Continuando o levantamento bibliográfico da produção do conhecimento sobre a história do rio Urubu, podemos ressaltar que, no final do século XIX e, sobretudo, na primeira metade do século XX, se multiplicam as informações sobre a história e a pré- história indígena. Durante esse período, conforme aumenta o interesse da sociedade nacional e internacional a respeito da Amazônia, se intensifica também a procura e a produção de uma identidade regional pelas elites intelectuais e políticas do Estado do Amazonas (Guzmán, 1997). Esse esforço se traduz, para nossa área de pesquisa, nos preciosos trabalhos de Barbosa Rodrigues e de Bernardo Ramos, como também nas primeiras pesquisas arqueológicas desenvolvidas por Curt Nimuendaju e Erland Nordenskiöld:é nesse contexto quecomeça o estudo da pré-história do rio Urubu. As notícias que podemos extrair da literatura de tal período são marcadas por interesses e pressupostos totalmente heterogêneos, que levaram a escolher diferentes objetos de estudo e a formular interpretações opostas. De um lado, temos os impressionantes estudos eruditos das “inscrições” gravadas nas pedras, para demonstrar a origem mediterrânea das culturas amazônicas (Ramos, 1930), ou os estudos sobre os mitos, as línguas e as culturas indígenas (Barbosa Rodrigues, 1875), influenciados pela abordagem linguística de Varnhagen (1841); do outro, os pioneiros estudos etnográficos modernos, realizados por estrangeiros, e as primeiras organizações da cultura material pré-histórica. Curt Nimuendaju desenvolveu diversas pesquisas nos rios Urubu, Madeira, Paraná do Ramos e Amazonas, entre as décadas de 1920 e 1930; localizou e registrou dezenas de sítios na região que hoje compreende os municípios de Itacoatiara, Silves, Itapiranga, Urucurituba, Urucará e São Sebastião do Uatumã. Suas primeiras asserções sobre proximidades de conjuntos estilísticos e sobre a possível ligação
57 cultural entre os grupos indígenas e o material arqueológico encontrado são de grande valia para as investigações arqueológicas na região (Nimuendajú, 2004: 162-170; Nordenskiöld, 1930).
Merece uma citação também Ermanno Stradelli que em 1883 estudou as urnas de Miracanguera descritas por Barbosa Rodrigues e, mais tarde, por Bernardo Ramos, além de ter interpretado as inscrições da pedra de Itacoatiara, averiguando sua origem não indígena (Stradelli, 2009; Silva, 1997: 176).
A grande quantidade de dados levantados durante a primeira metade do século XX foi sintetizada em chave neoevolucionista dentro do âmbito da escola da Ecologia Cultural norte-americana, que deu começo a um vasto programa de pesquisa coordenado por Julian Steward com o apoio do Smithsonian Institution. As contribuições etnográficas, linguísticas, arqueológicas e antropológicas dos maiores americanistas da época, compreendendo vários europeus como Metraux, Nimuendaju, Nordenskiöld, e Lévi- Strauss; e norte-americanos como Kroeber, Lowie, Rouse, Willey e Meggers, confluíram no Handbook of South American Indians (Sterward, 1948). Essa obra ainda hoje é considerada entre as maiores referências para os estudos das culturas sul- americanas; e, foi nesse âmbito que Betty Meggers e Clifford Evans sistematizaram o estudo da arqueologia amazônica. A partir de suas pesquisas na foz do Amazonas e, em seguida, no Equador, Peru, Venezuela e Guianas e no próprio Brasil, foram definidas as diretrizes analíticas da variabilidade cultural pré-histórica dessa macro-região; foram enfim propostas diferentes chaves interpretativas alicerçadas em conceitos difusionistas e em certo determinismo ecológico.
De fato, como argumenta Georges Canguilhem (1979; 1989) e de acordo com Noelli e Ferreira (2007), a história dos conceitos científicos não se desenvolve com uma trajetória de racionalidade progressiva e não necessariamente apresenta uma cadeia dedutiva de aperfeiçoamentos. Assim, dentro de uma abordagem teórica, na época inovadora e que ainda hoje conta com seguidores, reafloraram e, uma vez resignificados, consolidaram-se vários conceitos como o de escassez, de involução cultural, de degeneração e de origem exótica, tão comuns nas interpretações dos americanistas desde o século XVIII (Gerbi, 1983).
A avaliação e a crítica do potencial hermenêutico de tais categorias foram à base dos programas de pesquisa implantados na Amazônia desde a década de 1970. Entretanto, graças ao impulso de Meggers e Evans, a partir do final de 1950, foi produzida uma
58 enorme base de dados, entre os quais os que interessam mais de perto nossa pesquisa, quer dizer, aqueles levantados na região do rio Urubu.
Em colaboração com o casal norte-americano e contando com o apoio financeiro e institucional do National Science Foundation, do Smithsonian Institution e do Museu Paraense Emílio Goeldi, o arqueólogo alemão Peter Paul Hilbert começou a classificação da cerâmica da região de Itacoatiara entre 1955 e 1961 (Hilbert, 1968: 1), individuando a presença na área de três das quatro tradições12 propostas por Meggers e Evans: a Borda Incisa, a Incisa-Ponteada e a Polícroma da Amazônia.
Em 1955 Hilbert escavou o sítio Jauary na cidade de Itacoatiara, com o objetivo principal de realizar alguns testes estratigráficos, aproveitando dos movimentos de terra feitos para a implantação da Refinaria de Petróleo (COPAM) (Lima e Silva, 2004: 99). Os vestígios encontrados foram relacionados à fase Itacoatiara, com a predominância de incisões finas simples e duplas, modelados, acanalados, vários tipos de ponteados e policromia como decoração. Quanto à forma, os fragmentos faziam parte de vasos, urnas funerárias, adornos e vasilhas que, muitas vezes, combinavam diferentes tipos decorativos (Hilbert, 1968: 49-64).
Esses achados estimularam um intenso debate acerca da continuidade ou ruptura, em termos cronológicos e culturais, dos conjuntos artefatuais encontrados na região. A fase Itacoatiara foi amplamente discutida na literatura arqueológica (Hilbert 1968; Lathrap 1970b; Lima, 2008); incorporada na cronologia de Hilbert (1968) dentro da Tradição Inciso-Ponteada (Meggers e Evans, 1961) e, ao mesmo tempo, foi considerada por Lathrap como Barrancóide. Este último autor escreveu um artigo inteiro que refuta a proposta cronológica de Hilbert, alegando a ocorrência de mistura mecânica entre os contextos no sítio arqueológico (Lathrap, 1970b).Lima observa13 que esta controversa, porém consistente, fase cerâmica é para se considerar junto à Tradição Borda Incisa, completando seu quadro cronológico e regional (Lima, 2008: 48).
Com a implantação do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas da Bacia Amazônica (PRONAPABA) (Simões, 1977), e especificadamente graças ao arqueólogo do Museu Paraense Emilio Goeldi, Mário Ferreira Simões, começou uma segunda fase
12 De início foram definidos quatro estilos horizontais (vide Willey e Phillips, 1958), mas, durante o II
Seminário do Programa Nacional de Pesquisas Arqueológicas (PRONAPA), em 1968, foi examinada e discutida a validade dessa classificação, resultando na substituição do termo por tradição.
13 A interpretação foi proposta depois de uma cautelosa observação da cerâmica e dos contextos de alguns
dos sítios onde a fase Itacoatiara fora identificada por Hilbert, em associação com datações radiocarbônicas obtidas pela autora, embora ainda inéditas.
59 de pesquisas, que levou a um parcial refinamento das cronologias e da classificação cerâmica da região.
Junto com seus colaboradores, a partir de 1970, começou a desenvolver pesquisas na área do lago Saracá, do Paraná de Silves e na região do baixo Uatumã/Jatapu. Foram assinalados 20 sítios arqueológicos e prospectados outros no médio Urubu, que já haviam sido visitados anteriormente por viajantes, como o sítio AM-IT-21 Cristo Rei, prospectado em 1873 por João Barbosa Rodrigues (1875), que relata o local como sendo uma antiga aldeia dos índios Mura; e o AM-IT-22 Tauacuera, conhecido por ter sido a antiga missão do Anebá. Deste sítio, e do AM-IT-33 Boca do Frederico, Nimuendaju, em 1926 (2004), tinha coletado materiais arqueológicos, que se encontram hoje no museu de Göteborg. O sítio AM-IT-31 Caretas foi visitado e descrito por Barbosa Rodrigues em 1875, que faz a primeira menção da existência de gravuras rupestres; seguido por Nimuendaju e por Bernardo Ramos (1930). À Simões devemos o primeiro croqui que refigura a disposição dos blocos de arenito gravados nesse local e a delimitação da mancha de terra preta do sítio AM-IT-30 Pedra Chata, posicionado logo em cima do mesmo barranco (Simões, 1983).
Em 1980 Simões e Ana Lúcia Maroja Kalkmann prospectaram ambas as margens do médio rio Urubu, até a ilha Sucuriju, bem como o baixo curso do Aneba, a foz do Caru e o lago Aibu. O objetivo da pesquisa era, além da complementação dos estudos anteriores, estabelecer as áreas de dispersão das tradições cerâmicas Polícroma e Inciso- Ponteada, as rotas de migração e difusão, e também possíveis influências dessas tradições sobre as fases locais (Simões e Machado, 1987).
Em 1987 foram publicados por Simões e Ana Lúcia Machado os resultados preliminares das pesquisas e as primeiras datações para o material proveniente do Lago Saracá. Conclui esta fase de estudos arqueológicos o trabalho de mestrado de Machado, onde se encontra uma discussão sobre as tradições cerâmicas amazônicas à luz do contexto do rio Urubu (Machado, 1991). As tradições e as fases propostas para a região são descritas na Tabela 1. O quadro apresentado nesta tabela mostra como, no começo dos anos Noventa, os estudos sobre a cronologia regional da região do rio Urubu fossem ainda extremamente lacunosos. Dispunha-se somente de poucas datações absolutas, e a maioria dos conjuntos encontrava-se formulada de forma hipotética.
60 Tabela 1: datações produzidas por m. Simões para os contextos do rio Urubu. Fonte: Machado, 1991.
Porém, a partir da metade da década de 1990, a região da confluência do rio Negro com o Solimões começa a ser estudada mais sistematicamente graças ao Projeto Amazônia Central (PAC) (Heckenberger et al., 1999; Neves, 2003; 2009). Para tal área, limítrofe à nossa, foi gerada uma grande quantidade de dados com o objetivo de refinar a cronologia regional e os conjuntos cerâmicos. Foram levantadas importantes informações contextuais e relacionais e foram propostas hipóteses interpretativas de particular interesse também para nossa área de pesquisa (Arroyo-Kalin, 2008; Castro, 2009; Chirinos, 2007; Costa, 2009; Donatti, 2003; Heckenberger et al., 1999; Lima 2003, Lima 2008; Lima et al., 2006; Machado, 2005; Moraes, 2006; Neves, 2008; 2009; Neves e Petersen, 2006; Neves et al., 2003; 2004; Petersen, et al, 2001; Rebellato, 2007).
Em 2004, com o objetivo de ampliar a amostra regional e prospectar novas áreas, foi criado, por alguns membros da equipe do Projeto Amazônia Central e pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN), o Projeto Baixo Amazonas, que desenvolveu pesquisas arqueológicas em diferentes áreas do Baixo Amazonas.
Foram cadastrados no CNSA-IPHAN 107 sítios e foram documentadas e cadastradas coleções arqueológicas de doze municípios entre o rio Nhamundá e Manaus (Lima e Silva, 2005). Nesse âmbito, se realizaram também levantamentos na área do rio Urubu. Em 2007 e 2008 foram efetivados levantamentos prospectivos, relativos ao Estudo Prévio de Impacto Ambiental (EPIA) da construção de uma Usina Termelétrica (UTE) em Silves (Lima e Moraes, 2007); inclusive, levantamentos orais preliminares referentes ao Relatório de Controle Ambiental (RCA) para a implantação de uma linha de
61 transmissão de energia elétrica entre Silves, Itacoatiara e Manaus (Lima e Moraes, 2008).
Em 2009 foi criado um grupo de pesquisa no CNPq intitulado Arqueologia e Patrimônio no Baixo Amazonas, certificado pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), com o apoio do Programa de Apoio à Iniciação Científica desta universidade (PAIC-UEA), sob a coordenação da Dr.a Lima.
Foi neste contexto que, entre outubro e novembro 2009, participamos de duas etapas de campo, durante as quais foram efetivadas atividades referentes ao salvamento de vários sítios arqueológicos e à avaliação dos impactos causados pelas obras de pavimentação e melhoria da Estrada da Várzea, nos municípios de Silves e Itacoatiara (AM) (Lima et al., 2009). Foram operados um levantamento georreferenciado e um cadastramento de 30 sítios arqueológicos, pré-cerâmicos e cerâmicos, entre os quais também um sítio histórico e quatro rupestres.