Os estudiosos das ciências sociais no Brasil foram fortemente influenciados pelo paradigma marxista. Por meio deles estudaram os movimentos sociais durante décadas olhando para os seus agentes a partir de uma identidade definida pela estrutura social; para o conflito como sendo parte de um processo histórico diacrônico-evolucionista e para o espaço político buscando caráter unificado.
Antes do fim da década de 70, porém, as novas perspectivas teóricas dos autores que tratavam dos novos movimentos sociais começavam a ressoar melhor o contexto observado e aos poucos, foram sendo cada vez mais trabalhadas pelos autores latino-americanos. A história política na America Latina é marcada pelo liberalismo e pelo populismo, que pregavam ao imaginário coletivo visões dicotômicas e totalizantes; de um lado, a civilidade européia ou a barbárie marginalizada, de outro, o povo versus a oligarquia, por exemplo.
Esse contexto histórico levou a uma cultura de posições políticas polarizadas que entrou em crise quando se viu incapaz de absorver todos os antagonismos da sociedade contemporânea. Teóricos passam a observar, nesse fim de século XX, que não é mais possível estudar a sociedade pela estrutura categórica bipolar, pois não há um único conflito que divida a sociedade em dois campos. Observa-se muito mais uma pluralidade de demandas e a diversidade de espaços políticos e atores sociais (LACLAU, 1983).
O paradigma latino-americano concentrou-se, em sua quase totalidade, nos estudos sobre os movimentos sociais libertários ou emancipatórios (índios, negros, mulheres, minorias em geral); nas lutas populares urbanas por bens e equipamentos coletivos, ou espaço para moradia urbana) associações de moradores e nas comunidades de base da Igreja), e nos lugares pela terra, na área rural. As teorias que orientaram a produção a respeito foram as dos paradigmas europeus, tendo predominado nos anos 70 a vertente marxista e nos 80 a abordagem dos Novos Movimentos Sociais. [...] Mas houve certa releitura daquelas teorias, resultando também na criação de outras categorias de analise tais como: novos sujeitos históricos, campo de força popular, cidadania coletiva, espoliação urbana, exclusão social, descentralização, espontaneidade, redes de solidariedade, setor terciário privado e público, etc. (GOHN, 2006, p. 15-16).
O universalismo eurocêntrico do marxismo, até então adotado em larga escala pela academia latino-americana pressupunha o sujeito na centralidade da análise, com uma posição unificada determinada pela estrutura de classes entendida a partir das relações produtivas. No contexto contemporâneo, o imaginário político define horizontes e pontos de partida, mas não determina identidades. Eder Sader, em seu estudo sobre os trabalhadores em São Paulo nos anos 80, observa que não se pode esperar que todo trabalhador tenha um mesmo e único ponto de vista sobre sua posição na sociedade. Os movimentos interclassistas, por exemplo, não se encaixavam na lógica teórica disponível. Em linha com o autor, Laclau (1983) elabora a idéia de uma “posição de sujeito” em que o indivíduo, ocupando espaços e tomando posições diversas e articuladas nos diferentes níveis de uma estrutura que também se desenvolve a partir dele, e deixa de ser resultado da sociedade para ser promotor dela. É uma posição de sujeito descentralizada, não racional, destotalizante e plural.
[...] não há nenhuma posição de sujeito cujas conexões com as outras posições possam ser permanentemente asseguradas: e, por conseqüência, não há nenhuma identidade social integralmente adquirida que não esteja sujeita, em maior ou menor escala, à ação de práticas articulatórias (LACLAU, 1983, p. 3).
Sader (1988) chama a atenção pela escolha da análise de experiências em vez de estruturas para a compreensão dos movimentos sociais, que apresenta como responsáveis pela criação de um novo sujeito social e histórico e por isso intitula seu livro falando de “novos personagens entrando em cena”.
[...] quando uso a noção de sujeito coletivo, a expressão indica “uma coletividade onde se elabora uma identidade e se organizam práticas através das quais seus membros pretendem defender seus interesses e expressar suas vontades, constituindo-se nessas lutas (SADER, 1988, p.55).
No Brasil, trata-se de uma época em que as periferias urbanas lutavam para serem reconhecidas pelo Estado e as reivindicações expressavam os desejos da base da sociedade reclamando direitos iguais. Por isso o uso, o surgimento, na América Latina, da nomenclatura “movimentos populares” e “movimentos populares urbanos”. As macroteorias disponíveis, tais como a marxista, não ofereciam parâmetros para a necessidade de se estudar a participação popular. A percepção das práticas políticas como nova se deu antes de qualquer teoria que a tivesse conceituado anteriormente.
Nesse período, no Brasil, as centralidades organizativas da ação política estavam em crise. A igreja, pela Teologia da Libertação havia tido forte atuação nas bases das associações comunitárias, tida como a “única instituição organizada de uma tal maneira que a faz ser única na capacidade para contrapor-se ao outro centro organizado, o Estado” (CHAUÍ, apud SADER, 1988, p.14), teve sua estrutura rompida pelo Vaticano. A militância de esquerda procurava se reformular depois de ter passado a ocupar lugares institucionalizados a partir da retomada da democracia.
O novo sindicalismo se reorganizava com autonomia perante o Estado, contestando a ordem vigente e também se relacionando de outra forma com as representações patronais. A participação cívica e trabalhista estava acontecendo em espaços extrainstitucionais, a parte do sistema de representação política tradicional. Eram novos sujeitos criando “suas próprias cenas”. A idéia de solidariedade comunitária se ampliava propondo uma nova sociabilidade e a politização dos espaços privados, tal qual o fenômeno observado também na Europa e denominado de novos movimentos sociais. Trata-se de um novo sujeito, atuando politicamente com novas praticas, em novos espaços.
Ruth Cardoso (1987) define os movimentos populares urbanos como sendo novos porque afirmam novas identidades; apresentam o potencial de transformar as
estruturas de dominação exigindo o reconhecimento de categorias antes excluídas do jogo político que ultrapassam quadro institucional vigente; e tem caráter de resistência, contestam o Estado. Contudo, aponta para a importância do estudo das novas identidades considerando também seu caráter relacional além do cultural. Para tanto, faz-se necessário o estudo das dinâmicas internas dos movimentos, com suas contradições, impasses, e táticas de ação; além da consideração das suas relações com agentes externos tais como outros movimentos sociais, partidos políticos, sindicatos e igreja.
O potencial de transformação estrutural e até mesmo seu caráter revolucionário, por sua vez, se apresenta como utopia de análise na medida em que se observam ações fragmentadas e em competição por recursos e alianças, desvalidas da união necessária para tal. A avaliação de diferentes estágios de desenvolvimento dos movimentos lhe parece metodologicamente equivocada até que se definam os mesmos parâmetros de origem e se compare apenas o que viveu o mesmo processo histórico.
Além disso, a autora lembra que a participação deve ser ressignificada levando em conta também as transformações ocorridas no aparelho de um Estado com características próprias diferentes do contexto europeu de onde veem as referências teóricas dos novos movimentos sociais. A relação dos movimentos sociais para com o Estado depende da conjuntura política, do tipo de reivindicação e das formas de organização e mobilização da população.
A ação comunitária aparece como traço comum, em movimentos cujas práticas organizativas demonstram-se não hierarquizadas – justamente para não repetir a lógica excludente que está, em geral, sendo combatida pelo grupo. Reconhece-se uma importante influência da Teologia da Libertação nesse tipo de configuração organizacional. Por outro lado, o que sobressai é que os movimentos são distintos, com diferentes perfis de relacionamento interno e externo determinados por seus contextos e alianças, promovendo reações diversas com graus relativos de autonomia frente ao sistema de representação política tradicional. O estudo dos movimentos sociais deve investigar essas singularidades para que se possa captar o seu espírito em sua essência.