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4 T HE LOCAL COMMUNITY

5.2 Competence providers in the NIS

Apenas dois membros da equipe de AS ostentaram em seus currículos a prestigiosa passagem pela EFA: Charles Fossey e Pierre Roussel. O primeiro deles aí esteve entre 1894 e 1897, antes mesmo da criação da revista dirigida por Émile Durkheim. Tal estágio no exterior foi, porém, crucial para sua trajetória. Uma vez em Atenas, Fossey foi incumbido de missões na

16 É importante lembrar que o referido texto de Gernet foi publicado em uma coletânea publicada em

homenagem a um dos poucos latinistas próximos aos sociólogos, Gustave Bloch. Uma resenha sobre ele, bastante elogiosa, foi publicada por François Simiand em L’A e So iologi ue (cf. AS, 1910: 563).

17 Destaco o uso que Paul Perdrizet faz dos dois autores em BCH, 1911: 108-119, bem como as

discussões de Avezou e Picard em BCH, 1914: 38-62.

18 Veja-se, entre outros, os textos de Salomon Reinach sobre os deuses Ártemis e Pã, respectivamente

em BCH, 1906: 150-160 e BCH, 1907: 1-19. Quanto a Perdrizet, veja-se o texto que ele dedica a Hermes (BCH, 1903: 300-313 ), bem como o terceiro artigo que ele dedica às representações em alto relevo da deusa Nêmesis (BCH, 1914: 89-100).

83 Síria em nome da escola, situação que lhe permitiu entrar pela primeira vez em contato direto com as antigas civilizações do Oriente Médio, às quais ele dedicou o restante de sua carreira de pesquisador19. Tal reconversão, da qual Fossey não foi o único exemplo entre os ate ie ses , permitiu-lhe embarcar para mais um estágio de dois anos no Institut Français d’A h ologie O ie tale (1897-1899), onde ele se iniciou definitivamente na assiriologia20. Foi no retorno a França, quando logrou obter uma posição na Va seção da EPHE (encarregado de um curso livre intitulado Religion Babylonienne), que ele travou contato, por intermédio de Henri Hubert, Isidore Lévy e Marcel Mauss, com a sociologia21.

O caso de Pierre Roussel é diferente. Não bastasse o seu estágio na EFA ter sido posterior e maior se comparado ao de Fossey (1905-1911), ele representou para Roussel o início da carreira de helenista. Foi com a experiência adquirida lá que ele se tornou um dos maiores epigrafistas franceses no período entreguerras, ocupando, além de uma cátedra na Sorbonne, o posto de diretor da EFA entre 1925 e 1936. Além do mais, Roussel manteve contato com os durkheimianos durante sua estada em Atenas, bem como escreveu ao BCH um artigo no mesmo ano em que iniciou sua colaboração para o AS (1913).

Em todo caso, o lugar dado à nova ciência em seus trabalhos ligados a EFA foi mínimo. Dos quinze textos que ele aí escreveu até 1920, a grande maioria apresentou ou o resultado de escavações22 ou a edição crítica de novas inscrições descobertas23. Todo esse material arqueológico e epigráfico trabalhado provinha da ilha de Délos, o sítio ao qual ele dedicou sua tese, Les cultes égyptiens à Délos du IIIe au Ier siècle av. J.-C., defendida em meio à Primeira Guerra Mundial (ROUSSEL, 1916b). O artigo publicado no BCH após ele ter deixado a escola e aderido ao AS, Le Sénatus-Consulte de Délos, remete já a um estado avançado desse trabalho (BCH, 1913: 310-322). O autor aí discute o impacto da dominação romana em Délos no tocante à administração dos cultos públicos provenientes do Egito (antes sob tutela de instituições implementadas pelos atenienses). Nele, porém, não é o culto em si (em especial o de Serápis) que é objeto de discussão, mas sim as suas bases jurídicas e sociais (propriedade dos templos, magistrados responsáveis pela administração pública do culto, entre outros). O único

19 No BCH ele publicou três artigos, todos relatos de viagens à Síria. Cf. BCH, 1895: 303-306; BCH: 1897:

39-65 e 66-91 (o último em coautoria com Paul Perdrizet).

20 Veja-se, por exemplo, a trajetória de Pierre Jouguet, o qual partiu do helenismo para se dedicar ao

Egito Antigo (antes e após a conquista macedônica).

21 Para mais detalhes sobre a trajetória de Fossey, veja-se o subcapítulo 3.1 da presente tese. 22

Veja-se, BCH, 1909: 472-522 e 1910: 355-423 (ambos em coautoria com Jean Hatzfeld).

23 Cf. BCH, 1907: 421-470; 1908: 303-444; 1909: 443-444; 1910: 110-115 e 424; 1911: 423-432, 433-440

84 colaborador do AS citado no artigo foi o orientalista Isidore Lévy, o qual havia publicado anos antes um texto sobre as possíveis origens do culto ao deus Serápis24.

O terceiro e último sociólogo presente nas páginas do BCH durante o intervalo aqui estudado foi Paul Huvelin. Ao contrário de Fossey e Roussel, ele jamais foi membro da EFA e sua presença na revista se deve tão somente a sua especialidade. Em 1907, portando quatro anos após sua adesão à equipe do AS, ele foi convidado pelo então diretor da EFA, Maurice Holleaux, para redigir em companhia de um membro da escola em seu último ano de estágio, Enzio Schulhof, um artigo acerca de uma lei comercial praticamente intacta recém-encontrada em Délos.

Mas por que o recrutamento de Huvelin? O fato é que ele havia se doutorado dez anos antes com uma tese sobre o direito comercial da Antiguidade greco-latina à Europa Moderna (HUVELIN, 1897). Na mesma linha de pesquisas, mantendo também um amplo viés comparativo, ele já havia escrito até então nove verbetes sobre a história das práticas comerciais e legais para o DAGR, dedicando-se sobretudo à Grécia Antiga. Sua escolha como colaborador pontual do BCH era, portanto, bastante natural.

O texto publicado intitula-se Fouilles de Délos exécutées aux frais de M. Le Duc de Loubat (1905): inscriptions, loi réglant la vente du bois et du charbon à Délos e ele é subdividido em seis partes (BCH, 1907: 46-93). Na primeira delas, trata-se de apresentar a transcrição e a tradução da inscrição antiga. A segunda parte, por sua vez, investe na datação da peça, o que é feito a partir do cruzamento de dados relativos ao seu vocabulário, à história do sítio arqueológico onde foi encontrada e ao estilo ou grafia de certas letras nela utilizadas. As três partes seguintes discutem o significado e as implicações econômico-sociais da lei, atentando para suas divisões internas (diretos comerciais e as penas previstas em casos de infração). Por fim, os autores propõem um balanço do valor documental do objeto. Tendo em vista a natureza de cada uma dessas discussões, é muito provável que Schulhof tenha se ocupado das duas partes iniciais do texto, deixando assim a Huvelin as discussões propriamente jurídicas.

Chama atenção nas derradeiras partes do artigo as intuições sociólogicas que os guiam. Por exemplo, em se tratando do único decreto completo à época conhecido regulando práticas comerciais envolvendo carvão e madeira, Huvelin explora-o a partir de um viés comparativo. A raridade desse tipo de documentação foi então compensada por outros suportes documentais gregos (textos de Platão e Ateneu), bem como por legislações

24 A citação ocorre em BCH, 1913:312. Roussel grafou, contudo, o nome de Lévy de forma errada (que

aparece como L ,à e à o oàe ouàoà ú e oàdaàp gi aà à ualàseuàte toàfazàalusãoà oàa tigoàest à es itoà ,à oteà ,à ua doàoà o etoàse iaà ,à oteà .àQua toàaoàte toàdeàL àe à uestão,à f.à RHR, 1909: 285-298.

85 provenientes de outras experiências societárias (o direito comercial romano ou aquele proveniente do medievo europeu). Huvelin busca assim mostrar como não há nada na lei antiga que sugira medidas protecionistas do estado. O que estava em questão ali era basicamente o direito dos consumidores ou, em outros termos, o preço justo para os consumidores. A legislação de Délos, em consonância com o que se conhecia das experiências no Mediterrâneo e do Ocidente Medieval, obrigava os importadores a utilizar as balanças públicas, forçando igualmente a fixação prévia dos preços antes da venda e a venda direta das mercadorias, sem intermediários. Tais medidas impediam assim que o comerciante pudesse gerar especulações a partir de seus produtos. Para Huvelin, esse conjunto de práticas t aduzi iaà ideias que eram correntes na Grécia, como em todos os meios dificilmente sepa eisà daà e o o iaà ag í ola . Ele ainda discute certos privilégios para comerciantes capazes de se fazer representar legalmente na ilha, bem como as diferentes medidas punitivas em caso de violação das leis.

Finda a discussão sobre a atuação dos sociólogos durkheimianos no BCH, resta ainda fazer um balanço provisório do diálogo que eles aí estabeleceram. Ora, sua presença direta e indireta na revista da EFA, ainda que pequena, é um excelente termômetro para se medir o sucesso relativo da sociologia na universidade francesa quando aos modernismos então em voga no campo de helenismo. Não é de se estranhar que o BCH, voltado prioritariamente para a divulgação de material arqueológico e epigráfico original, bem como ao treinamento de jovens helenistas, tenha cedido espaço para teorias mais gerais acerca do funcionamento das práticas religiosas e jurídicas provenientes da equipe do AS. Afinal, ele foi um dos primeiros periódicos ao mesmo tempo científicos e ligados ao sistema de ensino, o que não lhe permitia negligenciar totalmente o que se produzia de novo na universidade.

Do mesmo modo, é bastante compreensível que certos sociólogos durkheimianos tenham compreendido as benesses de se frequentar um espaço tão reputado e tradicional como o da EFA e de contribuir com seu boletim. Como o público interessado pela nova documentação aí periodicamente publicada era grande dentro e fora da França, tratava-se de uma vitrine interessante.

86 Assim se esvaía muito rápido, rápido demais, nossos trabalhos e nossos dias: jovens arqueólogos ocupados com suas eruditas memórias e escavações, nas quais eles aprendiam na prática as difíceis técnicas, medievalistas atrelados cada um a um registro pontifical sem prejudicar seus trabalhos pessoais, historiadores do humanismo e dos tempos modernos, todos colaboradores privilegiados dos

Mélanges (cuja reputação estava nessa época já

solidamente estabelecida), nós nos esforçávamos para nos tornarmos dignos de nossos predecessores, os Jullian, os Nolhac, os Diehl, os Gsell, os Prou e os Bertaux, sem esquecer o próprio abade Duchesne, que desde o início nos mostrou o

a i ho . Charles Samaran (SAMARAN, 1979: 135-136)

2.2 – OS

MÉLANGES

D’ARCHÉOLOGIE

ET D’HISTOIRE

Com o lançamento do primeiro número do periódico M la ges d’A ch ologie et d’Histoi e (MAH) em 1881, pode-se finalmente falar em um campo de publicações universitárias especializadas nos estudos da Antiguidade greco-romana. Embora o latim e o grego representassem, ao lado do francês, as línguas dominantes no ensino secundário, havia entre elas, ao menos desde o início do século XIX, uma clara assimetria: esta língua ocupava aí um espaço muito menor que aquela1. Os estudos latinos, além de representar o catolicismo francês, funcionavam tal qual uma a ei a , como diria Edmond Goblot, no tocante aos processos seletivos ligados às profissões liberais e à alta burocracia estatal. Não obstante, quando considerado o ensino universitário e a pesquisa científica, foram os estudos gregos que saíram na frente na segunda metade do século XIX, modernizando seus quadros e fundindo o ensino literário de então às perspectivas científicas advindas de outras disciplinas (a arqueologia, a epigrafia e assim por diante). O aparecimento dos MAH aponta, em conformidade com a tendência reformista da Terceira República, para a primeira tentativa de realizar uma similar profissionalização no campo dos latinistas. A tarefa não era nada fácil e várias tradições nacionais, tanto religiosas quanto laicas, colaboraram para imprimir a ela características singulares. Tais particularidades foram assim expressão de tensões e de afinidades eletivas antes existentes, mas também produtoras de novas modalidades de relações.

Colado ao exemplo do BCH, os MAH foram criados no seio de uma escola de especialização francesa situada no exterior, a École Française de Rome (EFR). Fundada apenas

87 em 1873, tal i stituiçãoàseguiuàosàpaçosàdeàsuaà i ãà aisàvelha ,à a EFA, unindo demandas próprias ao sistema de ensino francês com a produção de cientistas de ponta, no presente caso, latinistas, medievalistas e historiadores da Europa pós-Renascimento. Os MAH se apresentaram como o braço impresso da nova escola, atuando na divulgação de documentação inédita, bem como no auxílio à formação de especialistas.

O objetivo do presente subcapítulo é apresentar a EFR e sua revista, mostrando se e como elas acolheram os trabalhos advindos da escola sociológica francesa.