A consciência do mundo e a consciência de si crescem juntas e em razão direta; Uma é a luz interior da outra, uma comprometida com a outra. Evidencia-se a intrínseca correlação entre conquistar-se, fazer-se mais si mesmo, e conquistar o mundo, fazê-lo mais humano. Ernani Maria Fiori
Segundo a Fenomenologia Existencial o homem é, e deve ser compreendido, como um ser-no- mundo, um ser-lançado-no-mundo, um ser-com-os-outros, sendo sempre meu, e em seu caráter de poder ser propriamente ou impropriamente.
O termo ser-no-mundo, grafado junto, refere-se a um todo, sugere uma unidade e a inexistência de um homem sem mundo ou de um mundo sem o homem. “Não há nenhuma espécie de ‘justaposição’ de um ente chamado ‘pre-sença’ a um outro ente chamado ‘mundo’ ” (Heidegger, 1986: 93).
Homem e mundo só se dão juntos. Quando o homem se dá conta de sua existência, o faz em um mundo que o constitui. Não como estando simplesmente dentro de um mundo. Porque ele é também o mundo. “...a pre-sença se compreende a si mesma e o ser em geral a partir do mundo” (Heidegger, 1986: 50).
O homem é ontologicamente um ser-com-os-outros porque é só através da interação com os outros homens que o homem se constrói, se conhece, se reconhece.
O homem quando nasce herda o conhecimento, as crenças, os valores, as tradições culturais e os hábitos de seu tempo, de sua sociedade, de sua família, de sua raça e classe social. E se constrói na medida em que interage com essa herança.
O olhar de cada homem é plural, traz em si toda a sua vida, todos os homens com que conviveu e todo o conhecimento a que teve acesso, elaborados, é claro, de uma forma singular. “Os outros não são aqueles com quem o indivíduo convive, nem aqueles que o completam; os outros constituem-no” (Critelli, 1996: 78). Para a Fenomenologia o homem não existe, mas co-existe. “O ser-com determina existencialmente a pre-sença mesmo quando um outro não é, de fato, dado ou percebido. Mesmo o estar-só da pré-sença é ser-com no mundo” (Heidegger, 1986: 172).
O homem não somente se descobre no-mundo como em um certo mundo. Daí advém seu caráter de ser-lançado no mundo.
A expressão ser-lançado no mundo diz respeito a que o homem se descobre sempre lançado em um dado mundo, em um determinado contexto histórico, social, cultural e familiar o qual ele não escolheu.
A expressão ser-lançado no mundo sugere também a idéia de uma projeção. O homem se descobre como projeto. Seu ser não é dado. É apenas sendo que este ser se realiza.
mundo, como se já estivesse pronto desde outra dimensão. O ser do homem é construído no mundo na medida em que vive.
Além de se descobrir no mundo o homem descobre-se também como sendo sempre meu. Descobre-se de posse de uma existência a qual cabe a ele e a ninguém mais cuidar de ser. O homem tem de dar conta de ser, queira ele ou não. Ele é responsável por sua existência. “Esse ‘fato de ser’, caráter ontológico da pré-sença, encoberto em sua proveniência e destino (...) chamamos de estar-lançado (...). A expressão estar-lançado deve indicar a facticidade de ser entregue à responsabilidade” (Heidegger, 1986: 189).
Vendo-se lançado no mundo e tendo de dar conta de cuidar de ser o homem busca um sentido para a sua existência, mas não o encontra pronto no mundo. O sentido de sua existência deve ser construído por ele. Ao vazio existencial causado pela ausência de sentido Heidegger denomina angústia.
Diante da angústia causada pela falta de sentido o homem tem dois caminhos: apropriar-se de sua liberdade, assumindo a responsabilidade por suas escolhas, em uma existência autêntica; ou fugir para o anonimato do ser social, confundindo-se com a massa, em uma existência inautêntica. Neste caso, não é ele que se determina, mas o mundo toma-lhe seu lugar de cuidar de ser.
Neste espaçamento constitutivo do ser-com reside, porém, o fato de a presença, enquanto convivência cotidiana, estar sob a tutela dos outros. Não é ela própria que é, os outros lhe tomam o ser. O arbítrio dos outros dispõe sobre as possibilidades cotidianas de ser da presença. Mas os outros não são determinados. Ao contrário, qualquer outro pode representá-los. O decisivo é apenas o domínio dos outros que, sem surpresa, é assumido sem que a presença, enquanto ser-com, disso se dê conta (Heidegger, 1986: 179).
Quando se diz que o homem entrega a ‘outros’ o cuidado de seu ser, isto não quer dizer que esses ‘outros’ sejam determinados. Esses ‘outros’ não são ninguém especificamente. São o ‘impessoal’, o ‘a gente’, o ‘nós’ que não é ninguém. O homem utiliza o subterfúgio do impessoal para tentar livrar-se da responsabilidade por sua existência.
“Porque prescreve todo julgamento e decisão, o impessoal retira a responsabilidade de cada presença. O impessoal pode, por assim dizer, permitir-se que se apóie nele.” (Heidegger: 180)
Decaído no impessoal, deixando que o mundo realize seu ser, o homem vive como impessoalmente se vive, pensa como impessoalmente se pensa, sente como impessoalmente se sente, revolta-se e alegra-se como impessoalmente se faz.
O predomínio da interpretação pública já decidiu até mesmo sobre as possibilidades de sintonização com o humor, sobre o modo fundamental em que a pre-sença é tocada pelo mundo. O impessoal prescreve a disposição e determina o quê e como se ‘vê’ (Heidegger, 1986: 229).
Ao não buscar um sentido de viver e ser que lhe seja próprio, o homem decaído no mundo cuida de viver de modo impróprio.
“‘Im’-própria não significa que a presença rompa consigo mesma e ‘só’ compreenda o mundo. Mundo pertence ao seu próprio ser como ser-no-mundo. (...) Na compreensão de mundo, o ser-em também é compreendido. Compreensão da existência como tal é sempre compreensão de mundo.” (Heidegger: 202)
mergulha em uma espécie de anonimato que anula a singularidade de sua existência. Perde-se no meio dos outros Dasein, buscando a justificativa de seus atos num sujeito impessoal, exterior. (....) torna-se massa, alheia-se de si mesmo (Penha, 1982).
O conhecimento autêntico e originário é para o homem angustiante. Exige do homem uma abertura para o mundo que coloca em jogo seu próprio ser. “O enfrentamento com o mundo é ameaça e risco. O mundo substitui o envoltório protetor do meio natural por um mundo que o provoca e desafia” (Fiori: 1987).
A fim de evitar a angústia do conhecimento o homem adota o modo próprio de conhecer da impessoalidade: o falatório. O falatório retira do homem a singularidade de sua existência, a possibilidade da descoberta e da surpresa. O falatório tudo conhece e tudo nivela.
O falatório é a possibilidade de compreender tudo sem se ter apropriado previamente da coisa. O falatório se previne do perigo de fracassar na apropriação. O falatório que qualquer um pode sorver sofregamente não apenas dispensa a tarefa de uma compreensão autêntica como também elabora uma compreensibilidade indiferente, da qual nada é excluído (Heidegger, 1986: 229).
A pretensão do impessoal, de nutrir e dirigir toda ‘vida’ autêntica, tranqüiliza a pre-sença, assegurando que tudo ‘está em ordem’ e que todas as portas estão abertas. O ser-no- mundo da de-cadência é, em si mesmo, tanto tentador como tranqüilizante. (...) Nessa comparação de si mesma com tudo, tranqüila e que tudo ‘compreende’, a pre-sença conduz a uma alienação na qual se lhe encobre o seu poder ser mais próprio. O ser-no- mundo da de-cadência, tentador e tranqüilizante é também alienante (Heidegger, 1986: 239).
O falatório se dá através da repetição de discursos e verdades. Ainda que os primeiros a proferirem certas verdades o tenham feito de modo originário, que o conhecimento tenha se dado como descobrimento, à medida que essas verdades são repetidas elas tornam-se falatório.
Viver impropriamente não é um modo de viver “errado”. Apenas um dos modos possíveis de se cuidar de viver. Não se pode inclusive viver propriamente o tempo todo. Porque o mundo constitui o homem, é próprio da condição humana deixar-se decair no mundo. O que o homem pode fazer é optar por assim continuar ou escolher responsabilizar-se pelo cuidado de sua vida.
Sendo ao mesmo tempo plural e singular, todo homem se encontra em constante tensão entre o apelo que o convida a ser um igual e o apelo que o convida a ser único. Desde que nascemos a sociedade nos convoca, através dos hábitos, valores e crenças que nos são transmitidos, a sermos uns iguais aos outros. Mas existe também em cada um de nós o apelo que nos convida a vivermos nossas vidas de um modo próprio, que faça com cada um se distinga e seja reconhecido por aquilo que tem de único e singular.
O homem sempre se descobre vivendo segundo o modo de ser da impessoalidade, da impropriedade, da medianidade.
De início, a pre-sença de fato está no mundo comum, descoberto pela medianidade. De início, ‘eu’ não ‘sou’ no sentido do propriamente si mesmo e sim os outros nos moldes do impessoal. É a partir deste e como este que, de início, eu ‘sou dado’ a mim mesmo. De início a pre-sença é impessoal e, na maior parte das vezes, assim permanece. Quando a presença descobre o mundo e o aproxima de si, quando ela abre para si mesma seu próprio ser, este descobrimento de ‘mundo’ e esta abertura da pre-sença se cumprem e se realizam como uma eliminação das obstruções, encobrimentos, obscurecimentos, como um romper das deturpações em que a pre-sença se tranca contra si mesma (Heidegger, 1986: 183).
para trás. Neste instante entra em contato com a angústia causada pela falta de sentido que então a vida passa a ter. “Só na angústia subsiste a possibilidade de uma abertura privilegiada na medida em que ela singulariza” (Heidegger, 1986: 255).
E não se pode de repente se apropriar de um ser autêntico, porque o ser não é dado, é uma expressão verbal que tem de ir se realizando diariamente. Se ser inautêntico nos parece como tendo pertencido ao passado, ser autêntico pertence ao futuro, porque é sempre uma projeção, um vir-a-ser que se vai realizando na medida em vivemos.
Não podemos então nos apropriar de nosso ser autêntico. Aquilo de que podemos nos apropriar é de nossa liberdade de poder sê-lo, através de nossas escolhas.
“Os homens são condenados a ser livres”. Isso quer dizer que os homens não são determinados, embora sejam condicionados por tudo aquilo com o que entram em contato.
A liberdade humana é angustiante pois trás consigo a responsabilidade. Os homens podem então abrir mão de sua liberdade e responsabilidade deixando-se dissolver na impessoalidade. “A fuga de-cadente para o sentir-se em casa da publicidade foge de não sentir-se em casa, isto é, da estranheza inerente à presença enquanto ser-no-mundo lançado para si mesmo em seu ser.” (Heidegger, 1998: 253)
A decisão por assumir a responsabilidade pelo cuidado da própria vida ou por entregar este cuidado a outros é uma escolha individual, que a cabe a cada homem tomar constantemente. Mas sendo-no-mundo, esta escolha pode ser favorecida ou dificultada pelas relações estabelecidas entre os homens.
No tocante aos modos positivos, a preocupação possui duas possibilidades extremas. Ela pode, por assim dizer, retirar o ‘cuidado’ do outro e tomar-lhe o lugar nas ocupações, substituindo-o. Essa preocupação assume a ocupação que o outro deve realizar. Este é deslocado de sua posição, retraindo-se, para posteriormente assumir a ocupação como algo disponível e já pronto ou então se dispensar totalmente dela. Nessa preocupação, o outro pode tornar-se dependente e dominado mesmo que esse domínio seja silencioso e permaneça encoberto para o dominado.
Em contrapartida, subsiste ainda a possibilidade de uma preocupação que não tanto substitui o outro, mas que se lhe antepõe em sua possibilidade existenciária de ser, não para lhe tirar o ‘cuidado’ e sim para devolvê-lo como tal. Essa preocupação que, em sua essência, diz respeito à cura propriamente dita, ou seja, à existência do outro e não a uma coisa de que se ocupa, ajuda o outro a tornar-se, em sua cura, transparente a si mesmo e livre para ela (Heidegger, 1998: 173 e 174).
Mas, é bom lembrar, ninguém vive impropriamente e propriamente o tempo todo. Transitamos por essas duas possibilidades a todo o tempo. Algumas pessoas apenas se comprometem mais com a busca de um viver autêntico.
Dizer que o homem é livre não quer dizer que se autodetermine como bem entenda ou que possa determinar o mundo como queira.
No item seguinte procuro aclarar a compreensão de como o mundo, ou a realidade, não é uma determinação do sujeito nem um espaço dentro do qual os homens estão. A realidade se dá entre