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A entrevista específica no âmbito dessa pesquisa mostrou-se uma situação particular para a obtenção dos resultados, tendo em vista que produziu um contexto específico. Tratou-se da criação de um contexto terceiro, contexto esse diferente da sala de aula escolar e do Grupo Miguilim. Contexto esse produzido pela pesquisa e que permitiu, a partir dele, não analisar as Miguilins em suas performances junto à obra rosiana, nem em seus desempenhos junto à escola. A entrevista foi o instrumento criador desse novo contexto, através do qual as entrevistadas produziram um discurso diferenciado, que possibilitou analisar as questões referentes às práticas de leitura e à

educação científica, em uma nova situação. Situação essa diferente daquelas em que as entrevistadas estavam habituadas a se portar, a usar determinado discurso, a agir. Foi por meio da entrevista específica que um discurso diferenciado foi produzido, e pelo interdiscurso, pode-se perceber a influência maciça do discurso escolar.

Além disso, os questionamentos feitos aos sujeitos entrevistados não foram comuns aos mesmos. Responder a algo que não estavam habituadas a ouvir e a refletir provocou desconcerto, principalmente por se tratar de um grupo do qual sempre se espera a melhor resposta, a melhor postura. Assim, a apropriação do discurso de autoridade – científico, escolar, validado – por parte desses sujeitos não nos foi espantosa.

O silêncio, muito marcante em algumas entrevistas, nos permite inferir ainda que, por serem “espelhos” para os demais jovens cordisburguenses e por serem alunas modelo torna-se mais importante não emitir qualquer resposta. Miguilim, de acordo com o que observamos e constatamos, não pode falar qualquer coisa e, em alguns casos, afirmar “Eu não sei” pareceu ser a melhor solução para que não haja o pronunciamento de qualquer resposta. A reflexão antes de responder à pergunta feita é um fato que acontece em muitas entrevistas e a nossos olhos mostra um aspecto particular desse grupo de jovens adolescentes. Nessa faixa etária, é muito comum que os jovens não se preocupem, não pensem antes de emitir opiniões, mas entre as jovens Miguilins entrevistadas a reflexão foi uma prática freqüente.

Outro ponto a ser comentado refere-se a alguns questionamentos específicos realizados durante a entrevista específica. A cada uma das entrevistadas fizemos questionamentos objetivando a promoção do interdiscurso, procurando relacionar os temas científicos definidos, às práticas de leitura cotidianas.

26. Você já leu algum texto ou livro que ajudou você a entender o que é natureza? 42. Você recomendaria a alguém a leitura de um livro ou de um texto sobre esse tema?

58. Teve algum texto ou livro que ajudou você a entender a biodiversidade?

62. Você acha que esse texto, de alguma forma, ajuda você a entender o que é biodiversidade? 72. Você já leu algum texto ou livro que fale desse tema, transformação?

73. O texto que você acabou de ler traz exemplos de mudanças que acontecem na natureza? 84. Algum livro ou algum texto ajudou você a reconhecer ou a entender esse termo?

Nossa maior intenção com essas questões era observar se em algum momento os textos rosianos lidos, durante o exercício da práxis Miguilim, poderiam ser lembrados, fornecendo indícios, dessa maneira, de uma possível influência na formação processual da educação científica dos membros do Grupo Miguilim. Pretendíamos saber se fariam referência aos textos rosianos e reconheceriam nos mesmos descrições do ecossistema vereda, exemplos da biodiversidade do cerrado (sertão para Guimarães Rosa). Acreditávamos que, desse modo, caracterizariam uma transposição para o mundo, para a arte, para a vida dos ensinamentos científicos escolares.

No caso de Nina, isso não foi observado. Suas respostas não mostram indícios do reconhecimento dos conceitos científicos e temas nos textos rosianos e, portanto, não podemos afirmar que o processo de educação científica, pelo qual a mesma passa, sofre influência dos conhecimentos científicos incorporados à trama textual rosiana.

Em relação ao discurso produzido por Ana no contexto da entrevista específica, dessa pesquisa não podemos concluir que os textos rosiano lidos durante o exercício da práxis Miguilim interferem em seu processo de educação científica, pois ao recomendar livros, recordar-se de textos, não faz referência, em momento algum, às obras de Guimarães Rosa. Ana recomenda livros de auto-ajuda para a compreensão do conceito de vida e textos didáticos para a compreensão de outros conceitos científicos abordados durante a entrevista, mas não se recorda ou não observa a incorporação de conhecimento científico, especialmente biológico, ao texto literário

rosiano. Talvez, a explicação esteja no fato de que as palavras utilizadas durante a entrevista estejam associadas intimamente aos conceitos científicos escolarizados e abordados com propriedade pela instituição escolar. Também devemos considerar que a formação junto ao Grupo Miguilim não perpassa discussões teóricas como a construção lingüística ou a incorporação da ciência ao texto rosiano, atendo-se a formação artística, performística e profissional de seus integrantes.

Também ao final da análise da entrevista de Kika, Lívia, Bia e Isa, mais uma vez, não podemos afirmar que os textos rosiano lidos, decorados e narrados pelas Miguilins entrevistadas interferem em seu processo de educação científica. Não verificamos nenhuma recordação de um trecho da obra rosiana, não havendo o relacionamento de conceitos científicos trabalhados e explicados pela escola, com outra instância que não a escolar: a literatura rosiana.

4.5-CONCLUSÃO

Nosso trabalho não tem a pretensão de responder a todos os questionamentos que surgiram no decorrer da pesquisa, principalmente porque se propôs a estudar um grupo de adolescentes que passam por um processo de formação não-escolar. No entanto, o delinear da pesquisa nos levou ao processo de educação científica em seu contexto escolar e o que pudemos realizar foram apontamentos, questionamentos, inferências e algumas discussões a cerca desse ambiente não estudado especificamente.

Para responder a todas as dúvidas e incompreensões seria necessário estudar não somente a escola, a sala de aula dos Miguilins, mas também as bibliotecas que freqüentam, os livros a que têm acesso. Desse modo, esse é um trabalho que deixa muitas questões em aberto, possibilitando que novas pesquisas se realizem, não

somente relacionadas aos Miguilins, mas a outros grupos de sujeitos sócio-históricos, escolares ou não-escolares que lêem, que aprendem ciências e que exercem cidadania.

Especificamente em relação à entrevista específica, observamos desconforto entre as entrevistadas, tendo em vista que lhes foi solicitado o reconhecimento de temas e conceitos científicos didáticos junto a um texto que não possuía uma linguagem didática e/ ou científica, mas sim uma linguagem literária e, portanto, polissêmica. Ainda assim, o reconhecimento foi alcançado por muitas entrevistadas, pois não nos prendemos à aplicação exata dos conceitos.

Observamos que os Miguilins são jovens que se apropriam de uma prática de leitura, narração e interpretação especializada, tendo em vista que transpõem tal competência para a narração de um texto didatizado literário, elaborado a partir do livro “O Tesouro do Quilombo”. Assim, reconstroem, recompõem, resumem, recortam trechos do texto para se prepararem e narrarem os mesmos.

Constatamos tratar-se de um Grupo de adolescentes leitores, que exercem práticas de leitura variadas, que concebem leitura de modos diferentes. Jovens que fazem das práticas de leitura uma prática cultural, sendo exceção somente a prática de leitura da obra roseana, que se apresenta distanciada e respeitosa. De qualquer modo, observamos que a prática de leitura dos adolescentes entrevistados é exemplar, no sentido de instalar uma prática social efetiva de relação adolescente e texto.

Percebemos, pelo discurso dos Miguilins entrevistados, a estreita relação entre leitura e escola, e entre conhecimento científico e escola, tendo em vista que o interdiscurso predominante foi com a escola. Esperávamos que as Miguilins entrevistadas promovessem interdiscurso com várias instâncias sociais distintas, inclusive com a instância artística da literatura rosiana, mas inferimos que a relação respeitosa e distanciada com a mesma, interfere nesse processo.

Observamos que a escola é o local social onde predominantemente aprende-se e ensina-se a leitura e também o local de ensino, aprendizagem e validação do conhecimento científico. Por entendermos a educação científica como um processo longo e gradual de criação de significados, sugerimos, então, a realização de um trabalho integrado de diversos espaços sociais de formação, para se alcançar a efetiva educação científica.