A associação entre direitos humanos e religiosidade tem sido a tônica de um sem número de instituições confessionais que amparam milhões de pessoas no Brasil desde o tempo dos jesuítas. No caso espírita, o movimento tem atendido pessoas necessitadas de toda
19 Hegel associa confiança e fé em Princípios da filosofia do Direito (1997, p. 9, 143).
20 Quando alguém respeita outro por uma casa religiosa, o cometimento é uma relação de reconhecimento
ordem desde sua tropicalização, onde auferiu o reconhecimento legal e diminuiu as frequentes perseguições de que era vítima (Arribas, 2014, p. 81-82). Ainda, como mostra o estudo desenvolvido por Alessandra Lucchetti (2013), em 55 centros espíritas de São Paulo atende-se o dobro de pessoas da Santa Casa da capital paulista, ou seja, 60 mil pessoas por mês, podendo ter um impacto bastante positivo na saúde dos pacientes, segundo Vallada Filho, orientador da pesquisa (Dias, 2014).
Assim, vamos demonstrar nesse trabalho é que esse contingente de “voluntários” que atendem milhares de pessoas no país é, sobretudo, de “mulheres” (65% dos voluntários da FERGS, 2014), então, além “do que” é dito, “quem” está dizendo é uma novidade no cenário religioso, se considerarmos que à mulher foram vedados espaços nas tradições cristãs, islâmicas e budistas (Rosado-Nunes, 2005), de forma que uma religião “feminina” pode gerar novos aspectos normativos nas relações entre os sexos e também um olhar menos machista da realidade.
Martha Nussbaum assevera a posição de parte do feminismo em torno da visão negativa das religiões, mas também demonstra o inverso que há de ser notado, onde as religiões tiveram participação importante em conquistas sociais:
Secular humanism is deeply appealing to feminists, since there is no doubt that the world’s major religions, in their actual historical form, have been unjust to women both theoretically and practically. In contemporary politics, religious groups have frequently had a pernicious influence on women’s live [...] (Nussbaum, 2000, p. 177).
A related pragmatic error of the secular humanist is to fail to pursue alliances with feminist forces within each religious tradition. Religious traditions have indeed been powerful sources of oppression for women; but they have also been powerful sources of protection for human rights, of commitment to justice, and of energy for social change. For example, they have been primary sources of U.S. abolitionism and of the more recent civil rights movement, and in India they have been primary sources of the Gandhian anticolonialism and of the contemporary Gandhian SEWA movement. Muslim feminists like Heera Nawaz find ideas of justice in their religion important sources of empowerment (Nussbaum, 2000, p. 178-179).
Diante de um diagnóstico de sofrimento/exclusão, em que se encontram muitas mulheres em algumas religiões, ou ainda, em toda a sociedade, de forma geral, com maus tratos e violação, privação de direitos e degradação e injúria, nos chamou uma religião cujos resultados do Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e cujas pesquisas etnográficas que realizamos nos eventos da Federação Espírita do Rio Grande do Sul (FERGS), na Sociedade Espírita Caminho da Luz, de Torres/RS, nos mostram um cenário socioeconômico e político com participação diretiva da comunidade, mais simétrico.
Assim, trazemos a ação social da mulher na casa espírita e na liderança do movimento, em suas diversas instituições, sua relevância e papel espiritual nos livros espíritas de Allan Kardec e Divaldo Franco (Joanna de Ângelis), nas entrevistas que realizamos, analisando seu espaço de autonomia e visão de mundo. Vale salientar que nos referimos ao que tem se convencionado por Espiritismo Kardecista, conquanto essa abordagem da identidade espírita seja vista pelos adeptos como uma forma incauta de abordar a denominação da doutrina. Nesse sentido, a identidade espírita, como outras, é um elemento chave da realidade subjetiva e acha-se em relação dialética com a sociedade, uma atribuição psicológica com forte penetração social, assim, o que se veria não seria o outro, mas também sua própria interpretação, com base na relatividade sócio-histórica de sua abordagem do que supostamente é o outro, onde acontece uma espécie de diagnóstico social ou de engavetamento, no entanto, esse gaveteiro é tão variável quanto os indivíduos e pode ser empiricamente adequada ou reificada (Berger e Luckmann, 2009).
Do ponto de vista conceitual, diante de alguns dilemas apresentados por Honneth, nosso esforço, de ajudar a pensar a natureza da realidade, nos fez incluir, num certo sentido, app´s (aplicativos) que ajudassem a compreender a realidade social (sistema operacional). Assim, da forma como Honneth empregou os conceitos de Hegel, de George Mead, de Winnicott, entre outros, consideramos sui generis as contribuições de Deirdre Wilson, Fábio José Rauen.
A ausência de reconhecimento da mulher nas religiões com algum grau de sexismo, engrendra distorções na possibilidade de autorrealização, na medida que essa "máxima relevância" (Wilson e Sperber) que todos almejam, não é equivalente dentro do grupo religioso em esferas mais representativas, por conseguinte existe uma diferente “formação” (Bildung) do que é ser mulher, admitindo-se nesses grupos uma diferença “não-equivalente” como natural, ontológica e até espiritual, culminando numa eticidade na qual a mulher é submissa, no qual seus papéis são secundários, como seres reificados.
Sabemos que na prática, as religiões seculares do Brasil, não impedem a frequência de pessoas com comportamento “herético” (cf. Berger e Luckmann, 2009, p. 139-140), mas todo corpo teórico gera um tipo de referencial que embasa critérios e categorias de relevância no interior do movimento social e, nesse caso das grandes religiões21, postergação do reconhecimento da equivalência feminina em relação à masculina, para além do paradoxo
21 Para fim de recorte consideramos grandes religiões brasileiras as com mais de um milhão de adeptos segundo
igual-diferente, como um ser humano completo, equivalente, talvez mais capaz que o homem, pelo poder de gestar uma vida e formar novos sujeitos de maneira “única”.
Diferenças substanciais na escolaridade, na renda entre homens e mulheres (demonstradas no Censo 2010) de religiões mais (ou menos) literalistas geram uma possibilidade de que existiria uma influência da religiosidade institucionalizada na formação da identidade, no seu reconhecimento afetivo, jurídico e social e por fim na autorrealização factível. Seriam as influências do universo simbólico (cf. Berger e Luckmann, 2009, p. 126 e ss.) sobre a biografia individual e a ordem institucional.