5. LOCAL LIVELIHOODS
5.1. Assets and capitals
5.1.2. Human capital
Como colocado por Bizerril Neto (2007), um grande obstáculo para a compreensão do mundo taoísta decorre de sua incompatibilidade com o modelo dualista que permeia o pensamento ocidental: a dicotomia corpo-espírito. Nas diversas versões da cosmologia taoísta, essa dualidade radical não ocorre, nem entre corpo e espírito, nem entre ser humano e natureza.
Tudo é parte e relação, havendo uma ordem cósmica que tudo governa. Ao cumprir a ordem cósmica o homem se identifica com o Tao, o infinito, o imortal. Do abismo de Tao nasce a vida; que é mantida pelo poder da vitalidade, manifestada pela materialidade, e completada pelo livre-arbítrio da vida. Por isto os vivos veneram Tao. Mas, pelo impulso do seu interior, porquanto Tao dá vida a tudo, faz nascer e crescer tudo na primavera, nutre-o e conserva-o no verão. Faz amadurecer e completa tudo no outono, e protege-o durante o inverno. É este o mistério da vigorosa vitalidade interior: Gerar tudo, sem nada esperar dele, Servir a vida, sem interesse algum. Promover tudo, sem o dominar (Lao Tsé, 2007).
De tal modo, como reflexo da relação de continuidade entre corpo e espírito, para o taoísmo não há separação entre teoria e prática. As relações entre o Tao e as noções de saúde, doença, imortalidade configuram-se no contexto de uma situação prática de transmissão, em que o próprio corpo é o veículo da compreensão.
O corpo se comunica sensorial e cinestesicamente, e pode ser considerado como um canal relativamente independente da fala, produzindo e recebendo mensagens implícitas, percebidas conscientemente mais por seu efeito afetivo do que por um conteúdo racionalizável (Hall, E. 1976 in: Bizerril Neto, 2007, p.135).
A distinção mais elementar na cosmologia tradicional chinesa refere-se ao par Yin- Yang, por isso a referência constante a pares de termos complementares em sua cosmologia poderia sugerir um falso dualismo, contudo a própria representação gráfica do símbolo do Tai-Chi, indica que yin e yang são aspectos de uma mesma unidade. Mais do
que qualidades fixas, indicam atributos dinâmicos em uma relação, relativos, sujeitos à mútua transmutação.
O mundo da dualidade é o mundo da experiência cotidiana, condicionada pela mente, na cosmologia taoísta os opostos não são opostos, pois nada possui uma essência firmemente estabelecida em um núcleo ontológico. Assim, estabelece-se uma rede de continuidade entre a ordem da natureza e o mundo humano, que formam os dois termos de um Tai-Chi. Nesse contexto as práticas taoístas constituem-se como um meio para realizar essa integração do homem com o céu (Bizerril Neto, 2007).
O corpo humano tem a mesma configuração do céu e da terra, esta configuração se relaciona em vários níveis e com as várias forças que compõem o ser humano, bem como com um mapa cósmico. Essa configuração tem implicações diretas sobre o corpo do praticante taoísta, de modo que a integração com a natureza é possível pela semelhança entre configurações do corpo humano e do corpo cósmico. Contudo, apesar das afinidades, o ser humano consegue ligar-se às energias da natureza apenas em estado de serenidade.
É preciso saber que a energia verdadeira tem sua origem fora do corpo, a partir das três Energias verdadeiras do Céu e das três Energias verdadeiras da Terra. As Energias Verdadeiras do Céu são: a energia fria, pura e límpida da Água da nascente; a energia do Fogo; e a energia do Vento, que surge quando a água fria se aquece e a energia circula. As Energias verdadeiras da Terra são: o Fogo verdadeiro do Sol, a Água verdadeira da Lua, e o Vento verdadeiro das Estrelas. Essas Energias são nomeadas as Seis Energias do Céu e da Terra (Lio Her Tchen Kuena), a união delas resulta nas Três Energias Verdadeiras do homem: Essência (Tin), energia (Chi) e Espírito (Shen) (Liu Pai Lin, S/d: apostila 14 in: Bizerril Neto, 2007, p.149).
A formação do organismo tem duas origens: a parte ancestral, genética que vem dos pais e a parte espiritual do próprio ser. Junta-se a elas a energia adquirida durante a
vida, proveniente dos alimentos e da respiração. E também é resultante de registros históricos; e da lei do meio ambiente (intempéries, crimes, guerras, subnutrição, etc). Enquanto o corpo físico é responsável pelas atividades vegetativas, o corpo energético dá forma aos elementos energéticos presentes nas substâncias da carne, como o sangue, por isso a importância de não acumular impurezas.
Os taoístas chamam o treino do processo de reunião das Seis Energias Verdadeiras do Céu e da Terra com as Três Energias Verdadeiras do Homem de ―a união do Céu, da Terra, e do Homem‖ (San Tsai Her Yi). A junção de diferentes técnicas e objetivos no mesmo sistema reflete uma definição de corpo que abarca aspectos psicossomáticos e espirituais, visíveis e invisíveis.
Em seu recente trabalho, intitulado ‗O Retorno à Raiz – uma linhagem taoísta no Brasil‘, Bizerril Neto (2007) relata que no taoísmo a cosmovisão tradicional chinesa se manifesta diretamente nos corpos dos praticantes taoístas, pela maneira como habitam o tempo e o espaço e na relação com a vida e com a morte. Além disso, a busca da integração com a natureza influencia o ritmo da vida cotidiana dos praticantes, pois determinadas práticas e atividades cotidianas possuem horários e épocas correspondentes para se obter o máximo de benefícios.
O mesmo autor conta em seu livro que os interlocutores de sua pesquisa que praticavam o Tai-Chi Pai Lin40, descrevem a experiência como uma adequação espontânea ao ciclo energético diário e uma transformação do relógio biológico como resultado inesperado, para os iniciantes dos treinamentos, passando a dormir mais cedo e acordar de madrugada, espontaneamente, no horário prescrito para a realização dos treinos.
O sistema de técnicas corporais taoístas, ao remodelar o esquema corporal e os padrões habituais do praticante, instaura concretamente a cosmologia taoísta na experiência corpórea do mundo. Todo esse repertório de técnicas psicossomáticas e espirituais faz parte de um único sistema que agrega também outros saberes como a Filosofia, a Fitoterapia, a Dietética, a Acupuntura, enfim, na prática, as diversas técnicas se fundem e se complementam mantendo a unidade de seus princípios estruturantes e de seus efeitos. O Tao é descoberto na experiência e expresso por meio do corpo,
considerando que à medida que se treina o corpo, ao mesmo tempo se adquire um modo de ser.
Um conceito fundamental para compreensão desse modo de ser, é a noção taoísta de dispersão. Dispersar é perder energia, é perder o próprio centro e, conseqüentemente, o estado de ‗integração com a natureza‘; assim, é no corpo que é vivida a cisão entre indivíduo e cosmos e, internamente, entre corpo e consciência. Ao contrário da perspectiva dualista cartesiana, para o taoísmo a separação entre mente e corpo é um estado patológico; manifesto sob a forma de sofrimento.
Outra noção importante é o estado de Wu-Wei (traduzida no Ocidente por não- ação), este implica não fazer nada intencionalmente e permitir que a natureza faça, chave para a noção taoísta de espontaneidade, é um estado conquistado por meio de treinamento intensivo:
Tao não age,
E por esse não agir tudo é agido. Se reis e príncipes assim fizessem,
Todas as coisas do mundo prosperariam por si mesmas, E se, mesmo assim, os homens tivessem desejos, Tao os satisfaria pela simplicidade
Do seu íntimo ser. Quem se une ao Uno Não tem desejos,
Onde não há desejos há paz. E onde há paz,
Tudo é harmonia e felicidade. (Lao Tsé, 2007, p. 98).
A idéia é que uma vez que o corpo aprende, não há mais necessidade de a vontade consciente monitorar a ação passo a passo, de modo que a realização do Tao, ou sua busca, inclui necessariamente a dimensão corporal, embora não se resuma a ela. O corpo taoísta – incluindo o visível e o invisível – não é um texto a ser lido e analisado, mas sim o território de uma experiência vivida. As idéias conjuntas de Ordem, Totalidade e Eficácia dominam o pensamento dos chineses. Eles não se preocupam em distinguir reinos na natureza. Toda realidade é total em si. Tudo no universo é como o Universo, assim a matéria e o espírito não aparecem como opostos. O Homem não possui um lugar à parte, atribuindo-lhe uma alma com uma essência diferente do corpo (Granet, 2004).
A noção de humanidade explicitada em capítulo anterior, sobre o Perspectivismo Ameríndio, remete a uma humanidade que não está restrita somente aos seres que nós compreendemos como humanos, mas também animais e plantas são dotados de humanidade. O corpo físico entra como diferenciador das espécies nas populações.
Em comparação, no Taoísmo, a humanidade deve ser entendida como uma condição de ser inteligente e capaz de agir de modo a buscar sempre o equilíbrio com o cosmos. A natureza, os animais, os astros, etc. não são dotados de humanidade no sentido ameríndio do termo, pois são harmônicos por si só e, em caso de desequilíbrio, se reequilibram automaticamente.
O ser humano é aquele que, sendo parte integrante do Tao, e tendo as capacidades e condições psíquicas intrínsecas desenvolvidas para unir-se harmonicamente ao cosmos, tem a possibilidade de escolher e agir segundo sua própria vontade.
O corpo não é uma extensão física, o corpo é estruturalmente energia, têm-se o primado da energia sobre a matéria e não vice-versa; não é o corpo que define a identidade da ‗pessoa‘, mas a qualidade energética e humana ou não-humana que define o corpo físico. O Corpo taoísta é um corpo dinâmico e fundamentalmente metafísico e parte e relação do cosmos.