A MTC tem por base a integração e interação entre o ser humano e a natureza, a manutenção da saúde e a prevenção da doença, visando harmonizar o estado de saúde geral das pessoas (Alvarenga, Iorio & Yamamura, 2004). O estado de saúde corresponde a um estado de equilíbrio entre os cinco elementos e entre os dois aspectos opostos; este equilíbrio é o responsável pela harmonia entre corpo, mente e espiritualidade; e as doenças são vistas como uma quebra desta harmonia, pois comprometem as funções do organismo (Nascimento, 2006).
Para a filosofia chinesa, os princípios que definem e descrevem o corpo humano são os mesmos que regulam a natureza. Pode-se dizer, portanto, que é um corpo integrado ao cosmos. Na natureza, as energias básicas são o calor/fogo (yang) e o frio/água (yin); bem como no corpo humano (Yamamura, 2006).
Os fenômenos que acontecem nos Zang Fu (sistemas de órgãos e vísceras) são explicados por síndromes de desequilíbrio energético, que revelam como está a carga e a circulação da força vital de um organismo. (Maciocia, 1996). Os indicadores dos desequilíbrios energéticos são verificados por oito critérios de diagnóstico: quanto à Localização: Interno (Profundo) ou Externo (Superficial); quanto à Natureza: Frio ou Calor; quanto à Intensidade: Vazio (Deficiência) ou Plenitude (Excesso) e quanto ao Princípio: Yin ou Yang.
Dentre as técnicas terapêuticas da MTC, destaca-se no Ocidente a Acupuntura. A Acupuntura em terminologia chinesa é Chen-Chuí, sendo que Chen significa água, e Chuí significa fogo. A acupuntura (Chen) mobilizaria a Água Orgânica do corpo, enquanto a aplicação de moxabustão37 (Chuí) mobilizaria o Calor Orgânico. A Acupuntura busca intervir em prol do equilíbrio energético do paciente, perturbado por fatores exógenos (Frio, Calor, Secura, Umidade, Vento e Calor de Verão), ou por fatores patogênicos variados (alimentação inadequada, tensão excessiva e estresse, falta de esforço físico,
37A aplicação de moxabustão é uma técnica milenar usada por chineses do norte da China, uma região fria. Os antigos
observaram que, ao se aquecerem ao fogo, havia melhoras de dores; aos poucos notaram que não havia necessidade de aquecerem o corpo todo, mas sim pequenas áreas do corpo; posteriormente, relacionaram essas pequenas áreas aos pontos de acupuntura. (...) Os antigos chineses verificaram que o melhor material para confecção e queima da moxa era a
Artemisia Vulgares (...) que produz uma temperatura adequada para aquecer e mobilizar o QÌ (energia); além disso, as
substâncias químicas emanadas durante a combustão possuem poder terapêutico que ajuda na mobilização de QÌ. (...) Atualmente, para o aquecimento de uma área faz-se a aplicação indireta da moxabustão por meio de um bastão semelhante a um charuto (Yamamura, 2006, p.89-90).
lesões traumáticas, sangue estagnado e flegma); e também por fatores internos (emoções reprimidas ou predisposições individuais, etc.) ou fatores emocionais (alegria, raiva, melancolia, preocupação, tristeza, apreensão e medo) (Fundamentos, 1995)38.
Os sintomas e sinais diagnosticados são interpretados como relacionados aos órgãos, vísceras, tendões, músculos, sistema circulatório, linfático, etc., constituindo assim as síndromes energéticas que indicam o tipo de desequilíbrio daquele corpo, em dado momento. O diagnóstico é feito pela inspeção da língua, das unhas e do cabelo; pela palpação do pulso; pela investigação do estado do apetite, do paladar, das fezes, da urina, entre outros, além do histórico emocional e de saúde do paciente. Toda a inspeção diagnóstica acontece no contato do corpo do paciente com o corpo do terapeuta, seja por qual sentido for: tato, olfato, visão ou audição. Alguns médicos clássicos chegam até a provar, pelo paladar, o gosto de secreções corpóreas.
Também importa para o diagnóstico a análise do meio em que a pessoa se encontra e suas condições de vida, sendo fundamentais os aspectos emocionais, os hábitos alimentares, sexuais e de atividade física (Fundamentos, 1995). Após o diagnóstico, os pontos de acupuntura são escolhidos de acordo com a sua função energética, buscando o reequilíbrio de uma determinada função (ou funções), e com a associação dos pontos busca-se o equilíbrio do corpo de forma global (Maciocia, 1996).
Todo procedimento diagnóstico e terapêutico da MTC tem como base três teorias pautadas na compreensão taoísta de cosmos: a Teoria do Yin e Yang e a Teoria dos Cinco Elementos (ou Cinco Movimentos) e a Teoria dos Meridianos.
C.1) Teoria do Yin e do Yang
A Teoria do Yin e do Yang diz que todo objeto ou fenômeno no Universo consiste de dois aspectos opostos e complementares denominados Yin e Yang, ambos são fases opostas e complementares do Qi, a força (energia) vital que é/está em tudo e em todos. Yin/Yang é a reunião das duas partes opostas que existem em todos os fenômenos e objetos recíprocos no meio natural. Essa teoria considera o mundo como um todo e esse todo é resultado da dinâmica dos dois princípios opostos (Auteroche e Navailh, 2002).
Na anatomia, como em tudo, também há exemplos: o lado direito, a parte anterior, os membros inferiores, o tronco e os órgãos estão ligados ao Yin. O lado esquerdo, a parte posterior, os membros superiores, a cabeça e as vísceras estão ligados ao Yang. As patologias como: doenças crônicas, fadiga, cansaço, umidade, palidez, pulso fraco, obesidade e congestão são exemplos de desequilíbrios ligados ao Yin. Por outro lado, doenças agudas, hiperatividade, secura, vermelhidão, pulso cheio, emagrecimento e inflamação são exemplos ligados ao Yang (Fundamentos, 1995). Já no que diz respeito às características de uma pessoa, a introversão, a calma, o sossego ou a pressão baixa são mais Yin; a extroversão, agitação, nervosismo ou a pressão alta são mais Yang.
A relação entre os dois possui quatro propriedades fundamentais que regem todo o funcionamento e a dinâmica do pensamento na MTC: a primeira delas é a Oposição, que consiste no balanço dinâmico entre os dois aspectos opostos de energia; ambos se controlam e se inibem, buscando sempre o equilíbrio. A segunda é a Dinâmica de dependência e criação: um aspecto só pode ser verificado na existência do outro, ou, só na existência de ambos e que se pode verificar o um. Por exemplo, a atividade corpórea (Yang) depende da forma física (Yin), porém a forma física só é criada e mantida pela atividade corpórea. A terceira propriedade é a Mudança Cíclica, ou seja, se um diminui, o outro necessariamente expande, e vice-versa. Por exemplo, calor (Yang) insuficiente gera frio (Yin), ou frio insuficiente pode gerar calor (Santos, 2004). Por fim, a quarta propriedade é a da Transmutação, quando um dos aspectos chega a um extremo, transforma-se no outro. Por exemplo, frio em excesso pode gerar calor, como é o caso de febres originadas por friagem.
C.2) Teoria dos Cinco Elementos
Outro conjunto de leis que embasa os procedimentos diagnósticos e terapêuticos da MTC é a Teoria dos Cinco Elementos (WǓ XÍNG 五 行), ou Cinco Movimentos. Esta teoria parte do princípio que os elementos: MADEIRA (SHÉN MÙ), FOGO (HǓO), TERRA (TǓ), METAL (JĪN) e ÁGUA (SHǓI) são os materiais básicos que constituem o mundo material.
A MADEIRA simboliza o começo do ciclo natural e está associada a uma energia expansiva. O FOGO é o auge do ciclo. A TERRA representa uma pausa, quando a
energia está em processo de transformação, originalmente era considerado elemento neutro, pois está presente em todas as transmutações. O METAL é o crepúsculo do ciclo. ÁGUA representa o momento em que energia está no seu mínimo, preparando o início de um novo ciclo (Maciocia, 1996).
O METAL é também a forma mais densa e sua função característica é o movimento de energia para dentro (centrípeto), a densidade, a pureza, e a robustez. A energia da ÁGUA busca os lugares mais baixos (descendente), se infiltra, se adapta, concentra e repousa. A MADEIRA simboliza a energia que se expande para fora (centrífuga), a força e a flexibilidade. O FOGO é expansivo e explosivo, inflama-se para o alto (ascendente), é penetrante, aquece e anima. A TERRA ampara (centraliza), absorve, suporta e acomoda, transforma e desenvolve. (Santos, 2004) 39.