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Tenker dere at Sandefjord by har en egen dialekt som skiller seg fra andre?

In document «Jeg pratær sånn som jeg pratær» (sider 85-92)

6.2 Nivå 1: Måling av metaspråklig bevissthet

6.2.5 Tenker dere at Sandefjord by har en egen dialekt som skiller seg fra andre?

Guardo, dos meus tempos de jornalista na RTP, a memória das horas de almoço como aquelas em que se punham as conversas em dia e, ao projetar o meu período de observação, pensara em utilizá-las para conversas informais com os jornalistas.

Mas, no momento em que venho a fazê-la, a cantina da empresa está fechada para as obras de ampliação necessárias à passagem dos trabalhadores da RTP Meios, que se mantinham nos antigos Estúdios do Lumiar, para as instalações da Av. Marechal Gomes da Costa, e resta apenas o bar, menos propício a conversas mais demoradas Almoçar nos restaurantes das redondezas, além de mais caro, levanta problemas de tempo e o bar é a opção para muitos dos jornalistas da empresa.

Criou-se, entretanto, outro ponto de encontro: o cantinho dos fumadores onde as conversas decorrem no tempo de um cigarro.

O bar e a “sala de fumo” (um pequeno espaço com porta para o exterior ao lado da redação) são os panos de fundo da maioria das conversas informais que travo com alguns jornalistas e que me permitem conhecer melhor as formas de pensar dos elementos da redação. Tanto mais que muitos dos que – embora sempre prometendo fazê-lo – não respondem ao questionário que lhes enviei não se coíbem de me referir problemas do seu dia- a-dia na empresa, em conversas off-the-record (ou seja, que sabem não lhes irem ser atribuídas).

Como as idas ao bar só se verificam, normalmente, com jornalistas que já conhecia, aproveito as pausas para fumar ou para tirar um café da máquina para falar com os jornalistas mais jovens e tentar identificar as diferenças entre a atualidade e o meu tempo de exercício. Nem sempre é fácil. Apesar de a maioria ser licenciada e vários estarem a fazer investigações de mestrado, a minha curiosidade parece intimidá-los. Talvez seja, também, devido à crítica que em 2005 fiz da cobertura que as televisões generalistas portuguesas, incluindo a RTP, fizeram do chamado “arrastão de Carcavelos”.

E é nessas conversas informais, no bar, no cantinho dos fumadores e até, raramente, na redação, que aparecem as queixas laborais, os desabafos.

Tenho em conta a opinião de Howard S. Becker sobre o valor dessas queixas como fonte de informação sobre a atividade de uma organização. Segundo a interpretação daquele

autor, as organizações consistem em processos regularizados de interação, que dão a conhecer aos atores as normas, a forma como as coisas devem ser feitas. Os atores tomam essas normas como factos adquiridos, reagem mal quando os outros se comportam de formas inesperadas e queixam-se disso – e as suas queixas revelam aquilo que tinham por adquirido e que o sociólogo, precisamente, queria conhecer.66

E a verdade é que é nessas conversas que surge, por exemplo, a informação sobre o Gabinete de Qualidade e a medição da produtividade pelo número de repetições de uma peça. Mas não só: o incómodo perante rotinas de trabalho, a discriminação por género, o medo, também passam por aqui.

Conversa informal 1 (4 de Janeiro de 2007): as condições de trabalho.

Local: Bar da sede da RTP.

Participantes: duas jornalistas que já conheci do meu tempo na RTP.

Desconforto das condições de trabalho: as horas passadas num ambiente de luz artificial,

frente ao computador, sem possibilidade de falar alto – dado que, a qualquer momento, pode estar um programa a ser gravado ou emitido – o que impede a troca de opiniões, por vezes exaltada, que decorria na antiga redação;

Ritmos de trabalho: impossibilidade de levantar dúvidas ou hesitar, porque a velocidade

comanda tudo, mesmo se nada por vezes a justifica. Como quando os apresentadores fazem, em direto, a enviados especiais recém-chegados ao local de reportagem, perguntas a que estes não podem, obviamente, responder. “É a chamada opinião do motorista de táxi”, ironizam, já que muitas vezes foi essa a única pessoa com quem o enviado, recém-chegado do aeroporto, teve oportunidade de falar. Um exemplo bem concreto: a pergunta posta por um apresentador a uma enviada especial a Londres, após os atentados de 7 de Julho de 2005, foi se já se sabia quem os tinha cometido… Algo a que o próprio apresentador muito mais facilmente teria acesso através da consulta das agências noticiosas no seu computador;

Dependência das agências internacionais: no dia dos atentados de Londres, a RTP recebeu as

imagens, que correram mundo, de uma mulher com a cara coberta por uma máscara para as queimaduras. As mãos, dizem-me, eram as de uma mulher de mais de 40 anos, habituada a trabalhar manualmente e com algumas artroses. Mais tarde, a Sky News diria tratar-se de uma jovem estudante de uns 20 anos de idade. Difícil contrariar a informação de quem tem a autoridade de ter estado no local, embora o caso de Timisoara já nos devesse ter ensinado a todos a obrigatoriedade da dúvida metódica;

Controlo de produtividade: o Gabinete de Qualidade verifica mensalmente a quantidade de

peças gravadas, quantas vezes cada uma foi exibida, quais nunca foram emitidas, a taxa média de reexibição e a taxa de não-aproveitamento. Essa medida leva os jornalistas a temerem ser punidos por apresentarem baixa produtividade – sendo que, muitas vezes, não têm qualquer possibilidade de controlar a reutilização das peças. Referem o choro de uma jovem jornalista por, numa determinada semana, a maior parte das peças que fizera não terem sido emitidas.

A propósito da dependência das agências, recordo a minha experiência na América Central, em relação aos refugiados salvadorenhos, já referida, mas não só. Aterrar no Aeroporto de Sandino, em Manágua, e ver a mensagem “Bienvenido a Nicaragua libre, por la

gracia de Dios y de la Revolución” foi outra das experiências que me fez pensar sobre a

forma, por vezes expedita, como as agências noticiosas classificam realidades que necessitariam de uma maior subtileza. E levou-me a acolher sem grandes reservas as referências de Herman e Chomsky sobre o Modelo da Propaganda e o seu quinto ponto, o anti-comunismo. (Já presente na citação de Jack Newfield feita no segundo capítulo.)

Conversa informal 2 (4 de Janeiro de 2007): a redação/estúdio

Local: andar superior da redação.

Participante: trabalhador ligado à direção de Informação, não jornalista.

Condições de trabalho: “Pretendia-se uma redação que fosse simultaneamente um estúdio,

tem-se uma coisa que nem é redação – as condições de trabalho são péssimas, os jornalistas não podem sequer manter conversas ao telefone com um convidado, alguns chegam a ir falar para a casa de banho – nem é um estúdio.” Há mesmo quem o designe por “pólo tecnológico da Feira do Relógio”.

Conversa informal 3 (5 de Janeiro de 2007): a desilusão de uma jovem jornalista

Local: redação.

Participante: jornalista jovem

Métodos de trabalho: ausência de envolvimento dos jornalistas na linha editorial, ausência de

debate, ordens enviadas por computador, muitas reportagens sugeridas pela agenda – “quem qualifica aquelas senhoras para sugerirem as peças?” – a velocidade de recolha e montagem e o curto tempo das peças põem em causa a qualidade do trabalho.

Tom geral: “desilusão”.

Conversa informal 4 (11 de Janeiro de 2007): Precariedade

Local: cantinho dos fumadores

Participante: jornalista jovem

Métodos de trabalho: Queixa-se, também ele, da falta de contacto com o alinhamento, da

burocratização do trabalho e de falta de perspetivas para o futuro. Como muitos na sua geração, iniciou-se no jornalismo muito cedo, numa rádio local. Está habituado a contratos diretos, sem letras nem escalões.

Salário: Faz parte da geração dos mil euros e queixa-se amargamente disso. “Como é que posso

estar bem-informado, se o que ganho não me permite comprar livros e revistas?”

Ligação à empresa: “Hoje é a RTP, amanhã pode ser outra... Estou no mercado!”

Deixou-me a refletir sobre Sennett (1998) e a forma como as novas formas de contratação – contrato a prazo, (falsos) recibos verdes – impostas em nome da flexibilidade laboral, corroem a confiança, a lealdade e o compromisso.

Foi na RTP que me convenci da justeza das observações de Sennett. Uma das muitas restruturações com vista a diminuir o défice da empresa tinha levado à saída dos velhos contínuos, substituídos por jovens em busca de primeiro emprego e dispostos – ou forçados –

a aceitar a precariedade laboral. Eu estava em montagem no velho Lumiar e precisava, com urgência, de uma cassete que pedira ao Arquivo, no Prior Velho. O transporte da cassete, uma vez chegada ao Lumiar, competia, precisamente, a um desses trabalhadores.

O tempo foi passando, a cassete não chegava e voltei a ligar para o Arquivo. Informaram-me que a cassete já tinha sido enviada há muito e estaria certamente já no Lumiar. A Filmoteca confirmou tê-la recebido – e entregue ao jovem contínuo, dizendo-lhe que ma fosse entregar em mão, na sala de montagem onde me encontrava.

O editor de vídeo e eu procedemos a uma busca pelas diversas salas da montagem. Encontrámos a cassete numa sala totalmente diferente, junto a outras que nada tinham a ver com o nosso trabalho. Interrogado sobre o sucedido, o jovem foi claro: estava na RTP há dias, não costumava prestar serviço ali e não conhecia nem a pessoa nem a sala que lhe tinham indicado. Limitara-se, pois, a colocar a cassete algures na zona da montagem vídeo. Que, por causa disso, pudesse ter comprometido a emissão, era ideia que nem lhe ocorrera.

O jovem jornalista com quem reparti o tempo de um cigarro lembrou-me inevitavelmente esse jovem. A RTP era apenas o seu atual emprego. Como esperar que apreciasse a diferença entre trabalhar no serviço público ou num canal privado?

Conversa informal 5 (11 de Janeiro de 2007): Gerações

Local: bar da RTP

Participantes: duas jornalistas que já conhecia do meu tempo na RTP.

A alegria no trabalho: Conheci-as como “jovens jornalistas”. Falaram-me dos “jovens

jornalistas” de hoje: “São muito diferentes do que nós éramos. Não vivem a profissão como a vivíamos, com a alegria de fazer aquilo com que tínhamos sonhado.”

Recordo um comentário de Judite de Sousa:

“Acho que entraram nos cursos de Comunicação Social muitos jovens que não tinham vocação para serem jornalistas. Ou seja: nos anos 70 e 80 era-se jornalista por vocação – demonstrável imediatamente pela prática. Não creio que, nos últimos anos, isso seja evidente.” (in Andringa, 2011f: 614)

Conversa informal 6 (11 de Janeiro de 2007): Género

Local: cantinho dos fumadores

Participante: jornalista jovem

Conciliação entre trabalho e família: De serviço à RTP-N, a jovem jornalista com quem

partilho um intervalo mostra um evidente cansaço. Os filhos, adoentados, não a deixaram dormir. E conta-me que, numa situação semelhante, uma apresentadora desmaiou ao apresentar um dos serviços noticiosos da RTP-N, que teve de ser interrompido enquanto a retiravam. Constrangimentos de género? Continuam a ser sobretudo as mulheres a assistir aos filhos doentes, a levantar-se de noite.

Recordo de novo Judite de Sousa:

“Eu faço parte de uma geração de mulheres para as quais a afirmação profissional é muito importante. Tivemos aquela fase da emancipação, aquele movimento feminista que tem determinado tipo de objetivos e prioridades e, num segundo momento, há a afirmação das mulheres pela via profissional, em que entramos no mercado de trabalho em força, e queremos ser players ativas no mercado de trabalho. Eu faço parte dessa geração, o que significa que, de uma forma muito direta, a carreira está primeiro e a vida familiar depois. Na prática foi isto que aconteceu. Hoje em dia julgo que a coisa se inverteu, pelo menos sinto isso no contacto com as jovens jornalistas, as pessoas estão a valorizar mais a família do que o trabalho, talvez por estarem a perceber que as suas oportunidades profissionais e de progressão na carreira estão muito limitadas, provavelmente nem vão progredir coisa nenhuma, até porque os lugares estão tapados pela minha geração – é muito difícil porque nós, os mais velhos, estamos lá e não vamos sair tão cedo. Isto para te dizer que há todo um percurso de vida em que a profissão acaba por ser o eixo fundamental. Com todas as consequências que daí decorrem.” (id.: 619)

Conversa informal 7 (11 de Janeiro de 2007): IVG

Local: Redação

Participantes: jornalista coordenadora e jovens jornalistas

Cobertura do referendo IVG: Uma jornalista com funções de coordenação recorda que, em

1998, quando do primeiro referendo sobre a despenalização da interrupção voluntária da gravidez (IVG), foi desafiada a fazer um programa sobre o tema com outra jornalista, que defendia uma posição contrária à sua. Diz ter gostado dessa experiência. Mas, nove anos depois, é sobretudo uma igualdade cronométrica que dita a cobertura das posições pró e contra a despenalização da IVG e a pesquisa jornalística parece ultrapassada pela cobertura dos atos das organizações defensoras de um e outro ponto de vista.

A referência dá origem a uma conversa sobre questões ligadas à interrupção da gravidez. A jornalista preocupa-se com a regulação da IVG em relação às menores, se o Sim ganhar o referendo. Um jovem repórter inquieta-se sobre o papel dos homens, que não são ouvidos sobre a decisão. Temas que me parecem importantes de suscitar em antena, através de trabalhos de investigação dos jornalistas que os colocam.

Conversa informal 8 (12 de Janeiro de 2007): Problemas laborais

Local: Redação

Participantes: jornalistas que já conhecia do meu tempo na RTP

Desinteresse dos jovens: uma das jornalistas séniores conta-me que, tendo conseguido obter

livros e revistas sobre diversos temas de política internacional e estando estes ao dispor de toda a redação, ninguém mostra interesse em lê-los e queixa-se do desinteresse dos jovens jornalistas.

Open space: uma jornalista revela-me uma vantagem do espaço em que funciona a redação: já não há secções invisíveis, como acontecia quando funcionavam em salas separadas. Dificulta a ghettização, diz, e acrescenta: “O que não impede que haja pessoas marginalizadas.”

Saúde: uma das jornalistas de serviço à RTP-N sente-se mal. Junto-me à insistência de outras

colegas para que vá aos Serviços Clínicos. Tem a tensão arterial exageradamente elevada. Recomendam-lhe repouso. Mas nem a preocupação dos Clínicos nem a das camaradas de redação que se oferecem para a substituir a convencem a deixar o trabalho. Pelos comentários de algumas outras jornalistas, apercebo-me que, para lá de um elevado sentido do dever, há o receio de ser considerada menos profissional...

A forma como o trabalho põe à prova a capacidade de resistência das jornalistas estará, provavelmente, ligada à ainda recente feminização da profissão.

Durante muitos anos, entre os argumentos usados contra a integração das mulheres no mercado de trabalho havia a acusação de que faltavam muito, devido às licenças de maternidade e de assistência aos familiares doentes, nomeadamente aos filhos. A favor dessa tese, os que se opunham à presença das mulheres brandiam até a possibilidade, concedida à mulher em algumas convenções coletivas de trabalho, de uma dispensa sem vencimento de dois dias por cada mês, durante o ciclo menstrual da trabalhadora. Essa regalia, existente no início do meu trabalho na RTP, já foi retirada.

À margem desta conversa acrescento que, segundo uma informação que me foi dada com expresso pedido de não identificação da fonte, três jornalistas obrigadas a faltar longamente devido a gravidezes de risco tinham sido penalizadas por isso, não sendo abrangidas por um aumento salarial concedido à restante redação.

À minha pergunta: “Porque não se queixaram à Comissão para a Igualdade no Trabalho e Emprego (CITE)?” a resposta foi “Por medo de serem marginalizadas.”

Conversa informal 9 (16 de Janeiro de 2007): Condição feminina

Local: Redação

Participantes: jornalista que já conhecia do meu tempo na RTP

O peso do género: As questões de género voltam a aflorar em uma outra conversa na redação.

paternal”, uma jornalista fala-me longamente das dificuldades – comuns a todos os jornalistas, mas com maior incidência nas mulheres jornalistas – em conciliar trabalho e vida familiar. Teme que o ex-marido invoque, na disputa do poder paternal, os horários de trabalho irregulares, eventuais deslocações, instabilidade.

Uma pergunta frequente em relação à feminização das redações é se o aumento da percentagem de mulheres provoca alterações no produto final, nomeadamente na introdução de novos temas. Mas falando com mulheres jornalistas, o que sobressai são as alterações na vida quotidiana, o atraso na maternidade, a dificuldade de gestão de horários, o cansaço causado pela dupla tarefa, profissional e doméstica, até a forma como temem ser penalizadas nas avaliações regulares feitas pela hierarquia, por faltas justificadas por maternidade ou assistência à família. E também, apercebo-me agora, de poderem ser penalizadas nas avaliações feitas por juízes mais conservadores, em disputas do poder paternal.

Conversa informal 10 (17 de Janeiro de 2007): De novo o género

Local: Redação

Participantes: Diversos jornalistas

IVG: A propósito da sentença condenatória dos pais adotivos da “pequena Letícia”, volta a

surgir na redação o debate sobre o papel dos homens no caso da interrupção voluntária da gravidez. Pergunta um jovem jornalista: “Se um homem quiser que a mulher que engravidou dele aborte, e ela não o fizer, deverá mesmo assim ter obrigações para com a criança? E se, pelo contrário, quiser ter essa criança e a mulher recusar, como se resolve?”

Não é uma mera – e pertinente – interrogação jornalística. A forma como se exprime torna claro que consegue imaginar-se em qualquer das circunstâncias e a dificuldade que elas lhe trariam.

Embora os resultados do II Inquérito Nacional aos Jornalistas Portugueses (1997) mostrassem que os jornalistas se consideram essencialmente de esquerda, sendo a

percentagem dos que assim se assumem (49%) mais elevada que o geral da população (24%) (Silva e Mendes, 2009) e embora não tivesse inquirido todos os jornalistas da Direção de Informação sobre qual a sua posição em relação à IVG – até porque muitos davam sinais de retraimento se eu abordava o tema e só dois ou três manifestavam a sua posição pessoal – fiquei convencida de que a maioria iria votar Não no referendo. Mesmo não ignorando que na própria RTP a gravidez podia ser um problema para uma mulher trabalhadora.

Diário de Campo, 30º dia (6.2.2007, terça-feira):

Está a chegar ao fim o meu período de observação. O meu duplo estatuto de, por um lado, “observadora” e, por outro, “antiga colega”, tem resultados curiosos. Algumas pessoas que vão adiando a resposta ao inquérito não têm reservas em desabafar comigo. Embora entendam sempre essas conversas em termos de “background” – ou seja, sem identificação da fonte – a verdade é que se tratam de comentários perfeitamente anódinos, que só o facto de temerem assumi-los torna relevantes.

Conversa informal 10 (6 de Fevereiro de 2007): Muro das lamentações

Local: Redação

Participantes: Diversos jornalistas

Observações correntes sobre as dificuldades encontradas: Assim, por exemplo, uma jovem

jornalista lamenta que, em termos de critérios de avaliação profissional, a velocidade e a disponibilidade surjam como os mais importantes. Outro jovem queixa-se da falta de debate e de participação nos alinhamentos: “Quantas vezes estou num serviço e dou comigo a perguntar- me: mas o que é que estou aqui a fazer?”

No tocante às notícias ligadas ao referendo, uma opinião clara: “Sabemos que não podemos deixar a nossa posição interferir no nosso trabalho. E somos por vezes mais rigorosos em relação àquelas posições, movimentos e pessoas que nos são mais próximos.”

Um jornalista com um cargo de chefia intermédia lembra as dificuldades vividas nos últimos anos, a insistência em “alienar capital humano”, “sem respeito pela competência: o que

interessava era o número”. Lamenta a saída de profissionais com experiência adquirida ao longo de muitos anos, a falta de maiores de 50 anos, e a tentativa de implicar os trabalhadores numa estratégia que era contra eles próprios. Uma questão simbólica: administração e recursos humanos deixam de falar de “trabalhadores” para falar de “colaboradores”.

Queixa-se ainda de, muitas vezes, os jornalistas serem apontados como um dos grandes problemas da empresa, em termos salariais, quando, na verdade, os apresentadores de programas de entretenimento ganham bastante mais.

Finalmente, considera sentir-se a falta de uma chefia de redação, função que não pode ser suprida pelo Diretor de Informação – muitas vezes ocupado com tarefas que o afastam da redação e, ainda por cima, envolvido na apresentação, nem pelos editores dos diversos serviços noticiosos.

Dado o carácter por natureza assistemático das conversas informais e mesmo daquelas travadas nas reuniões de alinhamento, e a dificuldade, em razão da ocupação do tempo dos jornalistas, de realizar entrevistas semi-diretivas, optara – como atrás disse – por um questionário que me permitisse, por um lado, apreender as mudanças no perfil dos jornalistas da RTP , quer do ponto de vista de género, idade e qualificações, mas também de modos de

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