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4 T HE LOCAL COMMUNITY

4.1 The creation of networks

O aparecimento do BCH é inseparável da atuação de Albert Dumont como diretor da EFA entre os anos de 1875 e 1878. Georges Radet e Catherine Valenti, os dois historiadores dessa instituição, fazendo coro com os testemunhos de época, concordam em situar aí a ruptura definitiva entre a escola literária do passado e a científica do futuro5. Mas quem foi Dumont e que transformações engendrou na EFA? Nascido na Scey-sur-Saône em 1842, ele havia pertencido à geração de alunos que assistiu às primeiras tentativas de modernização do sistema de ensino francês. Aluno na École Normale Supérieure e ag g d’histoi e et géographie em 1864, ele embarcou no mesmo ano para Atenas como membro efetivo da EFA, lá permanecendo por três anos. Dumont teve então a oportunidade, rara à época, de trabalhar com o que se chamaria hoje de ultu aà ate ial .à E o aà as iniciativas da própria escola fossem ainda tímidas nessa direção, ele se engajou junto a autoridades gregas na catalogação de quantidades significativas de cerâmica e de inscrições epigráficas antigas. No necrológio escrito em 1884 por um ex-membro e futuro diretor da EFA, Théophile Homolle, descreveu-se do seguinte modo a transformação de seus temas de predileção (BCH, 1884: ii-iii):

O sr. Dumont começou, como se faz costumeiramente, pelos projetos os mais vastos; ao que parece, ele não sonhou com menos que uma história do Helenismo: suas notas provam que ele abordou todas as partes do tema, lendo de todos os lados um pouco ao sabor das

70 circunstâncias, reunindo as informações as mais diversas. Mas ele não tardou a perceber que os problemas se mostravam em todos os temas, que todas as questões estavam para serem respondidas e que era necessário limitar seus estudos para os tornar mais eficazes e novos; ele compreendeu que as fontes não haviam sido nem esgotadas, nem todas utilizadas, e que se podia descobrir um pouco de verdade até nos vestígios mais humildes e aparentemente mais desprezáveis da antiguidade. A necessidade da precisão e da claridade o conduziram assim das generalidades da história ao detalhe da epigrafia e da arqueologia figurada.

Ou seja, ele encarnou, individual e prematuramente, a transformação que deveria mais tarde tocar toda a escola.

Os trabalhos que Dumont desenvolveu em sua estada em Antenas sobre a epigrafia, a cerâmica e os monumentos do neolítico gregos o tornaram conhecido dos patrões do helenismo situados em Paris. Em 1868, logo após seu retorno à França, a Académie des Inscriptions et Belles-Lettres o enviou em mais uma missão, dessa vez para o Egito e para várias regiões então sob o domínio otomano (Síria, Trácia e a capital do Império), onde ele deveria coletar indícios materiais da antiga presença grega. Após um ano de viagens, seguiu-se um período de consolidação de sua carreira: ele defendeu então sua tese principal sobre a cronologia e a sucessão dos arcontes atenienses, na qual cruzou documentos de origens diferentes (literárias e epigráficas) para datar com a maior precisão possível mais de trezentos anos de história grega (DUMONT, 1870). Seguiram-se novas missões ao exterior (dessa vez aos Balcãns), bem como trabalhos sobre cerâmicas e a participação ativa em várias revistas de época (em particular, a Revue Archéologique, o Journal des Savants e a Gazette des Beaux- Arts). Foi então que, com apenas 31 anos de idade, ele foi convidado para se tornar o sub- diretor da seção romana da É ole F a çaise d’Ath es.

Em função da longa distância que separava a França da Grécia, os membros da EFA se viam encorajados a passar de alguns meses a um ano em Roma. Tratava-se de um período de a li atação ao clima mediterrânico. Mas tal antena, compartilhada por antiquisants de vários países, não tinha qualquer autonomia e, após a derrota para a Prússia em 1870, as instalações voltadas à arqueologia foram fechadas aos franceses. Ou seja, em resumo, era preciso tudo refazer. A escolha de Dumont é um bom indício do prestígio que ele gozava junto a seus colegas mais velhos. Outro indício igualmente significativo é o objetivo de sua missão: estabelecer a curto prazo uma escola independente de arqueologia em Roma. Não se trata agora de discutir em detalhes a fundação da École Française de Roma (EFR), sobre a qual se falará mais adiante na presente tese (subcapítulo 2.2). O que importa destacar aqui é o fato de Dumont se ver na situação de administrador de uma unidade cada vez mais autônoma, com membros livres desde 1873 e efetivos a partir de 1875. Era preciso, portanto, criar boas condições institucionais (estatutos e vínculos com outras instituições) e materiais (sede,

71 alojamentos e biblioteca) de trabalho. Uma vez a tarefa concluída, o estado francês lhe concedeu uma clara promoção: assumir e modernizar a escola da qual ele havia sido membro. Entre 1875 e 1878, Dumont voltou a Atenas, mas agora como diretor.

Dentre suas realizações na EFA, a mais significativa foi certamente a criação do Institut de Correspondance Hellénique logo em seu primeiro ano. Catherine Valenti apresenta tal feito como símbolo ãoàape asàdaà i adaà ie tífi a àdaàes ola,àmas também da competição entre os franceses e o Deutsches Archäologisches Institut, fundado em 1874 (VALENTI, 2006a: 62- 68). Tal competição esteve, porém, longe de ser apenas científica. No necrológio de Dumont antes referenciado, Théophile Homolle esclareceu que as elites locais e nacionais gregas haviam se organizado em várias sociedades eruditas, as quais, em seus pequenos boletins, apresentavam o resultado de achados arqueológicos e epigráficos, muitas vezes realizados sem qualquer cuidado profissional (BCH, 1884: xv-xvii). Atento a esse movimento e disposto a tirar vantagens dele, Dumont estabeleceu no seio da EFA o Institut de Correspondance Hellénique, capaz de congregar os universitários franceses e as elites gregas. No início da primavera, entre princípios de março e meados de maio de cada ano, os membros dessa instituição, formados sobretudo por arqueólogos amadores e profissionais gregos, aos quais se associavam os membros da escola, reuniam-se quinzenalmente em Atenas para apresentar e discutir seus achados. A ideia, portanto, era coordenar uma série de esforços antes isolados e promover sua profissionalização. Divulgar esses resultados na forma de uma revista especializada surgiu como uma das decorrências mais imediatas dessa iniciativa.

O primeiro volume do Bulletin de Correspondance Hellénique (BCH) apareceu já em 1877. Ao que tudo indica, ele foi publicado anualmente, tendo como editoras e difusoras a parisiense Ernest Thorin6 e a ateniense . Sua organização interna era bastante simples e não se alterou significativamente com o passar dos anos: ao lado dos artigos e das raras resenhas, estas em sua maioria voltadas aos trabalhos de antigos membros da escola, havia uma parte voltada aos informes e aos resumos das comunicações apresentadas no Institut de Correspondance Hellénique. A sofisticação da revista estava, contudo, em seu índice de matérias. Teve-se o cuidado de apontar nessa seção, ao final de cada volume, os temas de interesse de cada texto. Em 1877, o conteúdo da revista foi dividido daàsegui teàfo a:à à es a açõesàeà iage s ;à à a ueologiaàfigu ada à esse item subdividido e à es ultu as ,à o jetosà e à ou o ,à p ata ,à o zes ,à hu os ,à id os ,à ped asà g a adas ,à te a-cotas e asosà pi tados ,à u is ti a ,à pi tu a à eà useus ;à à epig afia ;à à filologia ;à à íti aà histó i a ;à à i liog afia ;à eà à o u i açõesà eà

72 o espo d ias . Como se pode constatar, os quatro primeiros itens estavam ligados di eta e teà sà ati idadesà ditasà ie tífi as à daà es ola:à asà es a açõesà eà e pedições,à as inscrições e os objetos encontrados. Eis aí a vocação da revista mais uma vez explicitada: apresentar documentos originais inéditos. Comprovam ainda isso o fato de haver inicialmente muito pouco espaço para textos de síntese (em geral enquadrados em íti aà histó i a à eà também a função dos demais itens, os quais diziam respeito ou às resenhas ou à parte científico-administrativa do Institut de Correspondance Hellénique.

Com o passar dos anos, esse panorama foi sendo complexificado. A direção das transformações perpetuou, contudo, a ambição inicial da revista. Tratou-se, no mais das vezes, de discriminar as áreas de proveniência dos achados ou de acrescentar novos itens e subitens ( geog afia , topog afia ,à a uitetu a .àHou e,àno entanto, duas mudanças significativas. A p i ei aà foià aà iaçãoà deà u à a poà i tituladoà itologia .à Eleà su giuà pelaà p i ei aà ezà e à 1883, voltando a aparecer em 1895, dessa vez para ficar. Sob tal rubrica, por vezes apresentada também como eligião , foram publicados tanto textos específicos sobre objetos de culto como artigos mais gerais sobre as práticas religiosas antigas. A outra inovação importante é a transformação do item cinco o igi al,à íti aà histó i a ,à em algo intitulado histó iaàeài stituição , já em 1891. Com efeito, ao carregar tal nome, ele passou a integrar discussões jurídico-institucionais nos ensaios de fundo histórico. Eram essas as duas categorias que permitiram, até fins da Primeira Guerra, textos de maior fôlego.

É importante manter em mente tal estrutura, justamente porque ela explicita as formas classificatórias com as quais os próprios helenistas então subdividiam suas áreas de atuação e davam sentido às suas instituições. Por certo, o BCH não foi criado, como será mais tarde a Revue des Études Grecques, para dar conta de todas as facetas do helenismo7. Atrelado a uma instituição de ensino e de pesquisa, além da divulgação de material inédito, ele visava tão somente dar espaço ao fruto do treinamento de boa parte dos futuros helenistas franceses. Ainda assim, foram precisamente essas formas de classificação impressas na revista que, dentro de certos limites, permitiram o diálogo entre o saber dos helenistas e aqueles oriundos de outras disciplinas.

Antes de verificar como se deu o diálogo específico entre helenistas e sociólogos, cumpre ainda entender a morfologia do BCH. Afinal, quem, da fundação da revista até o período do imediato pós-Primeira Guerra Mundial, esteve aí presente? Quais constantes e transformações podem ser identificadas nesse intervalo? São justamente essas indagações que serão enfrentadas nas páginas que se seguem.

7 Para uma análise do que seria esse helenismo, veja-se, no subcapítulo 2.3 da presente tese, o item

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O

S DIRETORES DA

EFA:

UM PERFIL CIENTIFICAMENTE PROGRESSISTA