4 T HE LOCAL COMMUNITY
5.3 The role of finance for innovative activity
Desde a segunda metade do século XVII, quando foi fundada a Académie de France à Rome, a corte dos Bourbons tinha por hábito enviar a cada ano artistas e técnicos para estadas que variavam de seis a dezoito meses na Itália. Já estava em questão o estudo metódico do classicismo, sobretudo no que dizia respeito à escultura e à arquitetura antigas. Ainda assim, teve-se de esperar até 1829 para que o primeiro ancestral direto da EFR aí aparecesse. Diante dos progressos da arqueologia nas primeiras décadas do século XIX e da vitalidade de suas universidades, a Prússia liderou um esforço internacional para fundar em Roma o Instituto di Corrispondenza Archeologica, cuja sede encontrou um espaço altamente prestigioso junto ao Capitólio. Os sucessivos regimes de governo franceses, tenham sido eles monarquias, repúblicas ou impérios, aderiram à iniciativa, enviando para estágios ou missões pontuais na referida instituição estudiosos das antiguidades greco-latinas.
Com a intensificação das tensões internacionais na década de 1860, planos envolvendo a fundação de uma instituição totalmente nacional dedicada à arqueologia começaram a ganhar força ainda durante o Segundo Império. A derrota para a Prússia em 1870 e a germanização do Instituto di Corrispondenza Archeologica, o qual passou a se chamar Deutsches Archäologisches Institut, acabou tornando imperativo o projeto. Para viabilizar a iniciativa, o governo da Terceira República se escorou então na École F a çaise d’Ath es, a qual não apenas serviu de modelo para a EFR, como também lhe emprestou grande parte de seus primeiros quadros e recursos.
Um decreto assinado em 25 de março de 1873 instituiu, sob a direção do helenista Albert Dumont, a Sectio Ro ai e de l’École F a çaise d’Ath es, abrigada junto ao Palácio Farnèse, o mesmo edifício onde se localizava a embaixada da França na Itália. Composta ape asàpo àdoisà e osàliv es em seu primeiro ano, Louis Duchesne e Eugène Müntz, tal instituição tinha por objetivo principal a olhe à osà ate ie ses à para um período de aclimatação ao clima mediterrânico, além de lhes proporcionar um primeiro contato prático
88 com a arqueologia. Ela também permitia àqueles que desejassem se dedicar aos estudos latinos permanecerem mais tempo no local antes de partir a Atenas2.
Mas a missão de Dumont não consistia somente em instalar uma simples antena da EFA na Península Itálica. A curto prazo, tratava-se mesmo de fundar uma escola arqueológica independente. Os decretos de 26 de novembro e 28 de dezembro de 1874 deram mais um passo nessa direção: além de nomear dois outros e osàliv es ,àL o àCl datàeàBe tholdà Zeller, eles a tornaram uma instituição nominalmente autônoma. A Sectio Ro ai e de l’École F a çaise d’Ath es passou assim a se chamar École Archéologique de Rome, tendo ainda por diretor o helenista Albert Dumont. Por fim, após mais um ano de atividades preparatórias – reformas nas instalações, acordos com as autoridades italianas e eclesiásticas, entre outras –, a instituição ganhou o mesmo estatuto que a EFA. Surgiu assim, em 20 de novembro de 1875, a École Française de Rome, agora dirigida por Auguste Geffroy, um pesquisador mais afinado com os estudos latinos.
Tal mudança de estatuto implicou uma transformação na morfologia da escola. A partir desse momento, ao lado dos poucos e osà liv es já atuantes, passaram a ser nomeados a cada ano e osàefetivos ,àosà uaisàpoderiam permanecer em Roma entre um e quatro anos como funcionários-pesquisadores do governo francês. Para se tornar um o a o ,à oà p o essoà seletivo era muito semelhante ao praticado no interior da EFA. O fundamental era obter um bom resultado no exame de agrégation, sendo igualmente necessários um curriculum alentado e cartas de recomendações de expoentes das áreas contempladas na escola. Não parecem ter existido, contudo, testes seletivos especiais, muito provavelmente em função do amplo leque de recrutamento da EFR. De fato, em contraposição ao que ocorria em Atenas, a nova escola não recebia apenas antiquisants, mas também jovens pesquisadores interessados em estudar a história medieval e moderna da Europa, em geral provenientes da École Normale Supérieure (ENS), da École des Chartes e/ou da École Pratique des Hautes Études (EPHE).
A definição desse escopo de interesses esteve ligada a circunstâncias políticas e infra- estruturais que marcaram a fundação da escola. O governo francês e a Igreja Católica haviam mantido uma relação de proximidade ao longo do Segundo Império. Não se pode esquecer que, nesse ínterim, Napoleão III havia enviado tropas para proteger os territórios papais
2 áà situaçãoà doà ate ie se à Gustaveà Blo hà é paradigmática quanto a isso. Nascido no seio de uma
família judaica em Estrasburgo, filho de um professor primário, Bloch passou em primeiro lugar no exame de admissão da École Normale Supérieure (1868), obtendo também o primeiro lugar na
agrégation de lettres, três anos mais tarde. Sua carreira de sucesso, iniciada na EFA, o levou na
sequência das universidades provinciais para a Sorbonne, onde ocupou a cadeira intitulada Histoire
89 ameaçados por partidários da unificação da Itália. Novamente aqui a guerra contra a Prússia teve um papel fundamental, pois, na eminência da derrota francesa, todos esses soldados tiveram de ser retirados às pressas. Aproveitando-se a ocasião, os nacionalistas italianos finalmente anexaram o centro-oeste da Itália, confiscando os domínios da Igreja e dando início aoà ueàoàpapaàPioàIXà ha ouàdeàoà ativei oàdoàVati a o .àE àde o iaàdesse conjunto de episódios, cujas implicações negativas aos olhos dos italianos foram ainda intensificadas pela corrida colonialista das velhas e novas potências europeias ao norte da África, as relações diplomáticas entre França e Itália foram inauguradas em um clima particularmente tenso. A carta que Camille Jullian, integrante da sexta promoção da escola, escreveu à família em 6 de maio de 1881 faz menção ao clima de hostilidade que ele encontrou ao chegar a Roma:
Vocês devem entender que a questão de Túnis nos apaixona, que esses rumores de guerra, de conquista, de vitória nos entusiasmam. Sente-se patriota quando se vive, como nós, longe da pátria e em meio a uma população estrangeira e hostil! Todos os nossos desejos, todos os nossos votos são para a entrada imediata das tropas francesas em Túnis. Se os que nos governam soubessem como nós somos julgados e amados aqui, eles se apressariam em aproveitar, com um golpe de mestre, da ocasião que nos é oferecida pela impotência atual dos italianos (JULLIAN, 1936: 120).
As consequências práticas disso para a EFR foram duas. Por um lado, graças à criação de uma legislação italiana rígida quanto ao patrimônio histórico e arqueológico nacional, os franceses viram o trabalho junto aos grandes e médios sítios ser dificultado; por outro, os canais existentes com as autoridades católicas favoreceram o acesso a um acervo bibliográfico e documental único, a Biblioteca do Vaticano. Não por acaso, como também testemunham as cartas de Jullian, boa parte das atividades dos primeiros membros antiquisants da escola consistia em longos períodos de estudos nessa e em outras bibliotecas, pontuados por uma ou outra ida a campo. Considerando esse cenário particular, as autoridades políticas e universitárias francesas optaram por enviar, ao lado de pretendentes a arqueólogos, arquivistas-historiadores provenientes de outras instituições (as já mencionadas École des Chartes e a EPHE). Além disso, visando contornar a escassez de terrenos disponíveis à arqueologia, elas patrocinaram, sob os auspícios da EFR, a abertura de novas frentes de escavações no Norte da África, as quais consumiram a partir de meados da década de 1880 boa parte dos antiquisants da escola.
A complexidade das circunstâncias tornava ainda mais estratégica a figura do diretor da instituição. Afinal, ele tinha de conciliar o treinamento científico de seus subordinados com a atuação diplomática junto aos representantes dos governos do Vaticano e da Itália. Compreende-se assim melhor a nomeação de Auguste Geffroy. Com efeito, sem ser
90 exatamente um especialista em Roma Antiga, ele conjugava uma profunda fé católica, bem- vinda aos olhos da Igreja, com um declarado amor patriótico, crucial para um regime que acabara de se instalar mediante uma derrota militar.
Nascido na Paris de 1820 no seio de uma família ligada ao exército e ao comércio, Geffroy teve à sua disposição a melhor educação literária da época. Em 1840, ingressou na École Normale Supérieure, da qual saiu ag g d’histoi e et géographie em 1845. Os sete primeiros anos de sua carreira, em meio aos quais se doutorou com uma tese sobre Milton (1848), foram marcados por sua atuação em diversos liceus provinciais (Dijon e Clermont- Ferrant) e parisienses (Louis-le-Grand). Seguiram-se sua nomeação como chargé de cours d’histoi e e, depois, professor na Faculdade de Letras de Bordeaux, bem como sucessivas missões aos países escandinavos, sobre os quais ele publicou várias obras ao longo dos anos 1850. A ida a Paris se deu uma década mais tarde, sucessivamente como professor na ENS (1862) e na Sorbonne (1864). Sua primeira grande obra sobre a Antiguidade, um estudo sobre as relações entre os romanos e os bárbaros a partir da obra de Tácito, data de 1874, mesmo ano em que foi eleito membro não da Académie des Inscriptions et Belles-Lettres, baluarte dos estudos arqueológicos e greco-latinos, mas sim da Académie des Sciences Morales et Politique. Em 1875, ele foi nomeado diretor da EFR, cargo que manteve até fins de 1882, vindo ainda a ocupar a mesma função entre 1888 e 1895. Diante desse background, seu papel na EFR foi mais diplomático e afeito aos jogos de salão que científico (REY, 2009: 50-55)3. Não se pode esquecer, porém, que o contexto tornava esta atividade dependente daquelas.
No tocante às suas realizações, a principal herança da gestão de Geffroy foi a criação, seguindo o exemplo vindo de Atenas, de uma revista voltada à divulgação das atividades científicas da escola. Administrada por ele apenas em seus dois primeiros números, os MAH se mantiveram como a única revista que privilegiou os estudos sobre Roma Antiga até a década de 1920. Antes de discutir o perfil dos colaboradores da publicação e o perfil de seus diretores, é salutar compreender sua estrutura interna e periodicidade.