Partindo de cidades norte-americanas dos EEUU mas também apontando para metrópoles europeias, as análises de Harvey destacam que governanças urbanas de diferentes cidades parecem ter caminhado em direção muito próxima, qual seja, a de projetos urbanos pautados pela valorização de lugares pontuais, uma simpatia por arquiteturas capazes de gerar grande impacto icônico-midiático e a tentativa de inserir a cidade numa boa posição na divisão internacional do consumo, fazendo desta o que chama de “máquina de crescimento”335 Harvey reconstitui historicamente os marcos ligados ao início destes processos, repassando contribuições de autores inseridos nos debates. Segundo Harvey, há uma concordância geral de que tais mudanças se remetem às dificuldades enfrentadas pelos países capitalistas a partir da recessão de 1973 – alguns deles, por sinal, notados pelo então prefeito de Lille Pierre Mauroy: desindustrialização, desemprego disseminado e aparentemente estrutural, a austeridade fiscal em níveis nacionais, ligada a políticas neoconservadoras e a um apelo à racionalidade do mercado. Além disso, Harvey lembra que a ênfase na ação de poderes públicos locais – a municipalidade tomando a frente na recuperação econômica das cidades – relaciona-se com a
333
MAUROY, ob.cit., p. 13.
334
HARVEY, “Do Administrativismo ao Empreendedorismo Urbano”. Em: A Produção Capitalista do Espaço. São Paulo: ed Annablume, 2005, p. 161-188.
335
131 capacidade declinante dos Estados-nação em controlar os fluxos financeiros de empresas transnacionais e a dificuldade de repasse de verbas para municípios.
Para Harvey, pode-se elencar três elementos que distinguem o empreendedorismo do regime de governança urbana anterior, denominado “administrativista”. A mudança central desta virada tem de ser entendida a partir de novas relações de forças entre Estado e agentes da iniciativa privada. No momento anterior o poder público local agia no ordenamento do território como regulador do crescimento, já em regime de empreendedorismo estabelecem-se relações de coalizão entre Estado e capital privado, sob a forma das já conhecidas “parcerias público-privadas”336. No caso de Lille, vale lembrar, tivemos o Banco Credit Lyonnais ( posteriormente vendido ao Credit Agricole), grandes promotores imobiliários do setor hoteleiro, grupo Carrefour, entre outros. O segundo traço do empreendedorismo urbano é seu caráter especulativo, sujeito a todos os obstáculos e riscos – sendo muitos deles assumidos pelo poder público – associados às operações desta natureza; são, neste sentido, bastante diferentes do desenvolvimento racionalmente planejado e coordenado do administrativismo. Segundo seus idealizadores, em Lille estes riscos foram minimizados. O terceiro é o seguinte: “o empreendedorismo enfoca muito mais a economia do lugar do que do território”337, isto é, projetos não são idealizados com vistas a mudanças numa entidade jurídica (um município), mas se destinam a intervenções estratégicas com a tentativa de reativar áreas do entorno e de valorizar a imagem da cidade,338 de modo a colocá-la em posição de destaque numa situação de competição interurbana crescente. Harvey nota, ainda, que a governança empreendedora, ao conduzir o poder público sob os moldes da gestão empresarial – estimular negócios, atrair empresas e solventes339, corre o risco de focar-se por demais em investidores em detrimento de cidadãos, o que implica algumas vezes escamotear questões sociopolíticas estruturais ou
336
HARVEY, D. “Do Administrativismo ao Empreendedorismo Urbano”. Em: A Produção Capitalista do
Espaço. São Paulo: ed Annablume, 2005. O caráter inevitavelmente interdisciplinar de nosso objeto de estudos
por vezes nos impossibilita de desenvolver questões fundamentais. Pelo menos em nota, vale salientar consequências notadas por sociólogos como Carlos Vainer.
337
Ibidem, p. 171
338
Cf. Do Administrativismo ao Empreendedorismo Urbano, pp170-171.
339
Vale salientar consequências levantadas por autores que desenvolvem tais questões. O sociólogo Carlos Vainer, ao analisar as discursivas do empreendedorismo urbano, chama a atenção para o caráter de “cidade-empresa”, ou “cidade-mercadoria” que adquirem, por exemplo, o Planejamento Estratégico de Barcelona. Vainer salienta como “a analogia cidade-empresa desliza, suave e sutilmente, para uma analogia cidade-empresários”. E em seguida conclui: “O que nos parece central extrair destas leituras é que a analogia cidade-empresa não se esgota numa proposta simplesmente administrativa ou, como muitas vezes pretendem apresentar seus defensores, meramente gerencial ou operacional. Na verdade, é o conjunto da cidade e do poder local que está sendo redefinido. O conceito de cidade, e com ele os conceitos de poder público e de governo da cidade são investidos de novos significados, numa operação que tem como um dos esteios a transformação da cidade em sujeito/ator econômico... e, mais especificamente, num sujeito/ator cuja natureza mercantil e empresarial instaura o poder de uma nova lógica, com a qual se pretende legitimar a apropriação direta dos instrumentos do poder público por grupos empresariais”. VAINER, Carlos. “Pátria, Empresa e Mercadoria”. In:Cidade do Pensamento Único. Petrópolis:ed. Vozes, 2000, p.89
132 regredir em questões de divisão de renda. Nestas situações, permitem-se coexistir projetos de grande visibilidade com entornos degradados e más condições de vida . A estes casos nos quais a governança se torna, por um lado, obtusa a questões socioeconômicas estruturais e por outro entusiasta dos projetos ícone Harvey chama de “cidades duplas”.340 Ainda que Lille dê alguns sinais de entusiasmo com os investidores em detrimento de demandas coletivas, não é difícil perceber que o estatuto de “cidade dupla” se enquadra melhor em cidades periféricas como a do Rio de Janeiro, onde projetos icônicos do star system tem de contar com higienização social.
Harvey descreve estratégias do empreendedorismo urbano que, de algum modo, ilustram bem o perfil do Euralille. Uma delas está em criar infraestruturas físicas e sociais que fortaleçam a base econômica do local no sentido de inserir a cidade numa posição de importância para a circulação de pessoas e mercadorias. Outra estratégia é focar-se na construção de infraestrutura para atividades de comando, por meio de investimento em oferta de espaços equipados com ligações necessárias para minimizar tempo e custos de transações, com o objetivo de “ dar a impressão de que a cidade do futuro será uma cidade apenas de atividades de controle e comando, uma cidade informacional, uma cidade pós-industrial, em que a exportação de serviços ( financeiros, informacionais, produção de conhecimento) se torna a base econômica para a sobrevivência urbana”.341 Isto explica, entre outras, a importância para o projeto do TGV Lille Europe e a aposta em tantas áreas de escritórios.
Outra estratégia destacada por Harvey também utilizada em Lille diz respeito ao foco na cultura. Para Harvey, ao processo de desindustrialização dos grandes centros capitalistas seguiu um deslocamento ao setor de serviços e, entre eles, uma posição privilegiada ao turismo. Como destaca o autor, segundo as opiniões oficiais os eventos e festivais culturais criam um clima de otimismo, e “o espetáculo e a exibição se transformam em símbolos de uma comunidade dinâmica”.342 Mas esta leitura focada no turismo é, segundo Harvey, a mais superficial. Segundo o autor, é preciso compreender a maneira como por meio das artes e da cultura as cidades em regime de competição interurbana visam atrair para si o que o autor chama de “renda monopolista”.343 Vejamos como. Nestes casos, a estratégia de governança
340
Termo do autor, p. 186.
341
Ibidem, p. 175. Para um caso bastante ilustrativo, vale lembrar a análise de Otilia Arantes a respeito do novo “cyber district” de Barcelona, que é o 22@. Cf. Berlim Barcelona: duas imagens estratégicas. São Paulo:ed. Annablume, pp87-96.
342
“Do Administrativismo”, p. 174.
343
“A Arte da Renda”, p. 219. Seria demasiado digressivo nos determos nas considerações de Harvey sobre o conceito para além das questões urbanas. Por ora, basta sublinhar, como faz Harvey, que o poder monopolista é um traço característico do modo de produção capitalista, ocorrendo toda vez que a propriedade privada de um bem – seja ele uma porção de terra, uma matéria-prima ou uma mercadoria – possibilita a seu proprietário extrair rendas deste, devido ao caráter de singularidade deste bem, ou a pelo menos a alegação a este caráter. São casos de
133 urbana se funda, segundo Harvey, em torno “do poder do capital simbólico coletivo, isto é, o poder dos marcos especiais de distinção vinculados a algum lugar, dotados de um poder de atração importante em relação aos fluxos de capital em geral”344. Nestas operações, visa-se acentuar o caráter único do lugar com vistas a transformá-lo em “capital simbólico” capaz de auferir rendas de monopólio para o poder público local e setores envolvidos. Estas vantagens monopolistas ligadas ao capital simbólico coletivo são, lembra Harvey, as que colocam cidades como Paris, Roma e Rio de Janeiro, em posições privilegias na divisão internacional do consumo; muito diferente do que acontece com cidades como Baltimore, Liverpool, Glasgow e Lille345. Ora, é neste momento que as novas arquiteturas de alto impacto, no mais das vezes ligadas à cultura – museus, centros culturais e afins –, ganham o centro do palco, operando como verdadeiros chamarizes do marketing e da espetacularização urbana.
Ainda que no momento de idealização do Euralille críticos franceses tenham comentado o projeto em termos de espetacularização da arquitetura346, o exemplo mais paradigmático no que diz respeito às afinidades entre empreendedorismo, projetos urbanos voltados à “animação cultural”347 e arquitetura de grife é certamente o Guggenheim de Bilbao. Nos anos 80, período em que a cidade espanhola passava pela crise de desindustrialização, a cidade levou ao paroxismo a ideia do edifício icônico, este assinado por Frank Gehry, feito de formas contorcidas e fragmentadas, construído em estrutura metálica e vedação de titânio com peças high tech mas cortadas in loco. O projeto é uma escultura em escala monumental, que deixa em segundo plano questões funcionais ou de relação com o entorno, mas mobilizou novas aproximações com instituições consolidadas do setor redes de museus e informacional – jornais, revistas, periódicos que promovem os projetos para a opinião pública. 348Por estas e outras o fenômeno ficou conhecido na crítica como “efeito Bilbao”349. Ciente da expectativa gerada nas outras grandes cidades em regime de competição e dos riscos destas ilusões, Harvey se pergunta: quantos Guggenheim podem ser repetidos mundialmente, ou noutros
rendas monopolistas as que se extraem, por exemplo, de um terreno bem localizado, de uma obra de arte de Picasso ou de Gaudi, ou mesmo de um vinho característico de determinado país. Cf. ibidem, pp. 220-227
344
Ibidem, p. 231.
345
Exemplos de Harvey, ibidem, p. 231.
346
Como dissemos, quem relata bem as polêmicas deste momento é François Chaslin, no artigo “Euralille, Hourra Lille”, em Euralille: Chroniques d’une metropole en mutation”.
347
O termo é forjado Otília Arantes, quando a autora analisa a ascensão dos programas culturais nas cidades como política compensatória do desmanche do Welfare State . Cf. O Lugar da Arquitetura Depois dos Modernos, p. 185
348
Vale conferir o fenônemo que ficou conhecido como “McGuggenhenisation”, após a política expansionista da rede de museus em parceria com grandes arquitetos do star system, com projetos de Gehry em Abu Dhabi( Emirados Árabes, de Zaha Hadid em Singapura, de Jean Nouvel no Rio de Janeiro e em Guadalajara, de Koolhaas em Las Vegas, de Hans Hollein em Salzburgo e Viena.
349
134 termos, este é um modelo a ser repetido indefinidamente?350 O geógrafo lembra neste mesmo tom que “quanto mais facilmente negociáveis se tornem tais itens, menos únicos e especiais eles se afiguram” 351, isto é, quanto mais tais iniciativas sejam replicadas, menos elas proporcionam o caráter de singularidade visado. As inquietações pareceriam pouco relevantes se não soubéssemos que a reprodução do modelo Bilbao já dá mostras de sua ineficiência em cidades como Valência, onde as extravagâncias de Santiago Calatrava na Cidade das Artes e Ciências conseguem parca vida pública, grandes espaços para exposições mas pouco acervo, a ponto de ceder áreas para expor automóveis de luxo. Ou mesmo no Rio de Janeiro, onde as tentativas de emplacar este urbanismo faz da cidade uma pretensa vitrine global, sob o custo de questionáveis remoções de população local, de especulações desmesuradas no mercado imobiliário e, obviamente, de ampliação dos abismos sociais. 352
Quando comparada com Bilbao, podemos falar até em sobriedade do Euralille. O projeto evidentemente não se concentrou num único edifício icônico com caráter de singularidade, mesmo que a proposta dos edifícios ponte seja ousada e o Congrexpo tenha suas excentricidades. A partir das contribuições de Harvey, podemos dizer que, se há em Lille traços do empreendedorismo urbano, estes aparecem numa combinação de estratégias, quais sejam, inserir a cidade numa posição privilegiada de rotas internacionais otimizando os deslocamentos de pessoas e capitais; fazer da cidade centro de comando e de negócios do terciário; e de quebra incluir no programa um grande equipamento de shows, convenções e eventos corporativos que se tornem signo da dinamicidade de uma metrópole renovada.