Um dos temas que Axel Honneth (2008a, p. 75) não encerra é a questão da reificação. Como explicar as atrocidades perpetradas pelos jovens soldados nazistas sem nenhuma comiseração como ele lembra. As noções do funcionamento cognitivo segundo a teoria da relevância podem colaborar na explicação do que ocorre.
Contudo, se eu me pergunto qual era o fenômeno que originalmente despertou meu interesse pelo tema da reificação, então preciso admitir que possivelmente tenha sido a dificuldade de uma explicação para o genocídio “industrializado” […] Se como pessoas nós estamos relacionadas umas às outras através de um reconhecimento prévio, algo sobre o que eu não tenho dúvidas, então tais genocídios colocam-nos diante da pergunta, como devemos explicar o desaparecimento, o “esquecimento”, do reconhecimento previamente concedido; e o meu pequeno estudo pretendia ser também uma tentativa de encontrar uma resposta a esse quebra-cabeça antropológico do século 20. (Honneth, 2008a, p. 78-79).
Nosso intento seria o de identificar formas de reificação, sejam quais forem essas formas de imposição de sofrimento, mas no caso específico, sobremaneira a frieza com que
43 Segundo Rauen (2008, p. 41): “A noção de ótimo ou eficiência de Pareto foi criada por Vilfredo Pareto para
questões econômicas. Uma situação econômica é ótima no sentido de Pareto se não for possível melhorar a situação, ou mais genericamente a utilidade, de um agente econômico sem degradar a situação ou utilidade de qualquer outro agente econômico. Por analogia, no escopo de uma variável de exaustão, num processamento cognitivo ótimo, no sentido de Pareto, não é possível aumentar a obtenção de efeitos cognitivos sem degradar a reserva energética do sistema cognitivo. Em outras palavras, o investimento em termos de custos cognitivos é constringido por um limiar para além do qual: a) os efeitos cognitivos não compensam o investimento energético; e b) o investimento energético degrada as reservas de energia do sistema”.
travam embates os seres humanos como se o outro fosse mercadoria, objeto, de uma “forma sequencial”.
Lembrando que a cognição opera guiada, ora pelos “efeitos”; ora pelos “custos” de processamento cognitivo. Para Rauen (2008, p. 40, grifo nosso) “a adoção da variável de saturação e do limiar de saturação é importante, porque pode fornecer explicação para a adesão dos seres humanos a rotinas habituais, sejam elas conscientes ou não”, assim, perde- se a relevância ou, ela fica diluída, após o limiar de saturação ser ultrapassado. Na relação intersubjetiva, Honneth (2008a, p. 77) fala em “rotinização e habitualização que podem levar a ‘esquecer’ no final todo reconhecimento”. Atentemos que ambos estão falando em “rotinização e habitualização” como causa de um esquecimento, das duas uma, ou as teorias do reconhecimento de Honneth e da teoria da “irrelevância” 44, de Rauen, estão confirmando
uma à outra, ou ambas estão erradas. Vale lembrar que um dos centros da Teoria do Reconhecimento é a luta social, ou seja, a falta de reconhecimento, que faz se movam os sujeitos em busca de instituições para auferir amor, direito e contribuição social; o contrário ocorre na Teoria da Relevância, cuja busca é a relevância ótima daquilo que é comunicado, ou seja, na primeira se busca a “causa da luta” na relação social e na outra a “causa da compreensão” da inferência.
Para justificar que o processo de “reificação” e “irrelevância” estão ligados a um processo de “rotinização”, que é um efeito fundamentamente cognitivo, vamos a um exemplo de Deirdre Wilson (Rauen, 2008, p. 43):
Por que se presta atenção a luzes brilhantes, barulhos altos, movimentos súbitos, novidades, mudança de uma cena familiar, movimento que se aproxima45 antes que
o que se afasta? Porque esses fenômenos são provavelmente relevantes para nós. Por que se falha em prestar atenção a cada folha de grama, a cada pingo de chuva, a cada tique de um relógio, cada inspiração que temos? Porque, depois de um tempo, exaure-se a relevância e os sistemas perceptuais simplesmente os filtram. (Rauen, 2008, p. 43).
Lembrando que esforços adicionais de compreensão de relevâncias devem ser “compensatórios” e “diferentes” e que essas compensações tem prazo cognitivo curto. Assim, num breve exemplo, uma pessoa pergunta repetidas vezes aquilo que pretende saber e se a outra pessoa não entender a pergunta ou não der a resposta num determinado tempo, aquela relação de relevância anterior se tornará irrelevante e o sujeito tende a ser reificado, variando
44 Rauen (2008, p. 55) diz: “seja como for, parece razoável especular que uma teoria da relevância deva
pressupor uma teoria das irrelevâncias”.
45 Talvez possamos inferir que amar o “próximo” é uma maneira de cuidar do que é “relevante”. Como uma
de acordo com a maturidade moral do falante. Wilson (em Rauen, 2008, p. 43) coloca que o excesso de estímulos exaure a relevância, ou seja, a mente satura a percepção com determinadas “rotinas”, com elementos que se tornam corriqueiros.
Vejamos o caso de uma música que é tocada por um número de vezes, de forma proposital e repetida, depois de um tempo, ela se torna irrelevante, após mais um período, ela se torna insuportável, a “saturação” de uma determinada relevância, pela sua ocorrência se tornará irrelevante. Evidente que pessoas numa situação normal não tendem a tornar irrelevante uma vida humana e, de fato, não há justificação, mas para manter a relevância de alguém, primeiro essa pessoa tem que ter sido ancorada como tal, num processo de “formação/educação46”, que como vimos é vital, ao condicionar o reconhecimento,
parcialmente, que no caso da formação/educação em vigor no nacional-socialismo e, também como temos visto na escola do crime das prisões brasileiras, no qual a ancoragem cognitiva de que certos tipos são inimigos, não são como “nós47”.
Aqui demonstramos novamente, como o estressamento48;49 atua sobre a capacidade do indivíduo, que naturalmente buscaria relações de reconhecimento estáveis, mas com uma sociedade permeada de grupos faz com que as “energias” primitivas reativadas dos membros individuais confluam “para uma corrente que arrasta consigo as capacidades de controle de todos os outros” (Honneth, 2013c, p. 76), esse por si só, já seria suficiente e, para banalizar a práxis reificadora, o outro, sobretudo, como máquina, animal, coisa ou mercadoria, como o responsável pelas mazelas sociais, num amplo processo de construção ideológica que tornaram meninos e meninas a se verem como heróis, no sentido junguiano (um tipo ideal de homem e mulher na cultura como representação simbólica). Ou seja, o indivíduo diante de recursos comunicativos limitados, com liberdades restritas, formação ideológica, estresse, numa instituição total, pode estruturar que tudo não passa de uma questão de sobrevivência, a capacidade de compreensão cognitiva estariam tão escassas que tudo à volta é reificado, exceto onde ele aufere reconhecimento, sobretudo, na esfera do trabalho.
46 Aqui reside a razão porque insistimos tanto em apresentar a questão da “formação” como relevante. A.
Trevizan (2011) faz uma abordagem dessa correlação em Formação ou reificação.
47 Alusão ao “nós” do artigo sobre a formação de grupos Axel Honneth: O eu no nós (2013c).
48A sociedade alemã vinha de um longo processo de estresse devido à crise provocada pela 1ª guerra mundial e
as consequências da quebra na bolsa de 29 na economia mundial. Apontamos isso porque o estresse é um fator limitador da comunicação ótima e, naturalmente, de relações de reconhecimento recíprocas, que sujeitas a uma comunicação deficitária tendem a tornar irrelevantes as comunicações dos outros.
49 Segundo Rauen (2008, p. 55) “A manutenção de estados estressantes é ineficiente em longo prazo. Dessa
forma, como administradores de recursos escassos, os seres humanos monitoram desgastes excessivos e tendem a contrabalançar estados tensos com estados distensos, que são marcados por ambientes cognitivos mais seguros, estáveis, transparentes e pouco relevantes”.
Assim, Hannah Arendt50 descreveu Eichmann como um indivíduo terrivelmente normal, consubstanciando o termo “banalização do mal”, no qual os crimes cometidos ganhavam a conotação de atividade burocrática. Mas de outra parte, como as possibilidades de estima, estão ancoradas “na” reificação dos inimigos que são muitos, repetidos; as forças de oposição, os custos de oposição são altos, os recursos energéticos de uma cognição nova ou diferente seriam a fuga ou a luta, ou seja, a irrelevância pela rotinização, banalização do mal, instaura uma burocracia da violência.
Existem ainda os indivíduos patológicos que Honneth aborda em o Eu no nós (2013c) que transportam para o grupo suas perturbações. Mas de outra sorte, fica consubstanciado pelos fenômenos que lhe seguem serem extremamente compensatórios, que a relação de amor entre os pais e filhos, entre os casais, amigos, tende a ser a mais vantajosa nessa economia da relevância cognitiva, inclusive, se diz popularmente: “que amor, quanto mais se divide, mais se multiplica”.
Nesse sentido, do ponto de vista da relevância ótima, ou seja, do custo/benefício energético:
Custo pode envolver: - processamento cognitivo; mental, neurofisiológico, etc.; - processamento da linguagem verbal ao nível fonológico; - idem ao nível sintático; - idem ao nível semântico; - idem ao nível pragmático; - grau de acessibilidade de contextos; - grau de acessibilidade de memória lexical; - grau de calculabilidade de inferências, dedutivas, indutivas, etc.; - grau de percepção de ambiente cognitivo. Benefício pode envolver: - grau de importância quanto ao conteúdo/proposição; - grau de adequação, de conexão, de interatividade; - compreensão de implicaturas; - implicação contextual; - benefício retórico; - benefício cultural; - benefício moral; - benefício psicológico; - benefício emocional (Campos, 2008, p. 22-23).
Nessa lógica, os sentimentos morais se constituem num “benefício” emocional altamente compensatório, com validação biológica como diria Testa (2008, p. 116) na Escola do Reconhecimento?
então seria possível referir os processos de individuação e do reconhecimento social ao desenvolvimento de determinados núcleos radicados biologicamente de sentimentos morais que teriam a função de sustentar as tendências cooperativas, e cuja lesão geraria instâncias críticas.
Isso corroboraria a tese de Hegel de que o amor é o pressentimento da eticidade, para Honneth (2009b, p. 79, grifo nosso) é um pressuposto necessário para agir na sociedade. Assim o amor é uma dessas emoções que geram “autoconfiança”, que capacita os indivíduos
50Hannah Arendt foi convidada pelo jornal The New Yorker a comentar o julgamento do nazista Adolf
para a participação igual na política da vontade (disposição autônoma51), ou seja, ser igual, amado, culto, naturalmente, cria condições para economizar energias nas relações de reconhecimento, pois que a pessoa se vê como “relevante” em suas necessidades, habilidades, mas fundamentalmente em sua identidade.