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Tanto o contexto metodológico quanto o referencial teórico foram definidos em 2008, na elaboração do projeto de pesquisa, um (01) ano depois de encerradas as intervenções psicoterápicas dos três casos. O fechamento das intervenções se deu no período de 2007.

Os sujeitos dos casos estudados referem-se a 03 pessoas dependentes de drogas lícitas e/ou ilícitas, tratados em psicoterapia e em regime ambulatorial:

O primeiro caso trata-se de um homem de 23 anos, idade com que iniciou as intervenções aqui em estudo. Solteiro, de classe média, com ensino médio concluído, residia apenas com a mãe e o contato com o pai se dava apenas pela internet. Fazia uso abusivo diário de maconha, com períodos críticos de abuso de cocaína, na forma aspirada. Não desejava interromper o uso de drogas. Presença de transtorno bipolar, com predominância de episódios de mania com sintomas psicóticos. As intervenções estudadas se deram em regime ambulatorial, e em consultório particular.

O segundo caso refere-se a uma mulher de 29 anos, idade com que iniciou as intervenções aqui em estudo. Separada judicialmente, de classe média, com ensino médio concluído, residia sozinha, mas tinha contato diário com os pais, irmãs e uma das duas filhas. Fazia uso abusivo e diário de cocaína de forma aspirada, bebida alcoólica, com períodos imprecisos de uso de maconha. Manifestava desejo de interromper o uso, mas não conseguia. Presença de transtorno depressivo grave e recorrente, sem sintomas psicóticos. As intervenções estudadas se deram em regime ambulatorial, em um serviço público de saúde.

O terceiro caso relata a história de um homem de 30 anos, idade com que iniciou as intervenções objeto desse estudo. Solteiro, servidor público, de classe média, com

ensino médio concluído, residia sozinho, com poucos e complicados contatos com os irmãos. Fazia uso abusivo e diário de merla. Manifestava desejo de interromper o uso, mas não conseguia. Presença de transtorno bipolar, com predominância de episódios de mania, sem sintomas psicóticos. As intervenções estudadas se deram em regime ambulatorial, em consultório particular.

3.2. O procedimento de coleta de dados

O procedimento de coleta de dados teve início no ano de 2008, um (01) ano depois de encerradas as intervenções nos três casos em questão. Nesse momento já havia sido aprovado o projeto de pesquisa no Comitê de Ética e, portanto, definida sua metodologia.

O instrumento de coleta de dados foi uma pesquisa documental. Ao expor sua visão acerca do conceito de documento, Phillips (1974) considera como “quaisquer

materiais escritos que posam ser usados como fonte de informação sobre o comportamento humano”.

Trata-se a pesquisa documental de um método de obtenção de informação, a partir de registros de dados que não receberam tratamento analítico (Helder, 2006). Sendo a base de dados de natureza primária e originária, requer uma análise mais cuidadosa. Trata-se de uma base a partir da qual se tem uma relação direta com os fatos a serem analisados, ou seja, é o pesquisador que analisa (Oliveira, 2007).

Segundo Cellard (2008), o documento escrito constitui fonte extremamente preciosa, por permanecer, muito frequentemente, como o único testemunho de atividades particulares ocorridas num passado recente. Além disso, destaca o autor que o uso de documentos em pesquisa permite acrescentar a dimensão do tempo à

compreensão social, favorece a observação do processo de maturação ou de evolução de indivíduos, conceitos, conhecimentos, comportamentos e práticas.

As bases de dados foram os registros das sessões de atendimento psicoterápico. Estavam registradas sob a forma de narrativa, datadas numa cronologia que acompanhava o andamento do processo psicoterápico, bem como registradas pela própria psicoterapeuta, que descrevia as intervenções do trabalho psicoterápico, do acompanhamento psiquiátrico e outras ações que fizeram parte do tratamento.

As fontes foram os prontuários do ambulatório de um serviço especializado no tratamento de usuários de álcool e outras drogas, o SEAD, do Hospital Universitário de Brasília, além dos arquivos pessoais do consultório particular da psicoterapeuta responsável pelos casos.

A pesquisa documental busca identificar informações factuais nos documentos a partir de questões e hipóteses de interesse, conforme acentuam Lüdke e Andre (1986). Assim, em observância aos objetivos da pesquisa, os registros dos dados foram lidos e re-lidos, “garimpados” segundo Pimentel (2001), até que pudessem ser coletadas as informações e separadas em uma ficha. Nessa constava o nome do sujeito, início do tratamento, sexo, idade, estado civil, escolaridade e ocupação, contexto do uso de drogas, além das intervenções realizadas durante o processo psicoterápico.

A descrição de todo o material coletado para este trabalho foi feita de forma a facilitar o melhor entendimento de como se deu o processo construído por seus atores e a incentivar o resgate das relações entre os envolvidos e os aspectos contextuais. Os critérios de inclusão para cada caso se constituíram importantes aspectos para a definição de nossa unidade de análise.

Em se tratando de ser a psicoterapeuta e a pesquisadora a mesma pessoa, embora ocupando lugares e funções distintas, é relevante apontar, durante o procedimento de

coleta e análise, o resgate de reminiscências contextuais acerca dos casos. Ou, por que não dizermos, um percurso de revivescência da pesquisadora ao encontrar-se com registros já conhecidos e arquivados, realizados em período anterior ao presente estudo - no exercício de sua prática clínica. Nesse caso, as informações foram sendo acrescentadas durante o procedimento de leitura e re-leitura dos registros das sessões.

Acreditamos que tal fato não invalide nossos procedimentos metodológicos de coleta e de análise, por neles descaracterizar qualquer inclusão de novos acontecimentos ou mudança nas informações constantes dos registros da época. Tratam-se não de acréscimos de teor interpretativo, mas de maiores detalhamentos que contribuem para a apreensão mais próxima possível do processo psicoterápico em questão. Afinal, a palavra falada no cotidiano de nossa prática clínica muitas vezes se esquiva de nossa escrita. É um longo caminho a atravessar, da voz à letra. E esta dissertação é justamente parte da história da travessia desse caminho. Se a ciência nos pede para torná-lo o mais viável e real possível, não podemos nos refutar o direito de fazê-lo.

Desta forma, ao falarmos de reminiscências contextuais, referimo-nos à tentativa de enriquecer, com subsídios reais, alguns dados narrados pela psicoterapeuta, muitas vezes cunhados por um excesso de síntese ou brevidade, o que poderia dificultar a compreensão no tocante à intensidade de um fenômeno tão complexo como é o nosso objeto de estudo, além dos momentos gradativos de seu processo. A legitimidade do termo revivescência está associada ao que Demo (2001) nos faz pensar acerca da intensidade dos fenômenos complexos, e sua forma ordenada e desordenada de existir.

Em razão da complexidade contextual presente na realidade dos sujeitos que tornaram possíveis as intervenções aqui em estudo, somada às especificidades do próprio processo psicoterápico, nossa proposta é a de que, aquele a quem possa interessar esta leitura, dela se aproxime ao máximo e da forma mais realista possível.

Conforme Penso (2003) nos fala que assumimos a postura de que todo conhecimento é

sempre parcial e incompleto e que a história narrada trata-se apenas de um inexpressivo reflexo daquela que foi vivida. E, ainda segundo a autora, “... ao relatar

nossa experiência, sempre haverá a sensação de que não foi só isto que aconteceu e de que a linguagem é insuficiente para descrever as nossas vivências” (Penso, 2003, p.66). Penso (2003), ao comentar sobre a construção de um método de aproximação da realidade, diz que “esse método precisa nos reconhecer enquanto sujeitos emocionais

que interpretam uma realidade complexa e multifacetada. Assim, nos tornaremos co- partícipes do processo” (Penso, 2003, p.66).

Moreira (2002) propõe que o pesquisador, de forma cuidadosa, deve tentar sentir dentro de si mesmo a experiência do sujeito da pesquisa. De igual forma, na defesa do que levantamos como reminiscências contextuais, dentro da perspectiva da complexidade, há uma íntima relação entre o pesquisador e seu objeto de estudo. Convoquemos ainda o entendimento de Morin (2001), segundo o qual, a tarefa do pesquisador deve ir além da busca da compreensão dos fenômenos e alcançar a observação sobre si mesmo enquanto os compreende, constituindo-se esta, elemento de fundamental importância na interpretação dos dados da pesquisa qualitativa, e em particular neste estudo.

Segundo Neubern (1999), ao descrevermos a história daquilo que vivemos, é inevitável a seleção, para nós mesmos e para os outros, de aspectos mais relevantes. Para o autor, é apenas uma tentativa de tornar linear, no tempo, uma realidade complexa e nada linear.