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Há diversas perspectivas por meio das quais se podem tecer os discursos relativos à história de um povo e à história de uma nação, ainda mais quando se trata de um país continental como o Brasil, que, embora relativamente jovem, apresenta um tecido social extremamente complexo no que tange à constituição de suas relações étnicas e sociais. Os ângulos de visão são múltiplos e o enfoque de um ou de outro depende do lugar histórico e social em que se situa o sujeito. A questão é que existe uma tendência à homogeneização na constituição das teias discursivas das narrativas da nação e de seu povo consideradas oficiais. As narrativas da nacionalidade brasileira construídas discursivamente e materializadas em textos de livros, de manuais escolares e em certos documentos se constroem a partir de um grande núcleo discursivo tomado como oficial sobre a história do país. A institucionalização desse núcleo apresenta em sua configuração um jogo de lembranças e esquecimentos, de forma que de sua voz se apaguem quaisquer traços de pluralidade a fim de que possa soar como a voz da nação. Entretanto, gestos interpretativos desse discurso homogeneizador revelam, para além da opacidade da linguagem nele materializada, que a voz social por ele representada se caracteriza pelos seguintes traços: a) é formada com base nas matrizes

culturais brancas europeias; b) está comprometida com a valorização dos heróis brancos e seus feitos no país; c) está em sintonia com os projetos da elite dominante brasileira; d) representa o gênero masculino.

A questão que se coloca é a seguinte: É possível que um país tão amplo e tão multifacetado como o Brasil possa ter sua história e a de seu povo narradas a partir de um único ponto de vista, sobretudo num tempo em que não mais parece possível negar a alteridade como traço significativo na constituição de qualquer corpo social? As tentativas de esmaecimento da polifonia nos discursos que dão base às narrativas da nação traduzem as relações de força postas na arena social entre as elites dominantes e os outros grupos com que se confrontam. Dessa inter-relação entre os grupos em disputa resulta que um pode até tentar fazer morrer o outro ou negá-lo, mas o grupo atacado é condição sine qua non para a própria existência do outro; a inexistência de um deles impossibilita a existência do outro.

Em defesa do reconhecimento de outras narrativas é que se manifestam algumas reações. Essa resistência, por exemplo, tornou-se muito evidente no acontecimento do Brasil

500 anos. Os grupos étnicos que historicamente estiveram à margem do progresso da nação como os negros e os índios organizaram protestos sociais que caminhavam na contramão da comemoração festiva brasileira, arranhando a imagem celebrada de terra mãe gentil posta em destaque no projeto celebrativo. Os contradiscursos relativos aos presentes na comemoração festiva surgiram e se deram a conhecer através de manifestos públicos e por intermédio da mídia escrita, a exemplo da revista Veja (03/05/2000). O tom central desse enfrentamento reside na questão da construção discursiva da identidade nacional. A memória nacional institucionalizada e dominante faz recortes de fatos históricos cujos efeitos de sentido põem em evidência um determinado grupo étnico-cultural em detrimento de outros, criando verdades que estão recheadas de meias-verdades ou até mesmo de inverdades.

Como as identidades são múltiplas e contraditórias, mas os seres tendem à construção de uma “confortadora narrativa” de si mesmos, parece natural que os reclames relativos à identidade nacional, que também apresenta essa tendência confortadora implementada por aqueles que se lançam discursivamente à sua construção, apareçam ora demonstrando algumas facetas negadas, ora reivindicando outras. Nesse entendimento está a concepção de que a identidade da nação é plural e de que precisa reconhecer essa pluralidade.

A feição plural da nação, de suas histórias, da constituição de seu povo e da complexidade das relações interétnicas e sociais contraídas entre os cidadãos que a constituem revela a importância de se trabalhar com outras fontes e documentos que não sejam filiados exclusivamente aos discursos instituídos como oficiais acerca do país. O reconhecimento da

pluralidade discursiva e a informação de que os discursos estão dispersos nos textos e neles se manifestam são elementos que orientam o pesquisador na trilha de outros caminhos (outros textos), a fim de que possa alcançar uma visão menos fraturada dos fenômenos que se propõe analisar.

Trilhando outros caminhos, tomo como corpus nove SEAs produzidos pelas escolas de samba do carnaval do Rio de Janeiro no período de 1960 a 2007, para, a partir da análise dos discursos que os atravessam referentes às relações étnicas e sociais contraídas entre negros e brancos e referentes, sobretudo, ao processo de construção de identidades negras, compreender os efeitos de sentido dessa produção discursiva para a história social do negro. Por ora, o que inquieta é a escassez de pesquisas que tomam o samba de enredo como corpus. Fora do Rio de Janeiro – região onde uma produção de pesquisas acadêmicas e não acadêmicas dedicadas ao samba já é esperada – trabalhos em torno do samba no âmbito da academia não são frequentes, apesar de se ter assistido neste novo milênio a um interesse mais acentuado das universidades paulistas pelo tema. A respeito dos possíveis motivos do baixo número de pesquisas sobre o tema, algumas questões já foram levantadas no segundo capítulo desta tese. Por ora, é importante destacar que investigações sobre o samba em outras regiões além do Rio de Janeiro constituem um ponto de partida que aponta para a valorização cultural e discursiva do grupo negro.

O olhar lançado sobre a produção discursiva dos SEAs surge do reconhecimento de que da mesma forma que o Carnaval (as festas de maneira geral), como considera a Antropologia, pode servir como elemento para entender os significados de seus ritos e rituais na sociedade e para compreender o funcionamento desta, o SEA produzido pelas escolas de samba do carnaval carioca, através dos discursos que o atravessam, constitui um elemento significativo para compreender a dinâmica das relações interétnicas e sociais no país, bem como a dinâmica do processo de afirmação, reconstrução e ressignificação de identidades negras.