O DLB é considerado a primeira obra lexicográfica escrita, editada e impressa no Brasil. Isso ocorreu na Antiga Vila Rica, atual Ouro Preto – MG, em 1832, na “Typographia de Silva”, pertencente ao autor, Luiz Maria da Silva Pinto.
Sobre o DLB, Hallewell (2005) expõe:
O primeiro livro que sabemos ter sido impresso em Ouro Preto, após 1807, foi uma coleção das Leis do Imperio do Brasil, publicada em 1833, por um impressor chamado Silva. No entanto, o Atlas Cultural do Brasil (dirigido por Arthur Cezar Ferreira Reis, Brasília, Fename, 1972) cita a impressão, em 1832, do DLB, por Luiz Maria da Silva Pinto (HALLEWELL, 2005, p. 129).
Figura 6 – Diccionario da Lingua Brasileira
Fonte: Brasiliana USP19
Além do DLB, a Typographia de Silva também publicou documentos oficiais do Governo.
Nunes (2013?) lembra-nos de que o “Diccionario da Lingua Portugueza”, de Antonio de Moraes Silva, apesar de ser considerado o primeiro monolíngue da língua portuguesa, foi publicado em Lisboa em 178920 e que, ainda que Moraes seja um autor brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, seu dicionário se filia diretamente à tradição portuguesa, em um momento em que os brasileiros realizavam estudos em Portugal.
Silva Pinto nasceu em Pilar de Goiás, em 15 de março de 1775 e faleceu em 20 de dezembro de 1869, na antiga Vila Rica, hoje Ouro Preto, aos 94 anos de idade.
19 Disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/node/392. Acesso em 20 fev. 2013.
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A primeira edição do “Diccionario da Lingua Portugueza” data de 1789, mas como era uma edição resumida do “Vocabulario Portuguez e Latino” de Bluteau, Moraes não insere seu nome como autor da obra. Ele a denomina “Diccionario da Lingua Portugueza composto pelo padre D. Rafael Bluteau, reformado, e accrescentado por Antonio de Morais e Silva natural do Rio de Janeiro” (BIDERMAN, 1984). Na segunda edição, de 1813, a qual utilizamos neste trabalho, o nome de Moraes já é indicado como autor da obra.
Figura 7 – Casa de Silva Pinto em Ouro Preto – MG21
Fonte: acervo fotográfico pessoal
De acordo com a Academia Goiana de Letras, o autor, após passar a infância em sua terra natal, seguiu com a mãe e a irmã para Vila Rica, onde foi batizado por Tomás Antônio Gonzaga. Além de se dedicar a vários cargos políticos durante sua vida, Silva Pinto também trabalhou com a arte de imprimir.
O DLB é um dicionário monolíngue, portátil, criado com a proposta de facilitar o manuseio, e de garantir um preço mais acessível. Podemos extrair essas informações no prefácio do dicionário. O próprio Silva Pinto reconheceu a raridade de dicionários no nosso idioma, embora houvesse outras edições, como a de Antonio de Moraes Silva. Nunes (2006) ratifica Silva Pinto quando ressalta que este tipo de obra é relativamente recente na nossa cultura:
[...] os dicionários monolíngues que visam ao aprendizado da língua materna são relativamente recentes, datando do século XVI, momento em que se formam os estados nacionais. Foram necessários, portanto, muitos séculos para se chegar à concepção moderna do dicionário como instrumento que se utiliza para (re) conhecer a própria língua (NUNES, 2006, p. 12).
O DLB é um dicionário semasiológico, ou seja, parte do significante para se chegar ao significado ou a um conceito. Na organização dos verbetes, Silva Pinto insere
21 Localizada na Rua Cláudio Manuel nº 129. Centro. Atualmente, República Maracangalha, propriedade
ao lado de cada entrada a classe gramatical a que pertence a palavra; em seguida, acrescenta a definição de forma mais objetiva se compararmos com autores anteriores como Moraes Silva, no seu “Diccionario da Lingua Portugueza”. Silva Pinto praticamente não utiliza exemplos para ilustrar as definições como alguns autores faziam e ainda fazem. Registra os diferentes níveis de linguagem especificando quando é vulgar, baixo, plebeu, familiar, palavra antiquada etc. No entanto, o dicionarista não justifica o emprego dessa nomenclatura, não deixa claro o que considera um termo antiquado, por exemplo. Identifica terminologias científicas da área jurídica, da médica, da militar, entre outras, mas podemos observar que não há um rigor metodológico no emprego desses recursos, fato compreensível, no entanto, uma vez que a ciência lexicográfica não havia se consolidado nessa época22.
Figura 8 – Lombada e folha de rosto do DLB
Fonte: acervo fotográfico pessoal
Fazendo uma pequena análise do prefácio do DLB, podemos fazer algumas considerações.
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Segundo Heinrich (2007), a elaboração de um dicionário resultava de um labor árduo e demorado, exigindo muito conhecimento da língua: cada autor descrevia e registrava o léxico de acordo com sua ciência e informação. A fase teórica da Lexicografia, continua a autora, foi impulsionada no século XX, devido ao advento da Linguística. Em torno dos anos 60, surge a Lexicografia Teórica, categorizada como um ramo da Linguística Aplicada, fato que fez com que o fazer lexicográfico ganhasse em qualidade ao se orientar por um paradigma teórico-metodológico pertinentes ao propósito desse fazer.
Figura 9 – Prólogo do DLB
Fonte: acervo fotográfico pessoal
Segundo Nunes (2006), os prefácios são fontes importantes de estudo, especialmente no que se refere às condições de produção, porque trazem a voz do lexicográfico situada em um determinado contexto. Entretanto, ele ressalta que considerar apenas o prefácio não é suficiente, uma vez que
o texto dicionarístico tem uma história que foge ao controle subjetivo do lexicoGráficoorganizador e muitas vezes não coincide com o que o discurso dos prefácios estabelece. Deste modo, a análise do texto dicionarístico (dos verbetes) permite explicitar os traços da posição do lexicográfico, questionando-se a evidência ou a neutralidade das definições, das exemplificações, das marcações etc., e relacionando-as com o lugar que o lexicoGráficoocupa em uma formação social (NUNES, 2006, p. 20).
Pela análise do prefácio do DLB, nota-se que o locutor aparece em primeira pessoa do singular, explicando o motivo da elaboração da obra: “a raridade do Diccionario do nosso Idioma embora hajão diferentes edições do Fluminense Antonio
de Moraes Silva, e de muito outros Lexicographos, me sugerio o projecto de imprimir
Os consulentes do DLB são assinantes do dicionário. Isto é comprovado na seguinte passagem escrita por Silva Pinto (1832, p. 5): “O numero dos Srs. Assignantes23 desta, e mais Províncias do Império excedeo ao que parecera preciso para segurar as despesas [...]”.
Segundo Frieiro (1955), o DLB caracterizava-se por uma compilação apressada feita pelo próprio impressor, que também editou, para uso das escolas de primeiras letras, outros volumes, a saber: “Ortografia ou Arte de escrever” (1829), “Aritmética ou Arte de Contar” (1831), “Princípios da moral cristã” (1846) e “Gramática brasileira ou arte de falar, conforme as regras de Manuel Borges Carneiro” (1847).
Na seção 5.8, teremos a oportunidade de conhecermos um pouco melhor o DLB no que concerne aos aspectos linguísticos. Além da análise de seu título, faremos também comentários de alguns verbetes, relacionando essas informações ao período em que o dicionário foi publicado.
Passemos agora para as considerações sobre o Léxico.
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