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2.3 Refining mechanisms

2.3.1 Theoretical approach

São várias as motivações que levam importantes segmentos da sociedade a resistir às evidências favoráveis apresentadas pelas estratégias de redução de danos. Cruz

(2006) ao abordá-las, levanta algumas hipóteses das quais nos ajudam a melhor compreender tais oposições.

As manifestações contrárias à perspectiva de redução de danos podem estar relacionadas, de acordo com Oliveira (2005, como citado por Cruz, 2006, p.20), a um equivocado entendimento de seu conceito e aplicabilidade. O equívoco inclui a compreensão de que suas estratégias sejam: a) contraditórias, além de dispensar as ações preventivas, não dirigindo as ações para a redução de oferta nem da demanda; b) interessantes a produtores e vendedores de drogas; c) produtoras de inércia em relação aos quadros de dependência; d) permissivas, e e) mensageiras de descrédito quanto à idéia de que seja possível interromper o uso de drogas (no âmbito individual) ou a de que os problemas relacionados ao uso possam ser minimizados (no âmbito coletivo).

Stimson e Fitch (2003, como citado por Cruz, 2006, p.20) mostram não haver contrariedade das estratégias de redução de danos com as de redução de oferta e da de demanda. Exemplificam com o caso do uso da bebida alcoólica, com a medida de restrição dos locais de venda. No tocante à redução de oferta, com a medida de alerta para os riscos do consumo, durante a realização de atividades preventivas, além da medida de restrição de propaganda sem a proibição de seu consumo.

Karam (2003, como citado por Cruz, 2006, p. 21) aponta que o interesse aos produtores e vendedores de drogas é favorecido não pelas ações de redução de danos, e sim pelas tentativas de se resolver as questões do uso abusivo por meio de ações predominantemente repressivas, que acabam gerando o encarecimento dos produtos.

Cruz (2006) salienta que a idéia de que a redução de danos se coloca como inerte diante das pessoas dependentes não atende à realidade da atuação de profissionais redutores no campo das atividades de prevenção. Ao contrário, viabiliza o

estabelecimento de vínculos de confiança, muitas vezes seguido de pedido de ajuda e encaminhamento para tratamento.

É irreal, segundo o autor, a concepção de prática permissiva, pois a realidade de profissionais e instituições mostra que programas de prevenção e de assistência incluem a discussão em equipe e a explicitação de limites e critérios.

Por fim, destaca o autor que as ações de redução de danos se apóiam na compreensão de que mudanças nos padrões de uso são necessárias e possíveis. Tais mudanças podem significar a interrupção do uso para uns, e a diminuição dos problemas no âmbito social. De qualquer modo, o que não cabe nas referidas ações, são metas irrealistas e contraproducentes.

As estratégias de redução de danos têm sido criticadas como opositoras ao modelo da abstinência. Na verdade, o que acontece é viabilizar melhores opções para cada usuário, de maneira a evitar a imposição ou exigência de parar o uso de drogas a qualquer custo. Diz Cruz (2006) tratar-se de não se desprezar a importância da abstinência para algumas pessoas, mas de incluí-la como uma possibilidade a mais entre outras. Advoga o autor, reforçado pelo posicionamento de Oliveira (2005), que a exigência de abstinência imediata trata-se de uma dura proposta, para uma parcela do grupo de usuários, que busca o tratamento porque justamente não consegue interromper o uso da substância. Assim, ficam selecionados para tratamento apenas os que conseguem cumprir com tal exigência.

Importante destaque é dado por Cruz (2006) à idealização por parte de muitos que advogam pela causa da redução de danos. Trata-se da radicalização no debate que conduz à suposição de que todas as pessoas podem vir a fazer um uso moderado de drogas, sejam elas lícitas ou ilícitas. Aponta a realidade de que muitos dependentes de drogas precisam interromper de imediato e completamente o uso para que cessem os

agravos dele advindos e para que se beneficiem de algum tipo de tratamento. Para o autor, em outras palavras, “da mesma forma que não se deve idealizar a necessidade de

abstinência para todas as pessoas que usam drogas, não se pode também supor que todas vão poder controlar o uso” (Cruz, 2006, p. 22).

Sugere o autor que “as instituições e profissionais que trabalham na assistência e

utilizam a lógica da redução de danos encontram o desafio de identificar os casos em que a necessidade de abstinência é premente” (Cruz, 2006, p.22). E, para complementar, como abordaremos mais adiante, a coerência pode balizar as possibilidades e limites do manejo dessa prática, além da compreensão individualizada para cada caso. São necessários projetos terapêuticos individualizados, como fala Cruz (2006), que contemplem a diversidade dos casos.

Por ora, para finalizar, destaca o autor que “Sem a ilusão de um consenso fácil,

pode-se supor que a identificação de pontos de resistência e preocupações de defensores de parte a parte pode diminuir a incompreensão e viabilizar o diálogo construtivo. Entre as hipóteses aqui levantadas para as razões para a resistência, encontramos o efeito da mera reprodução acrítica de modelos,a compreensão insuficiente das propostas e as idealizações radicalizadoras” (Cruz, 2006, p.22).

III – SOBRE A CONSTRUÇÃO DO MÉTODO

Considerando que o método tem a ver com a natureza do objeto estudado e que os fenômenos aqui apresentados constituem processos em mudança, optamos estudar a problematização proposta por uma modalidade metodológica qualitativa: o método de estudo de casos. Trata-se de uma exposição dinâmica sobre os pontos que constituíram a história do processo investigado, e não meramente uma descrição de suas aparências, que favoreceu o alcance das relações internas constitutivas e a intensidade do processo. A escolha por esse método deu-se pelo fato de possibilitar descrevermos e analisarmos o contexto, as relações e as percepções a respeito do fenômeno social da Redução de Danos no processo da psicoterapia. Uma opção útil pelo conhecimento gerado acerca dos eventos vivenciados, dos processos de mudança ocorridos e das bases teóricas que os nortearam. Mais adiante esboçaremos com maior riqueza importantes critérios que motivaram nossa escolha pelo método de estudo de casos. Por enquanto, importa situar que nossa escolha dependeu muito dos objetivos que inicialmente traçamos.

Nosso entendimento é de que o design deste estudo revela tratar-se de um estudo de casos múltiplos, cujo foco, segundo Yin (2003), está na variedade de estudos conduzidos simultaneamente. Incluímos nosso estudo de casos também na categoria de coletivo, por estender o estudo a outros casos conexos, com o objetivo de ampliar a compreensão ou a teorização sobre um conjunto ainda maior de casos. Sendo os critérios de seleção dos casos nada estatísticos, buscamos casos típicos em função das informações prévias que bem representavam nosso objeto de estudo.