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Pre-tax Return On Invested Capital (ROIC)

5.3 Profitability analysis

5.3.1 Decomposition of Return On Invested Capital (ROIC)

5.3.1.2 Pre-tax Return On Invested Capital (ROIC)

(E7): Orfeu, o negro no carnaval / Unidos do Viradouro (1998)

Lá, onde a vida faz a prece E o Sol brilhante desce para ouvir Acordes geniais de um violão É o reino de Orfeu, rei das cabrochas Seduzidas pela sua inspiração Eurídice, o verdadeiro amor Do vencedor por aclamação geral Da Escola de Samba do Morro Que vai decantar nos seus versos A história do carnaval

É na magia do sonho que eu vou Mitologia no samba, amor Aí, o zumbido da fatalidade Que atinge a cidade Traz mais uma desilusão Orfeu caiu no abismo da saudade E voa para a eternidade

Levado pela ira da paixão

Tem no seu talento, reconhecimento Num desfile magistral

O Grêmio do morro venceu E o samba do negro Orfeu Tem um retorno triunfal Hoje o amor está no ar Vai conquistar seu coração

"Tristeza não tem fim, felicidade sim" Sou Viradouro sou paixão

Figura 4- Glorificação dos deuses do carnaval – Carro alegórico da Viradouro (1998) Fonte: O Brasil é um luxo. Foto de Pablo Di Giulio

6.1.2.3.1 Análise de (E7): Orfeu, o negro do carnaval (2007)

O enunciado de (E7) é atravessado por discursos cujos efeitos de sentido enfocam a sensibilidade, o lirismo amoroso do negro e a genialidade de seu talento. São discursos ligados a formações discursivas que o veem de forma holística, concebendo-o como um ser humano dotado (como todos os outros) dos sentimentos mais finos que tomam o indivíduo, de inteligência e de capacidade de excelência ao que se dedica, inclusive, no plano da arte, que requer grande sensibilidade para seu desenvolvimento. É possível lê-los como contradiscursos, sem feição panfletária, em relação aos de uma longa tradição, segundo os quais os negros só têm capacidade para usar o corpo, empregando-o em tarefas grosseiras, e sua natureza animalesca os impossibilita de nutrir grandes sentimentos como amor, sendo capazes apenas, neste campo, de levar uma vida a dois, para satisfazer seus instintos e procriar.

A enunciação da sequência discursiva “Hoje o amor está no ar/ vai conquistar seu coração” formula mais que a certeza da adesão do público ao carnaval apresentado pela Escola, traduz também um tom avaliativo de que o amor conquistará a todos. Independente de quaisquer valores, sejam sociais, culturais, sejam de outra natureza, o que importa é que “o amor está no ar” e incondicionalmente “vai conquistar seu coração”. O emprego do pronome em destaque produz o efeito de aproximação com o público; ele marca na materialidade linguística a proposta de estabelecer uma interlocução direta com os foliões (tele) espectadores, ainda não expressa noutra passagem do samba, e não por acaso, a utilização desse possessivo, sugerindo perspectiva de comunicação com o público e busca da adesão dele ao enredo apresentado, está localizada no estribilho final.

Ainda no que diz respeito à materialidade linguístico-discursiva, é interessante tecer gestos interpretativos quanto à nomeação do samba. Chama atenção a escolha da preposição

do (o negro do carnaval). O que o emprego da mesma sugere? Uma interpretação possível dentro do trajeto de leitura que se vem traçando é de que, tal como a nomeação do samba sugere, a perspectiva não é a de mencionar a participação do negro no carnaval, mas de acentuar a participação dele. Os negros, especialmente os compositores, estão representados na figura de Orfeu. Ele era da ala da Escola de Samba do Morro como os demais colegas. A genialidade do músico e compositor Orfeu nos discursos transversos deste samba é a mesma dos músicos e compositores responsáveis pelo nascimento do samba carioca e das escolas de samba, como também pela criação de diversos instrumentos de percussão constantes da

bateria dessas escolas, mas que, num processo bem diferente do que se deu com o deus mitológico, foram extremamente discriminados e perseguidos, não alcançado o mesmo sucesso que ele. Os efeitos de sentido dos discursos que atravessam o samba produzem deslizamentos na visão estereotipada que se tem sobre os compositores das agremiações, uma vez que ganham valorização. De outra maneira, dentro da linha de discursividade negra a que se filia a Viradouro, a prática discursiva deste samba chama a atenção para o fazer cultural dos compositores e abre uma discussão em torno das cristalizações conceituais sobre eles e suas obras. Continuando a leitura interpretativa acerca do gesto de nomeação Orfeu, o negro

do carnaval, é possível observar que o destaque da participação do negro no carnaval das escolas de samba é construído já a partir da primeira palavra, dado pela identificação que se estabelece entre o Deus grego e o negro brasileiro: Orfeu = Negro.

Noutra sequência discursiva, acho sugestiva a escolha da palavra reino. O exímio tocador, o músico inigualável, o gênio do violão (e por extensão de quaisquer instrumentos) vive no morro, área da cidade marginalizada socialmente. Mas lá, no morro, é o seu reino; é de lá que ele brilha para toda a cidade (os sambistas desceram e descem o morro no carnaval para seduzir a cidade) e para o mundo; o rei do samba vem de lá. O deus grego da música não levou sua inspiração a qualquer área do Rio de Janeiro, mas ao morro. Assim, a prática discursiva do samba vai promovendo deslocamentos a respeito do imaginário sobre o morro e sobre o negro. A enunciação de que Orfeu foi tomado por uma saudade eterna de sua amada Eurídice e de que cultivou esse amor por toda sua vida põe na cena discursiva questões como a sensibilidade e a fidelidade do negro, traços tão fortemente negados em sua constituição psicoemocional até boa parte do século XIX. Contrariando essas especulações, “morrer de amor”, “morrer com a pessoa amada”, isto é, fechar-se para a vida afetivo-amorosa não é para qualquer um. Mas Orfeu é dotado de qualidades sobre-humanas que o diferenciam de um incontável número de gente, é um deus, é um deus negro.

A atualização dessa história é representada por Orfeu, o negro do carnaval, o sambista do morro. Melhor dizendo, é a história do próprio Orfeu negro, do Rio de Janeiro. O Orfeu da mitologia é o apoio para a narração da bela história de amor entre Orfeu e Eurídice, indivíduos negros e moradores de um dos morros do Rio. O que resulta dessa associação entre mitologia e realidade é o oferecimento de uma visão quase nunca vista na referência ao negro no país: o heroísmo, a sensibilidade e o lirismo.

Na prática discursiva deste samba de enredo, os compositores ligados à origem do samba e das escolas de samba serão valorizados e enaltecidos. Nessa associação entre mitologia e realidade, os sambistas são os deuses da música. Os sons que fluíam da Cítara de

Orfeu, emudecendo os pássaros e tocando os corações mais petrificados, estabelecem a perspectiva de que os acordes hipnotizantes do violão de Orfeu consigam transformar as barreiras do preconceito de cor e fazer com que os não-negros, ao se deixarem seduzir por essa bela história de amor entre os negros, se permitam no dia a dia a ver o negro como um irmão da raça humana, exatamente como eles.

Nos discursos que atravessam essa narrativa de africanidade em forma de samba observa-se o predomínio da negritude vitoriosa. A luta central é contra o preconceito, mas o negro a vence. O samba do negro Orfeu vence a disputa da escolha do samba de enredo “por aclamação geral”, triunfa na avenida. No enredo da Escola de Samba do Morro sobre a história do carnaval, são as escolas de samba – associações iniciais formadas quase em sua totalidade pelas gentes negras do morro –, dentre todas as agremiações do carnaval carioca, as que se mantêm vivas, por terem sabido incorporar e desenvolver o que algumas delas tinham de melhor, superando-as, inclusive, as Grandes Sociedades. Como triunfo final, a Escola de Samba do Morro torna-se a grande vencedora do carnaval. O reconhecimento do talento de Orfeu é ampliado, diga-se, o reconhecimento do talento dos compositores de samba dos primeiros tempos. A injustiça histórica e contraditória (contraditória porque de tão “nefasto” que era o samba tornou-se o símbolo maior da brasilidade) em relação aos mesmos foi reparada. Orfeu não conhece vitória no campo amoroso e no plano físico (nutre a esperança de reencontrar sua amada noutro plano), mas no campo do reconhecimento social torna-se um vencedor, e como ocorria nos primórdios das escolas de samba, não tinha interesses comerciais. Apesar da densidade da presença da negritude vitoriosa, o texto também apresenta a negritude dolorosa. O sujeito-leitor pode se dar conta, a partir da “desconstrução” do efeito- texto – que lhe parece fechado, completo, homogêneo e transparente , como refere Indursky (2001) – da perseguição sofrida pelos compositores iniciadores do samba carioca. Além disso e do intenso sofrimento do herói pela perda de sua amada, não há como o sujeito- leitor/ouvinte esquecer que a bala que matou Eurídice é a mesma que mata a muitos pobres (também a alguns ricos) negros e brancos na guerra diária do Rio de Janeiro.

Figura 5- Racismo é crime – Carro alegórico da Tradição (2000) Fonte:www.liesa.globo.com

(E8): "Preto e Branco a Cores" / Porto da Pedra (2007)

O anjo invasor me deu a cor, mas cor não tenho Eu tenho raça e a cada farsa, a cada horror O meu empenho, meu braço, meu valor Se ergueu contra o monstro da cobiça Caveirão da injustiça, filho da segregação [...]

E o Tigre encontra o leão

A maior inspiração de um mundo novo [...]

É hoje vou cantar

Minha gente é o lugar que eu sempre quis Na Avenida, meu irmão vou abraçar Viver a igualdade e ser feliz

6.1.3 AGENDA POLÍTICA DE LUTA PELA