2.3 Refining mechanisms
2.3.3 Measurements of pressure and forces in refining
Descreveremos os critérios de base para a escolha do método de estudo de casos como procedimento metodológico de análise do nosso objeto de estudo.
Os objetivos desta investigação, as hipóteses formuladas e as questões a serem respondidas foram aspectos decisórios na escolha dessa estratégia metodológica, cujas razões lógicas poderemos compreender a seguir.
Acompanhamos o entendimento de Yin (2007) de que os critérios para a utilização do estudo de casos são muito mais epistemológicos que metodológicos. Isso por termos objetivado um estudo em profundidade de um tema tão particular - o processo psicoterápico para dependentes de drogas na perspectiva da redução de danos - , retratando a complexidade e intensidade de seu contexto e dinamismo o mais próximo possível da realidade dos acontecimentos. A tentativa de preservar e manter, o mais fiel possível, o movimento de construção e desconstrução ou de reconstrução das ideias e ações não poderia ser diferente. Essa importante característica do método de estudo de casos nos possibilitou esclarecer os motivos de um conjunto de decisões acerca da redução dos danos no uso não injetável de drogas, bem como os caminhos como foram implementados.
Caracterizou a referida escolha pelo estudo de casos o fato de o objeto desse estudo tratar-se de fenômeno social complexo e contemporâneo, inserido em contextos da vida real, com pouca abrangência de controle da pesquisadora sobre situações multidimensionais. O pouco controle está associado à existência das fontes de evidências, independente da intenção de estudo da pesquisadora.
Contribuiu de igual forma na delimitação de nossa preferência pelo método de estudo de casos, a ideia de Stake (1995) de ser o método do estudo da particularidade e da complexidade de um caso singular. Uma singularidade repleta de importantes
relações e variáveis, com ampla variedade de evidências documentada, dentro de um contexto delimitado no tempo e no espaço, podendo ser ela representativa daquilo que pretendeu nosso estudo.
A possibilidade, pela via do estudo de casos, de utilização de um esquema teórico mais aberto, sem a limitação do movimento das interpretações, mas, ao contrário, que favorecesse o surgimento de novas variáveis ou múltiplas dimensões ao nosso objeto de estudo, foi um forte argumento definidor para nossa escolha metodológica. Nesse sentido, a teoria sistêmica foi alteridade fundamental identificada para nos dar suporte e referencial no desenvolvimento das hipóteses em questão, promovendo abertura para combinar diálogos entre vários saberes a serviço da ciência. Assim, percorremos o discurso epistemológico da teoria da complexidade de Edgar Morin, o mote da interdisciplinaridade abordado por tantos autores e das mais diversas áreas, combinando, sem dúvida, o conhecimento e as vivências da pesquisadora às experiências de importantes clínicos e pesquisadores que tanto colaboram na construção de um pensar não envelhecido, meritocrático – ou gerontocrático – sobre o tema da redução de danos e o contexto do uso de drogas.
No andar da carruagem, podemos entender o que aqui dissertamos como tentativa de expandir nosso estudo a proposições teóricas. Mas por que não pensarmos numa tal generalização, seja para reforçar ou contrastar proposições existentes seja para contribuir com novas ideias?
Não se trata apenas de informar se a dimensão empírica que esta pesquisa clínica representa estará ou não confirmada. Temos sim a pretensão de trazer bases para uma reflexão e discussão em profundidade. Trabalhamos para dar maior consistência de pensar, e quem sabe continência de furores e dissabores, para uma temática que sofre
pela não generosidade de opiniões e pela ausência de respostas mais humanas e solidárias para os cidadãos que tanto sofrem sua dependência.
Viabilizados pelo método de estudo de casos, esperamos com esse percurso cruzado de pensamentos, posturas e posicionamentos, todos atravessados intencionalmente por diversas falas, poder ajudar quem por ventura se encontre permanecido seja na cegueira da desinformação ou do preconceito seja no vácuo da abstenção ou do não-envolvimento. Ajudá-lo a produzir algum ou um diferente sentido sobre o tema e tão logo implicar-se numa causa que, segundo Bucher (1995), não é de um nem de outro, mas de todos nós, de toda sociedade.
A comunicação de uma experiência, na qual situações de tratamento foram escolhidas pela pesquisadora para desenvolver seu estudo é um dos objetivos do método de estudo de casos, enquanto estratégia metodológica na pesquisa clínica, segundo Stake (2000). Seguindo esse pensar, a história clínica de cada um dos casos selecionados, a evolução das sessões e as informações delas obtidas nos serviram de base para análise. Além de referenciar nossas discussões sobre nossa proposta teórica ou a técnica clínica investigada e utilizada na condução da experiência de tratamento, nos auxiliou a contrastar e divergir de outras orientações teóricas preestabelecidas – a saber, as tradicionais propostas da abstinência de drogas e da internação enquanto espaço de institucionalização do sintoma uso de drogas, ambas ainda concebidas como prevalentes, mas que tanto colaboram para perpetuar a exclusão de cidadãos.
D’Allonnes (1989) refere que o estudo de casos e a comunicação de seus resultados cumprem, de acordo com a área e por meio de métodos de diversas naturezas, diferentes funções epistemológicas. Assim, em nosso estudo investigativo, do campo da Psicologia Clínica, nos distanciamos da avaliação e do diagnóstico característicos da Psiquiatria. Privilegiamos a evolução de uma história e de um processo, nos planos
clínico, relacional e psicossocial. Perseguindo o pensar do referido autor, nosso percurso metodológico nos remete a um modo tão particular quanto aquele encontrado por Freud, de traçar uma forma própria de documentar a evolução de um tratamento.
Neste estudo de casos ilustramos o processo e o contexto na vida real em que ocorreu. Exploramos um conjunto nada simples de situações e resultados, buscando explicar ou trazer à compreensão as supostas e complexas vinculações causais nas intervenções realizadas. Combinamos a isso, por meio de nossas explanações, as ações aos efeitos obtidos. Dessa forma, esperamos informar o aprendizado e o conhecimento – resultados – advindos do método. Diga-se de passagem, um conhecimento contextualizado e baseado em um grupo de referência que, a nosso ver, produzirá ressonância na experiência de cada um que se apropriar deste texto, permitindo-o generalizar.
Por fim, destacamos o pensar de Minayo (2007), renomada pesquisadora, que complementou os critérios de nossa escolha metodológica. Segundo ela, essa estratégia permite mapear, descrever e analisar o contexto, as relações e as percepções a respeito das situações apresentadas, bem como esclarecer os fatores que interferiram em determinados processos. Evidenciamos ligações causais entre ideias, ações, intervenções e situações da vida real de cada sujeito, o contexto em que ocorreram, a direção do processo em curso ou movimento, as maneiras que pudemos interpretá-lo, além do sentido e da relevância de algumas importantes situações nos resultados de uma intervenção.
Desejamos ter possibilitado, a partir da metodologia de estudo de casos, a investigação de alguns dos aspectos ou dimensões que, com certeza, podem ter contribuído para o sucesso ou insucesso do fenômeno em estudo. Esperamos, uma vez termos selecionado nossa unidade de análise, tê-la compreendido em profundidade, sem
perdermos seu contexto, sua intensidade, suas inter-relações e sua dinâmica enquanto um processo, enfim, uma unidade em movimento.