das partícipes desconhece o seu significado mais amplo, na medida em que compreende o jogo, brinquedo ou brincadeira apenas como aquela que está mais presente no cotidiano das crianças pequenas e não como a atividade que promove as mudanças mais significativas no desenvolvimento infantil.