3 MAIN FINDINGS FROM THE EVALUATION
3.4 A flexible knowledge-based organization with adequate human
1. Pesq: Bom dia!
2. Nina: Bom dia!
3. Pesq: Hoje a nossa conversa vai ser um pouco diferente da primeira. Eu trouxe pra você esse texto que é uma adaptação do livro O Tesouro do Quilombo. O livro foi escrito pelo professor Ângelo Machado. Ele é especialista em insetos do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e ele já há alguns anos escreve livros de literatura infanto-juvenil. O Tesouro do Quilombo é um deles. Esse texto é uma adaptação que eu fiz, então tem duas cores de letras no texto. Uma mais escura e uma mais clara. A mais escura fui eu que escrevi. O que está mais claro foi retirado do livro na íntegra. Esse trecho foi tirado por completo do livro. A idéia é que você leia esse texto, ao final dessa leitura a gente conversa um pouco sobre ele. Eu tenho algumas perguntas para fazer. Quando você terminar essa parte da entrevista, a idéia é que você escolha um trecho do texto, se prepare, decore e conte pra mim, como você tem o costume de fazer como Miguilim. Aí o trecho é o que você quiser, do tamanho que você quiser. Isso não importa e é pro final. Então, não precisa ficar preocupada com isso agora. Também não precisa ficar preocupada com as respostas das perguntas que eu tenho pra fazer, porque pra essas perguntas não existem respostas certas ou erradas. O importante é que você fale pra mim aquilo que vier à sua cabeça. Vamos começar a leitura então?
Após essa explicação, Nina inicia a leitura do texto silenciosamente, sem questionar se a leitura deveria ser ou não silenciosa. Propositalmente, não explico inicialmente a nenhuma das entrevistadas como deveria ser essa leitura do texto, aguardando uma reação das entrevistadas.
No entanto, Nina inicia a leitura silenciosa, sem questionamentos, segurando o texto e gesticulando os lábios sem emitir sons. O texto de seis páginas é lido em 33 minutos e após a leitura, inicio as questões.
Nina não leu o livro “O Tesouro do Quilombo” que ganhou de presente e justifica o fato por não ter tido tempo, uma vez que estava preparando muitos trabalhos para a escola. Quando questionada sobre a leitura do texto comenta que gostou e que achou interessante o que entendeu. Analisando, essa primeira passagem da entrevista, temos que, para Nina, leitura precisa de tempo, precisa proporcionar entendimento e precisa ser interessante.
O que chama sua atenção no texto é o índio e a maneira como se veste. Mas a resposta ao questionamento vem acompanhada de um silêncio, como se não soubesse ou não quisesse responder algo além.
As perguntas relacionadas aos temas e conceitos científicos pré-definidos – natureza, vida, biodiversidade transformação (englobando os temas preservação, extinção, ciclos) e ecossistema – trouxeram respostas interessantes que nos fizeram refletir sobre as diferentes instituições que influenciam a produção do discurso e o processo de educação científica dessa Miguilim e das demais.
Respostas do tipo – 23. “Ai! O que significa? [Silêncio] Sei lá. Não sei não”; 37. “[Silêncio] Sei lá! Vida pra mim! Eu não sei o que significa vida pra mim não. [Risos]”; 41. “Ai! Nada. Não vem nada na minha cabeça”; 53. “Não sei. Eu já ouvi falar na palavra, mas o que é eu não sei não” – foram comuns durante toda a
entrevista específica realizada com Nina o que fez da mesma um importante ponto de partida para refletir sobre o discurso e as diferentes influências sobre a produção dele. Se considerarmos que o contexto analisado, ou seja, a entrevista específica realizada por uma pesquisadora, foge às outras duas instituições de produção do discurso no qual a Miguilim se insere - a escola e o Grupo – poderemos observar a presença e a ausência de ambas no discurso produzido pela Miguilim.
Nina, exerce sua práxis Miguilim, e se o contexto de produção do discurso fosse o Grupo, inferimos que provavelmente teríamos respostas diferentes para cada uma das questões. Assim como no contexto escolar, inferimos que teríamos também respostas diferentes, mesmo se considerarmos que Nina não se declara uma boa aluna. O ambiente escolar impõe um discurso diferente diante de questões sobre temas científicos ensinados e aprendidos na escola. No entanto, quando anuncio que para as questões propostas não existem respostas certas ou erradas dou liberdade para que a Miguilim coloque-se e produza um discurso muito próprio.
Nina declara não saber, não ter aprendido, não se lembrar dos temas e conceitos científicos abordados no ambiente escolar. Ou, então, se esquiva, se recusa a responder aos questionamentos propostos, não se permitindo ser entrevistada, não revelando seus pensamentos. Podemos refletir que o contexto de produção do discurso, a entrevista específica, não mostra à Miguilim o tipo de resposta que é esperado dela e, assim, há uma recusa expressada em respostas do tipo: 27. Não; 39. Não. Nunca parei não; 63. Eu acho que não.
Além disso, verificamos uma exclusão de si própria no discurso produzido quando não se coloca, mas afirma 61. “(…) Eles falam direto. Eu vejo quando passo nas salas (…)”. Assim, nos parece que Nina, na entrevista, declara não pertencer ao ambiente escolar, não incorpora o discurso produzido na escola, não se integra, não
faz parte, ainda que lhe seja possível ouvir e ver o que acontece e é falado nesse ambiente.
O interessante é que as perguntas são direcionadas ao sujeito, à entrevistada - 36. “Pra você, o que significa vida?” ou 48. “Você já ouviu falar na palavra biodiversidade?” – mas as respostas, o discurso, como observado acima, nos remetem a alguém que não fala com suas próprias palavras, mas usa aquelas já prontas proferidas por outras pessoas em ambiente aparentemente desconhecido. E podemos supor que a escola e a sala de aula não são ambientes desconhecidos para Nina, mas ela remete-se a eles sem posicionar-se.
Outro fato que nos chama a atenção é o conceito de transformação de Nina. Pergunto: 66. “Pra você, o que é transformação? A palavra transformação no sentido de mudanças da natureza”. Nina responde: 67. “Mudar… Mudar o jeito das pessoas de cuidar da natureza”. Desse modo, observamos que, mesmo após anunciarmos o que estamos chamando de transformação, a entrevistada relaciona o conceito aos seres humanos exclusivamente (Extrato 11). Mesmo afirmando na pergunta tratarmos de mudanças da natureza, quem deve mudar, para Nina, é o ser humano e seu comportamento frente à natureza. Mas, ao pedir um exemplo de transformação da natureza presente no texto, Nina muda seu conceito e anuncia um trecho que informa como as mudanças da paisagem natural ao longo dos anos não impediram os personagens da história de descobrirem o tesouro.
Extrato 11: Trecho da entrevista específica de Nina em que a mesma apresenta seu conceito