João 39 Rita 36 Joice 13 Fábio 11 Murilo 8 José Carlos Ingrid 43 Jorge 16 Gláucia 14 Solange 20 5 Antes da sinalização
No final de 2005, os irmãos Fábio e Murilo ingressaram no Centro de Convivência64. João, pai dessas crianças, inicialmente, se mostrou bastante presente e preocupado com a educação de seus filhos. Frequentemente comparecia ao Centro ou ligava para perguntar se os filhos estavam bem. Ele sempre ressaltava os cuidados que tinha para com os filhos, fazia questão de enfatizar que havia levado seus filhos ao médico, que tinha comprado presentes para eles e que os três filhos eram tratados de forma igual.
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O traçado vermelho foi utilizado para representar a violência física, psicológica entre os membros, o trajado azul para representar abuso e tentativa de abuso sexual e o pontilhado cinza para representar abandono. Os números dentro dos círculos (símbolo que representa o sexo feminino) e dos quadrados (símbolo que representa o sexo masculino) referem-se às idades. O X dentro do quadrado representa a pessoa falecida. O traço vermelho escuro com um risco no meio para representar separação conjugal. O pontilhado rosa com um risco no meio representa relacionamento extraconjugal e separação. As idades apresentadas no genograma foram calculadas com base no ano de 2005, ano do início das intervenções da Rede de Proteção de Arujá.
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As crianças e adolescentes frequentavam o Centro de Convivência num período complementar ao da escola, cinco vezes por semana, durante quatro horas por dia.
Além disso, João também se mostrava prestativo para com a instituição; colocava-se à disposição, caso fosse necessário pintar, consertar alguma coisa no Centro de Convivência.
Numa das conversas com a diretora do Centro, João se sentiu à vontade para contar um pouco de sua história. Disse que sentia muita raiva e ódio da mãe de seus filhos, pois Rita, sua ex-mulher, havia lhe traído com o presidente de um sindicato. Rita engravidou desse presidente, mas como ele era casado, não quis assumir a criança e nem a relação com ela. Depois que deu a luz, Rita abandonou o recém-nascido e seus outros filhos. O bebê ficou com a secretária do sindicato, que o adotou. Segundo João, isso aconteceu em 2000. Murilo estava com 3 anos, Fábio com 6 e Joice com 8 anos. Nessa época as crianças foram morar com a tia Ingrid, irmã de João, pois ele ficava dias fora de casa a trabalho. Voltaram a morar com o pai no final de 2005.
Depois da desilusão amorosa que João teve, ele diz que preferiu ficar sozinho.
“É claro, eu também não sou de ferro, dou meus pulos aí, mas não quero nada sério”.
E enfatiza que os filhos estão em primeiro lugar.
João conta que, na infância, apanhava muito de suas irmãs: “Elas aprontavam e
colocavam a culpa em mim, daí eu apanhava por causa delas, tenho raiva delas por isso”. Também apanhava de sua mãe: “minha mãe me batia com o que tivesse na mão, mas ela estava certa em me bater, assim todos meus irmãos a respeitavam. Não é igual hoje que não pode mais bater nos filhos, por isso que eles não têm mais respeito pelos pais”.
O pai de João tinha várias relações extraconjugais; não era violento com os filhos, mas batia muito em sua mulher. Por isso se separaram meses depois de seu nascimento. Logo após a separação, o seu genitor casou novamente e teve mais alguns filhos.
A Sinalização
No final de 2006, Murilo apanhou do pai e ficou todo marcado. Indignadas, duas primas de Murilo, Solange e Gláucia, levaram-no até o Centro de Convivência, para mostrar o ocorrido. Com raiva de João, elas contaram que ele já havia tentado abusar delas e que já houvera abusado de outras primas, mas que na época estas não fizeram nenhuma denúncia. Elas disseram que tinham quase certeza de que ele também estava tentando abusar da própria filha, Joice.
A diretora orientou para que elas fossem ao Conselho Tutelar denunciar o ocorrido e a suspeita de abuso.
João foi chamado pela diretora para conversar sobre as marcas no corpo de Murilo. O pai se justificou dizendo que Murilo não estava obedecendo, por isso apanhou. “Eu sei que errei, eu me descontrolei, não vai acontecer de novo”. Mas ao mesmo tempo dizia que na época dele era no “tapa” que se resolviam as coisas “e
resolvia mesmo, porque minha mãe batia e todos a respeitavam”. Para João, bater
parecia ser a única forma de corrigir os filhos.
Ao finalizar a conversa, a diretora disse que era sua obrigação comunicar o ocorrido ao Conselho Tutelar e que seria importante para a família iniciar um processo de acompanhamento terapêutico no Programa Acolher. João, amigavelmente, concordou.
Conselho Tutelar
As conselheiras convocaram o pai. João se responsabilizou pelo ocorrido e disse que não iria mais bater no filho.
Com relação à suspeita de abuso, as conselheiras foram fazer visita domiciliar num momento em que João não estava em casa, para poderem conversar a sós com Joice. Ela estava em casa, lavando roupa e fazendo comida. Disse que cuidava dos irmãos e que também era responsável por cuidar da casa.
Ao perguntar onde cada um dormia, ela mostrou seu quarto e o quarto dos irmãos. Disse que o pai dormia no quarto dos irmãos, num colchão colocado no chão. A casa tinha dois quartos, cozinha e banheiro; estava organizada e limpa.
As conselheiras relataram o que as primas de Joice haviam dito sobre a suspeita de abuso sexual do pai. Ela sabia que seu pai havia abusado de suas primas, mas insistiu dizendo que ele nunca havia feito isso com ela.
Encaminhamento para o Processo Terapêutico
Desde que Murilo havia ingressado no Centro de Convivência, a diretora estava tentando encaminhá-lo para atendimento psicológico, mas não tinha conseguido ninguém da família que se responsabilizasse em levá-lo.
A partir do episódio da violência física, como foi exposto acima, não só Murilo, mas toda a família, no início de 2007, foi encaminhada para acompanhamento terapêutico no Programa Acolher. Joice se responsabilizou pelos atendimentos e por levar seus irmãos, pois João não conseguiu assumir essa responsabilidade. Além de nunca ter comparecido aos atendimentos, justificava sua ausência dizendo que trabalhava o dia todo e chegava a ficar quinze dias longe de casa.
Antes de relatar as intervenções terapêuticas, descreverei o retorno de Rita e suas consequências.
O Retorno de Rita
No final de 2007, Rita apareceu no Centro de Convivência, dizendo que era a mãe do Murilo e do Fábio. Isso surpreendeu os funcionários, que sabiam das histórias das crianças, mas não imaginavam que ela retornaria para ver os filhos.
No dia anterior do aparecimento de Rita, Fábio disse aos funcionários do Centro que estava feliz por ter recebido uma carta de sua mãe, dizendo que iria visitá-los, mas não dizia quando.
Em conversa com a diretora, Rita disse que João era muito ciumento, que não a deixava sair de casa, brigavam muito.
[…] era só briga, a gente não conversava, só brigava, aí eu conheci o Rui, presidente do sindicato, e me apaixonei por ele, fiquei grávida, mas ainda estava em casa com meus filhos. Eu era muito grudada com Murilo, ele cuidava de mim, dizia que queria que eu ficasse abraçada com ele, diferente de Joice e Fábio. Joice sempre foi grudada com a tia dela (Ingrid). Eu só deixei minha casa quando fui ganhar o bebê, deixei meus filhos na casa da Ingrid e fui ter o bebê. Nesse dia eu tive um surto, fiquei louca, porque eu achei que o Rui iria me ajudar com o bebê, que iríamos ficar juntos e criar nosso filho. Mas no dia do nascimento, ele não quis nem saber, e com raiva falei que não queria a criança e que era para ele levar o bebê para a casa dele. Ele me disse que não poderia fazer isso, pois não queria destruir seu casamento. Diante dessa situação, Ângela, secretária do sindicato, acabou ficando com o bebê. Depois ele até quis pegar o bebê para cuidar, mas Ângela não deixou. Depois disso não sei mais o que aconteceu, só sei que a criança está até hoje com a Ângela. Aí eu fui embora e não tive mais coragem de voltar, de encarar o que eu tinha feito. Mas hoje decidi voltar e resolver as coisas que ficaram pendentes. Não quero mais nada com o João, mas agradeço muito a ele por ter cuidado das crianças; fiquei sabendo que Joice é uma moça responsável, bonita e que ajudou cuidar de seus irmãos, eu agradeço a ela também. Eu não voltei antes pois tinha medo do João
fazer alguma coisa comigo. Ele é louco, nem sei o que ele poderia ter feito se eu voltasse na época. Não quero nenhum mal para ele, mas cada um pro seu lado. Eu também não podia voltar toda acabada, tinha que voltar bonitona, “fashion”, mudei o cabelo, mudei meu visual, quando as pessoas me veem na rua, nem acreditam que sou eu, acho que estou mais bonita, eu estou me cuidando mais, tenho que pensar em mim e me cuidar, isso ninguém pode fazer por mim. (Rita)
Rita contou que estava trabalhando na casa de uns judeus em São Paulo, que dormia no trabalho, ganhava bem e não gostaria de voltar para Arujá.
Passados alguns dias de sua volta, as psicólogas do Programa Acolher chamaram Rita para conversar sobre seus filhos, mas ela não compareceu.
Ela, às vezes, ligava para o Centro de Convivência perguntando dos filhos e ficava conversando com a diretora.
Em uma das conversas, Rita disse que queria ficar com seus filhos; mas que ainda não tinha condições, porque não tinha casa, dormia no trabalho e achava melhor as crianças continuarem onde estavam; dizia que viria visitar as crianças e as levaria para passear. Aos poucos, Rita foi se reaproximando dos filhos.
Um dia, João foi ao Centro de Convivência e disse que não tinha mais mágoa de Rita e que tinha achado ótimo ela voltar, pois as crianças precisavam da presença da mãe. Disse que ela havia lhe agradecido pelo cuidado que teve com seus filhos. Ressaltou também que não queria mais nada com ela, “eu só a estou recebendo na minha casa, por causa das crianças”.
Depois do retorno, Rita passou a almoçar todos os domingos na casa de seus filhos. Seu reaparecimento desencadeou algumas lembranças afetivas e amorosas em João, que começou insistentemente a tentar convencer Rita para ficar com ele, sem, contudo, obter sucesso.
Dias depois de ter sido rejeitado por Rita, João foi preso em flagrante tentando abusar sexualmente de sua filha; eram meados de 2008.
Joice logo ligou para a mãe, contando o que tinha acontecido.
Com João preso, Rita foi buscar seus filhos. Joice não quis ir com a mãe e ficou com a tia Ingrid. Rita pegou Murilo e Fábio e foi para São Paulo. Mesmo não querendo ver a mãe num primeiro momento, Murilo estava ansioso para ir embora com ela. Como Rita dormia no serviço e não podia levá-los para lá, deixou Fábio com sua amiga, madrinha de Fábio, que ficou feliz em recebê-lo; Murilo ficou num abrigo. A mãe novamente os abandonou.
Depois de aproximadamente dois meses, setembro de 2008, Ingrid conseguiu a guarda provisória dos sobrinhos, que voltaram para Arujá.
Ingrid
Quando Ingrid assumiu a guarda das crianças, o Programa Acolher a chamou para conversar.
Ela começou falando de seu irmão. Disse que era para João ter um irmão gêmeo, mas este morreu ainda no ventre,
[…] minha mãe perdeu o bebê por causa de nervoso que ela passou na gravidez, meu pai era muito mulherengo, saía de casa, demorava a voltar ou não voltava, chegava em casa com marcas de batom... por isso minha mãe perdeu um bebê. João só sobreviveu porque ficou por baixo. O José Carlos (irmão gêmeo que morreu) foi se decomponho em cima de João. Quando ele nasceu, a pele de José Carlos estava grudada em João, foi difícil para desgrudar, mas conseguiram. (Ingrid)
Ingrid também contou que sua mãe surtou logo após o nascimento de João, novamente por causa de seu pai. Eles estavam se separando e ela não queria. “Teve um
dia que minha mãe jogou o João pra cima, ele estava todo enroladinho na manta, parecia uma trouxinha, se não fosse a nossa irmã pegá-lo, teria se espatifado no chão”.
Além dos surtos, sua mãe batia bastante nos filhos. Mas, mesmo assim, Ingrid fala de sua genitora com grande admiração.
Ah! Minha baixinha é meu anjo protetor, ela era muito brava, se levantasse a voz para ela, metia a mão. Eu me lembro até hoje. A última vez que a vi foi no dia das mães de 1997, dois dias depois ela morreu era dia 10 de maio de 1997 às 23h25m, me lembro até a hora, não tinha como esquecer; ela foi e é até hoje muito importante para mim, é meu anjo protetor. Eu sei que ela está aqui me protegendo. Lembro que ela sentava na cadeira com um vestido quadriculado de laranja com marrom. (Ingrid)
Minutos depois de falar da mãe, Ingrid disse que tinha algo muito grave para contar. Ela começou a cochichar, preocupada se alguém a escutava fora da sala. Contou que seu filho ficou alguns meses na Febem por ter sido acusado de assassinato, mas foi absolvido.
Aí teve um dia que fui ao bar em frente de minha casa, onde eu morava antes, e disse alto que meu filho era inocente, diferente de “alguns” que fazem as coisas erradas e não são presos, depois que eu
falei isso, eles ficam me perseguindo, me encarando, eu até fui morar um tempo com minha filha em São Paulo, só voltei por que a Gláucia (filha caçula) precisava de minha ajuda para cuidar do meu neto, Henrique, que tinha nascido. Aí eu voltei. Quando peguei a guarda dos meus sobrinhos, que considero como meus filhos e vou criá-los como tal, aluguei uma outra casa, para não ficar de frente para o bar, onde ficam os homens que me perseguem, mas mesmo assim percebo que eles estão me perseguindo, eles querem me matar; estou pensando em mudar para outro lugar, para outro bairro, longe do Barreto, não posso sair de Arujá, por causa da guarda dos meus sobrinhos, mas então vou mudar para outro bairro. (Ingrid)
Ingrid disse que iria ao Fórum contar sobre o que estava acontecendo com ela e pedir orientações sobre o que fazer, até mesmo no intuito de preservar os seus sobrinhos de qualquer coisa que pudesse ocorrer com ela e talvez com eles.
A psicóloga perguntou a ela se não gostaria de iniciar um tratamento psicológico, assim como seus sobrinhos estavam fazendo. Ela concordou.
Dias depois Joice e sua prima Gláucia apareceram no Programa Acolher para falar sobre as atitudes de Ingrid. Gláucia começou falando:
[…] minha mãe está ficando louca, ela acha que está sendo perseguida, que os homens vão matá-la e, se isso fosse verdade, eles já teriam feito, ela até mudou de cidade, depois voltou, mas agora ela quer mudar de bairro, isso é um absurdo. (Gláucia)
Joice acrescentou:
[…] minha tia não lava mais nem a roupa, porque acha que alguém pode acertar um tiro nela. Ela já até dormiu embaixo do armário porque achou que iriam atirar nela, e quando ela passa pela janela, abaixa e engatinha porque também acha que vão acertá-la. Qualquer barulho que ouve à noite, já acha que são os homens que querem matá-la. (Joice)
Algumas Consultas com Ingrid
Ingrid começou falando que nos últimos meses não estava se reconhecendo. Disse que sempre gostou de se cuidar, de passar creme na pele, de ouvir música dos anos 60 e 70. Falou que adorava The Beatles:
Eu gosto de música internacional dos anos 60 e 70, não entendo o que eles querem dizer, mas o que importa é a melodia. Adorava colocar essas músicas, começava a dançar, ficava toda animada, feliz, era uma sensação maravilhosa. Porém, não sei o que aconteceu nos últimos meses, acho que envelheci muito, deixei de fazer o que gosto, mas agora vou retomar minha vida, minha mãe está orando por mim, não estou sozinha. (Ingrid)
Ingrid, talvez por estar com o braço quebrado, adiara a mudança, que iria fazer para outro bairro.
Solange, filha mais velha de Ingrid, preocupada com a mãe, convidou-a para morar com ela. Semanas depois Ingrid e os sobrinhos mudaram para a casa de Solange, que fica em frente ao bar frequentado pelos homens que Ingrid acredita quererem matá- la.
Depois da mudança, os sintomas persecutórios de Ingrid voltaram. Isso fez com que ela deixasse de comparecer às sessões; ligava dizendo que não poderia sair de casa, pois estava sendo perseguida.
Diante disso, o Programa Acolher encaminhou Ingrid para o psiquiatra. Mas, para que a consulta pudesse acontecer, uma assistente social teve que buscá-la. Isso também foi feito para que Ingrid comparecesse às consultas psicológicas.
Nas sessões seguintes, Ingrid parecia assustada e apresentava algumas alucinações auditivas e visuais.
Ingrid contou que seu vizinho estava ajudando os homens que queriam matá-la. Disse que viu os homens conversando com o vizinho e percebeu um gesto estranho. Nessa noite, falou que ouviu pessoas andando no telhado e disse também ter ouvido tiros. Ao contar, Ingrid parava, fazia gesto de silêncio e perguntava para a psicóloga:
“Você não está ouvindo eles no telhado?”. Depois de alguns minutos em silêncio, ela
continuava contando a história. Ingrid disse que, no dia seguinte em que ouviu os homens no telhado, viu marcas de balas na parede.
A psicóloga tentou entrar em contato com o psiquiatra, para conversarem sobre o caso. Não obtendo sucesso via telefone, encaminhou ofício, mas mesmo assim não houve retorno.
No mês seguinte, Ingrid mudou de bairro, acreditando que os homens parariam de persegui-la. Mas, é claro, continuou apresentando sintomas persecutórios, “como
eles me descobriram?”.
Para Winnicott (1950-55/2000), quando há falhas no processo de integração dos impulsos agressivos, a administração desses impulsos no mundo interno pode se dar por meio da projeção (eliminação) do que é sentido como ruim para fora, com intuito de preservar internamente o que é sentido como bom. No caso de Ingrid, a projeção do que é sentido como ruim internamente passou a ser percebido como alucinações persecutórias. Como ela ficou pouquíssimo tempo em terapia, não se tem dados sobre a
origem de sua paranoia, ou seja, se é uma complicação da depressão, relacionada à não aceitação do sadismo oral, ou da esquizofrenia, associada ao processo de integração e ao estabelecimento de um eu unitário (WINNICOTT, 1963/1990d, p. 202).
Psicoterapia Individual de Joice
Joice foi abandonada por sua mãe aos oito anos de idade. Nessa época, ela e seus irmãos foram morar com a tia Ingrid. Seis anos depois, eles voltaram a morar com o pai. Joice ficou sabendo que seu pai havia abusado sexualmente de suas primas apenas quando já estava morando com ele. Na época de tais abusos, cerca de oito anos atrás, a violação foi encoberta e João não foi punido.
No início do processo terapêutico, Joice estava com 14 anos. Ela adorava jogar futebol; treinava em dois times de Arujá e, por isso, não frequentava o Centro de Convivência. Ela era uma ótima goleira, por duas vezes foi considerada a melhor jogadora da posição no campeonato.
Na época dos jogos regionais, Joice ficava bastante ansiosa, começava a planejar e se organizar para a viagem um mês antes.
Só não fiz ainda as malas porque estou esperando a Solange chegar com as malas, mas já sei tudo o que vou levar. Todas as minhas blusinhas, meus cremes para o cabelo, todos os meus tênis, minhas bermudas, praticamente quase tudo que tenho, também vou ficar 15 dias lá. Quando fui para os jogos, no ano passado, engordei uns 5 quilos, depois ficou até difícil para jogar, mas também lá você pode comer à vontade, tem cinco refeições e se você ainda quiser comer mais é só pedir que as merendeiras fazem para você. (Joice)
Ir para os jogos regionais era poder estar longe de seu pai e, consequentemente, ficar mais relaxada e menos tensa; era não ter que reagir à intrusão em seu ambiental familiar. O interessante também é que Joice não enfatiza os jogos em si, mas sim a