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6.1 Income statement

6.1.1 Revenues

6.1.1.2 ASK

A leitura do gesto de nomeação de (E8) em associação com a totalidade do enunciado possibilita a construção de trajeto de leitura em que os discursos transversos no samba de enredo da Unidos do Porto da Pedra são entendidos, de um lado, como uma crítica ao racismo e à discriminação racial, e de outro, como uma proposta em defesa de uma sociedade igualitária que não distinga os cidadãos em razão dos grupos étnicos culturais a que pertencem.

Na sequência discursiva do gesto de nomeação: Preto e Branco a Cores, o último termo em destaque altera a carga semântica da expressão preto e branco, que, tomada isoladamente, traduz um mundo cinzento, amargurado, frio e excludente que, em razão das distinções que se pretendem rígidas e separatistas entre seres humanos branco e preto, desconhece os matizes que se poderiam formar a partir da mistura e a alegria que brotaria como fruto dela. Já o primeiro termo destacado na expressão estabelece uma ligação entre

preto e branco, conecta um termo ao outro, como se quisesse expressar, de forma diferente da (i/r/) racionalidade movida pela ambição, pelo medo e pelo ódio, que um é parte integrante do outro.

O samba de enredo da escola, através dos discursos que o atravessam, não presta apenas uma homenagem à África do Sul em razão de sua vitória sobre o apartheid. Ao fazer referência, por exemplo, ao veículo blindado usado pelas forças policiais para dispersar com tiros manifestantes contrários ao regime, estabelece um paralelo entre a África do Sul na época e as favelas fluminenses (Rio de Janeiro), pois o tanque atirador contra a população protestante, o Mellow Yellow, é representado pelo Caveirão, veículo usado pela polícia carioca para a ação nas favelas e morros do Rio. Essa aproximação não gratuita entre o referido país africano e o Brasil se revela mais fortemente com a enunciação de que a vitória dos negros africanos sobre o regime do apartheid e o trabalho de resgate da cidadania implementado por algumas associações africanas poderiam servir como espelho para o Brasil: “E o tigre encontra o leão/ A maior inspiração de um mundo novo”. Nessa sequência discursiva, faz-se referência à luta de Mandela contra o regime separatista sul-africano e às iniciativas não-governamentais para a reconstrução da cidadania.

Os frutos da presidência de Mandela e as iniciativas de organizações em defesa da reconstrução do país e da reconstrução da cidadania dos sul-africanos são tomados como exemplos de que é possível lutar por uma sociedade mais democrática do ponto de vista étnico-racial no Brasil, como destaca Milton Cunha, carnavalesco da Escola na época, em entrevista concedida a Isaac Ismar para o sítio O Carnaval Carioca:

Quero apresentar como essa nação multirracial pode nos ajudar a não fazer da sociedade brasileira um apartheid, embora já seja, mesmo não oficial. Ainda não temos a cerca real, mas temos a ideológica. Mostro o que a gente pode aprender e rebato as grandes vozes da democracia no mundo (Gandhi, Luther king, Rosa Parks e Abdias Nascimento) e termino com a fênix, que é o símbolo da reconstrução da África do Sul. Um país que há 20 anos era cinzas, com caveirão e massacres com 1.500 negros mortos em apenas um confronto.

(http://www.ocarnavalcarioca.com.br/2005/eds/ppedra_2007.asp)

Como se pode perceber, o tom do enredo e de seu samba é panfletário. Trata-se de um desfile político em que os oprimidos podem expressar sua voz:

Liberdade pelo amor de Deus Liberdade a este céu azul É minha terra orgulho meu

Porto da Pedra canta a África do Sul

A voz que clama com veemência por liberdade continua sendo a voz do oprimido expressa através da escola de samba, que não é um mediador cultural, é a própria expressão do desfilante apreendida pelo grêmio recreativo e associação cultural ao qual ele está ligado. Nessas condições socioculturais, cantar a África do Sul é evocar a luta por liberdade de fato e por igualdade de direitos entre os variados grupos étnicos na sociedade brasileira. A esperança nutrida por essa voz é a de que os exemplos de superação oferecidos pelo povo sul-africano possam se repercutir de forma mais intensa no Brasil, como já o fazem movimentos como Nós do Morro, AfroReggae e Cufa, por exemplo, para que a possibilidade de abraçar o irmão, “viver a igualdade e ser feliz” não se circunscreva apenas ao espaço da passarela do samba, mas possa se tornar uma realidade como principiou a acontecer na África do Sul.

Nos discursos que atravessam o samba, é possível perceber elaborações que confluem para a predominância da negritude serena. A administração de Mandela na presidência tem um tom pacificador e de união, é governo multirracial. É um tempo de paz, e nunca de revolta contra a parcela da população branca sul-africana. A recompensa de toda a luta anterior a esse estágio está representada na vitória sobre o regime separatista e na eleição de Nelson Mandela, bem como no processo de reconstrução por que o país passaria. Isso reflete a negritude vitoriosa. Como era de se esperar, uma narrativa da derrubada do regime separatista

sul-africano não poderia deixar de fazer menção ao intenso sofrimento que os negros sofreram no corpo e na alma. Mesmo tendo a vitória sobre o regime como tema, os compositores sentem a necessidade de notificar os leitores/ouvintes acerca das marcas indeléveis na vida do negro durante a vigência do apartheid. Tais marcas se revelam na referência à favela vermelha, uma simbologia do sangue derramado nos conflitos com a polícia, e na referência ao martírio ocasionado pelo caveirão. Nesse sentimento de obrigação de fazer dos autores está inscrita a negritude dolorosa. Nos discursos transversos desta narrativa também se podem ler gestos simbólicos da negritude agressiva, marcada pela negação dos valores da hegemonia sociocultural branca e pela revolta contra a imposição dela. A luta de Mandela, de Desmond Tutu, de outros líderes e do povo contra a segregação racial não foi em vão. Eles não se calaram e fizeram seu grito atravessar fronteiras e ecoar nos quatro cantos do mundo: “Liberto permanece (u) o pensamento / Ele foi o meu alento / Quando o corpo foi prisão”.

(E9): Templo negro em tempo de consciência negra / Salgueiro (1989)

Livre ecoa o grito dessa raça E traz na carta

A chama ardente da abolição

Oh! Que santuário de beleza

Um congresso de beleza de raríssimo [ esplendor

Revivendo traços da história Estão vivos na memória Chica da Silva e Chico Rei Saravá os deuses da Bahia

Nesse quilombo tem magia

Xangô é nosso pai, é nosso rei [...]

Vai, meu samba vai Leva a dor traz alegria

Eu sou negro sim, liberdade e poesia

E na atual sociedade, lutamos pela [ igualdade

Sem preconceitos sociais Linda, Anastácia sem mordaça O novo símbolo da massa A beleza negra me seduz

Viemos sem revolta e sem chibata Dar um basta nessa farsa

É festa, é Carnaval, eu sou feliz

É baianas, o jongo e o caxambu vamos rodar

Salgueirar vem de criança O centenário não se apagará

Figura 6 – Pinah – Personificação da oitava maravilha do mundo (o carnaval) – Beija-Flor (1981) Fonte: O Brasil é um luxo. Foto de Eurico Dantas / Agência O Globo

6.1.3.2 Análise de (E9): Templo negro em tempo de consciência negra / Salgueiro (1989)