4.2 Porters Five Forces
4.2.2 Threat of substitutes
quanto aos elementos que desejam enquadrar, este samba de enredo também poderia estar incluído na categoria Processos de afirmação e ressignificação de identidades negras. Mas a temática central dele diz respeito a uma luta contínua em nome da busca dos direitos de igualdade para os negros na sociedade brasileira. Em razão disso, não contemplarei em minha leitura a produção de sentidos que o enquadraria na categoria anterior. A constituição discursiva de (E9) traz reflexões acerca da situação dos negros brasileiros após os cem anos da abolição da escravidão no país. Dessa reflexão resulta que a igualdade social na sociedade brasileira entre negros e não-negros não existe. Mas a escola salgueirense assume uma postura
de militância na perseguição dos direitos de igualdade e assegura que “o centenário não se apagará”.
Editado no Carnaval de 1989, um ano após as comemorações do Centenário da Abolição, ano festivo em que muitas escolas de samba tomaram o negro e sua história como enredo, o samba do Salgueiro, enquanto peça discursiva que é, faz ecoar discursos já ditos. Ao enunciar que “o centenário não se apagará”, produz-se uma ressonância discursiva formada por outros textos produzidos para o carnaval passado. A discursividade negra do Salgueiro é a mesma adotada pelas demais agremiações, porém, ressalta-se no dizer da escola (dos compositores) a ideia de que, diferentemente do que ocorre com as demais, há uma continuidade da temática negra em seus carnavais. Isso se revela na referência a dois enredos da escola – Chica da Silva e Chico Rei – e na seguinte sequência: “Salgueirar vem de criança/ O centenário não se apagará”. Na enunciação feita, salgueirar não significa apenas ser salgueirense, remete para o fato de a Acadêmicos do Salgueiro, antes dos primeiros dez anos de sua existência (ainda criança, portanto), ter fundado essa vertente de negritude no carnaval carioca. O lançar do olho para a história da agremiação é o que permite ao enunciador ter a certeza de que “o centenário não se apagará”.
Os discursos transversos no samba produzem sentidos que põem o Salgueiro como guardião da matriz cultural afro-brasileira no carnaval do Rio e como organização cultural que entoa sua voz contra as injustiças sociais e de qualquer ordem relacionadas ao povo negro. Esse espírito de garra e de luta da agremiação vermelha e branca tijucana em defesa da justiça social são traços que caracterizam o orixá Xangô, razão por que se enuncia “Xangô é nosso pai, é nosso rei”. As cores da escola também são as cores que caracterizam o orixá, de modo que, simbolicamente: orixá, cores, sentimento de justiça, bravura e capacidade de organização para a consecução de lutas travadas em nome da promoção da justiça fazem da escola de samba salgueirense um reduto de negritude bem mais amplo do que são as escolas co-irmãs, fazem dela um verdadeiro quilombo, ideia materializada linguisticamente na sequência “Nesse quilombo tem magia”. Nesta prática discursiva salgueirense, o quilombo cultural não está representado apenas pela Bahia, mas também pela escola salgueirense.
É possível tecer gestos de interpretação de que a atuação da escola em nome da causa negra ultrapassa os limites do Carnaval, visto que entende a luta pela causa como processada continuamente no dia a dia. Esse é um dos efeitos possíveis a serem construídos com base na sequência: “E na atual sociedade, lutamos pela igualdade / Sem preconceitos sociais”. Há a demarcação de que a defesa da causa negra não é um posicionamento adotado pela escola apenas no passado ou uma prática para prestigiar uma data comemorativa, a do Centenário da
Abolição. Na sequência discursiva que acabei de mencionar, a forma verbal lutamos empregada no presente do indicativo, e a palavra atual confirmam a preocupação da Escola com o momento presente (o cotidiano) vivido pelos negros brasileiros.
Os discursos que atravessam este samba produzem efeitos de sentido que sugerem o pioneirismo do Salgueiro entre as escolas de samba quanto à defesa de uma causa negra, visto que “salgueirar vem de criança” (fazer como o Salgueiro); e a credibilidade alcançada pela Escola em razão da exploração de temas ligados à negritude – sempre postos à margem – e em razão da contribuição oferecida à história do país e aos negros por mostrar-lhes outras histórias sobre seu povo, favorecer o desenvolvimento de sua autoestima e ser o veículo de expressão de sua voz e de seus anseios no país. Com base na descrição desse perfil é que o Salgueiro se enuncia como um Templo Negro. Trata-se mesmo de um quilombo, não de um quilombo entendido tradicionalmente como campo de refúgio e de defesa a possíveis ataques, mas trata-se, em sintonia com a evolução do tempo, de um quilombo caracterizado por uma agenda política de reflexão sobre as questões sociais em volta da negritude e da luta antirracista para ver raiar a igualdade entre todos os brasileiros. Entretanto, se ao longo de seus (57) cinquenta e sete anos de existência, a Escola não conseguiu com sua atuação oferecer a “proteção” que se espera de um templo aos negros do Morro do Salgueiro e dos morros vizinhos, aos da Tijuca, ao do Andaraí, aos do Rio e aos do restante do país, conseguiu transmitir-lhes energia, promover o desenvolvimento de seu orgulho de ser negro e de sua autoestima, ampliar seu conhecimento acerca do universo cultural de matrizes africanas, oferecer-lhes algumas leituras a respeito das desigualdades socioeconômicas entre negros e brancos no país. De uma forma ou de outra, a população negra conseguiu usufruir da discursividade negra produzida por este templo negro (como o Salgueiro se enuncia). O gesto de nomeação do samba pode ser lido como uma chamada aos negros para a reflexão de implicações políticas envoltas na questão da negritude, da identidade étnica.
A negritude serena se revela nesta narrativa de africanidade pelo tom construtivo que assume no que diz respeito à convivência numa sociedade multirracial, como a brasileira, entendendo que o diálogo e as negociações são as armas fundamentais para construção de uma sociedade mais plena. A proclamação da negritude também constitui outro traço dessa categoria. Também é possível observar que os poetas salgueirenses, mesmo enfatizando a vitória dos negros sobre o regime servil, não deixaram de referir e de “sentir empaticamente” a dor do povo negro: “E traz na carta / A chama ardente da Abolição; Linda, Anastácia sem mordaça”. Aí está marcada a negritude dolorosa.