Como vimos no primeiro capítulo, a experiência estética acontece quando somos estimulados em todos os nossos âmbitos humanos - sensorial, intelectual e emocionalmente. A criação artística é uma maneira bastante certeira de se alcançar uma experiência estética pela complexidade de seus procedimentos intelectuais, emocionais e sensoriais. No texto dos Parâmetros curriculares Nacionais, afirma-se:
O ser humano que não conhece arte tem uma experiência limitada, escapa-lhe a dimensão do sonho, da força comunicativa dos objetos a sua volta, da sonoridade instigante da poesia, das criações musicais, das cores e formas, dos gestos e luzes que buscam o sentido da vida. (BRASIL 1997, p.31)
O aluno BN, 17 anos, não tem aulas práticas de arte, pois o curso oferecido nesta escola, no Ensino Médio, aborda apenas a história da arte. Para ele
(...) o que falta é oportunidade. Eu estou no 3º ano, por exemplo, eu tenho mais seis meses de escola só, e depois... eu não vou mais estudar arte na faculdade e vou acabar me afastando disso, que eu gosto...e é uma pena. Porque na faculdade eu não vou usar isso... eu quero fazer administração. Então eu não vou ter a oportunidade. Eu acho que eu vou ter perdido uma oportunidade de criar, porque fora da escola, eu vou ter muito poucas. (BN, 17 anos, Grupo Focal)
O aluno salienta que a escola deveria oferecer a possibilidade de o aluno passar por experiências estéticas que não acontecerão fora da escola pois haverá outras prioridades, e então, a oportunidade terá sido perdida. Já este ex-aluno, em resposta à pergunta do questionário semiestruturado “o que você esperava das aulas de arte quando você estava na escola?” declarou:
Eu sempre esperei das aulas de arte a abertura de um espaço para a criação, para a manifestação de ideias próprias. Afinal, a existência da arte, ao meu ver, está condicionada pela liberdade de expressão, pela possibilidade de criar, de inovar, de revolucionar, de romper com aquilo que está estabelecido e propor novos rumos, novos caminhos, novas tendências. (LG. 18 anos, estudante de direito, Questionário)
Novamente a aula como um espaço que abre oportunidades de criação foi mencionada. Envolver-se com a criação artística é uma ansiedade para estudantes de
qualquer idade na escola por ser um dos poucos momentos ao longo da semana em que podem expressar o que pensam ao invés de apenas absorver o que outros já pensaram.
Intrator (2003) corrobora este pensamento ao afirmar que, de modo geral, “nossas escolas não desenvolvem nossas capacidades perceptivas. Nós damos mais atenção a aprender e processar o que os outros disseram em vez de desenvolver a capacidade de prestar atenção àquilo que observamos e experimentamos” (p.35). O autor ressalta a importância de criarmos, em sala de aula, “encontros com as propriedades estéticas de um objeto [que] podem influenciar nossa compreensão e experiência de mundo. Quando nosso encontro é marcado por mais do que mero reconhecimento, podemos experienciar entendimento (insight) que informa e molda nossa vida interior” (p.35).
Se a informação fornecida pela experiência da criação artística instigar a imaginação e permitir a criação com liberdade de formas de representação, trazendo satisfações intrínsecas ao processo, será uma experiência estética.
“Imaginar é a capacidade de ver além do imediato, do que é, de criar possibilidades novas.” (ARANHA, 1986) Quando algum estímulo faz nossos pensamentos divergirem para inúmeras respostas possíveis, estamos estimulando o pensamento divergente, imaginativo. Já quando este estímulo faz nossos pensamentos convergirem para uma única resposta, estamos recorrendo à memória e não à imaginação: é o pensamento convergente. (ARANHA, 1986) A arte instiga a imaginação pois permite que deixemos nossa mente perambular em busca de modos de compreensão e soluções diversas para as criações, pois há diversos caminhos a seguir, diferente da forma como as ciências exatas, por exemplo, são vistas pelos olhos dos estudantes. Não há uma só forma de se resolver a criação.
Trabalhos práticos estimulam a parte criativa do cérebro que, na educação atual, não é tão valorizada quanto deveria. A partir do momento que se tem uma folha em branco e uma proposta de pensamento, o aluno é induzido a criar algo, imaginar algo, pensar, sozinho, em algo. É diferente do que pensar numa formula matemática, você sabe o que deve fazer para a conta dar certo porque alguém disse que daria; na arte não, você não sabe se vai ou não der certo, você tem noção das técnicas que pode usar mas não do potencial imaginativo que está sendo criado - isso é sensacional. (D. 20 anos, estudante de história, Questionário)
Esse potencial imaginativo mencionado por esta ex-aluna é um dos principais pilares do talento artístico, segundo Eisner (2004). Segundo ele, o talento artístico consiste em ter uma ideia que vale ser expressa, a capacidade imaginativa necessária para conceber como expressá-la, as atitudes técnicas para trabalhar com eficácia algum material e a sensibilidade necessária para fazer os ajustes que dariam às formas suas qualidades emotivas.
“Uma característica importante das artes é que não só permitem usar a imaginação mas também fomentam seu uso como fonte de conteúdos. A diferença das ciências, onde a imaginação também tem um papel fundamental, nas artes há uma tradição que não obriga o artista a “dizer as coisas como são” (EISNER 2004, p.111).
O autor acrescenta que “nas artes, a imaginação tem licença para voar” e ressalta os “deleites que os processos imaginativos podem produzir” (p.241). Na maioria das áreas de conhecimento acadêmico/escolar, a realidade se impõe como primeiro valor. O factual, a exatidão, a linearidade, a previsibilidade e o pensamento convergente são mais valorizados. Dedica-se pouco tempo e atenção à imaginação, apesar de a inventividade nos outros campos depender da imaginação, do pensamento divergente. Dar espaço para a criatividade de expandir é exercitar o que há de mais humano em cada um de nós. Sobre isso, Intrator comenta que
Nos sentimos mais vivos e experienciamos nossas vidas como melhores, mais ricas e mais interessantes quando nos sentimos criativos. Seres humanos são animais que comem, reproduzem, vivem e morrem. Ainda assim, diferente de outros animais, nós também parecemos ter grande necessidade e vontade de criar. Somos homo
fabricator, pessoas que fazem coisas. Raramente ficamos contentes em deixar o mundo da mesma forma que o encontramos... esculpir, construir uma cerca, plantar uma árvore, fazer uma torta de maçã, pintar o teto da Capela Sistina, reposicionar as válvulas em um Chevrolet 1952 – geralmente estamos mais vivos, mais nós mesmos, quando estamos engajados em alguma ação criativa. Criatividade nos transforma de observadores imparciais em participantes responsáveis (INTRATOR 2003, p.132).
A vida se engrandece por meio das artes pois amplia as possibilidades de ver a realidade. A imagem imaginativa reorganiza nossa percepção de mundo de maneira a percebermos as qualidades do entorno, isto é, aprofunda a experiência qualitativa de maneira concentrada. “A imaginação alimentada pelas características
sensoriais da experiência, se expressa nas artes por meio da imagem (...), o elemento central da imaginação, [que] tem um caráter qualitativo” (p. 20).
Além disso, dar a oportunidade de deixar a imaginação entrar em ação é exercitar a capacidade de trabalhar com as incertezas da imprevisibilidade. Para Eisner
A arte nos permite aplicar a imaginação como um meio para explorar novas possibilidades. O trabalho nas artes também convida a desenvolver a predisposição a tolerar a ambiguidade, a explorar o incerto, a aplicar um juízo livre de procedimentos e regras prescritivas. O trabalho nas artes nos permite deixar de olhar por cima do ombro e dirigir nossa atenção para o interior, para o que acreditamos ou sentimos. Esta predisposição se encontra na raiz do desenvolvimento da autonomia individual. (EISNER 2004, p. 28)
Durante o grupo focal, quando os alunos discutiam porque gostavam de algumas áreas do conhecimento em especial, um dos alunos revelou:
Acho que a pessoa que está acostumada com exatas, talvez se sinta um pouco perdido com a liberdade... eu sou assim... porque não tem um roteiro pra seguir, não tem onde se segurar pra não errar.. é você com a sua mente. Eu me sinto inseguro nessas situações. Eu sou mais das exatas. (A.B., 15 anos, 1ª série, Grupo focal)
Desenvolver a imaginação é uma forma de auxiliar os estudantes a especular sobre como agir na ausência de regras, na ausência de um “gabarito” que os confirme se a resposta a que chegaram ou a que devem chegar está correta. Não há uma resposta a que devem chegar. É, por isso, uma forma se exercitar a autoconfiança. Além de instigar a imaginação, a aula de arte deve ser planejada de maneira a oportunizar a criação com liberdade de formas de representação.
Liberdade é outra coisa que vemos muito pouco no ambiente escolar, onde tanto se valoriza o cumprimento de regras. Mas se a liberdade é tão almejada por todos, por que motivo o aluno confessa que se sente pouco confortável quando lhe dão liberdade?
A muitos estudantes custa aproveitar a oportunidade de definir seus próprios objetivos; para fazê-lo bem, faltam prática e predisposição para aceitar que esta oportunidade é parte da própria educação. Quando um pássaro viveu a vida toda dentro de uma gaiola, não é difícil compreender que quando se abre a porta, ele não tenha o desejo de sair. (EISNER 2004, p. 190)
Por isso a importância fundamental do ensino das artes ao longo de todo o currículo escolar. A arte é um produto da liberdade da mente criativa e ter a oportunidade de conviver com arte é anseio ao longo de todo o processo de escolarização. Para o ex-aluno L.G. de 18 anos, atual estudante de direito com aspirações à diplomacia, as aulas de arte marcaram a memória como uma oportunidade de exercer esta liberdade.
A arte é, ao mesmo tempo, o passado, que nos traz inspiração e nostalgia, e o futuro, que determina os limites da subsistência humana. Portanto, sempre tive essa concepção de uma aula de arte em que fosse permitido o livre arbítrio, propiciando-nos a escolha das linhas que desejamos, para nelas escrever a nossa própria história. (L.G., 18 anos, estudante de direito, Questionário)
Ter a liberdade de escolher quais as formas mais adequadas para expressar aquilo que se tem em mente é um dos diferenciais da aula de arte promotora da autonomia. Para Eisner (2004), tão importante quanto desenvolver as capacidades imaginativas é desenvolver as habilidades de encontrar formas de representação eficientes para comunicar o que pensamos. “Transformar o privado em algo público é um processo fundamental tanto na arte como na ciência. Ajudar os jovens a aprender a efetuar esta transformação é um dos objetivos mais importantes da educação” (EISNER 2004, p.20).
As formas de representação são meios pelos quais tornamos públicos os conteúdos da consciência, e este processo é uma maneira de descobri-los, estabilizá-los, revisá-los e compartilhá-los. A linguagem é uma forma de representação básica e fundamental, mas não é de modo algum a única forma de representação. (EISNER 2004, p.25)
Neste trecho o autor salienta a importância da aula de arte em oportunizar o contato com diferentes formas de representação que os estudantes podem entrar em contato, para aumentar o repertório que possuem de formas de representação.
As pessoas tendem a buscar aquilo que são capazes de representar. Se o único instrumento que temos em mãos é uma fita métrica, buscaremos coisas que possamos medir. Os instrumentos com que trabalhamos influenciam o que é provável que pensemos. Os instrumentos de medição conduzem à quantificação. Os instrumentos que se usam nas artes conduzem à qualificação. (EISNER 2004, p.26)
Por isso as aulas de arte devem oferecer oportunidades de conhecer e utilizar diferentes formas de representação proporcionadas por diferentes materiais e meios. A música, a fotografia, a pintura, a dança, o desenho, são formas de comunicação de nossos conteúdos privados, tornando-os públicos de maneira estética e qualitativa.
Ser uma pessoa “multialfabetizada” significa ser uma pessoa capaz de inscrever ou decodificar significados com distintas formas de representação. As ideias que não de podem traduzir em materiais estão destinadas a ficar no córtex cerebral, um lugar a que outras pessoas não tem acesso e que acabam por esvanecer-se para a própria pessoa que as formulou. (EISNER 2004, p. 41)
A representação torna públicos os conteúdos da consciência dentro das limitações e as oportunidades oferecidas por um material. Inicia-se com uma imagem não muito precisa e se estabiliza nos primeiros registros desta ideia. Depois que a ideia foi registrada, é possível revisá-la, já que os materiais que temos disponíveis nem sempre permitem a representação do conteúdo da maneira que este se formou na consciência. A revisão é o processo de trabalhar os registros para que alcancem aquilo que seu criador deseja, é o momento em que se presta atenção às relações e se faz julgamentos de valor. Registro e revisão se relacionam tornam possível a comunicação. Ter liberdade de escolher as formas de comunicar os conteúdos privados de nossa consciência é fundamental para a aula de arte promotora da autonomia.