Na gestão de Alex Fiúza Bolonha de Mello, que ocupou o cargo de Reitor da UFPA, no período 2001-2008, o conceito de Universidade Multicampi foi sistematicamente detalhado, e estabelecida a meta de consolidação de Universidade-rede, com efetiva integração dos campi17 e núcleos do interior do Estado.
A Universidade-rede representa a integração do Campus sede, situado em Belém e os demais campi e núcleos distribuídos no Estado do Pará. Essa integração ocorre por meio da desconcentração das atividades administrativas
17O Estatuto da UFPA dispõe no Art. 26 ―O Campus é uma unidade regional da Universidade
instalada em determinada área geográfica, com autonomia administrativa e acadêmica‖. No parágrafo único do referido artigo prevê que ―os campi atuarão em inter-relação mútua e interação com a Administração Superior da UFPA na elaboração e consecução de projetos, planos e programas de interesse institucional‖ (UFPA, 2009, p.26).
e acadêmicas. A figura a seguir, ilustra as unidades regionais que integram a UFPA e compõe a estrutura multicampi dessa universidade.
FIGURA 3. Universidade Multicampi (UFPA)
No Plano de Desenvolvimento Institucional 2001-2010, elaborado pela administração superior, foram apresentados o Plano Estratégico Institucional, de médio e longo prazos, e o Plano de Gestão da Administração, contemplando programas, projetos e ações, missão, visão e metas que norteariam a atuação da UFPA, no contexto amazônico.
Nos Eixos Estruturantes, Metas e Estratégias e Linhas Principais de
Ação, ―definir e implantar um modelo de Universidade Multicampi‖ aparece como meta inicial. É evidenciado o desafio de integração institucional dos
campi e núcleos, considerando as potencialidades e vocações regionais e a
geografia do Estado do Pará. Além disso, aponta um conjunto de metas e estratégias para materialização do novo arranjo organizacional proposto pela instituição. Merecem destaque as seguintes estratégias:
1.1 Promover a melhoria e modernização da gestão acadêmica e administrativa e da infra-estrutura dos campi;
1.2 Estabelecer novas relações institucionais entre os campi; 1.3 Instituir um novo arcabouço legal institucional, que defina regularmente a Universidade Multicampi (UFPA, 2002, p.73).
Fialho (2005) elabora detidamente os significados atribuídos ao conceito de universidade multicampi, conceito esse, na visão da autora, ainda em construção e influenciado pelo que se compreende historicamente por universidade. A definição da missão e da natureza da universidade, objeto de flutuações mediações e influências, produzem diversidade de entendimentos produzidos, cuja base se assenta em visão dualista de universidade: ―Ora como agência de formação de recursos humanos (e, mais restritamente, mão- de-obra para o mercado de trabalho), ora como encarregada da cultura douta, erudita (em suma distante das necessidades básicas das sociedades e do povo.‖ (FIALHO, 2005, p.40). A autora acredita que essa concepção dualista é inapropriada, pois limita as múltiplas mediações que influenciam a missão, a produção e o papel assumidos pela instituição universitária nas relações de desenvolvimento econômico e social.
Ainda com apoio nos estudos de Fialho (2005) acerca da Universidade Multicampi, aprende-se que uma análise etimológica preliminar do conceito
[...] permite evidenciar uma trajetória de sentidos atribuídos à palavra (multicampi) – como a idéia de quantidade, como a idéia de localização geográfica e como a idéia de lugar de produção -, corroborando noções que circulam no meio universitário e que fazem reencontrar as dimensões relativas à estrutura organizacional desconcentrada e à dispersão físico-territorial. Essa expressão (multicampi), portanto, cujos significados nem sequer se encontram absorvidos pela língua vernácula, embora consagrada para dizer de uma modalidade de ensino superior, vai além do mero ato de designar alguma coisa: ela aponta para um fenômeno que se pretende diferenciado de outros, a exemplo dos modelos universitários cuja configuração não se restringe a um único lugar enquanto localização física, por exemplo. (FIALHO, 2005, p.51).
Nesse sentido, não se trata apenas de aspecto meramente quantitativo, determinado pela quantidade de unidades (campus) que compõem uma universidade, tampouco pela determinação da localização geográfica dos espaços físicos. Outros elementos estão presentes nesse conceito (multicampi):
Nela estão presentes, pois, as duas acepções que vimos sublinhando e que buscamos caracterizar como indicadores analíticos: campus como indicador físico-espacial (unidade de assentamento de uma dada estrutura universitária e unidade de referência para indicar o distanciamento dos centros urbanos) e campus como indicador acadêmico (unidade de localização de uma determinada base da produção intelectual).(FIALHO, 2005, p.54)
A universidade multicampi expressa uma nova organicidade das universidades, influenciada e amplamente determinada pelo imperativo da expansão do acesso, processo sistematicamente aprofundado, na última década. O Plano de Expansão – Fase I e o REUNI são ações políticas que o elegeram como foco da interiorização da universidade pública, sob a justificativa de oportunizar acesso a cursos de graduação, em localidades distantes dos grandes centros urbanos.
É importante registrar que a interiorização da UFPA, nas suas distintas fases, foi determinada por arranjos e acordos políticos locais e regionais, mediados por prefeitos, vereadores, deputados e governadores. Normalmente, a solicitação para a implantação de núcleos era dirigido à Universidade, por esses atores políticos, que se comprometiam a criar as condições mínimas de instalação, prédios, equipamentos e pessoal administrativo. Ocorre que acordos políticos, geralmente, têm prazo de validade, determinado pelo período do mandato do titular, e tem sido frequente, por essa razão, a descontinuidade de apoio às ações desenvolvidas nos núcleos e campi. Um exemplo é a cedência de pessoal administrativo oriundo das prefeituras e das secretarias de Estado.
A interiorização da UFPA apenas se materializou pelo aporte desse pessoal cedido, diante do limitadíssimo quadro de pessoal próprio da Universidade. Entretanto, não pôde ela contar com esse apoio de forma contínua: prefeituras e governo do Estado, de acordo com as flutuações da configuração política, retiravam esse apoio. O Campus de Altamira vivenciou esse processo, que foi minimizado, apenas, pelas primeiras contratações de técnico-administrativos, em 2004.