Os adolescentes do grupo C demonstraram grande interesse pela questão monetária quando se trata de pagar pelo recurso virtual que utilizam.
se eu não encontrar um fixo eu uso celular, entendeu? Eu prefiro usar o fixo, porque aí não gasta (ri). É porque eu tenho que pagar os meus créditos, (ri, e os outros tb) é o risco” (C13)
“é, eu prefiro. Se tem a opção de ligar para o fixo, eu ligo, daí se não tem, eu, ou não tá acessível no fixo, eu ligo de celular para celular”(C14).
Até quando o adolescente vai estabelecer contato com outro, ele pensa na questão monetária “as vantagens é que tu continua com contato, fora da aula ou de outro lugar assim, não precisa gastar dinheiro, né. Não precisa gastar celular, e tal. É mais fácil e rápido” (C15).
(Quando indagado do porque desta preocupação, ele dispara) monetária (C14).
O consumo virtual é visto com desconfiança pelos adolescentes, que normalmente desviam dos anúncios, muitas vezes desacreditados por eles. Parte dos adolescentes do grupo B e a maioria do grupo C referem fazer compras virtuais, porém, há uma atitude reservada e de cautela sobre o que é anunciado na internet.
Têm aquelas propagandas do site, aquelas propagandas lá do lado. Normalmente é vírus ou é algo que vai fazer o computador ficar ruim, de qualquer maneira eu não entraria. Se eu entro naquele site eu não vou me distanciar daquilo não, ficar olhando, compre por isso, aquilo, você é o milésimo visitante e ganhou um premio... descarto geral. Tem até uns gráficos assim na internet, né, que mostra chance de ser nonagésimo nono visitante, um gráfico com 99% de chances reais e 1%. Sério, eu já fui o milésimo visitante umas mil vezes! A gente fez um teste, entramos no mesmo site, e todos eram o milésimo... (B12).
Do consumo na internet alguns dizem “eu não gosto muito de procurar é compre agora, desconto de,... ah, é isso” (C10); “ah, qualquer coisa, tem de tudo pra vender na internet!”(C15). Talvez a massificação das relações de consumo esteja tão entranhada no meio virtual, que os adolescentes vejam os apelos do mercado e decidam ignorar. “o que mais eu vejo é para vender coisas... vendas, assim. Pra conseguir dinheiro de adolescentes, porque às vezes capaz de não ter uma noção do que é, e sair comprando, né? (C15); “eu vejo propaganda de roupas, celular, i- pad, e uns equipamentos, mp3, sempre esse tipo de...roupas e calçado” (C14).
Anúncios que buscam convencer o sujeito a consumir não são bem-vindos pelos adolescentes, que estão mais interessados em navegar pelos sites do seu interesse.
Perca 20 cm em 7 dias... Ah, eu odeio protetor de link, tu vai fazer o download, tem que pôr o número do teu celular. Ah, eu só quero fazer o download, pára! Daí eu sempre fico tentando, lá pegar os negócios do link e voltar pra ver se já não passa para próxima parte, só que daí é muito difícil, odeio aquilo (B11).
Porém, a mídia, pela massificação que exerce sobre o sujeito, concorre para estimular um posicionamento contrário.
Mas o que eles não veem é que a gente está fazendo contato, você pode ver televisão, ouvir musica fazer trilhões de coisas assim... mas eles sempre mostram aquela coisa voltada para o mal, assim. Parece que qualquer pessoa que tu conhece na internet é um pedófilo, entende, e qualquer pessoa que tu vai conhecer na internet vai tentar te matar. (ri) é sempre assim (B11).
A adolescente (A1) presta atenção ao que é divulgado na mídia que envolve adolescentes na internet e se preocupa:
Um monte de coisa pode acontecer. Que nem a gente vê o tempo todo na TV, que pessoas que se comunicam com pessoas que não conhecem, daí se envolvem, marcam encontro, não sabe nem quantos anos a pessoa tem, porque por MSN uma pessoa pode mentir bastante, né? Por foto, porque tu não sabe, bota qualquer outra foto, a pessoa não sabe quem é, e como eu te disse, eu .. eu pelo menos não uso, só uso meu MSN para pessoas que eu conheço. Para outras coisas, por exemplo, assim, pessoas que eu não conheço, não... já na hora que manda ali o convite, né, pra adicionar, se é um nome que eu não conheço, eu já não adiciono (A1).
O adolescente (B10) amplia o olhar para as noticias na mídia, está atento à divulgação de acontecimentos que envolvam a figura estereotipada do adolescente, e reflete “tu vê a pagina lá do governo sendo hackeada quase todos os dias. Já prenderam alguns hackers. Nenhum deles tinha uma característica popular dos nerds, óculos, nada. Não eram adolescentes” (B10).
Os jovens atuais são a primeira geração que cresceu com a televisão em cores e o vídeo, o controle remoto e o zapping– e uma minoria – com o computador pessoal e a internet. (...) Agora se trata de entender como a espetacularização permanente à distancia nos modifica, ou, dito de outro modo: esta estranha combinação de midiatização e interconectividade. A midiatização afasta, esfria, e, ao mesmo tempo, a interconectividade proporciona sensações de proximidade e simultaneidade (CANCLINI, 2009, p.216).
O estereótipo do adolescente que carrega características sociais negativas ainda é o que mais incomoda todos os adolescentes participantes da pesquisa. O que ficou claro durante as entrevistas é que a sociedade, através da mídia mostra uma face do adolescente com uma intenção que “normalmente não é boa... é voltada para o mal, sempre...” (B11). Para a adolescente esse não é um pensamento só dos adolescentes, mas que “circula entre a maioria das pessoas, não importa a idade”(B11). As notícias envolvendo adolescentes, invariavelmente, retratam sujeitos que não possuem limites nem responsabilidade sobre seus atos, como se houvesse nele uma predisposição ao erro.
Talvez um dos achados da pesquisa mais relevantes é que sejam quais forem os sentidos atribuídos às linguagens praticadas na virtualidade e os significados que elas irão adquirir na vida dos adolescentes, estes como sujeitos que estão se desenvolvendo como seres sociais não querem ser estigmatizados nem segregados por isso.