Os problemas geopolíticos em torno do Mediterrâneo caracterizam-se não só pela sua complexidade, mas acima de tudo pela originalidade, em virtude das questões históricas e das rivalidades religiosas e culturais que lhe estão subjacentes nas conquistas pelo território.115 Aqui ressalta o aparecimento datado de 1960 de uma nação116 palestiniana, com pretensões de originalidade.
O Médio Oriente é uma zona constituída por Estados ribeirinhos, caracterizados pela heterogeneidade a oriente do Mar Mediterrâneo, onde coexistem culturas antiquíssimas e onde Israel se insere.
113 LACOSTE, Yves, Op. Cit, nota 67, p. 13.
114 Veja-se a este propósito, DEUS, Ruth Costa, Israel no contexto das relações internacionais: do sionismo
à cooperação com a União Europeia, Dissertação de Mestrado em Relações Internacionais, ISCSP, Lisboa, 1999, p. 30. Veja-se também ERAN, Oded, “Regional Security Frameworks in Israel”, in Nação e Defesa, “Visões Globais para a Defesa”, nº 125, 4ª Série, Lisboa, Primavera 2010, p. 51.
115 LACOSTE, Yves, Op. Cit, nota 67, p.14. Veja-se igualmente RODRIGUES, Castro, “A Segurança na
Região Euro-Mediterrânica-Implicações para Portugal”, Instituto de Altos Estudos Militares (IAEM) - Curso de Estado-Maior, Lisboa, 1999-2001, p. 14.
116 “A ideia de nação, é em si mesma eminentemente geopolítica, uma vez que se refere a um território e ao
princípio de independência, ou seja, a uma rivalidade de poderes. A forma particular como os cidadãos representam, mais ou menos claramente, a sua nação refere-se certamente à sua história, aos projectos que se lhe atribui, aos perigos que prevêem, aos perigos de que suspeitam. No entanto, esta representação particular que é cada nação evolui por efeito de grandes choques geopolíticos”. LACOSTE, Yves, Op. Cit, nota 67, p. 16. Além disso,“Nação deriva do latim natione e significa nascimento, raça, espécie, tipo, tribo”. LARA, António de Sousa, Op. Cit, nota 73, p. 239.
Gioconda Cardoso 56 Figura 1: Mapa do Médio Oriente117
O denominado “fenómeno geopolítico mediterrânico ou modelo mediterrânico pode ser definido pela multiplicidade das interacções directas por via marítima, entre numerosos países situados em redor de uma mesma extensão marítima; os estreitos e as passagens entre dois oceanos facilitam intervenções navais, vindas de outras partes do mundo”118.
O Mar Mediterrâneo119 pode ser assim dividido em quatro sub-regiões que passamos a elencar:
“Primeira Sul da Europa: Península Ibérica, França, Itália;
117 http://www.google.pt, consultado em 18 de Setembro 2011, 17:00. 118 LACOSTE, Yves, Op. Cit, nota 67, p. 7.
119“O Mar situado entre a Europa, a África e a Ásia tornou-se bastante singular, devido à sua situação entre
extensões continentais; a partir do século XVI transformou-se num nome próprio; inicialmente conhecido por marinheiros, grandes comerciantes, diplomatas e chefes de Estado; é quase mundialmente conhecido como conjunto geopolítico”. LACOSTE, Yves, Op. Cit, nota 67, pp. 20,21.
Gioconda Cardoso 57 Segunda Mediterrâneo Balcânico: Eslovénia, Bósnia-Herzegovina, ex-Jugoslávia, Macedónia, Croácia, Albânia, Grécia, Turquia e Chipre;
Terceira Médio-Oriente: Síria, Líbano, Israel e Egipto;
Quarta Magrebe: Marrocos, Argélia, Tunísia, Líbia e Mauritânia”120.
Socorrendo-nos da história, o Mediterrâneo é uma área de extrema importância no contexto estratégico121. Constata-se que é uma zona geopolítica dominada por “identidade própria” que acolhe Chipre, Turquia, Egipto, Síria, Líbano e Israel. Há a frisar a importância do factor humano na fixação litoral.
O Mediterrâneo Oriental “é essencialmente uma zona de passagem e de contacto entre o Ocidente cristão e o mundo muçulmano, mais a Leste”.122 Há uma espécie de
120 Veja-se sobre esta questão, por exemplo: DEUS, Ruth Costa, Op. Cit, nota 114, pp. 27,28.
121Na perspectiva de Yves Lacoste, é “hoje considerado um grande conjunto geopolítico. No entanto, trata-se
de um conjunto geopolítico muito particular, devido não só à extensão marítima que separa os países, mas também e sobretudo por causa das enormes diferenças que opõem aquilo a que podemos chamar o Norte e o Sul dos seus limites terrestres”. LACOSTE, Yves, Op. Cit, nota 67, pp. 21,22. Por seu lado, “A forma alongada do Mediterrâneo e as curtas distâncias entre as cidades do litoral, sempre proporcionaram uma relação fácil e constante entre civilizações que se desenvolveram em faixas geográficas costeiras de razoável extensão mas bastante limitadas em profundidade”. SACCHETTI, António Emílio Ferraz, “O Mediterrâneo: geopolítica e segurança europeia”, Cadernos Navais, 16, Lisboa, Janeiro-Março 2006, p. 8. No quadro estratégico, os grandes vectores de orientação que se podem reter sobre a bacia do Mediterrâneo são as seguintes: 1) “o elevado valor estratégico da sua posição, controlando rotas vitais para o abastecimento e segurança do mundo ocidental e para a contenção da histórica tendência expansionista da potência continental, associado aos recursos naturais estratégicos existentes na região, fazem do Mediterrâneo palco de cruzamentos de interesses e pressões permanentes por parte dos grandes actores da cena internacional actual; 2) as diferenças étnicas, culturais, religiosas e de regimes políticos, são factores de instabilidade e potencial conflitualidade, consubstanciando a falta de coesão e a sua heterogeneidade; 3) o grande fosso existente entre as duas margens Norte-Sul do Mediterrâneo ao nível estrutural, económico, financeiro, industrial, científico, tecnológico e de qualidade de vida das populações é potenciador de tensões e conflitos; 4) a instabilidade política e social que se verifica na Margem sul do Mediterrâneo, conjugada com fenómenos de xenofobia e racismos na margem Norte, aliada à percepção das grandes diferenças entre as duas margens, são factores aglutinadores de fundamentalismos e sentimentos anti-ocidentais; 5) a existência de conflitos territoriais, de choques de culturas e de civilizações e de tensões centrífugas; 6) a elevada concentração de meios militares e de armas de destruição maciça, associadas a tendências hegemónicas e regimes políticos instáveis, tornam a região numa situação de instabilidade crónica”. DEUS, Ruth Costa, Op. Cit, nota 114, pp. 28, 29.
122“Na verdade um estreito com a largura de apenas 40 milhas e com 740 metros de profundidade. Fica entre
a Ilha da Sicília e o Cabo Bom, na Tunísia, e que tem a Ilha de Malta na sua profundidade”. Apud, LACOSTE, Yves, Dictionnaire de geopolitique, Flamarion: Paris, 1997, pp. 1243-1244 in SARAIVA, Maria Francisca, “Geopolítica e Geoestratégia dos Montes Golan”, in Revista Geopolítica- Um Olhar Diferente, Centro Português de Geopolítica, nº 1, Lisboa, Setembro 2007, p. 261.
Gioconda Cardoso 58 “militarização do leste do Mediterrâneo”123, no qual a questão preocupante é sem dúvida o conflito israelo-palestiniano, com repercussões visíveis na bacia do Mediterrâneo.
Na opinião de Yves Lacoste o conflito nesta zona sempre vigorou e considera tratar-se da zona a nível planetário em que os conflitos mais dominam124.
Segundo Eduardo dos Santos o “Médio Oriente está atrasado, pois não tem democracias”.125A insistência em regimes autocráticos reside no facto dos sistemas político e judicial se encontrarem nos primórdios de existência.
A questão religiosa que está subjacente a todo este desenrolar da acção é passada para segundo plano na questão da constituição do Estado, em virtude do Estado moderno, na verdadeira acepção da palavra, se instalar no Médio Oriente apenas em pleno século XX. Observando a realidade religiosa do Mediterrâneo, o Norte é maioritariamente composto por países cristãos, ao passo que no Sul dominam os países muçulmanos.
É-nos possível afirmar que no Médio Oriente, em quatro Estados, encontra-se bem patente uma instabilidade generalizada. Os problemas no Mediterrâneo devem-se a questões geopolíticas, a confrontos religiosos e de língua, a divergências económicas que implicam independência/autonomia.
Nesta zona do globo, as questões geopolíticas assumem uma importância extrema, dada a proliferação de conflitos e atrocidades que aí ocorrem e no caso em particular em Israel.126
É ponto assente que a dicotomia Israel-Palestina reflecte um conflito que tem persistido ao longo dos tempos, com implicações na cena internacional.
123 Idem, p. 262.
124 LACOSTE, Yves, Op. Cit, nota 67, p. 7.
125 SANTOS, Eduardo Eugénio Silvestre, Op. Cit, nota 65, p. 545. 126 LACOSTE, Yves, Op. Cit, nota 67, p. 10.
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