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O levantamento e a análise dos sítios rupestres na região do baixo rio Urubu foram objeto de pesquisa do recente mestrado em Arqueologia desenvolvido por Marta Cavallini (Cavallini, 2014). Ao longo do tempo, colaboramos com tal projeto, complementando o estudo em diferentes âmbitos e, sobretudo, possibilitando o aprofundamento de algumas questões fundamentais para o entendimento da arte rupestre.

Um dos objetivos do nosso trabalho foi o estabelecimento de parâmetros cronológicos para a contextualização desse fenômeno na bacia do baixo rio Urubu. Nessa direção, relacionamos a cronologia das gravuras à dinâmica de sedimentação fluvial. Com três datações relativas estabelecemos a idade mínima dos petróglifos de cerca de 1100 anos a.P; e a partir do estudo morfogenêtico do rio Urubu propomos um modelo paleoambiental hipotético para inferir sua antiguidade máxima entorno de 2000 anos A.P. (Cavallini, 2014).

Aqui apresentaremos parte dos resultados do levantamento e da análise dos registros rupestres da região, com o objetivo de contribuir à formulação de um discurso sobre a relação entre assentamentos e território, que será aprofundada no próximo parágrafo. Os sítios de arte rupestre do baixo Rio Urubu são diretamente ligados ao ciclo do regime das águas; a paisagem rupestre é, portanto, um fenômeno sazonal, associado à seca, período em que o Urubu torna-se um sistema fechado, perdendo suas conexões com o rio Amazonas. Os petróglifos3 se encontram em concentrações a céu aberto, gravados sobre blocos de arenito, na beira dos cursos de água. Para sua confecção foram escolhidas as zonas de confluência da rede de canais que durante a enchente conectam diferentes bacias e na seca interligam o rio à constelação de lagos de várzea. Tais áreas são de fundamental importância para o manejo dos recursos aquáticos, como também para o controle estratégico dos acessos à região (Stampanoni e Cavallini, 2013).

3 Como veremos nesse parágrafo, os levantamentos realizados na área de pesquisa evidenciaram a

presença de concentrações de gravuras, exceto um único caso de pintura, encontrado no sítio São José da Enseada, à periferia nordeste dessa região

102 Inclusive, esses registros estão inseridos em um contexto onde se encontra a ubíqua presença, em associação espacial, de sítios caracterizados por fortes índices de sedentarismo, como demonstram os solos antrópicos; ou com indícios de outras atividades, como os amoladores-polidores fixos, ou as superfícies rochosas alisadas com marcas de picoteamento, que, às vezes, compartilham os mesmos suportes que recebem a ação gravadora (vide figura 21).

Tal evidência levou a considerar a hipótese da ocorrência de um padrão associativo para a área, nos abrindo a problemática de investigar os sítios de terra preta e os sítios de arte rupestre como parte do mesmo processo de ocupação e de construção da paisagem (Cavallini et al, 2015: 580) a partir, pelo menos, do Anno Domini. Essa afirmação decorre do fato que, para os dois complexos (registro rupestre-terra preta) mais bem conhecidos, os casos Caretas-Pedra Chata e Ponta do Jauary-Jauary, sabemos que os vestígios cerâmicos mais antigos pertencem à fase Itacoatiara. Nos mesmos encontram- se também as evidências de outras ocupações possivelmente mais recentes, caracterizadas pela presença de cerâmicas com traços diagnósticos associados às tradições Policroma da Amazônia e Saracá.

Os levantamentos realizados entre os municípios de Itacoatiara, Silves e Itapiranga evidenciaram a presença de quatro sítios rupestres muito heterogêneos entre si, sobretudo no que pertence a densidade dos motivos. Foi documentada uma enorme concentração (mais que o 88% do total regional) e variabilidade de figuras cefalomorfas no sítio Caretas, que foram registradas também no sítio Ponta do Jauary, onde encontramos outras gravuras de confecção com certeza colonial; enfim, em dois sítios foram reconhecidos petróglifos tecnicamente e tematicamente diferentes, além da ocorrência de um caso isolado de pintura rupestre.

Apontamos para esta reflexão porque reputamos que tal variabilidade possa refletir possíveis relações diacrônicas e culturais. A evidência de que a prática dos grafismos rupestres perpassa a época do contato nos fornece a perspectiva de um ciclo de atividade gráfica regional possivelmente de longa duração.

O sítio AM-IT-31 Caretas4 localiza-se na margem esquerda do baixo rio Urubu, no município de Itacoatiara. Assenta-se em correspondência a uma leve curva do talvegue do rio, onde, durante os meses de outubro e novembro, afloram as 182 rochas areníticas que expõem uma grande densidade de petróglifos gravados por picoteamento direto,

103 polidores e afiadores fixos, bacias polidas, picoteadas e alisadas, horizontais ou inclinadas.

Figura 15: contextualização do sítio Caretas durante a vazante (novembro 2012). Autor: M. Cavallini (Cavallini, 2014: 158).

Para possibilitar um controle espacial e distribucional dos motivos rupestres e dos demais vestígios, criamos um croqui em planta baixa do sítio. Dividimos a área de ocorrência de gravuras, de cerca de 2060 m2, em 24 quadrantes e evidenciamos a disposição de todas as marcas antrópicas até agora documentadas; entre essas reconhecemos 299 faces, acima das quais ocorrem 229 unidades gráficas e 54 painéis reconhecíveis5. Registramos também a presença de 116 unidades gráficas e 11 painéis

irreconhecíveis, além das ocorrências de cúpulas, áreas trabalhadas, bacias polidas e picotadas e marcas de afiadores fixos (vide apêndice B).

O trabalho de registro, documentação e análise dos petróglifos evidenciou a recorrência de escolhas gráficas que remetem a uma substancial coerência interna, sem claros sinais de rupturas: a alta frequência do tema antropomorfo, no específico do motivo cefalomorfo, representado sempre frontalmente, e sua distribuição homogênea no espaço, sem aparente solução de continuidade; a variabilidade morfológica que, porém, insere-se em uma estratégia de apresentação gráfica de integração entre as múltiplas figuras, também através da superposição que, quando presente, serve a unir, mais que a diferenciar, as gravuras.

104 Figura 16: representação digital do painel A, rocha 27, quadrante IX e XII, sítio AM-IT-31 Caretas. Autores: L. Rodríguez Gallo e M. Cavallini (Cavallini, 2014:256)

Nessa direção é interessante notar a presença de cenas grupais confeccionadas nos planos de fratura das rochas maiores (vide figuras 16 e 17): tal escolha cria um sugestivo impacto visual, catalisando a atenção nesse tema, que se torna representativo de um dos sítios maiores da Amazônia central.

Os dados obtidos nos permitiram reconhecer no registro rupestre do sítio Caretas as características típicas do tema antropomorfo e da representação da cabeça na tradição Amazônia (Pereira, 2011: 413-417); em particular, destacam-se a frequência com a qual aparece em proporção aos outros motivos e as escolhas gráficas preferenciais para a definição dos traços faciais e para a integração das figuras com as feições do suporte rochoso.

No 55% dos arenitos foram registrados também inúmeros polidores, afiadores fixos, bacias polidas e picotadas. Sua presença reenvia a uma concentração de diversas atividades como o processamento de alimentos e a produção de machados polidos, que

105 estão relacionados ao manejo ambiental e possivelmente ao contexto do sítio Pedra- Chata. Como dissemos, de fato, esse último localiza-se no topo do barranco adjacente e é caracterizado por uma profunda mancha de solo antrópico que se estende por três hectares, resultado da intensa ocupação do local pelos grupos indígenas que habitaram a região entre o I século a.C. e o período colonial (vide parágrafos 3.4., 4.1)

Inclusive, documentamos o reaproveitamento do campo alisado de bacias polidas ou trabalhadas para a elaboração de petróglifos. A coincidência durante um determinado momento do ano (a seca) da confecção de ferramentas de trabalho e de gravuras talvez implique a simbolização do calendário para a exploração do território.

Figura 17: exemplos de cenas grupais, sítio AM-IT-31 Caretas. (a) representação digital do painel N, rocha 34, quadrante XIII; (b) painel W, rocha 73, quadrante XIV. Autores: L. Rodríguez Gallo e M. Cavallini (Cavallini, 2014:258, 269).

106 De acordo com a interpretação do perfil estratigráfico do terraço fluvial que recobre uma rocha gravada no sítio Caretas, foi evidenciada a superposição de 10 camadas de sedimentos de aluvião e de colúvio, com matriz preponderante arenoargilosa, e foram individuados também três horizontes lateríticos (camadas IV, V e VII) de origem coluvial.

Foram coletadas duas amostras de carvão proveniente da camada II, que recobre a rocha gravada, cuja datação radiocarbônica (AMS) sugeriu uma idade compreendida entre 1110 ±30 BP (Cal. AD 880 - 990) e 1170 ±30 BP (Cal. AD 780 - 900 e Cal. AD 910 - 970) para o começo do processo de sedimentação posterior à confecção das gravuras rupestres. Um fragmento de cerâmica proveniente da camada VII foi submetido à datação por luminescência opticamente estimulada (OSL) e revelou uma idade de 900 BP. Esses dados nos levaram a propor a ocorrência de um evento deposicional associado a sedimentos coluviais com presença de matéria orgânica e laterita, seguido pelo aumento da deposição fluvial que, apesar de intervalada por três eventos secos, associados à coluviação, parece tornar-se preponderante nas fases mais recentes da história deposicional desse rio.

Em conclusão, tínhamos proposto (Cavallini, 2014; Cavallini et al, 2015; Stampanoni e Cavallini, 2015) que o período dentro do qual se situava a produção das gravuras rupestres do sítio Caretas possivelmente estava compreendido entre 2.000 e 1.100 anos AP, sendo que não era de se excluir que o processo de confecção dos petróglifos pudesse ter continuado até em épocas mais recentes, mesmo após a parcial inumação de algumas rochas.

Uma nova datação do contexto associado ao começo da ocupação do sítio AM-IT-30 Pedra Chata, localizado acima do terraço onde situa-se o conjunto rupestre Caretas, nos indica que o local começou a ser habitado de forma estável pelo menos a partir de 213030 AP (vide parágrafo 4.1). Essa data corrobora o modelo proposto para a antiguidade máxima do período de confecção da arte rupestre do Caretas; no entanto, recua o parâmetro post quem estimado de cerca de 150 anos.

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Figura 18: perfil e planta baixa da escavação no terraço fluvial do sítio AM-IT-31 Caretas. Autor: F. Stampanoni Bassi.

108 O Ponta do Jauary6 é um sítio a céu aberto, localizado na margem esquerda do rio

Amazonas, na área do porto de Itacoatiara, no bairro Jauary, próximo do homônimo igapó.

O local compreende diversos blocos soltos de arenito e é parcialmente alagado também nas épocas de vazante, ficando totalmente submersos nas enchentes; as rochas são dispersas em uma faixa de cerca de 20 m ao longo da margem do rio e apresentam petróglifos gravados acima de poucos blocos de dimensões variáveis. Durante repetidas prospecções, foram reconhecidas pelo menos duas formas de apresentação do tema dominante cefalomorfo: figuras duplas frontais e grafismos isolados. Elementos de variabilidade se encontram tanto na disposição das figuras no espaço, como também na técnica de confecção, que inclui o picoteamento direto, a abrasão e a incisão; enfim, o sítio apresenta amoladores-polidores fixos e superfícies alisadas, horizontais ou inclinadas.

Além dos petróglifos que reconhecemos como pré-coloniais, ocorrem três gravuras históricas, sendo a mais famosa aquela que foi retirada do sítio e exposta na praça da cidade, apresentando uma cruz, a escrita TROPA e as datas de 1744 e 1754; outro grafismo é composto por letras do alfabeto que apresentam semelhanças caligráficas com a gravura localizada no bloco da praça (a grafia da letra “A”), indício de uma hipotética contemporaneidade entre as duas inscrições; registramos também um antropomorfo estilizado com detalhes que remetem ao equipamento dos soldados portugueses coloniais, associado à figura de uma estrutura doméstica.

Como dissemos, o conjunto rupestre localiza-se numa área de proximidade espacial com o sítio cerâmico multicomponencial Jauary, que foi objeto de pesquisas pela primeira vez em 1955 por Peter Hilbert e foi o local onde foi definida a fase Itacoatiara (vide parágrafo 1.3.2).

O sítio Sangáua II7 encontra-se no município de Itacoatiara, na margem esquerda do

igarapé Sangáua, afluente do rio Urubu, acerca de 5 km a jusante de uma pequena comunidade que recebe o nome do igarapé. É um sítio a céu aberto, bastante intemperizado e impactado por fatores antrópicos, tal como a retirada das pedras a serem usadas como material de construção.

6 Coordenadas Geográficas UTM: 21M 0339756 / 9651532, datum WGS 84, altimetria: 7 m/s.n.m.. 7 Coordenadas Geográficas UTM: 21M 0302775 / 9654622 datum WGS 84, altimetria: 8 m/s.n.m.

109 O sítio compreende muitos pequenos blocos soltos de arenito, dispersos numa área de cerca de 20 m de comprimento e 10 m de largura, apresentando petróglifos e marcas de afiadores. Destacam-se as figuras cefalomorfas e os motivos cruciformes preenchidos por grafismos puros hachurados, na face frontal, em direção ao igarapé. Esses últimos, por estarem acima de blocos semienterrados, podem ser documentadas somente nos anos particularmente secos, por enquanto todas as gravuras são parcialmente visíveis nas épocas de vazante, ficando totalmente submersas nas enchentes. Os petróglifos foram realizados por picotamento direto e incisão fina; uma preliminar análise técnica dos grafismos cruciformes parece apontar em direção da utilização de ferramentas afiadas, cuja marca se torna, de fato, mais fina e precisa, não sendo descartada a hipótese de se tratar de utensílios de metal.

O sítio São José da Enseada8 localiza-se na beira do Paraná de Silves na localidade

chamada Enseada, na parte baixa da comunidade São José (município de Itapiranga).
Trata-se de petróglifos cefalomorfos e geométricos gravados segundo a técnica do picoteamento direto e da incisão encima de blocos de arenito dispersos numa faixa de 10 m ao longo da margem do rio. O pedral é visível somente na época de vazante e apresenta-se bastante intemperizado e impactado por fatores antrópicos, como algumas pixações que se sobrepõem às gravuras. Destacamos a presença de uma pintura monocromática, conformando-se como o único caso até agora conhecido na região do baixo rio Urubu; inclusive, a proximidade espacial com um complexo de sítios de terra preta, com presença de material cerâmico associado à tradição regional Saracá. Esse elemento reitera nossa hipótese de haver para a região um padrão ocupacional de sítios de arte rupestre associados a ocupações ceramistas.

Como vimos, o ciclo de atividade gráfica do sítio Caretas possivelmente insere-se dentro do I milênio d.C., contemporaneamente ao surgimento dos assentamentos sedentários associados à fase cerâmica Itacoatiara e ao começo da parábola de incremento demográfico que tem seu ápice entorno do ano 1.000 d.C. Resta em aberto definir se a cronologia do sítio se enquadre no inteiro período citado o limitadamente a uma sua porção; assim como verificar a ocorrência de eventuais momentos ou fases gráficas9.

8 Coordenadas Geográficas UTM: 21M 0381455 / 9693875, datum WGS 84, altimetria: 8 m/s.n.m. 9 Com o termo momento entendemos um evento limitado ao contexto específico do sítio, associado ao

110 Alguns aspectos do sítio Caretas nos levaram a abordar o conjunto rupestre como um espaço homogêneo, significado, do ponto de vista de sua construção, de forma reiterada. Trata-se da relação biunívoca entre variabilidade formal e homogeneidade temática; a relação recorrente entre essa última e uma determinada forma de apresentação gráfica, voltada à integração constante entre as figuras e à incorporação das feições rochosas; a relevância visual dada aos painéis que representam antropomorfos em cenas grupais; e, por último, sua utilização politética.

É de se ressaltar, enfim, que existe uma redundância também de elementos iconográficos que perpassam os diferentes suportes: a nível local e regional registramos de fato uma coincidência temática e uma semelhança estilística recorrentes entre o registro rupestre cefalomorfo e a decoração cerâmica: pelo menos no que pertence os apliques das vasilhas Saracá (vide figura 19), como também nas urnas antropomorfas da tradição Polícroma da Amazônia10.

Figura 19: (a) aplique cefalomorfo, escavação N1000 E863, nível 20-30 cm, sítio Pedra Chata. Autor: M. de Paiva; (b) grafismo cefalomorfo, XIV,2,U,W-B-12, sítio Caretas. Autor: M. Cavallini (Cavallini, 2014: 185).

o termo fase definimos uma coocorrência dos mesmos elementos a nível regional durante um período mais amplo.

10 Esse tipo de análise não permite associar diretamente um artefato cerâmico com um tipo de arte

rupestre. Todavia, a recorrência de certas convenções na forma de apresentação gráfica de vestígios arqueológicos espacialmente associados pode gerar hipóteses acerca de uma relação cultural, cujo aspecto temporal ainda precisa ser demonstrado, a partir de investigações mais aprofundadas.

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3.1.2 Entre rio e paraná. Furos, lagos e pedrais e a construção de lugares persistentes