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Como forma de viabilizar empiricamente uma investigação de orientação pluralista critica, em função do quadro teórico formulado, delimitei a coleta de dados à apenas uma empresa. Sigo a argumentação de Stake (2005) na qual um estudo de caso é, ao mesmo tempo, ‘um processo de aprendizagem sobre o caso e o produto do nosso conhecimento’ (IBID, p. 87), sendo seu objetivo a ‘representação do caso’ ao invés da ‘representação do mundo’ (IBID, p. 104).

Nesse sentido, um estudo de caso único é aplicável à perguntas de pesquisa amplas mais, desenvolvidas em função da importância do fenômeno e da falta de teorias viáveis e evidências empíricas sistematizadas (EISENHARDT e GRAEBNER, 2007). Pesquisas acadêmicas devem, sempre que possível, encontrar instâncias nas quais a teorização existente ainda não sustenta adequadamente o fenômeno (STAKE, 2005). Nesse caso, o estudo de caso único faz sentido por provocar insights, por viabilizar pesquisas com base em estrutura conceitual nova e que não limita demasiadamente o fenômeno, por ajudar a estreitar teorias existentes ao destacar possíveis lacunas e começar a preenchê-las (SIGGELKOW, 2007).

Ademais, o estudo de caso único é um método de pesquisa valioso em ciências sociais, quando usado com o propósito de analisar como as pessoas

estruturam e resolvem problemas em suas atividades diárias (EISENHARDT e GRAEBNER, 2007). Isso faz sentido, uma vez que o problema da tese não busca a generalização de dados amplamente coletados, mas sim a compreensão de um objeto relacionado à intersubjetividade dos entrevistados quanto a um tipo específico da agência, localizado no tempo e no espaço (BARZELAY, 1993). Por isso, considero que o estudo de caso único é aplicável.

Nesse sentido, percebo o estudo de caso único como parte integrante de uma proposta qualitativa de pesquisa. Gephart (2004) descreveu a pesquisa qualitativa como “uma pesquisa de múltiplos métodos que usa uma abordagem interpretativa, naturalista do assunto em questão, que direciona perguntas sobre como as experiências sociais são criadas e como adquirem significado” (GEPHART, 2004: 454–455). De acordo com essa visão, a pesquisa qualitativa enfatiza a construção social da realidade, e se concentra em revelar como a teoria existente opera em exemplos particulares. Essa visão é diferente em termos de atividades de pesquisa, metas e epistemologia daquela visão mais objetiva e positivista, como os estudos caso múltiplos (EISENHARDT e GRAEBNER, 2007).

Os defensores dos estudos de caso múltiplos partem da suposição de que os casos deveriam representar alguma população, como nas pesquisas que envolvem testes de hipóteses (JÓIA, 2003). Amostras teóricas simplesmente significam que os casos são selecionados porque eles são úteis simplesmente por iluminar e estender relacionamentos e lógicas entre construções (EISENHARDT e GRAEBNER, 2007). Um estudo de caso único pode descrever ricamente a existência de um fenômeno, e prover um insight conceitual: “podemos dizer que há algo faltando na teoria, o que acaba motivando pesquisas futuras, justificando conceitualizações mais refinadas e investigações adicionais em empresas normais” (SIGGELKOW, 2007, p. 21). Além disso, um estudo de caso único permite riqueza e variedade de análise.

“Estudos de casos singulares são melhores explicando as nuances dos fenômenos sociais e direcionando mecanismos específicos que produzem, reproduzem, mudam, ou estão de alguma forma relacionados com os fenômenos. (...) O olhar longitudinal abre um leque para múltiplas observações tanto das variáveis independentes quanto das dependentes.” (ARMATO e CAREN, 2002, p. 97-98)

O estudo de caso único na tese assume características de um caso instrumental, uma vez que o caso é escolhido após a definição do problema e do recorte teórico, em contraposição aos casos intrínsecos que dão origem a essas definições e antecedem a realização do estudo em si (ver STAKE, 2005). Ou seja, desde o princípio, o objeto é dado e definido, sendo o caso a oportunidade de estudá-lo e observá-lo.

Para a seleção do caso, avaliei algumas empresas alternativas. Nessa avaliação, levei em consideração a argumentação favorável à realização de um caso instrumental único, associado ao quadro teórico formulado. A seleção dessa empresa para o desenvolvimento do estudo de caso único foi realizada em função dos seguintes critérios:

• primeiro, como a literatura e os modelos da área de estratégia foram desenvolvidos principalmente visando um tipo específico de organização – as grandes corporações –, selecionei uma empresa de grande porte atuando no Brasil.

• segundo, como a literatura de RSE se desenvolveu no âmbito das escolas de negócios norte-americanas e prevendo um tipo específico de agência individual em função da teoria dos stakeholders, busquei uma empresa norte-americana de grande porte atuando no Brasil. • terceiro, a acessibilidade aos dados foi também bastante importante na

seleção da empresa. Como a coleta de dados em grandes corporações norte-americanas no Brasil normalmente pode ter algumas restrições, a existência de um contato prévio com um profissional na empresa, favoreceu a abertura de portas e a realização dos contatos com os níveis gerenciais envolvidos com as estratégias de RSE.

• quarto, pelo fato da empresa possuir estratégias de RSE, reconhecidas dentre os parâmetros apresentados na literatura dominante de RSE (WADDOCK, 2008).

Dentre as alternativas, selecionei uma empresa multinacional norteamericana, do ramo de alimentos e bebidas, cujo escritório central da unidade de negócios no Brasil está localizado no Estado do Rio de Janeiro. A empresa CC (nome fictício) atua há mais de cinqüenta anos no setor de bebidas não-alcoólicas no Brasil, possuindo mais de 150 produtos. A operação da empresa CC em escala nacional é realizada em conjunto com 37 fabricantes franqueados, além de algumas empresas coligadas e parceiras. Esse conjunto de empresas forma o sistema CC (nome fictício). No total de sua operação, no Brasil, estão envolvidos 38 mil funcionários, cerca de 340 mil empregos indiretos, quase R$ 5 bilhões de investimentos nos últimos cinco anos. Ligado à empresa CC, foi criado em 1999 um instituto de responsabilidade social (ao qual atribuí o nome fictício ICC) que desenvolve ações de RSE nas mais diversas área, sendo considerado a “principal ferramenta de investimento social privado do sistema CC” (ver GIFE-USAID, 2008).

Como meu objeto de estudo é a não-ação no processo de formação das estratégias de RSE, delimitei o estudo às ações relacionadas as estratégias de RSE no âmbito da empresa CC e do ICC. A delimitação adotada deve-se ao fato de que a tese não tem o objetivo de desenvolver um estudo de caso descritivo sobre todas as ações de RSE no âmbito do sistema CC no Brasil. Pelo contrário, o estudo de caso único deve ser entendido como meio de alcançar profundidade e aproximação com um tipo específico de agência – a não-ação –, em um determinado contexto e dimensão espaço-temporal. Ou seja, o objeto do estudo não é a empresa ou seu instituto, mas sim a agência e a não-ação em estratégias de RSE. Desta forma, caracterizo a investigação da tese como sendo em uma pesquisa processual, baseada em um estudo de caso único, cuja unidade de análise é a ação e as suas influências oriundas de diferentes níveis.

O quadro de análise apresentado na primeira parte da tese explicita a contribuição da co-determinação dos níveis micro, meso e macro para o entendimento da não-ação nas estratégias de RSE. Por esse motivo, delimito o contexto e dimensão-espaço temporal do caso às estratégias de RSE no âmbito da empresa CC e do ICC, tratando as organizações que compõem o sistema CC (fabricantes) como pertencendo ao nível macro-estrutural de análise da co- determinação e a estrutura internacional à qual a empresa CC está vinculada como nível meso-organizacional.

Conforme afirma Pettigrew (1990, p. 269), a análise contextual de um processo deve dar conta do objeto buscando as interconexões entre os níveis de análise vertical e horizontal ao longo do tempo. O autor entende essas conexões verticais como sendo relacionadas às interdependências entre níveis mais altos e mais baixos de um fenômeno, como por exemplo os reflexos socioeconômicos sobre características intraorganizacionais e comportamentos de grupos de interesse. Enquanto isso, as conexões horizontais fazem referência as inter intra- organizacionais em termos históricos, de passado, presente e futuro.

Procurei produzir dados e analisá-los de forma a refletir nos resultados da pesquisa os principais elementos nos níveis micro, meso e macro que influenciam a agência e que foram apresentados no quadro de análise. Dessa forma, caracterizo a tese como sendo multinível, em busca das interconexões verticais e horizontais em um modelo de co-determinação. Por esse motivo, reforço que os elementos desses três níveis foram analisados a partir dos dados produzidos sobre as estratégias de RSE, sendo a sua co-determinação apresentada na próxima parte da tese.

• Entrevistados e Condição de Produção dos Dados

A opção por reconhecer que os dados são produzidos durante o processo de interação entre pesquisador e pesquisados, como já mencionado, implica em explicitar as condições de sua produção. Seguindo nesse sentido, considero necessário esclarecer para o leitor uma parte principal dessa caracterização: quais foram os meus entrevistados e sob quais condições as entrevistas foram conduzidas.

Para a identificação dos entrevistados, procurei seguir a recomendação de Eisenhardt e Graebner (2007), na qual o desafio de trabalhar com estudos de caso únicos está em garantir durante a pesquisa de campo a disponibilidade e adequação de entrevistados que conheçam o problema de diversas perspectivas. Normalmente, estudos dessa natureza procuram selecionar uma amostra de indivíduos de forma a representar as áreas funcionais da empresa em questão. Porém, como meu estudo possui um lócus de investigação específico, as estratégias de RSE, selecionei meus entrevistados em função da proximidade e do envolvimento com a temática. Em

função dessa característica, minha amostra de respondentes já estava previamente ‘restrita’ aos profissionais que atuam com as estratégias de RSE da empresa CC e do ICC, não sendo possível a seleção de uma outra amostra dentro de um universo já bastante restrito (ver quadro 8).

Quadro 8 – Perfil dos Entrevistados na Empresa CC

Entrevistados Cargo Formação Tempo de

Empresa

01 Analista Administração 3 anos

02 Gerente de

Responsabilidade Social Psicologia 8 anos 03 Gerente de Comunicação Comunicação 8 anos

04 Gerente de Marca Engenharia 5 anos

05 Analista Psicologia 2 anos

06 Gerente de Marca Administração 5 anos 07 Coordenador do ICC Psicologia 1 ano e meio

08 Analista Comunicação 4 anos

Não

Entrevistados Cargo

01 Vice-Presidente de Responsabilidade Social 02 Gerente de Relações Institucionais

Fonte: Elaborado pela autora

Destaco somente que nem todos os profissionais envolvidos foram entrevistados em função da dificuldade de acesso aos mesmos: níveis hierárquicos superiores, ou profissionais de áreas sensíveis (como relações institucionais, por exemplo). Em função dessa restrição, o perfil dos entrevistados variou devido à função que desempenhava em relação às estratégias de RSE. Isso permitiu a construção de um quadro dos profissionais que lidam mais diretamente com a RSE, seja na definição e coordenação das estratégias, quanto no desdobramento das mesmas no dia-a-dia da organização. O quadro 8 indica o perfil dos profissionais da entrevistados na pesquisa da tese. Observe que destaco também, na segunda parte

da tabela, os entrevistados que possuem relações diretas com as estratégias de RSE, mas aos quais não tive acesso, conforme mencionado.

Realizei, pessoalmente, as entrevistas com todos os profissionais, nas instalações da empresa CC, em salas de reunião ou a própria sala do entrevistado. As entrevistas duraram entre 1h10min à 2h20min, foram gravadas com a permissão dos respondentes (ver protocolo de entrevista no anexo deste documento) e transcritas na íntegra. As transcrições das oito entrevistas com os oito profissionais resultaram em quase 300 páginas (com espaço 1,5). O tamanho das entrevistas individuais variavam entre 20 e 66 páginas, cada.

Um ponto interessante em relação ao perfil dos entrevistados, e que está refletido nos dados e resultados que apresento na próxima parte da tese, é a forte conexão dos mesmos com a função de comunicação e marketing na empresa CC. Essa característica, em diversos momentos dificultou, o estudo da não-ação devido ao fato de alguns desses profissionais estarem diretamente envolvidos em RSE como ‘representantes’ ou ‘porta-vozes’ da empresa para o assunto. Isso fez com que dados produzidos estivessem permeado por ‘respostas certas’ ou ‘perspectivas idealmente produzidas’ para alcançar determinados benefícios para a empresa, principalmente em termos de imagem.

Foi exatamente nesses momentos que procurei formular questões adicionais no sentido de adentrar alguns tópicos cuja problematização dos elementos ocultos merecia maior profundidade, ou que as contradições estavam aparentes. Em busca de revelar aos possíveis eventos de não-ação ou suas influências que não estavam presentes no discurso produzido, intercalei a produção de dados de entrevistas com o levantamento de dados secundários, o que se mostrou uma estratégia complementar bastante interessante para os propósitos da investigação.

• Documentos e Dados Secundários

Coletar e examinar documentos é frequentemente um elemento básico em estudos qualitativos (DENZIN e LINCOLN, 2005). Uma função da análise documental é prover “um diferente nível de análise a partir de outros métodos, como o intervalo entre políticas e práticas oficiais e não-oficiais” (BRYMAN, 1989).

Documentos são, por natureza, textos escritos que sustentam e apresentam uma perspectiva histórica. Por esse motivo, os documentos relacionados às estratégias de RSE proveram dados adicionais acerca do processo e do conteúdo das estratégias de RSE, no sentido de capturar novos elementos associados às diferentes vozes e discursos sobre um mesmo processo em estudo.

Os dados da pesquisa documental foram posteriormente conectados aos dados obtidos por meio das entrevistas narrativas históricas. Normalmente, a combinação de mecanismos de coleta de dados permite alcançar resultados que reflitam o pluralismo teórico e metodológico que é necessário a pesquisa em estratégia (BALOGUN et al, 2003; MAHONEY, 1993; HAFSI e THOMAS, 2005; HAFSI e MARTINET, 2008).

Parte dos dados documentais utilizados na tese foi produzida em uma fase preliminar à realização das entrevistas e atuaram como material preparatório. Foi nessa fase preliminar que procurei conhecer as estratégias de RSE da empresa CC, oficialmente apresentadas na mídia especializada. Os dados documentais adicionais consistiram de dados internos e confidenciais e dados públicos. Esses documentos estavam, normalmente, relacionados às estratégias e ao processo de constituição das organização: agendas, atas de reunião, relatórios anuais, resultados de pesquisas internas e externa. Especificamente, os documentos coletados eram de uso interno ou externo, e de acesso confidencial, restrito ou público.

Quadro 9 – Dados Documentais Utilizados na Tese

Tipo Documento Uso da

Informação

Acesso Tipo de Informação

Documentos de Trabalho Confidencial Atas de Reunião

Interno

Restrito Relatórios

Releases para Imprensa Notícias veiculadas

Externo Público

Estratégias de RSE da empresa

Influências dos níveis de análise

Informações sobre a área de atenção tratada na entrevista

Detalhadamente, dentre os dados secundários obtidos por meio de pesquisa documental, destaco que os documentos internos e confidenciais da empresa foram acessados somente quando das entrevistas com os profissionais; os documentos produzidos pela empresa para ampla divulgação foram acessados por meio dos respondentes ou pela a internet; os releases para imprensa e notícias em jornais e revistas eletrônicos, que tratavam de diferentes níveis e categorias de análise, foram indicadas ou não pelos profissionais durante as entrevistas.