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Deste conjunto de fenômenos, Koolhaas destaca um caráter político do junkspace. Este se configura quando a esfera do privado se expande ao ponto de preencher com sua legalidade própria toda a vida social e a esfera pública. Em tom hiperbólico afirma Koolhaas:  

 

o junkspace ocorre espontaneamente graças à natural exuberância empresarial – o livre jogo do mercado – ou é gerado através da ação combinada de ‘czares’ temporários com longos históricos de filantropia tridimensional, burocratas ( com frequência antigos esquerdistas que liquidam alegremente grandes extensões ribeirinhas) (...) à medida que a sua escala expande rapidamente – rivalizando com a do espaço público e até o superando – a sua economia se torna mais impenetrável. O seu financiamento é um nevoeiro deliberado que torna mais turvos acordos pouco claros, duvidosas infrações fiscais, incentivos insólitos, isenções e legalidades pouco consistentes, direitos aéreos transferidos, co- propriedades, áreas de zoneamento e cumplicidades entre o público e o privado.399

Deste modo as atividades, instituições e regulamentações do domínio público foram imiscuídos; o que se tem é uma vida social embotada pela discursiva do mercado: “um império emaranhado de confusão que funde o elevado com o mesquinho, o público com o privado, o direito com o torcido, o saciado com o esfomeado, para fornecer um mosaico ininterrupto do permanentemente desconexo”400. Isto se dá, entre outras, pois “o junkspace reduz o que é urbano na urbanidade... em vez de vida pública, Espaço público®: o que fica depois de eliminar o imprevisível”.401 Ou seja, no junkspace a congestão e a densidade foram dissolvidas, restaram apenas espaços públicos com marca registrada. Se outrora a vida urbana fora local dos encontros espontâneos, das disputas por legitimidade, dos embates, dos antagonismos de classe, neste momento risca ser reduzida a vivências previstas em programas de consumo. Em termos espaciais, isso se verifica pela debandada da vida pública às muitas e infindáveis tipologias tornadas shopping – aeroportos, museus, escolas, universidades, como já retratados no início do

       

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O trecho é da versão que se encontra em O Campo Ampliado, p.110

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ibidem, p. 114.

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Formulação de Koolhaas em Junkspace, Três Textos sobre a Cidade, p. 91

399 Ibidem, p. 94. 400 Ibidem, p.72 401 ibidem, p. 96

 154  volume.402 Nesse sentido, o junkspace é um esvaziamento do político, mas por esta mesma razão o junkspace é político. E mais:

depende da eliminação centralizada da capacidade crítica em nome do conforto e do prazer ... países diminutos inteiros estabelecem regimes de desorientação planificada, instigam uma política de desorganização sistemática . Não é exatamente o ‘vale-tudo’; na realidade o segredo do junkspace é ser promíscuo e ao mesmo tempo repressivo: à medida que prolifera o informe, o formal atrofia-se e com ele todas as regras, os regulamentos, os recursos(...) [o junkspace] cunhou uma nova onda proativa de paradoxos para suspender a antiga incompatibilidade: vida/estilo, realidade/TV, mundo/música; museu/loja, comida/sala, saúde/cuidados, espera/vestíbulos. As denominações substituíram a luta de classes, amálgamas sonoras de estatuto, conceitos elevados e história.403

Enquanto autor Koolhaas não cita suas referências teóricas, mas podemos arriscar fazer algumas asserções. O junkspace é promíscuo e ao mesmo tempo repressivo porque as estratégias de controle da vida social não são ditadas de modo autoritário e coercitivo – como se dizia da modernidade fordista –; nesta cultura urbana há, pode se dizer, um controle pelo prazer, na medida em que a satisfação de prazeres e de necessidades criadas é, por um lado, uma busca aprisionante e sem fim e, por outro, é um modo de desmobilizar a crítica, a insurgência ou o desejo por realidades outras. O controle pelo prazer, pode-se dizer ainda, molda um imaginário social que coincide com os bens à venda no mercado. Não por acaso se pergunta adiante: “A dissonância? A incomodidade?”404. Nesse tom agonizante Koolhaas não vê possibilidades de dissensos, só um “acondicionamento universal”405 .

Com estas afirmações Koolhaas faz reaparecer a ideia segundo a qual há na modernização globalizante uma mudança apenas encenada, mas agora sob a forma não da linguagem visual – os simulacros –, mas da linguagem discursiva. Em outros termos: em junkspace a produção de significantes linguísticos se descola da realidade descrita (o referente); os significados, pode-se

       

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Apesar do tom hiperbólico do texto tender a uma atmosfera de ficção-cientifica, o fenômeno do esvaziamento da vida pública e sua interiorização em espaços e programas de consumo é uma tendência constatada por Sharon Zukin: “shopping centers têm substituído reuniões políticas e cívicas enquanto arenas da vida pública. Embora sejam propriedade privada e serviços prestados, eles são percebidos como uma forma bastante democrática de desenvolvimento. Mais do que isso, acredita-se que estes “ abrem” o centro, criando um senso de lugar”. Mais adiante completa: “ esta combinação entre público e uso privado tem levado a crítica à submergir do lugar público aos mercados privados[ this combination of public and private uses has struck critics as submerging public place to private markets]. Isto conduz ao extremo a limiaridade [ liminality] entre o espaços urbanos públicos e privados que começou no século XIX”. Landscapes of Power- from Detroit to Disney World, pp. 51-52

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KOOLHAAS, “Junkspace” em Três Textos sobre a Cidade, pp. 91- 92. Em Content, OMA-AMO ironizam este esvaziamento ao montar um gráfico sobre a frequência com que o termo “revolução” foi usado pela revista de moda Wired, cliente do AMO. Segundo a agência, a Wired “proclama uma revolução a cada três meses”. Cf. op.cit., p. 109

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ibidem, p. 98

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 155  dizer, estão sem lastro. Donde as afirmações acerca da verborragia das denominações que imiscuem os conflitos e a conclusão segundo a qual “a globalização transforma a linguagem em junkspace. Estamos submetidos a um marasmo da fala”.406 É prudente nos perguntarmos: qual é a totalidade a partir da qual se possa compreender os fenômenos diversos do junkspace? Koolhaas não fornece respostas, mas prefere, com lembra Jameson, buscar mais e mais sinônimos do junkspace.

Tampouco as arquiteturas espetaculares escapam da cultura urbana sob o domínio do junkspace; estas estão também na onda da estetização seguida por estratégias de mercado, o que o autor chama de “empretenimento” [corpotainment] e, ainda, de Sublime Empresarial407:“ graças ao junkspace, a velha aura é impregnada de um novo brilho para gerar uma súbita viabilidade comercial: Barcelona amalgamou-se com os jogos Olímpicos, Bilbao com o Guggenheim; a 42nd Street nova-iorquina com a Disney”.408Em seguida reitera que

“aeroportos brilham como gigantescas gotas de orvalho, as pontes estendem-se com frequência sobre as margens insignificantes como versões grotescas e ampliadas de uma harpa. Cada riacho tem seu Calatrava”.409 E não muito longe desta questão afirma Koolhaas, já próximo do fim do ensaio, que “na sua marcha triunfal como fornecedora de conteúdo, a arte estende-se muito para além dos limites cada vez maiores do museu”.410 O junkspace aproxima-se, podemos dizer, das teses segundo as quais as artes – e obviamente a arquitetura – são a ponta de lança nas estratégias integradas de estetização e empreendedorismo da governança urbana, nas quais as cidades são geridas como negócio.

Se nos textos de juventude prevalecia uma ambivalência mais juvenil entre horror e júbilo411 diante da metrópole, e em S,M,L,XL Koolhaas apostou no lançar-se na globalização sem buscar critérios nem evitar contradições, em Junkspace o arquiteto parece não ver possibilidade de criar um uma realidade outra através de uma cidade como conjectura ou por meio da heroicização irônica do método paranoico-critico. A negatividade da crítica é levada a seu máximo grau sem o vislumbre de um horizonte ou de qualquer alteridade. Como destaca Jameson, nesse período Koolhaas, “na ausência de um futuro, concentra seu foco numa única tendência fatídica, que se expande sem parar até que a própria tendência se torna apocalíptica e

       

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Ibidem, p. 100. Vale também reiterar: “agora, a linguagem faz reivindicações, decide quem são as vítimas, antecipa-se ao debate, admite a culpa, promove o consenso”. Ibidem, p.101

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Ibidem, p. 97. Neologismo de Koolhaas entre corporate e entertainment.

408 p. 95 409 ibidem, p. 103 410 ibidem, p. 108 411 El Croquis, 53+79, p. 31

 156  explode o mundo em que estamos presos”412 . Por isso a única saída de Koolhaas é, segundo o Jameson, criar uma narrativa com aparência distópica. Atento à habilidade de Koolhaas como escritor, para Jameson em Junkspace a escrita funciona como “o aríete, a repetição delirante que martela e destrói a mesmice que percorre todas as formas de nossa existência ( espaço, estacionamento, consumo, trabalho, alimentação, moradia), e continua a esmurrá-las até que todas admitam sua identidade padronizada”.  413 A performance agressiva da escrita é, nesse sentido, “um orgasmo que retorna ao tempo e à historia, a um futuro concreto”.414

Segundo Jameson, ainda que em caráter distópico o ensaio de Koolhaas fornece contribuições para esclarecer proposições da tradição materialista, mais especificamente em torno do que se costumou chamar de “reificação”.415 Jameson reconstitui de modo brevíssimo marcos fundamentais da tradição crítica, lembrando as origens da noção de reificação na noção de “fetichismo da mercadoria” em Marx, segundo a qual no modo capitalista de produção a mercadoria se descola de suas propriedades banais de coisa, ganha uma trascendência com feições sobrenaturais, escondendo assim as relações sociais nesta envolvido.416 Mas como lembra Jameson, a noção de “reificação” propriamente dita vem de Georg Lukács, quem viu na “objetividade fantasmagórica”417 da mercadoria fetichizada a forma predominante não apenas das relações sociais na modernidade capitalista, mas também do comportamento dos sujeitos submetidos a esta. Deste modo, lembra Jameson, Lukács insere esta estrutura abstrata das relações mercantis, a da mercadoria fetichizada, “no centro do processo social mais geral e abrangente da reificação tanto física como mental”418. Jameson lembra, ainda, que com as perspectivas montadas por Guy Debord sobre a espetacularização da sociedade capitalista e a tese segundo a qual “a forma final do fetichismo da mercadoria é a imagem”419, tornou-se mais evidente como o processo de transformação das relações sociais em commodities, entre sujeitos e objetos e sujeitos entre si, “não é tanto uma questão de falsa consciência, e sim um novo

       

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JAMESON, F. “A Cidade Futura”. Em : O Campo Ampliado da Arquitetura. Org. Sykes, A. Krista. São Paulo: Cosac Naify, 2013. 413 Ibidem, p. 202. 414 Ibidem, p. 202. 415

JAMESON, F. “A Cidade Futura”, p. 202

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Ibidem, p.202. Sobre o “fetichismo da mercadoria” no modo de produção capitalista, vale conferir O Capital, livro I, cap.1. São Paulo: Ed. Boitempo, 2013, pp.146-158

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Esta é a expressão usada pelo próprio Lukács em História e Consciência de Classe. São Paulo: ed. Martins Fontes, 2003, p194. Jameson, no artigo Cidade Futura, não se detem em explicar a teoria crítica de Lukács; e seria demasiado ambicioso de minha parte tentar faze-lo neste momento. Por ora, basta nos atermos nesta tese central do filósofo: há na modernidade capitalista uma mudança qualitativa nas relações sociais – e portanto nas formas de subjetividade –, em tal medida que “a troca de mercadorias e suas consequências estruturais são capazes de influenciar toda a vida exterior e interior da sociedade”. Grifo do autor, ibidem, pp.194-195 . A “reificação” é, neste sentido, a consequência mais ampla deste processo histórico. Para uma definição de tal termo, cf. ibidem, p.198

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JAMESON, “ Cidade Futura”, p. 203

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 157  estilo de vida, que chamamos de consumismo e que é mais semelhante a um vício do que a um erro filosófico ou mesmo uma escolha equivocada de partidos politicos”420 .

Neste sentido, para Jameson o ensaio Junkspace e o Guide to Shopping fornecem contribuições críticas, à medida que são “imagens de imagens e assim deveriam nos permitir um novo tipo de distanciamento crítico, coisa que fazem conceitualmente devolvendo a ideia de mercadoria à sua posição original na relação de troca conceitual”, isto é, mostram que “ o que fazemos com a mercadoria, enquanto imagens, é não olhar para elas”.421 Segundo a aposta de Jameson, estas imagens das imagens contribuem para que criemos uma nova forma de organização do desejo.422