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Til slutt

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A multiplicidade da obra nietzschiana tem um espelho côncavo em Zaratustra. Mesmo que o autor tenha continuado a escrever depois da finalização desta obra ou que tenha planejado outros livros que sairiam depois dele e que nem sequer foram concluídos, AFZ se tornou o lugar da reunião dos principais assuntos abordados pelo pensamento do filósofo. É o som que ecoou todos as vozes do inquieto Nietzsche. Em Ecce Homo, quando reunia os motivos pelos quais podia ser reconhecido como "um destino", após apresentar novas palavras sobre suas obras publicadas, o filósofo diz: “Fui compreendido? – Não disse palavra que não houvesse dito há cinco anos pela boca de Zaratustra”357. Aqui é como que

se dissesse que a obra fosse a reunião de suas palavras e pensamentos, é como se convidasse novamente o leitor a revisitar o livro para dali tirar sempre significações e perspectivas novas.

É claro que Nietzsche não faz essa indicação porque o livro era de fácil compreensão ou porque serviria como uma espécie de glossário temático de sua filosofia, mas porque entendia a vivacidade da potência daquelas palavras para incomodar e causar a queda de preconceitos, principalmente os morais, naqueles que dele se aproximassem. Sabia que havia

gerado um livro vivo, que não morreria com ele mas que, ao contrário, floresceria na posteridade. Cumpriu-se a suspeita de que um dia teríamos cátedras para a interpretação do Zaratustra358. Mas o Zaratustra nietzschiano surgiu com o propósito de ser vivido e não

apenas logicamente entendido. Vejamos o que Nietzsche falou sobre o episódio de um de seus leitores não ter entendido sua obra:

Quando em certa ocasião o dr.Henrich von Stein queixou-se honestamente de não entender palavra do meu Zaratustra, disse-lhe que era natural: haver compreendido seis frases dele, ou seja, tê-las vivido, elevaria alguém a um nível bem superior ao que os homens “modernos” poderiam atingir.359

Zaratustra é o guerreiro, aquele que governa uma máquina de guerra. É a mais potente dinamite que Nietzsche implantou na cultura. Como já dissemos, ele veio combater a moral, o idealismo e a racionalidade moderna. Ele surge como um incômodo no meio da praça pública que se distrai com o equilibrista, o perigo de suas palavras faz com que ele seja expulso de lá, que seja visto como um louco, como um perigo para ouvidos ainda muito crentes, e ele acaba pescando um cadáver ao invés de pessoas. O palhaço que o via de longe expulsou-o da cidade dizendo que ali as pessoas o odiavam, que ele era visto como inimigo e desprezador360. De fato, nem todos os ouvidos estavam prontos para suas duras palavras.

Porém, ele continuaria sendo uma tempestade para quem se pusesse em seu caminho, violento acontecimento da natureza que se impõe, “um vento forte é Zaratustra para todas as baixuras; e este conselho dá ele aos seus inimigos e a tudo que cospe e escarra: ‘guardai de cuspir contra o vento!’.”361

Zaratustra é o destruidor e o construtor. Ele se opõe de maneira direta a todo aparato moral e religioso que se impõe ao homem, tornando-se uma espécie de antípoda do Cristo que se prega no cristianismo. Os homens bons, justos, santos, são para ele os ressentidos, os domesticados e alienados da força de que são capazes de dispor para permanecer vivos. O alvo de seu ataque é a consciência decadente do cristão que nega a existência na espera de salvação, que se agarra a tábuas morais como quem se agarra a boias salva-vidas enquanto se aproxima uma onda devoradora. Ele destrói a letra que orienta o rebanho e oferece a possibilidade de que cada um faça suas próprias inscrições. “Aqui eu me acho sentado, esperando, com velhas tábuas partidas ao meu redor, e também novas tábuas inscritas pela

358 Cf. NIETZSCHE, EH, Por que escrevo livros tão bons, §1, 2009, p. 50. 359 NIETZSCHE, EH, Por que escrevo livros tão bons, §1, 2009, p. 50. 360 Cf. NIETZSCHE, Z, Prólogo de Zaratustra, § 7, p. 21.

metade. Quando chegará minha hora?”362

A destruição da moralidade é a destruição da pressuposição da existência de um bem e de um mal universais, que todos os homens presumem saber o que seja. Zaratustra vem acordar aqueles que estão presos nessa sonolência e avisar que: “ninguém sabe ainda o que é bom e mau – a não ser aquele que cria!”363. Estaremos prontos para tal tarefa?

Zaratustra é também "antimessias" e "antiprofeta". Apesar de trazer ventos novos aos homens, ele não está preocupado em doutriná-los ou formar com eles novos rebanhos. A ideia do ser iluminado e ungido, enviado por uma divindade para orientar a humanidade, é por ele descartada. Não existe verdade fundamental ou metafísica alguma para ser revelada a não ser a de que podem vir a existir quantas verdades fores necessárias, pelo tempo que forem úteis, para as pessoas que servirem364. “‘Este – é o meu caminho, - qual é o vosso?’,

assim respondi aos que me perguntaram pelo ‘caminho’. Pois o caminho – não existe!”365.

Ele precisa ser ouvido, mas precisa também ser contestado, acolhido, mas abandonado, afirmado e negado. Quando decidiu abandonar os discípulos que o seguiam, Zaratustra exclamou:

“Em verdade, eu vos aconselho: afastai-vos de mim e defendei-vos de Zaratustra! Mais ainda: envergonhai-vos dele! Talvez vos tenha enganado. (...) Agora vos digo para me perder e vos achar; e somente quando também vós me tiverdes negado eu retornarei a vós.366

Não existem mais muletas, não se propõe mais confiar em nenhuma receita existencial. Estamos novamente autorizados a erigir nossas virtudes, definir por conta própria nosso bom e nosso ruim. É a hora dos andarilhos e suas respectivas sombras.

Zaratustra é o músico, mas autor de um novo som que liberta. Som trágico que inclusive conduz de novo quem o recebe à arte da audição. “Talvez se possa ver o Zaratustra inteiro como música; - certamente um renascimento da arte de ouvir era uma precondição para ele”367. É o resultado do último desenlace da música wagneriana e o respirar de uma

362 NIETZSCHE, Z, Das velhas e novas tábuas, §1, 2014, p. 187. 363 NIETZSCHE, Z, Das velhas e novas tábuas, §2, 2014, p. 187.

364 Pontua-se que não se trata da defesa do conceito contemporâneo de pós-verdade (post-truth) que cresce e

vigora a cada dia em nossa sociedade. Não é uma sobreposição de interpretações pessoais a eventos evidentes, nem uma substituição valorativa do factual pelo exclamação apelativa das crenças pessoais. O que está posto aqui é que a visão sobre a verdade enquanto fundamento universal e moral para a vida, ou seja, aquela que vem antes do fato e que lhe serve ora de base, ora de explicação e orientação, é posta de lado para que apareçam as variações de experiências dele, sem precisar apontar para uma arché nem para um télos. Defender qualquer verdade a qualquer custo é o mesmo que defender uma única verdade à todo custo, neste caso.

365 NIETZSCHE, Z, Do espírito de gravidade, §2, 2014, p. 186. 366 NIETZSCHE, Z, Da virtude dadivosa, §3, 2014, p. 75-76. 367 NIETZSCHE, EH, Assim falou Zaratustra, §1, 2009, p. 79.

nova arte do som, com claras inspirações do contato de Nietzsche com a ópera clássica do maestro Peter Gast. Zaratustra inclusive nasce simbolicamente na mesma ocasião da morte de Wagner, como a inauguração de uma nova era musical, menos romântica, mais trágica. O biógrafo Kurt Paul Janz368 chega a sugerir que é possível uma comparação da estrutura do

livro, de seus elementos formais, com a de uma sinfonia. O livro, obviamente, não foi feito para ser cantado ou tocado, porém desperta nos lugares em que circula uma certa receptividade de auditor de peças musicais. Ele é a “fênix Música”369 que renasce e voa leve

e luminosa enquanto Wagner morre, é o retorno do trágico, do mito, da arte, porém, agora sem as amarras da metafísica.

Por tudo isso, podemos afirmar que Zaratustra é o dionisíaco.

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