6. Drøfting
6.2.2. Til tverrfaglig behandling
As entrevistas semiestruturadas individuais foram conduzidas por duas pesquisadoras treinadas, sendo uma das entrevistadoras a autora deste trabalho, nutricionista de formação, e a outra, aluna de graduação em nutrição que desenvolveu uma pesquisa de iniciação científica junto ao grupo do ESAO- SP.
Um roteiro de tópicos pré-testado foi utilizado (Anexo 2). Este roteiro lista os tópicos para discussão, em forma de perguntas abertas, sendo o instrumento de indução para os assuntos em investigação, de acordo com a literatura temática (ARTHUR e NAZROO, 2004).
O pré-teste foi realizado com 4 indivíduos adultos, dois homens e duas mulheres, moradores e trabalhadores da cidade de São Paulo, funcionários de uma instituição de ensino, com diferentes níveis de escolaridade. Para dois deles, as perguntas foram feitas em relação ao bairro em que moravam e para os outros dois, em relação ao bairro em que trabalhavam. Após o pré-teste, alguns ajustes foram realizados no instrumento.
Para a elaboração do roteiro de entrevista, duas perguntas norteadoras foram estabelecidas:
- Como é a percepção dos indivíduos sobre os estabelecimentos de comercialização de alimentos neste bairro em que vivem e a influência nas práticas alimentares?
bairro em que vivem e como isso se relaciona com o consumo de alimentos, especialmente frutas e hortaliças e alimentos ultraprocessados?
Todas as entrevistas foram registradas, com o consentimento do entrevistado, em gravador digital e transcritas textualmente. O tempo de duração médio das entrevistas foi de 35 minutos, com variação entre 12 e 47 minutos. O processo de transcrição das entrevistas foi realizado por profissional especializado, adotando-se a transcrição literal das falas e corrigidos apenas os vícios de linguagem. O material transcrito foi cuidadosamente revisado e preparado em formato de discursos, ou seja, um texto contínuo para cada sujeito, formando assim o corpus da pesquisa.
4.3.2 Análise de Conteúdo
Para as etapas de organização, avaliação e codificação do corpus da pesquisa adotou-se a Análise de Conteúdo proposta por Bardin, caracterizada por um conjunto de procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, visando à obtenção de indicadores que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção dessas mensagens (BARDIN, 2011).
A Análise de Conteúdo prevê três fases de tratamento do material: (I) pré- análise, (II) exploração do material e (III) inferência e interpretação. Os procedimentos descritos a seguir foram adotados para cada uma destas fases e
Corpus é o conjunto de documentos considerados para serem submetidos aos
os pressupostos de exaustividade, representatividade, homogeneidade, pertinência e exclusividade foram seguidos a rigor.
Segundo a regra da exaustividade, todos os elementos do corpus devem ser submetidos à análise, e desta forma, não houve nenhuma exclusão do material obtido nas entrevistas. A regra da representatividade diz respeito ao potencial de generalização da amostra, para isso foram estabelecidos os critérios de amostragem já explanados, buscando a heterogeneidade em relação aos ambientes alimentares e às características demográficas dos sujeitos do estudo.
A homogeneidade refere-se à padronização na produção do material a ser submetido à análise, e para tanto, adotou-se o roteiro de entrevistas semiestruturado que foi conduzido por entrevistadoras treinadas e a transcrição realizada por um profissional especializado, seguida de conferência e ajustes realizados pela autora deste estudo.
A regra de pertinência diz que “os documentos retidos devem ser adequados enquanto fonte de informação, de modo a corresponderem ao objetivo que suscita a análise” (BARDIN, 2011). Os procedimentos já esclarecidos de seleção dos locais e indivíduos e das entrevistas, ancoram o
corpus da pesquisa.
I – Pré-Análise
Esta fase foi iniciada pela leitura flutuante dos discursos, buscando-se a impregnação do pesquisador pelas falas dos sujeitos por meio da decifração estrutural, uma análise vertical centrada em cada entrevista, permitindo o olhar para a “equação particular” do indivíduo e o amadurecimento para a próxima
etapa de organização analítica dos dados, a transversalidade temática.
Em seguida, partiu-se para a escolha dos objetos temáticos e das categorias de análise, tomando-se por base as perguntas norteadoras. A definição destes objetos temáticos foi feita a posteriori, fundamentada nas verbalizações dos indivíduos e no diálogo destas com as conceituações do referencial teórico, obtendo-se algumas categorias nativas, que são aquelas que emergem espontaneamente do empírico. O movimento contínuo da teoria para os dados e vice-versa favorece a formação de categorias cada vez mais claras e apropriadas aos propósitos do estudo (CÂMARA, 2013).
Os objetos temáticos, após definidos, foram então organizados em categorias, relacionando-se os temas de análise dentro de cada objeto. Estas categorias emergiram dos discursos. As figuras 1 e 2 representam o esquema adotado para o Plano de Análise de Conteúdo a partir das definições dos objetos temáticos e as respectivas categorias.
Figura 1 – Esquema de plano para a análise de conteúdo. Objetos temáticos, categorias e indicadores de acordo com a pergunta
norteadora: “Como é a percepção dos indivíduos sobre os estabelecimentos de comercialização de alimentos neste bairro em que vivem e a sua influência nas práticas alimentares? ”
PERCEPÇÃSO SOBRE ACESSO A EQUIPAMENTOS DE COMERCIALIZAÇÃO DE
ALIMENTOS
•CATEGORIAS:
•Acesso a Feiras e Sacolões •Acesso a Mercados e Supermercados •Acesso a Restaurantes •INDICADORES: • Local favorável em quantidade e qualidade •Local desfavorável em quantidade e qualidade
PERCEPÇÃO SOBRE FATORES RELACIONADOS AOS
ALIMENTOS
•CATEGORIAS:
•Custo dos Alimentos
•Higiene e Segurança Alimentar •INDICADORES:
•Local favorável •Local desfavorável •Influência na escolha
PERCEPÇÃO SOBRE O AMBIENTE ALIMENTAR
•CATEGORIA
•Percepção sobre o ambiente alimentar •INDICADORES: •Percepção sobre caracterísiticas favoráveis •Percepção sobre caracterísiticas desfavoráveis •CATEGORIA: •Relação do ambiente na alimentação •INDICADORES: • Interfere positivamente •Interfere negativamente • Não interfere PERCEPÇÃO SOBRE DISPONIBILIDADE DE ALIMENTOS •CATEGORIAS: •Disponibilidade de frutas e hortaliças •Disponibilidade de alimentos ultraprocessados •INDICADORES: •Local favorável •Local desfavorável
Figura 2 – Esquema de plano para a análise de conteúdo. Objetos temáticos, categorias e indicadores de acordo com a pergunta
norteadora: “Como é a rotina de aquisição, consumo e preparo dos alimentos neste bairro em que vivem e como isso se relaciona com o consumo de alimentos, especialmente frutas e hortaliças e alimentos ultraprocessados”?
CONSUMO DE FRUTAS E HORTALIÇAS
•CATEGORIAS:
•Barreiras para o Consumo •Motivações para o Consumo
•INDICADORES: •Custo •Disponibilidade •Hábito •Gosto •Saúde CONSUMO DE ALIMENTOS ULTRAPROCESSADOS •CATEGORIAS:
•Barreiras para o Consumo •Motivações para o Consumo
•INDICADORES: •Custo •Disponibilidade •Hábito •Gosto •Saúde •Crianças PRÁTICAS DE AQUISIÇÃO, PREPARO E CONSUMO DE ALIMENTOS •CATEGORIAS: •Compra de Alimentos • Preparo de Alimentos • Consumo fora do Lar
•INDICADORES: •Tem dificuldades •Não tem dificuldades • Atribuição de outra pessoa
CONHECIMENTO
•CATEGORIA:
•Conhecimento sobre alimentação saudável e não saudável
•INDICADORES:
• Frutas, hortaliças e outros alimentos in natura
• Teor de gordura dos alimentos
•Qualidade, higiene e preparo dos alimentos •Equilíbrio e Moderação •Alimentos orgânicos
II – Exploração do Material – Codificação
Nesta etapa definiu-se que, para codificação dos discursos de acordo com as categorias do plano de análises, os parágrafos seriam adotados como unidade de registros. E a classificação foi realizada por análise da semântica, ou seja, pelo sentido das palavras. A codificação foi realizada pela autora desta pesquisa.
A partir de um livro de códigos especificando os objetos temáticos, as categorias e os indicadores, os discursos foram analisados e classificados. Para a classificação dos parágrafos, adotou-se a técnica “cutting and sorting”, que consiste na identificação dos trechos ou expressões que apresentam importância ao tema (objeto temático), o recorte deles, mantendo o contexto no qual ele ocorreu, e então a classificação destes recortes de acordo com as categorias e indicadores estabelecidos (RYAN E BERNARD, 2003). Para enumeração, adotou-se a frequência das referências (recortes) em cada categoria e indicador.
Para estas etapas de organização, codificação e enumeração dos dados foi utilizado o software NVivo10, que permite a criação de “casos” para cada indivíduo e de “nós” para os objetos temáticos, categorias e indicadores. Na etapa de classificação, os trechos selecionados dos discursos de cada indivíduos foram vinculados aos nós de acordo com a proposta de codificação. Ainda segundo BARDIN (2011), a utilização da tecnologia na Análise de Conteúdo traz um acréscimo de rigor na organização da investigação, possibilitando a manipulação de dados complexos e otimizando o processo de ordenação das informações provenientes dos discursos.
III – Tratamento dos Resultados – Inferência e Interpretação
Para as inferências, a proposição parte do instrumento de indução aplicado (roteiro de entrevista semiestruturada), adotando-se como fenômenos (efeitos) as práticas alimentares e percepções dos indivíduos diante das conceituações do ambiente alimentar em quais estão inseridos (objeto).
A utilização da codificação na Análise de Conteúdo resulta em indicadores capazes de revelar realidades subjacentes, o que permite analisar a relevância dos temas no material empírico, neste caso nos discursos dos sujeitos participantes da pesquisa. No entanto, podem existir significações subjacentes que não aparecem nesta primeira etapa avaliativa de categorização e que a análise interpretativa, contudo, procura extrair: mitos, símbolos e valores, todos esses sentidos segundos, mais profundos, que se movem com a descrição e experiência sob o sentido primeiro (BARDIN, 2011).
A relação entre os dados obtidos e a fundamentação teórica, ou seja, a teorização, é o que permite dar sentido à interpretação. No processo interpretativo busca-se o significado que se desvela do imediatamente apreendido. Para este fim, os conceitos e o método analítico utilizados para a interpretação estão definidos no referencial teórico-metodológico.
Para a análise interpretativa utilizaram-se as informações de distribuição dos indicadores categóricos das referências emergidas dos discursos. A relevância foi considerada de acordo com o indicador que ocorreu com maior frequência em cada categoria, frequência esta relativa ao total de referências em cada um dos temas. A partir destes indicadores mais relevantes, considerados como representativos para a categoria analítica, os recortes dos discursos correspondentes foram submetidos à interpretação (BARDIN, 2011). A
associação das análises dos dados qualitativos aos dados quantitativos de caracterização dos indivíduos e do ambiente alimentar foi utilizada para a melhor compreensão dos significados e das interações observadas nestes ambientes.
As categorias e indicadores da análise de conteúdo estão apresentados em tabelas de frequências. Os conteúdos utilizados para a composição dos indicadores são interpretados e alguns exemplos de referências extraídas dos discursos também são apresentadas. Para a citação dos trechos dos discursos, foram adotados códigos que identificam os indivíduos segundo o cluster de pertencimento (C1 – cluster 1 ou C2 – cluster 2) associados às letras do alfabeto, distribuídas aleatoriamente, apenas para diferenciar a fala de cada indivíduo, mantendo o sigilo de identidade (C1A, C2B ...).
4.4 REFERENCIAL TEÓRICO-METODOLÓGICO