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Teknologiske prioriteringer

A aula de arte foi muitas vezes lembrada pelos participantes do grupo focal bem como pelos ex-alunos que responderam ao questionário, por oferecer uma oportunidade de expressar o ponto de vista individual, de dizer o que pensam ao invés de apenas ouvir para absorver o que pensam os outros. Quando há oportunidade de expressar a individualidade, a aula de arte favorece o autoconhecimento, pois como

aceita conteúdos pessoais como matéria prima da criação, há uma mobilização de tudo aquilo que constitui nosso entendimento de mundo, para a então seleção daquilo que nos apraz comunicar.

Acho que a arte é legal também porque quando a pessoa tem que criar alguma coisa, só o fato de ela ter que ir pensando o que ela pode fazer, o que ela acha que expressaria aquilo que ela quer... ela acaba vendo como ela mesmo pensa e por isso acaba se conhecendo melhor... é como se fosse uma forma de se conhecer melhor. (A.B., 15 anos, 1ª série E.M., Grupo focal)

A arte em si mesma é fruto da alma pois consiste na expressão mais pura dos conteúdos, vivencias, caráter, desejos, sentimentos e de tudo que compõe a personalidade e o próprio ser.

(...) minhas aulas de desenho [curso extracurricular], foram sem duvida um laboratório de experiências e de aprimoramento de mim mesmo. (Y.G., 18 anos, estudante de direito, Questionário).

Eisner (2004) observa que auxiliar o estudante a construir a própria personalidade é uma das responsabilidades do processo educativo, e que as artes possibilitam esse olhar para dentro em busca daquilo que nos constitui.

A educação é um processo por meio do qual aprendemos a ser os arquitetos de nossa própria existência, e, em consequência, a criar-nos a nós mesmos. As artes têm contribuições muito claras quanto a esse objetivo mediante a ênfase na expressão da individualidade e mediante o exercício e o desenvolvimento da capacidade de imaginação. (EISNER 2004, p. 43)

Em uma época em que a sociedade tem eficientes e persuasivos mecanismos de padronização do pensamento para que o sistema de produção capitalista se mantenha aquecido, é especialmente importante valorizar os talentos individuais e as formas de pensamento distintas. Nenhum outro componente curricular oferece tantas oportunidades de expressão do ponto de vista particular de cada um dos estudantes como a arte. Permitir que este ponto de vista surja e seja valorizado é uma questão central quando se aspira que o aluno tenha autoconfiança suficiente para sentir-se autônomo. Por meio da obra de arte “somos levados para além de nós mesmos, a fim de encontrarmos a nós mesmos” (DEWEY 2012, p. 351).

Quando se aceita o universo particular como matéria prima da criação, reafirma-se a identidade do criador, valoriza-se as experiências de cada um, salienta-se aquilo que cada um já sabe, ao invés de apontar o que ainda não foi aprendido, incentivando-o a ir adiante.

Arte parece que envolve outros conhecimentos... que você já tem.. e que você pode usar quando você vai criar... sabe? - servem pra resolver a sua criação... em matemática não... você tem que ter os conhecimentos específicos, senão não sai do lugar. E então... arte traduz uma coisa que é só sua, a matemática traduz uma coisa que tem que ser igual pra todo mundo. (B.B., 16 anos, 2ª série E.M., Grupo Focal)

(...) tem uma coisa que é legal na arte: se eu gosto de matemática, eu posso criar arte pra mostrar meu gosto pela matemática. Mas é mais complicado fazer o contrário. Tipo, a matemática não me representa... pelo menos essa que a gente aprende na escola. A arte me representa, até meu gosto pela matemática. (J.T., 13 anos, 9º ano, Grupo Focal)

Acho que ela que ela tá dizendo é que pra matemática você pode ser treinado pra isso, mas em arte não muito, você pode dizer “hoje eu vou criar isso”, porque você sente que quer fazer aquilo e pronto, você pode fazer. Matemática é exata, você precisa saber como faz, senão não vai pra lugar nenhum. Com arte você não tem essa desculpa, sempre pode continuar. (P.A., 13 anos, 9º ano, Grupo focal)

Se a aula de arte permite que se utilizem os conteúdos pessoais como base para a criação artística, por consequência, favorece também a aceitação das diferenças pessoais, já que a variedade e diversidade de conteúdos pessoais e soluções particulares encontradas para as criações são valorizadas. Mais do que aceitar as diferenças pessoais, a arte faz o estudante ter orgulho dessas diferenças.

(...) na aula de arte acontece mais isso [o prazer de compartilhar o que criou]. Na aula prática de arte você faz uma coisa que você se orgulha de ter feito e por isso quer mostrar, porque você produziu e é diferente do de todo mundo. Quando você termina, por exemplo, um exercício de matemática, você fica feliz, claro, por ter aprendido e feito, mas se você aplicar umas regras, todos conseguem fazer como você então não é tão prazeroso quanto fazer alguma coisa de arte porque arte por mais que todo muito desenhe bem, ou todo mundo desenhe mal, cada um vai fazer diferente, você nunca vai fazer igual ao de ninguém, e por isso quer mostrar o seu e ver o do outro. Então tem um prazer de ser seu, de seu só seu. (B.K., 16 anos, 1ª série E.M., grupo focal)

(...) nas ciências exatas, o resultado é sempre igual... para tal equação, o resultado é tal, mas para arte, para tal tema, o resultado nunca é o mesmo pra pessoas diferentes, nem para mesma pessoa, em dois dias diferentes. (BN., 17 anos, 3ª série, grupo focal).

Esse interesse de compartilhar o que foi feito e de aprender com o que os colegas fizeram, favorece a socialização num ambiente de aceitação e troca de ideias. “a obra de arte provoca e acentua essa característica de ser um todo e de pertencer ao todo maior e abrangente que é o universo em que vivemos” (DEWEY 2012, p.351).

(...) acho que é muito legal o que ele falou das aulas na Fundação [das Artes, escola de arte na região do ABC] que é ter o intercâmbio. Acho muito importante ter a oportunidade dos alunos trocarem opiniões e mostrar pro outro, tipo, “ah, você não pensou nisso, mas o outro cara pensou”, acho que isso faz uma aula dinâmica, todo mundo quer conversar sobre um assunto e cada um sabe uma coisa nova e vai acrescentando no outro. (B.K., 16 anos, 1ª série do E.M., grupo focal) Para Intrator (2003), é essencial criar um senso de comunidade em nossas escolas, porque aprendizagem genuína e ensino efetivo tem maior probabilidade de ocorrer quando pertencemos a uma comunidade que quer ouvir e mostra se importar um com o outro. Estar em uma comunidade é estar em um espaço acolhedor “onde podemos expandir nossas mentes junto com colegas aprendentes e fazê-lo de formas que revelem nosso verdadeiro eu” (p.49). Dewey (2012) descreve a experiência de conexão como o maior bem humano. Essa experiência é percebida no “cuidado e na camaradagem sem esforço que é despertada entre indivíduos e que resulta em uma experiência de conexão, ricamente carregada de afeto” (INTRATOR 2003, p. 57).

Além disso, essa experiência de mobilizar tudo aquilo que constitui nosso entendimento de mundo e de nós mesmos em busca de elementos que inspirarão a criação, o conhecimento e a experiência artística favorecem a percepção de que os conhecimentos estão interligados, que a aprendizagem acadêmica e informal, nossas

memórias e experiências, o que imaginamos e sentimos, são instâncias separadas por fronteiras invisíveis quando inseridas na realidade.

A arte, além de ser prazerosa, permite o estabelecimento de infinitas relações com as demais disciplinas. Sua amplitude e abrangência possibilita que seja empregada como um recurso desde as disciplinas essencialmente humanísticas, como sociologia, história, até as matérias estritamente exatas, como a matemática. Assim, um filme, ou uma peça de teatro, ou uma pintura podem servir de base para a análise sociológica de uma época, ao mesmo tempo em que uma sinfonia da música erudita pode funcionar como estímulo para o desenvolvimento das faculdades mentais relacionadas aos números e aos cálculos. Destarte, a inclusão das aulas de arte é fundamental para sustentar o sincretismo, a interdisciplinaridade, contornando e dando liga ao conjunto das demais matérias. (L.G., 18 anos, estudante de direito. Questionário)

Eu vou levar a arte comigo para o resto da vida. Faço design, pra mim é primordial tanto a análise estética e o desenho, como a análise racional e conhecimento sobre as pessoas, suas decisões, e principalmente uma visão mais ampla e multidisciplinar do mundo. Todos esses meus interesses começaram, com certeza, pelas aulas de arte. (L.N., 21 anos, estudante de Design, Questionário) A aula de arte, portanto, semeará o entusiasmo pela criação se oportunizar a expressão da individualidade. Esta será possível se o estudante tiver a oportunidade de utilizar conteúdos pessoais como matéria prima da criação artística, favorecendo o autoconhecimento, valorizando as diferenças pessoais e promovendo o intercâmbio de ideias que favorece a percepção destes conteúdos de maneira interdisciplinar. Esta percepção de si e do mundo possibilita a compreensão e participação no panorama sociocultural contemporâneo.