Quando nos deparamos com a ilustração do genograma da família de Lisa, percebemos a transgeracionalidade da violência. Alice repete de forma inconsciente a relação que teve com sua mãe com seus filhos.
Vale aqui resgatar a ideia espinosana de corpo memorioso, corpo marcado pelas vivências não apenas corporais, mas também da alma.
A violência aparece como algo que impede o amadurecimento saudável do indivíduo, que presenciou e, então, experienciou relações abusivas, invasivas de seus familiares.
Ferenczi (1933/1988) lembra muito bem, em seu texto Confusão de línguas, apontando para uma confusão na comunicação dos pais para com os filhos. Esses acabam por não compreender a função e o papel dos pais, o que dificulta - e até impede - o desenvolvimento saudável dos membros dessa família.
A partir dessas relações confusas e invasivas, Winnicott expressa que o falso self defensivo passa a assumir o papel principal nas suas relações interpessoais. A fim de proteger o verdadeiro self, que teve de se esconder, para sobreviver a essas relações familiares abusivas.
Cada criança vivenciou isso a sua maneira e pôde lidar com ela também de modo pessoal. Mas a transgeracionalidade da violência mostra a necessidade real de um “ambiente suficientemente bom” para um desenvolvimento saudável.
O pouco que pude conhecer da história e da vida de Alice e Zeca mostrou claramente a dificuldade deles de se relacionar e de cuidar dos filhos. O uso excessivo do álcool parece mais uma forma de refúgio da realidade, dos problemas, das
preocupações. Freud (1930/2010) diz que o álcool é uma forma grosseira, mas eficaz de satisfação imediata e afastamento das pressões da realidade.
Nenhuma forma de tratamento surtiria efeito sem resolver primeiro a questão do alcoolismo. Este, no entanto, não era visto como um problema pela família e, mesmo que o fosse, não havia um serviço público para onde ela pudesse ser encaminhada.
Nesse caso, os programas de transferência de renda não foram suficientes para que a família amadurecesse e buscasse uma melhor condição financeira e de moradia.
A descrição das condições de moradia teve o intuito de mostrar a situação socioeconômica da família, uma das dificuldades com as quais os serviços se depararam no processo de intervenção.
Aliás, essa é uma realidade brasileira. Cerca de 40% das famílias brasileiras, segundo o IBGE (2007), tem um perfil socioeconômico igual ao da família que ora estou analisando. Outro aspecto da família de Lisa que se encaixa nos dados do IBGE é aquele que diz respeito ao trabalho infantil. A contribuição desse trabalho é importante para o rendimento da família. No caso de Lisa, não tenho dados sobre o rendimento das crianças quando trabalhavam; mas depois que ingressaram no PETI, o dinheiro disponibilizado pelo programa correspondia a quase a metade do rendimento familiar.
Não vou aqui discutir sobre as políticas sociais para a minimização desse problema. Apenas mostro uma realidade social que não deve ser descartada no processo de elaboração das políticas públicas no âmbito da violência intrafamiliar.
Comparando o caso brasileiro com as políticas sociais de Portugal, durante o período que estive pesquisando, lá todas as famílias que necessitavam recebiam o Rendimento de Inserção Social, que era contabilizado conforme o tamanho e a necessidade da família. Além disso, o serviço de segurança social português disponibilizava moradias para as famílias que necessitavam desse tipo de auxílio. O tempo de usufruto dessa ajuda era determinado pela equipe de técnicos que estava acompanhando a família.
Voltando ao caso de Lisa, pude identificar problemas na comunicação e no trabalho da Rede quando ela saiu do abrigo. Nenhuma avaliação ou conversa com os serviços envolvidos foi feita antes do desabrigamento, interrompendo o processo de intervenção terapêutica no abrigo. Vale lembrar que o processo terapêutico com Lisa havia iniciado em 2006; durante esse período ela pôde vivenciar momentos fundamentais para sua contituidade-de-ser. Acredito que a interrupção não tenha sido tão prejudicial porque o processo terapêutico continuou acontecendo no Centro de
Convivência. Essa interrupção - caso fosse total e definitiva - poderia ter causado graves danos no processo de amadurecimento de Lisa. Daí a preocupação, em termos do município de Arujá, uma Rede de Proteção que seja “suficientemente boa”, que não revitimize os pacientes, mas cuide eticamente deles.
Acredito que a postura dos agentes cuidadores somente será ética quando houver equilíbrio na implicação e no distanciamento na ação de cuidar, revelando a relação saudável que o agente cuidador estabelece com o outro (FIGUEIREDO, 2009). Quando não houver hipocrisia profissional, termo usado por Ferenzci (1933/1988) ao criticar o papel do analista (agente cuidador) que recebe o paciente de maneira onipotente e acaba por atuar de forma a reparar suas fantasias inconscientes. E quando houver distribuição das responsabilidades (WINNICOTT e BRITTON, 1947/1999) entre os profissionais da rede de proteção.
Quanto aos funcionários do Centro de Convivência e do Abrigo e dos técnicos do Programa Acolher, trabalharam no sentido de atender Lisa, que precisava de um espaço potencial para que pudesse vivenciar momentos que não pôde experienciar no decorrer do seu processo de amadurecimento.
Procurou-se criar um espaço potencial no sentido de que Lisa precisava de um ambiente “suficientemente bom”; um ambiente estável, em que ela se sentisse protegida e segura, para poder reviver momentos que foram falhos em seu desenvolvimento.
Lisa já tinha alcançado a condição de ser uma unidade, parece ter desenvolvido uma depressão patológica. Seus impulsos se mostravam sem vitalidade, ela servia-se da tagarelice, ou seja, como mecanismo de defesa.
O Centro e o Abrigo proporcionaram condições para a criação de um espaço potencial onde Lisa pôde experimentar aquilo de que foi privada. Para Winnicott (1951/2000) esse espaço é uma área intermediária de experimentação, que contribui tanto para a realidade interna quanto para a vida externa. “[…] é um lugar de descanso para o indivíduo permanentemente engajado na tarefa humana de manter as realidades interna e externa separadas, e ao mesmo tempo inter-relacionadas” (WINNICOTT, 1951/2000, p. 318).
5.3 O Caso da Família Silva: abandono materno e abuso paterno