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Tilpasning eller dannelse; ikke både/ og men enten/ eller…?

A despeito de ser a interdisciplinaridade um movimento epistemológico (MINAYO, 1991) e metodológico (COLET, 2002) reinaugurado em meados de 1960, na Europa, principalmente na França e na Itália (JAPIASSU, 1976), e muito já haver sido produzido sobre ela no campo teórico (JAPIASSU, 1976; GUSDORF, 1978; FAZENDA, 1995; NUNES, 2002; MINAYO, 1991, 1994; COLET, 2002) sua implementação encontra muitas barreiras e resistências por parte dos mais diversos atores sociais. Dizemos, assim, constituir-se a interdisciplinaridade num vir-a-ser, num desafio, sendo as propostas e formulações contemporâneas uma reafirmação da utopia de uma integridade perseguida historicamente pela ciência (MINAYO, 1994).

Até o advento do pensamento moderno, que tem em Descartes um expoente (MARCONDES, 2006), a maioria dos terapeutas atentava para a interação do corpo / alma, e tratava seus pacientes no contexto de seu meio ambiente social e espiritual (CAPRA, 1982). A filosofia de Descartes alterou profundamente essa situação, mesmo que não tenha sido esta a intenção do autor. A rigorosa divisão entre corpo e mente levou os médicos a se concentrarem na máquina corporal e a negligenciarem os aspectos psicológicos, sociais e ambientais da doença. Nesta concepção, a doença passou a ser vista como um mau funcionamento dos mecanismos

biológicos. O papel dos profissionais de saúde seria, então, intervir para consertar os defeitos no funcionamento de um específico mecanismo disfuncional, enguiçado (CAPRA, 1982).

O século XIX foi marcado pela expansão do trabalho científico. As tecnologias de pesquisas em todos os domínios se enriqueceram prodigiosamente, acompanhadas, em contrapartida, pela multiplicação de abordagens: o tempo dos especialistas chegou e com ele a fragmentação do saber (CAPRA, 1982; MINAYO, 1994). As certezas se tornaram fatos se impondo fragmentariamente. O positivismo tornou-se hegemônico como paradigma do saber e as disciplinas passaram a se afirmar no isolamento de suas questões e metodologias, fazendo da linguagem das ciências rigorosas uma lei absoluta. A pulverização do saber em setores cada vez mais limitados lançou os cientistas numa solidão paradoxal, na medida em que perderam o sentido de uma causa comum que os reunia, ou seja, o sentido da vida e da verdade do universo como um todo (MINAYO, 1994).

Na saúde, a partir do século XIX, emerge o movimento de especializações, contribuindo para a fragmentação do ser humano. Com o advento das especializações, este homem, já expropriado de seus aspectos emocionais, sociais e ambientais pelo modelo biomédico, é fragmentado nos seus múltiplos aspectos orgânicos. É reduzido em partes cada vez menores, correndo-se o risco de perder de vista o paciente como ser humano em sua complexidade. As disciplinas científicas especializaram-se e distanciaram-se da existência concreta, perdidas da sua função primordial: a vinculação do homem com o mundo onde ele vive (CAMPOS, 1997). Na análise de Fazenda (1995), a área da saúde tornou-se o exemplo da fragmentação, por ser o reduto dos especialistas e por ter tido seu sucesso garantido pelo empréstimo da classificação das Ciências Naturais, pelo uso do método anatomoclínico (a toda síndrome clínica corresponderia uma lesão anatômica) e o da experimentação. De um lado, esse sucesso reforçou a Medicina do órgão e, portanto, a visão organicista da doença; de outro lado, apontou o seu limite: reconheceu-se o lugar ocupado por fatores genéticos, socioeconômicos, ambientais e psicológicos.

Campos (2003), ao refletir sobre o objeto de estudo da Medicina e seus modelos de intervenção, considera haver um enfoque desequilibrado para o lado biológico, sendo negligenciadas dimensões subjetiva e social nos processos de saúde, doença e intervenção. Prossegue o autor, afirmando ter este reducionismo inúmeras consequências negativas, tanto em relação à abordagem terapêutica, voltada para a cura, entendida freqüentemente como a simples eliminação de sintomas; por outro lado, situa em plano secundário ações de promoção e prevenção da saúde.

contradições e dificuldades acumuladas, a fragmentação do saber e a supremacia das especializações passam a ser questionadas, surgindo um movimento pela integração dos saberes e das práticas em saúde. A interdisciplinaridade emerge num panorama em que se acredita que a especialização fracassou (NUNES, 2002; MORIN, 2008), em especial na saúde, onde o modelo biomédico ainda domina o espaço da formação e da organização do trabalho no campo da saúde, área onde a especialização floresceu de forma intensa, sobretudo pela influência do modelo biomédico. Consideramos, entretanto, a despeito dos limites do modelo biomédico, ter ele aportado significativos avanços na clínica e no controle de doenças. A interdisciplinaridade se apresenta hoje como oposição sistemática a um tipo tradicional de organização do saber, constituindo-se num convite a lutar contra a multiplicação desordenada das especialidades e das linguagens particulares nas ciências.

No campo da saúde, este movimento de resgate da unicidade do Ser Humano e, portanto, de ser tratado em toda sua complexidade, assumiu diferentes formas de aproximação e trocas entre os saberes e as disciplinas. As disciplinas são compreendidas como “um saber organizado, constituído por um conjunto de teorias, conceitos e métodos voltados para melhor compreensão de fenômenos. Ou seja, são territórios do saber que possuem objetos e formas específicas de concebê-lo e dele se aproximar” (FURTADO, 2007, p. 240). Na tentativa de caracterizar melhor as diferentes formas de aproximação e trocas entre saberes e disciplinas, alguns autores “elaboraram conceitos delineando os modos de interação disciplinar, fixando- os em algum ponto entre dois pólos: por um lado, quase nenhum contato entre as disciplinas, e, no outro extremo, grande intercâmbio entre elas” (FURTADO, 2007, p. 240). Jantsch (2000) propõe uma classificação, ainda utilizada com frequência, designando a relação entre as disciplinas da seguinte forma: a multidisciplinaridade, a pluridisciplinaridade, a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade, representando, respectivamente, graus cada vez maiores de interação e troca entre universos disciplinares distintos.

A multidisciplinaridade é caracterizada pela justaposição de várias disciplinas em torno de um mesmo tema ou problema, sem o estabelecimento de relações entre os profissionais representantes de cada área no plano técnico ou científico. As várias disciplinas atuam de forma separada, embora possam estar próximas espacialmente, carecendo de iniciativas entre si e de organização institucional que estimule e garanta o diálogo e a colaboração entre elas (FURTADO, 2007). Na multidisciplinaridade não há propriamente cooperação sistemática entre os diversos campos disciplinares, mas uma justaposição de disciplinas variadas, sem esforço de síntese (JANTSCH, 2000).

entre si, havendo coordenação por parte de uma dentre as disciplinas ou pela direção da organização (JANTSCH, 2000). Nesse caso, são estabelecidos objetivos comuns entre as disciplinas, devendo estas desenvolver estratégias de cooperação para atingí-los. Nesta forma de relação pluridisciplinar, prevalece a noção de complementaridade sobre a ideia de integração de teorias e métodos, ou seja, opera-se muito mais com a concepção de que uma área do saber deve preencher eventuais lacunas da outra.

Transdisciplinaridade é um conceito desenvolvido por Piaget (1972) durante encontro promovido, em 1970, pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico de Países Desenvolvidos (OCDE), em Nice, França, para discutir o tema da interdisciplinaridade (FURTADO 2007). Nesse evento, Piaget postulou o rompimento entre as fronteiras disciplinares com o estabelecimento da transdisciplinaridade. Para alguns autores, como Fazenda (1995), a transdisciplinaridade é um horizonte inalcançável, tendo como função o direcionamento do caminho, tensionando os esforços em busca de modos de entrosamento mais profundos entre campos disciplinares. Outros autores consideram a transdisciplinaridade a única forma realmente válida de interação e um modo efetivo de superar as limitações da interdisciplinaridade (SILVA, 2006).

Spiandorello e Fillippini (2006) consideram que, no trabalho multidisciplinar, diferentes pesquisadores ou professores produzem ou utilizam conhecimentos de forma independente, sem conexão funcional entre si, objetivando se complementarem na produção ou transmissão do conhecimento. Já no trabalho interdisciplinar, acontece a execução das atividades de gerenciamento e operacionalização de projetos para resolução de problemas ou produção do conhecimento, qual seja, a execução do método de um projeto interdisciplinar. O trabalho interdisciplinar se aplica na produção do conhecimento e no ensino, sendo constituído pela criação e análise dos dois tipos de projetos com a participação de diferentes áreas do conhecimento: os de pesquisa e de ensino. A interdisciplinaridade é um processo que acontece também ao nível da subjetividade de uma pessoa. O ser interdisciplinar que produz conhecimento é aquele que permite à mente a fecundação de princípios de várias disciplinas, a gestação do produto dessa fecundação e o nascimento de um conhecimento; portanto, o conhecimento é a exteriorização do trabalho mental de uma pessoa. O essencial é reunir as teorias e os métodos das diferentes áreas do conhecimento à procura de mais conhecimentos. Portanto, interdisciplinaridade é uma qualidade do ser interdisciplinar (SPIANDORELLO; FILLIPPINI, 2006).

A interdisciplinaridade ocorre, portanto, quando há interação das diversas disciplinas, partilhando saberes e práticas, embora sejam mantidos núcleos específicos de

atuação disciplinar. Esta categoria será aprofundada na seqüência, por ser ela uma das categorias teóricas por nós trabalhada.

A busca de uma compreensão teórica sobre a interdisciplinaridade se materializa a partir dos anos 1970, prolongando-se até a atualidade. Desde Piaget (1972), passando por Japiassu (1976), até trabalhos mais recentes, como os de Minayo (1994), Almeida Filho (1997) e Nunes (2002), dentre outros, as preocupações conceituais estão presentes, e todos assinalam que falta a esta área uma sistematização mais rigorosa (NUNES, 2002). Nesse sentido, dois pontos devem ser abordados; primeiro, sobre a diversidade de termos que perpassam o campo numa tentativa de melhor compreender a interação e mesmo a integração de distintos campos de saberes; segundo, a diversidade de correntes teóricas na formulação do projeto interdisciplinar.

O conceito de interdisciplinaridade encerra diferentes concepções e é estudado ao longo dos anos por diferentes autores. No Brasil, destaca-se o filosofo Hilton Japiassu, que, em 1976, lançou o livro Interdisciplinaridade e patologia do saber, largamente conhecido no meio acadêmico. Para ele, a especialização é considerada uma patologia do saber.

O fenômeno interdisciplinar tem dupla origem: uma interna, tendo por característica essencial o remanejamento geral do sistema de ciências, que acompanha seu progresso e sua organização; outra externa, caracterizando-se pela mobilização cada vez mais extensa dos saberes convergentes em vista da ação. (JAPIASSU, 1976. p. 42-43).

Autora importante neste campo no Brasil é também Ivani Fazenda (1995, 2002), tendo publicado várias obras com esta mesma temática. Hilton Japiassu e Ivani Fazenda constituem referência obrigatória sobre a temática da interdisciplinaridade no Brasil (FURTADO, 2007).

Para Japiassu (1976), a interdisciplinaridade deve estar fundada sobre a competência de cada especialista. É preciso que os profissionais estejam seguros dos métodos que empregam, para que possam confrontar seus resultados com os de outras especialidades. Necessário, ainda, é o reconhecimento, por parte de cada profissional, do caráter parcial e relativo de sua disciplina, de seu enfoque, cujo ponto de vista é sempre particular e restrito. Por outro lado, os profissionais devem se impregnar de um espírito epistemológico amplo e arejado. Significa abrir-se às outras especialidades, estando atento a tudo o que as outras disciplinas possam trazer de enriquecimento ao seu domínio de investigação e/ou atuação. O espírito interdisciplinar não exige que sejamos competentes em vários campos do saber, mas que nos interessemos, de fato, pelo que fazem nossos colegas. Assim, poderemos inaugurar

uma Pedagogia na qual o profissional não seja situado neste ou naquele compartimento do saber, mas situá-lo no horizonte do fenômeno humano (JAPIASSU, 1976). Esta concepção implica reagir contra todos os particularismos e sectarismos intelectuais, contra as barreiras culturais, que atribuem status diferenciados às disciplinas.

Interdisciplinaridade, para Jantsch (2000), representa uma síntese entre duas ou mais disciplinas, emergindo discursos desta integração de saberes e estabelecendo novas relações entre as disciplinas. Na concepção de Minayo (1991), a interdisciplinaridade deve ser pensada com apoio em uma teoria geral de racionalidade humana, buscando por meio da cooperação interdisciplinar estabelecer críticas, tanto à racionalidade técnica, instrumental, e à ideologia tecnocrática, como também “em relação à tentativa de colonização do mundo vital pela ciência e pelas tecnologias sofisticadas e à ideologia funcionalista que as justifica” (MINAYO, 1991. p. 73).

Nunes (2002) discute a interdisciplinaridade em três dimensões. A primeira dimensão aborda a elaboração do conceito de interdisciplinaridade, que perpassa uma forma de pensar o conhecimento. A segunda dimensão, como um movimento expresso em atividades de instituições nacionais e internacionais, seminários e congressos. A terceira dimensão envolve uma prática teórica que reelabora o conhecimento e procura retorná-lo sob a forma de práticas e ações.

Saupe et al. (2005), quando discutem as competências dos profissionais para o trabalho interdisciplinar, têm um foco um pouco mais pragmático. Utilizando as categorias epistemológicas de Fleck (1986) qualificam as profissões como sendo diferentes “Coletivos de Pensamento”, fundamentadas, cada qual, em seu estilo de pensamento, ou seja, num olhar estilizado que permeia um conjunto de regras para a abordagem e resolução de um problema, baseados numa formação específica e diferenciada, com marco conceitual definido. Nesta perspectiva, os autores consideram que “o médico, o enfermeiro, o odontólogo, o psicólogo ou qualquer outro profissional da saúde compõem distintos Coletivos de Pensamento e, conseqüentemente, constroem fatos novos diante de problemas comuns” (SAUPE et al., 2005, p.523). Para os autores, interdisciplinaridade é a relação articulada entre as diferentes profissões da saúde (SAUPE et al., 2005, p.523).

Furtado (2007) considera representar a interdisciplinaridade um grau mais avançado de relação entre disciplinas, se considerarmos o critério de real entrosamento entre elas. Para o autor,

seriam estabelecidas relações menos verticais entre diferentes disciplinas, que passariam, também, a compartilhar uma mesma plataforma de trabalho, operando sob conceitos em comum e esforçando-se para decodificar o seu jargão para os

novos colegas. Deve-se perceber que, aqui, não há simples justaposição ou complementaridade entre os elementos disciplinares, mas uma nova combinação de elementos internos e o estabelecimento de canais de trocas entre os campos em torno de uma tarefa a ser desempenhada conjuntamente. Espera-se que daí surjam novos conhecimentos e posturas dos pesquisadores envolvidos”. (p. 242).

A interdisciplinaridade, contudo, não se realiza apenas no domínio da informação recíproca entre as disciplinas, quer dizer, no nível da permuta de informações, porque só assim as condutas dos profissionais e das organizações não se alteram, permanecendo independentes. Se houver, entretanto, um confronto da totalidade das disciplinas cooperantes, no qual cada uma se arrisca e se modifica pela outra, evidencia-se então uma prospectiva da totalidade das disciplinas em colaboração e o problema da comunicação se converte numa metodologia propriamente interdisciplinar.

Japiassu (1976) define algumas etapas na construção do projeto interdisciplinar: a) constituição de uma equipe de trabalho, de forma a facilitar a cooperação entre

os profissionais, sendo esta uma alternativa viável e eficaz para os perigos que a especialização crescente das disciplinas pode ter;

b) estabelecimento da problemática da intervenção interdisciplinar. Etapa esta onde cada um traz seu ponto de vista, sua via de acesso ao real, na esperança de que outros tragam um complemento importante ao empreendimento comum. Trata-se de uma etapa estratégica;

c) estabelecimento dos conceitos-chaves do empreendimento comum. Clarificação do vocabulário comum a ser utilizado por todos. Se os especialistas não estiverem de acordo quanto aos termos e aos conceitos a serem utilizados, correm o risco de construir um diálogo interdisciplinar, fundado em preconceitos, em mal entendidos e em equívocos. Considera Japiassu (1976) ser necessário transpor o obstáculo da linguagem para que se efetive um projeto interdisciplinar;

d) repartição das tarefas, de forma a determinar as responsabilidades de cada um no trabalho interdisciplinar. Estabelecer a função e a autoridade que cada um deverá ocupar, sem criar hierarquia rígida, evitando a emergência de resistências e obstáculos para a expressão livre de opiniões e sentimentos; e e) colocar em comum todos os dados, resultados parciais, experiências de cada

profissional em questão. A análise constitui-se numa etapa vital do trabalho interdisciplinar. É um aprofundamento susceptível de uma generalização e de ser ressituado no conjunto do projeto comum, descobrindo as interconexões.

Nesta fase da partilha em comum, o profissional deve estar atento para não atribuir a si mesmo pessoalmente aquilo que é patrimônio comum dos membros da equipe.

A produção de saberes e práticas em comum pressupõe, portanto, a colaboração interprofissional, exigindo qualidades de tolerância mútua, de respeito ao outro, de sentimento de pertença a um grupo. É imprescindível não ser a colaboração interprofissional comprometida pela luta dos estatutos profissionais. Essa luta das profissões e esses conflitos de autoridades podem inviabilizar um trabalho interdisciplinar, dificultando o cumprimento do princípio doutrinário da integralidade no SUS.

Para Colet (2002), a interdisciplinaridade é uma forma de fazer, um processo fundado na organização dos saberes. A interdisciplinaridade não é um objeto, realidade em si mesma, materializada. Ela é, antes, um método. De acordo com esta óptica, a interdisciplinaridade é decorrente da construção de sentido, de um método de conquista do real e de um processo de produção do saber. Desta forma, Colet (2002) considera ser mais apropriada e mais pertinente a expressão projeto interdisciplinar, para designar a característica processual inerente à noção de interdisciplinaridade. A concepção teórica que nos inspira em nosso estudo se fundamenta nas formulações de Colet (2002), razão pela qual aprofundaremos o pensamento da autora.

2.2 A interdisciplinaridade na compreensão de Colet

A interdisciplinaridade se apoia sobre três princípios (COLET, 2002), formando o que a autora denomina de “pedestal conceitual dos processos interdisciplinares” (“socle conceptuel des démarches interdisciplinaires” (Traduzimos).

Figura 3 - Estrutura conceitual da Interdisciplinaridade, segundo Colet (2002)

Fonte: Adaptada de Colet (2002) Estes princípios são:

1. a interdisciplinaridade implica um principio de integração conceitual teórico e/ou metodológico de duas ou mais disciplinas colocadas uma na presença da outra;

2. para realizar esta integração, há necessidade de uma colaboração, isto é, reunir os representantes das diferentes disciplinas em questão. A integração dos aportes disciplinares necessita de uma coordenação e de uma cooperação das competências cientificas, tendo uma formação apropriada nas disciplinas implicadas; e

3. finalmente, o resultado esperado da integração e da colaboração toma forma através de uma síntese. O modelo de Colet (2002), na versão traduzida para o Português, pode ser visualizado na Figura 3, onde reproduzimos o desenho de Colet (2002), com a substituição do termo “interdisciplinar” por “interprofissional”, conforme efetivado por Soubhi et al. (2008).

Os três princípios são interdependentes, em particular o da síntese, por ser uma consequência e um produto dos dois primeiros. Juntos, eles representam um sistema de interação. A exposição destes princípios reforça a ideia de não ser a interdisciplinaridade praticada em abstrato. Ela implica, de fato, um projeto. Para que haja um projeto

Organização de

Saberes

Organização do

Trabalho

Integração

Colaboração

Síntese

Projeto Interdisciplinar

Dimensão Cognitiva Dimensão Pragmática

interdisciplinar, devemos conhecer claramente o sistema conceitual e as interações que ocorrem.

A concepção de interdisciplinaridade formulada por Colet (2002) considera que todo o projeto compreende uma dimensão cognitiva, qual seja, o principio da integração; e uma dimensão pragmática, referindo-se ao principio da colaboração. As duas dimensões são totalmente correlacionadas e suas interações produzem a síntese, conforme o principio da interdependência. O principio da integração disciplinar tem lugar na organização dos saberes, enquanto a colaboração se efetiva no domino da organização do trabalho.

A seguir, teceremos comentários sobre cada um destes princípios, representados na figura 3.

2.2.1. Integração e organização de saberes

O projeto interdisciplinar se define no plano cognitivo por uma nova organização dos saberes. Isto implica a presença, a articulação e a confrontação de várias disciplinas, quer elas sejam próximas ou não, e condena toda forma de supremacia disciplinar, onde uma disciplina impõe seus conceitos e métodos, considerando as outras disciplinas como auxiliares. A organização dos saberes atesta a interação dos campos disciplinares, dando lugar a um quadro de referência não disciplinar. Este quadro referencial resulta da interação e troca estabelecidas entre as disciplinas (conceitos, teorias, métodos, instrumentos de análise etc.) e do grau de interpenetração obtida entre as disciplinas. No plano da organização dos saberes, Colet (2002) define três casos possíveis:

1. uma rede conceitual para colocar em relação os conceitos diretores, sem modificação das disciplinas que estão contribuindo;

2. a convergência onde diferentes disciplinas contribuem na resolução de um determinado problema; e

3. o quadro integrado, implicando uma formalização mais profunda, se comparada ao caso da rede conceitual (caso 1). Em conseqüência, as disciplinas que estão umas em presença de outras são modificadas.

2.2.2 Colaboração interprofissional e organização do trabalho

desenvolvidos para realizar um projeto (COLET, 2002), incluindo-se nesta dimensão tudo que é ligado à organização e à gestão do trabalho de equipe: a composição da equipe, o funcionamento interno, a dinâmica da equipe, o processo de tomada de decisão, os modos de comunicação, os problemas de identidade e de lealdade disciplinar etc. A organização do trabalho não se resume unicamente à gestão do trabalho em equipe. Todo projeto interdisciplinar tem necessidade de um enquadramento. Por tal motivo, a dimensão pragmática