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4 T HE LOCAL COMMUNITY

5.1 Marketing and distribution

Privilegiando, em detrimento de grandes ensaios interpretativos, a divulgação de documentos originais, o BCH diminuiu consideravelmente a porta de acesso à sociologia durkheimiana. Afinal, uma ciência recém-estabelecida e com quadros reduzidos não estava em condições de propor avanços imediatos em arqueologia e, sobretudo, em epigrafia. Ou seja, os membros da EFA pareciam poder prescindir da sociologia para traduzir inscrições e descrever objetos extraídos dos sítios arqueológicos gregos14. Ainda assim, como foi visto antes, existiram seções do BCH aptas a acolherem textos mais alentados, em especial aquelas i tituladasà itologia à ouà eligião à eà histó iaà eà i stituição .à Foià p e isa e teà essesà espaços que o diálogo foi viável.

Tratou-se, porém, de um diálogo breve se pensado em termos diretos. De 1898 a 1920, apenas três referências foram feitas por não-sociólogos aos trabalhos de colaboradores do AS. Às vésperas da Primeira Grande Guerra, Henri Hubert teve seu verbete Magia escrito para o Dictionnaire des Antiquités Grecques et Romaines (doravante DAGR) citado por um antigo membro da EFA, o então bolsista do Institut des Hautes-Études Hispaniques, René

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O caso da arqueologia é, de fato, mais complexo, pois Henri Hubert e alguns de seus alunos atuaram na área, discutindo, em particular, o contexto galo-romano. Veja-se, sobre isso, o subcapítulo 3.2 da presente tese.

81 Vallois (BCH, 1914: 250-271). Em um texto intitulado , partindo de uma estela encontrada em Délos, o autor discutiu a carga religiosa da legislação em torno das imprecações nas cidades gregas. Para além de Hubert, Pierre Roussel foi também referenciado como alguém a quem Vallois recorreu pessoalmente. Por fim, o autor ainda se valeu do trabalho de James Frazer e de uma helenista britânica bastante próxima aos sociólogos durkheimianos, Jane Harrison.

Outra citação direta ao trabalho de um sociólogo durkheimiano ocorreu dois anos mais cedo. George Seure, outro antigo membro da EFA, publicou na revista da escola o catálogo dos lapidários pertencentes a um colecionador grego, Anastásio Stamoulis. Todos os objetos eram provenientes do norte da Grécia (Trácia) e o catálogo, que não se restringia apenas a uma descrição das peças, discutia-as com algum nível de detalhamento (BCH, 1912: 534-641). Em duas ocasiões, páginas 557 e 614, Seure se valeu do verbete Negotiator, escrito pelo jurista e sociólogo Paul Huvelin para o mesmo dicionário em que Hubert havia publicado o seu Magia. O tema das inscrições, as práticas comerciais e/ou determinados comerciantes antigos, reclamava um suporte bibliográfico como esse, mais geral.

É interessante notar que, nesses dois casos, as referências vieram deà ate ie ses à ueà já haviam deixado a escola. Isso significa que ambos estavam em uma fase mais avançada de seus trabalhos de pesquisa, podendo agregar à tradução de inscrições antigas comentários mais aprofundados. É revelante também a origem das citações. O DAGR era uma enciclopédia da Antiguidade greco-latina que visava fornecer uma base para a discussão de temas pontuais (deuses, ritos, localidades, utensílios variados, entre outros)15. O público-alvo era, portanto, o dos antiquisants. Não se pode assim estranhar que os textos dos colaboradores do AS aí impressos tenham sido justamente aqueles que chegaram às mãos dos helenistas em início de carreira. Por fim, vale ainda destacar os temas dos artigos: as relações entre leis e religião na Grécia Antiga.

A terceira citação opera em um registro similar. Em 1913, Charles Avezou e Charles Picard, dois membros efetivos da EFA em fim de estágio, discutiram inscrições epigráficas encontradas na costa da Trácia (BCH, 1913: 84-154). Uma dessas inscrições, na qual se enumeram as honrarias e as obrigações dadas a um negociante romano, fazia menção ao comércio do trigo. Os autores então citaram um dos primeiros trabalhos publicados do helenista-sociólogo Louis Gernet (1909), o capítulo de livro intitulado L’app ovisio e e t d’Ath es e l au Ve

et au IVe siècles, para atestar a importância da referida atividade. A citação é importante não apenas pelas intuições sociológicas que tal texto contém, mas

82 também, e sobretudo, por indicar o reconhecimeno de jovens pares de sua autoridade na área. Com efeito, ao contrário de Huvelin e Hubert, Gernet seguiu desde cedo a trajetória de antiquisant16.

Além das alusões diretas, toda uma literatura familiar ou próxima aos sociólogos esteve presente nas páginas do BCH. Os nomes de James Frazer e Jane Harrison foram já mencionados acima em um artigo específico. A revista da EFA chegou mesmo a publicar um artigo dessa helenista inglesa sobre os usos rituais do Ônfalos de Delfos (BCH, 1900: 154-126), o único texto seu nas revistas dos antiquisants franceses antes da Guerra. Do mesmo modo, o BCH registrou um número considerável de alusões a Frazer e a outro antropólogo britânico, William Robertson Smith17. Entre os franceses, autores como Salomon Reinach e Paul Perdrizet, ambos antigos membros da EFA e helenistas próximos aos durkheimianos, também aí discutiram aspectos da religiosidade dos antigos gregos18.

Desse modo, não se poderia dizer que a escola sociológica francesa, bem como outros ramos das ciências sociais praticados à época (em particular a antropologia britânica), tenham sigo negligenciados no BCH. Dado o foco da publicação, é mesmo um sinal bastante positivo a simples alusão a trabalhos nela inspirados, pois indicam a convergência de interesses quanto a certos temas e abordagens. Ter-se-á de esperar por periódicos destinadosàaosà elhos ,àaosà helenistas já consolidados, para que essa modalidade de diálogo seja explicitada em termos de alianças ou de tensões, sejam elas epistemológicas e/ou institucionais.

Há, contudo, outros indícios da presença da sociologia durkheimiana no BCH: a participação direta. De fato, como será visto na sequência, os portadores de tal saber também atuaram aí como colaboradores.