As primeiras notícias sobre o povoamento da área remontam à época da exploração da Amazônia conduzida por Orellana, em 1542 e documentada pelo padre Carvajal (Carvajal, [1542] 1942 e Acuña, [1641] 1994; Porro, 1995). Nesse documento encontramos o relato de aldeias fortificadas por paliçadas logo a jusante da boca do rio Negro; o padre descreve também aquela que podemos interpretar como a região próxima da foz do rio Urubu como uma província, que da boca do Madeira vai até a região de Parintins, na ilha Tupinambarana, que ele chama de Picotas. Deve seu nome à presença de estacas com fincadas cabeças humanas, em frente a várias aldeias ao longo do considerável trecho do rio Amazonas.
O contexto geral descrito por Carvajal aparece estruturado sobre representações de violência e guerra com as quais a conduta dos conquistadores espanhóis é perfeitamente alinhada: as crônicas de combates, saqueios e represálias operadas pelos homens de Orellana o demonstram.
Depois desse primeiro rápido relato, se registra um hiato nas crônicas de cerca de um século, durante o qual não se dispõe de notícias sobre a região do rio Urubu.
Uma segunda leva de informações sobre os indígenas do médio Amazonas se deve à expedição de Pedro Teixeira e, principalmente, ao estabelecimento das missões jesuíticas, mercedárias e carmelitanas na região.
Além das informações pontuais, existem algumas tendências que perpassam os diferentes cronistas: uma dessas é a alta demografia da região, já evidenciada por Carvajal e corroborada, a partir de um século mais tarde, pelas crônicas do ouvidor Maurício de Heriarte e dos padres jesuítas Cristobal de Acuña, João Felipe Betendorf, Samuel Fritz e João Daniel. A outra é ligada à estratificação social e à existência de organizações políticas de caráter regional e pluriétnico, articuladas através de alianças e casamentos (Heriarte, [1662] 1884).
54 Do baixo rio Negro até o Urubu, em meados do século XVII, são registrados vários grupos falantes línguas Arawak9 e são mencionados os Tarumã, de língua hoje em dia considerada isolada, que foram catequizados em 1660 pelo mercedário Giovanni da Lucca (Leonardi, 1999). Em 1690 foram aldeados na missão de Santo Elias do Jaú, antes de desaparecer, em 1768 (Noronha, 1856), nos interiores das Guianas para ser recontatados somente em 1835, vivendo integrados com os Waiwai (Schomburgk, 1840).
Na grande ilha fluvial que se encontra a jusante da boca do Madeira, chamada Tupinambarana, grupos falantes línguas Tupi10 viviam em sociedades pluriétnicas, tendo instaurado um regime de relações assimétricas e casamentos interétnicos (Heriarte, [1662] 1884). Uma organização social parecida foi observada entre os Iruri do baixo Madeira, outro grupo tupi que foi aldeado na missão de Itacoatiara na época de sua fundação.
A atuação de alguma prática parecida poderia talvez explicar também a notícia sobre o costume dos índios Aruaques do rio Urubu (Caboquena, Guanavena e Urubu) a respeito das execuções em terreiro praticadas por esses grupos. De fato, tal costume, descrito por Betendorf, lembra muito aquele mencionado nos relatos sobre os povos Tupinambás do litoral; a única diferença é que aqui, ao invés de levar ao ritual antropofágico, típico dos povos tupi, a incorporação se dá através da assunção do nome da vítima, dentro de um ritual de passagem (Betendorf, [1698] 1910; vide também Abbeville, 1614;Évreux, 1985; Lery, 1580; Staden, 1974;Thevet, 1997).
A presença de grupos falantes línguas Carib ao sul do Amazonas, no baixo Madeira (Arara11) e no alto Xingu (Kuikuro, Kalapalo, Matipu e Nahukwa, vide Franchetto,
2011), somadaàs evidências glotto-cronológicas que apontam para o compartilhamento de muitos cognatos entre línguas karib e tupi (Rodrigues, 2000) e à documentação da existência de redes de troca entre grupos Arawak do rio Negro e Karib das Guianas (Dreyfus, 1983-84), demonstram o alto nível de integração macrorregional e a difusão de relações multiétnicas em época pré-colonial tardia.
9 Os etnônimos Tanúas e Jaruaguis, citados por Heriarte, poderiam referir-se respectivamente aos
Tarumã do baixo rio Negro e aos Aruaquis do rio Urubu.
10 As fontes sugerem que se trate de Tupinambá oriundos do litoral maranhense e pernambucano
(Heriarte, [1662] 1884).
55 Entre os séculos XVII e XVIII se intensificam as guerras coloniais, as tropas de resgate e a fundação de missões. Durante a conquista dos sertões, os interiores do País são descritos pelos padres como terras boas na espera de colonos: ha muita gentilidade com belas terras [...] para muitas missões de grande serviço de Deus (Bettendorf, [1698] 1910). Na realidade as missões do rio Urubu se tornaram, nessa época, a cabeça de ponte para a expansão do mercantilismo português e para o abastecimento de escravos. A violência do processo de colonização e conquista da região é atestada nas fontes históricas que relatam diversos episódios de resistência indígena. Os mais famosos são a revolta da confederação dos Manao sob a liderança do chefe Ajuricaba, em 1727, e a expedição de Antônio Arnau Villela no Urubu, que foi destroçada pelos Caboquena e Guanavena, em 1663. O resultado de tal resistência foram duas expedições comandadas por Pedro da Costa Favela, em 1664 e 1668-69, onde se relata a destruição de cerca de trezentas aldeias indígenas na região. Outras expedições foram conduzidas contra os Tarumã do baixo rio Negro, em 1657-58 e contra os Tupinambarana, Conduris e Arawak, entre 1662 e 1666. Em 1669 uma “guerra justa” foi movida na barra do rio Negro por Francisco da Mota Falcão e outras tantas entre o médio Amazonas, o Madeira, os rios Negro e Solimões e Uatumã (Porro, 1992), até a primeira metade do século XIX, quando a revolução cabana e a repressão seguinte levaram à dizimação e à dispersão dos últimos grupos indígenas resistentes ao longo do médio Amazonas (Hemming, 1987; Guimarães, 2000).
Dessa breve resenha sobre a história indígena colonial da região de estudo apreendemos alguns elementos úteis para a questão que nos interessa aqui de perto: a caracterização do contexto sociocultural indígena durante a época do contato e, em perspectiva, a avaliação da persistência no tempo passado de fenômenos etnogenéticos e de resistência cultural. No âmbito desse trabalho, a contribuição da etnohistória é entendida como âmbito interdisciplinar em que os fatos são isolados de um ponto de vista histórico, para poder, todavia, extrapolar umas tendências profundas etnológicas que não têm a ambição de se tornar leis gerais, mas que podem servir como generalizações contextuais (vide Axtell, 1979), úteis para calibrar nossas ferramentas heurísticas. Nesse sentido, o conceito de fronteira cultural que orienta nossa pesquisa é aqui delineado não tanto como uma extensão no passado de instâncias históricas ligadas à expansão colonial europeia; mas como o reconhecimento do fato que o passado indígena tem que ser considerado como um processo histórico, caracterizado pela presença de culturas políticas, diversidade local, contraculturas, distintas trajetórias étnicas e comunalização.
56 As ferramentas conceptuais utilizadas nesse trabalho nos levam, então, a admitir que para analisar a interação, o estudo tem que ser necessariamente organizado em diferentes níveis, já que o próprio objeto de pesquisa é um processo sincrético e hibrido, percorrido por contestações, polarizações e práticas contrárias. Estas últimas podem ser pensadas como um continuum onde, em um extremo, se encontram as ações conscientes que projetam identidades e definem esferas de poder, no outro a falta de interação. Entre esses limites, poder e tradição são aceitos, acomodados, cooptados, rejeitados e resistidos. As tradições são politizadas e o poder “tradicionalizado” (Pauketat 2001:13).