Em um inquérito sorológico realizado no Brasil sobre a prevalência da Doença de Chagas em meados de 1975 a 1980 foi constatado que 4,22% da população rural encontrava-se com sorologia positiva para o T. cruzi (Camargo et al., 1984). O estado de Minas Gerais exibiu umas das maiores prevalência no país, sendo o Norte de Minas, e especificamente o Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais afetadas pela Doença, apresentando o município de Berilo uma prevalência de 35,5% de positividade.
Posteriormente, Dias et al. (1985) realizaram um inquérito sorológico em Berilo para averiguar a real situação da doença na população e, encontraram 35,1% de positividade na sorologia para Doença de Chagasna população residente no município naquele momento. Após a realização desse inquérito várias intervenções foram realizadas no município objetivando o controle da transmissão vetorial por meio de ações conjuntas entre a prefeitura e o Programa de Controle da Doença de Chagas no Brasil (PCDCh).
Em um novo inquérito realizado em 1988, Aguilar et al. avaliaram um grupo de 1150 pessoas, entre jovens e adultos, encontrando uma positividade de 12,69% nessa amostra. A prevalência foi consideravelmente menor que a encontrada por Dias et al. em 1985, o que indicava declínio da prevalência, mas que o controle ainda não fora completamente efetivo. Neste mesmo estudo, os autores investigaram ainda alguns aspectos da doença de Chagas em indivíduos infectados, observaram que a mortalidade entre os pacientes soropositivos era de 1,9% ao ano, que a cardiopatia afetava cerca de 2,6% dos pacientes e que existia uma progressiva evolução clínica nos pacientes infectados pelo T. cruzi circulantes naquela região demonstrados posteriormente por Montoya (1998). Uma nova avaliação vetorial realizada por Silveira e Rezende (1994) e Fernandes et al. (1992) verificaram que o P. megistus foi sempre a espécie mais frequentemente encontrada como vetor da doença de Chagas em Berilo, nativa na região e muito presente no peridomicílio determinando a manutenção do ciclo doméstico de T. cruzi e servindo como enlace com o ciclo silvestre.
Contudo, mesmo após o início das ações de controle vetorial na região e implantação do PDCH e em Berilo houve várias interrupções em suas ações decorrentes de problemas político e ou financeiros, especialmente na década de 80 e início da década de 90. Somente no final da década de 90, a FUNASA intensificou o combate aos triatomíneos vetores que culminou com a implantação da vigilância epidemiológica e a criação dos PITs (postos de informação de Triatomíneos). Ficando a região sob a supervisão da Gerência Regional de Saúde de Diamantina. Com o intuito de avaliar o impacto do programa de controle, Montoya et al. (2003) realizaram um novo inquérito sorológico no município. Os autores observaram uma prevalência de positividade em 18% dos avaliados, e de apenas 0,17% entre os menores de 10 anos, indicativa da efetividade da vigilância epidemiológica.
Em 2002, foi criado o Grupo de Pesquisa em Epidemiologia e Clínica da Doença de Chagas no Vale do Jequitinhonha, que vem desenvolvendo um amplo trabalho em dois municípios da região do Vale do Jequitinhonha, MG, que atualmente correspondem ao município de Berilo liderado pela Universidade Federal de Ouro Preto-MG em colaboração com pesquisadores de outras instituições brasileiras (UFMG, Instituto René-Rachou – Fiocruz, MG e, Fiocruz - RJ). Esse grupo vem sistematicamente avaliando vários aspectos relacionados à doença de Chagas na
região, principalmente, nos municípios de Berilo e José Gonçalves de Minas, que constituía até 1997 um distrito de Berilo. Nesse contexto, Borges et al. (2006) realizaram um inquérito sorológico em 1412 escolares de 7 a 14 anos na região e encontram uma prevalência de 0,4% de positividade de doença de Chagas no município, menor que a observada nos anos anteriores e fortemente indicativa da eficácia da vigilância epidemiológica.
Em 2009, Machado-de-Assis et al. (2009) (em preparação) realizaram um levantamento integral sobre a positividade de triatomíneos vetores nos domicílios e peridomicílios na região de Berilo, visitando cerca de 5242 unidades domiciliares e 7807 anexos, capturando 391 triatomíneos. Após análise microscópica do conteúdo intestinal dos insetos nenhum exemplar apresentou infecção pelo T. cruzi, confirmando que a transmissão vetorial estava controlada na região, e que a vigilância epidemiológica também estava funcionando efetivamente.
Entretanto, a constatação de ausência de transmissão vetorial não representa que a região esteja isenta dos problemas relacionados à infecção chagásica pelo fato da espécie citada ser nativa no município. Aguilar et al. (1988) já haviam demonstrado que 52% dos pacientes analisados já apresentavam ECG alterados. No município vizinho de Virgem da Lapa, Borges-pereira (1997) encontrou prevalências de alterações eletrocardiográficas de 48,5% entre os chagásicos contra 17,2% dos não chagásicos. Montoya et. al. (1998) ao avaliar a evolução da doença cardíaca nos pacientes do município de Berilo verificaram que em dez anos foi detectada evolução progressiva em cerca de 28% dos indivíduos soropositivos. Nossa equipe detectou cerca de mais de 1000 pacientes infectados pelo T. cruzi na faixa etária de 16 a 85 anos, que necessitam de avaliação e assistência clínica. A avaliação clínica dos pacientes também tem revelado uma elevada taxa e diversidade de formas clínicas, indicando um alto grau de morbidade associado à doença de Chagas (dados não publicados), corroborando dados de outros autores obtidos na região. Esses resultados indicam que além de existir um grande contingente de indivíduos chagásicos, a evolução da doença é progressiva e grave na região, o que leva a considerar o tratamento desse pacientes na fase crônica da infecção como recomendado pela OPAS a partir de 1998, visando melhor prognóstico da doença. Lana et al. (2009) ao avaliar clinica e laboratorialmente 28 pacientes dos municípios de Berilo e José Gonçalves de Minas, tratados com
Benzonidazol há nove anos, constataram que os indivíduos não curados quando tratados na forma indeterminada da doença apresentaram uma evolução clínica mais lenta em comparação com os pacientes não tratados, corroborando trabalhos prévios de outras regiões, onde o tratamento na fase crônica da doença é importante e pode trazer benefícios para o paciente.
Embora importantes resultados envolvendo os pacientes integrados ao Programa já tenham sido alcançados, ainda faltam algumas questões a serem investigadas junto aos pacientes do município de Berilo e José Gonçalves de Minas, incluindo a diversidade genética do T. cruzi, a fim de conhecer quais as linhagens do parasito estão circulando na região e, provavelmente, influenciando os aspectos clínicos e epidemiológicos da doença de Chagas.
Oliveira-Silva (2009) na tentativa de conhecer o perfil genético e biológico das amostras de T. cruzi isolados de seus pacientes, residentes na região, caracterizou biológica e geneticamente parasitos isolados de seis crianças, resultantes do inquérito sorológico em escolares de Borges et al. (2006), e suas respectivas mães, demonstrando que a maioria foi classificada como pertencentes ao grupo TcII e, apenas um isolado caracterizado como pertencente ao grupo TcVI. Martins et al. (2011 em preparação) ao caracterizar molecularmente alguns isolados de T. cruzi provenientes de pacientes de Berilo e José Gonçalves de Minas também detectaram somente amostras com perfil semelhante ao grupo de TcII. Entretanto, é necessário considerar que a amostragem foi ainda limitada e deve ser aumentada a fim de realmente determinar o perfil genético real do parasito circulante na região.
O aumento do número de isolados analisados empregando a nova classificação para o T. cruzi nas seis subunidades genéticas (Zingales et al, 2009) permitirá que os resultados sejam comparados com dados obtidos em outros países do Cone Sul, de modo a contribuir na elucidação do perfil epidemiológico-molecular do T. cruzi no Brasil e, verificar se esse é realmente distinto dos outros países do Cone Sul da América Latina, onde tem se verificado predominantemente a presença dos grupos híbridos no ciclo doméstico de transmissão do parasito.
Considerando que em países do Cone Sul, principalmente o Brasil, a Doença de Chagas humana está intimamente relacionada com a infecção por parasitos da linhagem TcII, e que a genética pode ser relacionada tanto ao prognóstico da infecção chagásica como a epidemiologia molecular do parasito, o presente trabalho propõe caracterizar molecularmente amostras de T. cruzi isoladas de pacientes chagásicos crônicos, residentes no Vale do Jequitinhonha, uma importante área endêmica da Doença de Chagas na década de 80, a fim de identificar qual ou quais os genótipos do protozoário estão influenciando o perfil clínico, biológico e eco epidemiológico da Doença de Chagas na região em estudo.