• No results found

Tematiske prioriteringer

O registro, a revisão e a comunicação são os processos cognitivos que formam a representação. Eisner (2004) lembra que este processo não se dá de forma linear pois durante o processo de criação se encontram oportunidades que não estavam previstas ao começar a obra, fazendo surgir novas opções. Isto quer dizer que a criação artística oferece uma grata recompensa: a surpresa.

Mas não só representamos aquilo que pretendemos representar, mas também o que descobrimos no percurso da ação expressiva. Parte do prazer que as artes produzem surge das pequenas descobertas que o desenvolvimento da obra torna possível. Estes descobrimentos são fonte de surpresas, e a surpresa é uma das recompensas da atividade artística. (EISNER 2004, p.24)

Buscar a surpresa exige a vontade de correr riscos. A surpresa pode surgir por conta própria, mas sua busca é opcional. Quando se opta por buscar a surpresa, se opta por seguir um caminho incerto, e é aqui onde os esquemas familiares e as técnicas habituais podem se mostrar ineficazes. Um dos desafios que as artes plásticas propõem é superar a tendência que temos de voltar à rotinas familiares para resolver seus problemas visuais, pois o caminho mais fácil de seguir é o de repetir sucessos passados. (EISNER 2004, p.107)

A esta capacidade de aproveitar as surpresas, mudar de direção, redefinir objetivos de uma maneira flexível, John Dewey chamou de flexibilidade de propósito21. No contexto desta pesquisa, a flexibilidade de propósito se refere à capacidade improvisadora para a criação artística.

As artes são exemplos de atividades onde os objetivos gozam de flexibilidade. Não faz falta que os objetivos concretos para onde uma obra se dirige sejam especificados de antemão com um grau de precisão, pois em muitos casos nem sequer é possível fazê-lo. Em arte, quando surgem novas oportunidades, se aproveitam. Aqueles que trabalham nas artes não perdem de vista o contexto definido pela própria obra e aproveitam qualquer sucesso ou acontecimento imprevisto para marcar objetivos que não faziam parte se sua agenda inicial. (EISNER 2004, p.248)

Nesta tira, o cartunista argentino Liniers brinca com a figura de Pablo Picasso, artista espanhol a quem muito admira, cuja personalidade exploratória o fez

      

21 in: EISNER (2004)

Figura 9 ‐ Macanudo, por Liniers. Tradução livre: "Coisas que, na melhor das hipóteses, aconteceram  com Picasso. ‐ Onde eu estava indo com isso?"

criar brilhantemente, sem receio de romper com as regras aceitas, aceitando o imprevisível e a surpresa como parte essencial de sua criação.

Parte do prazer que as artes produzem surge destas descobertas que o desenvolvimento da obra - durante o processo de registro, revisão e comunicação - torna possível. Estes descobrimentos são fonte de surpresas, e a surpresa é uma das recompensas da atividade artística, é uma fonte de satisfações que tornam a aprendizagem significativa. Ao serem questionados sobre lembranças de aulas de arte que lhe foram muito marcantes, participantes do grupo focal mencionaram diversas vezes situações que oportunizaram e aceitaram a flexibilidade de propósito:

Uma aula muito legal foi no 9º ano, que eu fiz um trabalho com spray. Era para fazer uma obra abstrata, com qualquer material que nós quiséssemos. Acho que foi marcante porque foi muito diferente do que a gente sempre fazia, tipo, fazer um

desenho no papel e tal. Nessa a gente trouxe isopor, madeira, o material que a gente quisesse... o fato de ter sido um material diferente, à nossa escolha, me marcou muito. Acho que foi porque tinha o fator surpresa, a gente tinha mais ou menos uma ideia de como ia fazer, mas aí não ficou exatamente do jeito que a gente pensou no começo, mas ficou legal. A gente foi decidindo as coisas na hora assim... a gente ficou curioso com o que ia acontecer se a gente fizesse tal ação.. foi muito bom porque foi diferente. Como era o último trabalho do ano que a gente tinha que fazer, você [a professora] deixou a gente escolher o material, fazer o que a gente quisesse. (F.C,. 16 anos, 2ª série E.M., Grupo focal)

(...) eu acho que as aulas no ateliê foram muito mais significativas do que as aulas na sala de aula porque eu acho que quando a gente fica em contato com as coisas, tipo, pegar os materiais e tal é muito mais emocionante do que ficar só vendo o que os outros fizeram. Porque você fica meio ansioso para ver como vai ficar, porque você fica na expectativa se aquilo que você fez vai dar errado, e você quer consertar, e às vezes só piora e então você passa por muitas emoções ali tentando criar alguma coisa, fica feliz quando dá certo, ou quando você gosta do resultado. (B.K., 16 anos, 1ª série, Grupo focal)

(...) e aí eu fiz meu próprio boneco, estava lá pintando do jeito que eu queria, na hora você vai tentando, testando, “será que fica melhor se eu pintar aqui?” e tal... Pintei das cores que eu gostava, fiquei muito feliz. Acho que essa experiência de você não saber direito o que vai acontecer no fim é que é legal, e também porque não tem um jeito certo pra chegar no fim. Enquanto eu fui pintando, eu fui decidindo, “e se eu pintar um braço de um jeito e o outro de outro?” Eu tenho foto guardada até hoje do meu boneco. Acho que é a coisa da tentativa e erro. (A.B., 15 anos, 1ª série E.M., Grupo focal)

“Nas artes, a surpresa é uma aliada, não uma inimiga” (EISNER 2004, p.203). Quando algo que não estava previsto acontece, o erro se torna oportunidade de usar a imaginação em busca de outras soluções. Ir ao encontro de surpresas oportuniza a

tomada de decisões, a assunção de riscos e faz o estudante arcar com as consequências de sua decisão. Exercita a capacidade de julgamento e avaliação.

(...) acho que o legal da arte é que o erro acaba às vezes virando um acerto no final... porque às vezes você faz uma coisa que deu errado, mas aí você olha e aquele imprevisto te leva a outra solução, tipo, “nossa, dá pra fazer assim” - e

muda, e acaba ficando bem melhor do que a primeira ideia. Nas ciências exatas, não... você não pode escolher se está errado ou não, quem escolhe isso é outra pessoa, que você nem conhece. E eu acho que é isso que diferencia um pouco os alunos que gostam de exatas dos que gostam de humanas, porque o aluno que gosta de humanas, ele fica confortável em errar e tentar outra coisa, e mudar de ideia... o de exatas gosta da segurança, tipo, vai ser assim sempre. (B.K., 16 anos, 1ª série, Grupo focal)

Na conduta racional das ciências exatas, os fins se mantêm constantes e os meios se organizam para chegar àquele fim. Tudo bastante ordenado e previsível. Mas o fato é que a vida real, as coisas não acontecem assim e ter a capacidade de decidir, propor novas soluções frente ao que não estava estabelecido é uma habilidade fundamental. Freire afirma que exercitar a capacidade decisão é imprescindível para o desenvolvimento da autonomia.

(...) a autonomia é um processo de decisão e de humanização que vamos construindo historicamente, a partir de várias, inúmeras decisões que vamos tomando ao longo de nossa existência. Ninguém é autônomo primeiro para depois decidir. A autonomia vai se construindo na experiência de várias, inúmeras decisões, que vão sendo tomadas. A autonomia, como amadurecimento do ser para si, é um processo, é vir a ser. Por isso a autonomia é experiência da liberdade. (FREIRE 1996, p.120)

Nesse sentido, a liberdade de escolha das formas de representação e a aceitação da flexibilidade de propósito na criação artística são aliados na promoção da autonomia dos estudantes.