O ato de sacrificar-se em nome de uma causa não é privilégio de integrantes de grupos terroristas. Entretanto, não se pode aqui confundir o sacrifício livre de coação, daquele que se entrega voluntariamente e, portanto, conhece as consequências de seus atos, com o “sacrifício” de pessoas que são oferecidas involuntariamente, como nas ofertas de vidas inocentes aos deuses. No primeiro caso, trata-se de uma vontade consciente, como é o caso de um homem-bomba que se apresenta com voluntário para se matar em um ataque terrorista. O sacrifício contra a vontade do sacrificado não é suicídio, mas assassinato, um homicídio.
A prática de sacrificar-se pode ser vista, por exemplo, em um soldado que se lança ao combate em nome de seu povo, para defendê-lo. Foi o caso de pilotos japoneses suicidas, durante a segunda grande guerra, conhecidos por integrarem o Grupo Especial de Ataques por Choque Corporal, cujos componentes ficaram historicamente conhecidos como “kamikazes”. A história está repleta de casos de sacrifícios humanos como instrumento de um ideal, seja político, social, econômico, religioso, etc.
Então, o sacrifício não é novidade nas ações terroristas suicidas. As formas de sacrifício para a adesão e a colaboração com as atividades de grupos terroristas são diversas. Nelas se podem incluir desde uma tarefa de mera informação até a entrega da vida para concretizar os objetivos do grupo terrorista. O alistamento à causa terrorista já pressupõe uma renúncia a determinados modos de vida, uma vez que são fortes os laços de fidelidade, de obediência e de hierarquia na organização
criminosa, sobretudo em relação ao respeito à doutrina do grupo e à admiração e à lealdade aos líderes. Em verdade, “servir ao terrorismo” exige grau elevado de altruísmo.
O maior sacrifício, evidentemente, é o suicídio. Mas o que é e onde se encaixa esse estratagema extremo do suicídio na visão dos integrantes de grupos terroristas?
Uma boa perspectiva para se compreender o suicídio é encontrada na sociologia. Na obra “O suicídio: estudos de sociologia”, Émile Durkheim conceitua, inicialmente, o suicídio como “toda morte que resulta mediata ou imediatamente de um ato positivo ou negativo, realizado pela própria vítima”93. Depois, o autor conclui,
definitivamente, o conceito de suicídio como “todo caso de morte que resulta direta ou indiretamente de um ato, positivo ou negativo, realizado pela própria vítima e que ela sabia que produziria esse resultado”94.
Analisando o suicídio a partir dos estados psicopáticos, Durkheim avalia o ato de tirar a própria vida de uma pessoa com alienação mental e da pessoa sã, que não está acometida de doença mental. Essa segunda categoria é a que mais interessa à tese, porque, ao que se sabe, as pessoas que dão suas vidas em nome da causa terrorista não se matam por que são doentes mentais, mas por que querem, em sã consciência, atingir um objetivo, ainda que do resultado pretendido percam sua vida. A indagação pertinente é se existe uma loucura-suicídio? Nesse aspecto, há casos em que “a tendência ao suicídio, por natureza, especial e definida” é uma loucura parcial e limitada a apenas um ato, o que se consagrou em denominar tal patologia mental como monomanias, que acomete a pessoas de uma “tara”, nitidamente localizada. Essa monomania pode se apresentar de várias formas, possibilitando a inclusão do suicídio na classe das vesânias, aí incluídos os suicídios maníacos, melancólicos, obsessivos e impulsivos ou automáticos95.
Todavia, os suicídios não se resumem às questões patológicas, pois, como afirma Durkheim, “os suicídios de alienados não são a totalidade do gênero, mas representam apenas uma de suas variedades”, e os “estados psicopáticos que
93 DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudos de sociologia. Tradução de Mônica Stahel. 2. ed. São
Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 11.
94 Ibid., p. 14. 95 Ibid., p. 31-45.
constituem a alienação mental não podem dar conta da tendência coletiva ao suicídio, em sua generalidade”96.
Embora existam discussões sobre a existência de outros fatores paralelos que levam as pessoas ao suicídio, como sugestões de padrões étnicos e, portanto, hereditários, um dos estímulos externos que interessa diretamente a esta pesquisa é o cometimento do suicídio a partir da imitação. Nesse particular, Durkhein lembra que o suicídio é realizado por indivíduos “que não são unidos por nenhum vínculo social”, como um fator puramente psicológico. Embora nas ações terroristas haja uma adesão a uma mesma causa “social”, as mortes por suicídios são anunciadas como um ato heroico e representa no grupo – ainda que os integrantes não conheçam e não possuam qualquer ligação genética, afetiva ou social com o suicida – um exemplo a ser seguido, reforçando o caráter imitatório do sacrifício em nome na causa.
Esse processo de imitação é quase que um culto à morte que está co- originariamente ligado à cultura de um povo, sobretudo quando existem razões religiosas que alimentam o exemplo do sacrificado e enaltecem o sentido do suicídio. Nesse particular, aí se emerge uma classe definida de suicídio: o egoísta. E nessa condição a religião do suicida exerce uma influência considerável. Dentre as religiões, particularmente interessa à tese o islamismo, porque, diferentemente dos católicos, protestantes e judeus, por exemplo, as pessoas que professam o islã se valem do suicídio com outra finalidade. A razão para isso é que – respeitando as particularidades de cada religião – enquanto o católico, protestante e o judeu (esse até em muito menor proporção do que o católico) se matam por que se instruíram e por que “a sociedade religiosa de que fazem parte perdeu sua coesão”, diz Durkheim97, o islamismo está impregnado de outras razões para o suicídio, ainda
que o próprio Corão proíba o suicídio, já que, segundo os ensinamentos de Maomé, o homem só morre pela vontade de Deus. Então, por que o islamismo está diretamente ligado às causas de suicídio em nome do terror? A resposta mais provável é o fundamentalismo-extremismo-religioso, que age de maneira autônoma, quase como uma vertente do islã, que se utiliza da religião como um instrumento a serviço da violência e do terror, causa que melhor será analisada em item próprio.
96 DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudos de sociologia. Tradução de Mônica Stahel. 2. ed. São
Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 46.
Então, já encaminhando uma compreensão acerca da ligação do suicídio às ações terroristas, chega-se a uma explicação por meio de uma análise excludente: se as pessoas ligadas ao terrorismo não se matam por doença, nem por religião, ou seja, por verdadeiro egoísmo, então o suicídio só pode ser visto com um ato de altruísmo. Essa ação é parte de uma vinculação do suicida ao seu grupo social, como uma “pressão social” que leva o indivíduo a se autodestruir em prol dela98.
Nesse aspecto, o sociólogo francês exemplifica o caso dos militares, no qual se encontra um “meio especial em que o suicídio altruísta existe em estado crônico”, pois, no exército, o “soldado é treinado para dar pouca importância a sua pessoa, uma vez que deve estar pronto a sacrificá-la assim que isso lhe seja ordenado”, como sinal marcante de uma qualidade de que o soldado é visto sob “uma espécie de impessoalidade que não se encontra no mesmo grau em nenhuma parte da vida civil”99.
Em resumo, o egoísta se mata por “uma depressão geral, que se manifesta seja por um langor melancólico, seja pela indiferença epicuréia”, enquanto que o “suicídio altruísta, ao contrário, por ter como origem um sentimento violento, sempre é acompanhado de certa demonstração de energia”, arremata Durkheim100.
No caso terrorista, o emprego do suicídio altruísta como ação enérgica tem se revelado uma maneira eficiente da propagação do terror. Os primeiros ataques suicidas ocorreram no Iraque, em 19 de agosto de 2003, quando um caminhão- bomba explodiu a sede das Nações Unidas em Bagdá, matando 22 (vinte e dois) membros da Instituição, dentre eles, o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, que era o representante especial do Secretário-Geral no Iraque.
Essa tática de violência é atribuída a Abu Musab al-Zarqawi101, que,
inicialmente, resistiu à cooptação do então chefe da Al-Qaeda, Osama Bin Laden – somente ao final de 2004 seria o chefe da Al-Qaeda no Iraque – e resolveu travar lutas internas contra o governo da Jordânia. Foi al-Zarqawi quem sistematizou a
98 DURKHEIM, Émile. O suicídio: estudos de sociologia. Tradução de Mônica Stahel. 2. ed. São
Paulo: WMF Martins Fontes, 2011. p. 267-273.
99 Ibid., p. 284-292. 100 Ibid., p. 363.
101 Cfe. Napoleoni, Abu Musab al-Zarqawi nasceu num bairro de classe operária de Zarpa, a segunda
maior cidade da Jordânia, poucos meses depois do começo da Guerra dos Seis Dias (1967), tendo sido identificado com um jovem problemático e criminoso de pequena monta, razão pela qual foi preso e condenado a cinco anos na prisão, quando adotou o salafismo radical, cuja bandeira consiste na profissão da recusa a todos os valores e à influência do Ocidente. Cfe. NAPOLEONI, Loretta. A fênix islamista: o Estado Islâmico e a reconfiguração do Oriente Médio. Tradução: Milton Chaves de Almeida. 2. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2015. p. 32.
“preparação de terroristas suicidas para a atentados a bomba em missões pelo Oriente Médio”. É a ele também imputado o planejamento e a execução de 125 (cento e vinte e cinco) xiitas, “entre os quais o aiatolá Mohammed Baqer al-Hakin, líder espiritual do Conselho Supremo da Revolução Islâmica no Iraque”, morto por Yassin Jarrad, segundo sogro de al-Zarqawi, que se atirou com um veículo carregado de explosivos contra a mesquita do imã Ali. Não demorou muito para que, al-Zarqawi conseguisse difundir sua tática extrema e a reunir seguidores suicidas e recursos suficientes para prosseguir com a “série implacável de atentados a bombas contra os xiitas” e, dessa forma, dar continuidade ao plano de enfrentar as forças americanas102.
Essa tática de morte por suicídio iniciada no terrorismo por al-Zarqawi ganhou força, sobretudo com a ascensão do Estado Islâmico, que aparentava maiores possibilidades de recrutamento e de treinamento de seus integrantes, despertando a adesão de homens, mulheres, estrangeiros e até de crianças às suas ideologias violentas de jihad, ainda que o preço a se pagar pela adesão fosse o suicídio.
Mas o que leva alguém a dar sua vida em nome de uma “causa”? Essa pergunta é necessária porque, nesse caso, o suicídio não é uma ação deliberada para por fim a vida em razão de perturbação mental. Em outras palavras, a finalidade da morte não é se livrar de sua consciência doentia. Tratando-se de ataques suicidas, a morte recebe um status de dignidade, de heroísmo. Então, voltando à pergunta, o que leva uma pessoa a dar sua vida pelo ideal terrorista? A reposta mais plausível encontra-se nas posturas adotadas no desenvolvimento de ações belicosas por países ocidentais contra nações orientais. O resultado dessas campanhas facilitou sobremaneira a tarefa de recrutar e de doutrinar pessoas capazes de dar a vida pela causa terrorista.
Nesse sentido, o terrorismo suicida radicado no mundo árabe-islâmico surge de uma estratégia de defesa à hegemonia do ocidente, isto é, uma insurreição “contra el poder avasallador de sus instrumentos de destrucción masiva y el extenso control militar que ejerce sobre los territories de los paises que fueron, historicamente, la tuna del islam”, traduzindo-se, também, em um protesto contra as diferencias crescentes de “poder y riqueza, que ponen a los directorios de las grandes potencias industrializadas en oposicion a la gran mayoria de los paises
debiles y pobres, a la que pertenecen, en gran parte, los paises donde prevalece la fe islâmica”103.
Essa razão para se perpetrar ataques terroristas tem o objetivo específico secular e estratégico de tentativa de obrigar as democracias liberais a retirar suas forças militares do território que os terroristas consideram como sua terra natal e não como uma afirmação do fundamentalismo islâmico, como se acreditava, pois a religião, raramente, é a causa raiz, embora seja frequentemente usada como uma ferramenta por organizações terroristas no recrutamento e em outros esforços no atendimento do objetivo estratégico mais amplo104. Segundo Pape, três são os
padrões gerais encontrados nos fundamentos para os ataques terroristas suicidas: (a) primeiro, quase todos os ataques terroristas suicidas ocorrem como parte de campanhas organizadas, não como incidentes isolados ou aleatórios, pois, dos 188 (cento e oitenta e oito)105 ataques distintos no período de 1981 até 2001, 179 (cento
e setenta e nove) poderiam ter suas raízes em grandes campanhas políticas ou militares coerentes; (b) depois, há uma exclusiva vulnerabilidade das democracias liberais aos terroristas suicidas, já que os Estados Unidos, a França, a Índia, Israel, a Rússia, o Sri Lanka e a Turquia foram alvos de quase todos os ataques suicidas das duas últimas décadas, e cada país vivia sob o regime democrático no momento dos incidentes; e, (c) por último, Pape constatou que as campanhas terroristas suicidas são direcionadas para um objetivo estratégico, pois os patrocinadores de cada campanha foram grupos terroristas tentando estabelecer ou manter a autodeterminação política na tentativa de obrigar um poder democrático a retirar-se dos territórios que reivindicam106.
103 ZOLO, Danilo. La justicia de los vencedores: de Nuremberg a Bagdad. Traducción de Elena
Bossi, revisada por Pablo Eiroa. Madrid: Trotta, 2007. p. 291-292.
104 PAPE, Robert. A. Dying to Kill Us. The New York Times, New York, 22 Sept. 2003. Disponível
em: <http://www.nytimes.com/2003/09/22/opinion/dying-to-kill-us.html>. Acesso em: 05 set. 2017.
105 Pape havia feito uma análise acerca do crescimento desses ataques terroristas suicidas, como
mostra a preocupação à época de sua pesquisa: “most worrisome, my research shows that the raw number of suicide attacks is climbing at an alarming rate, even while the rates of other types of terrorism actually declined. The worldwide annual total of terrorist incidents has fallen almost in half; there were 348 attacks in 2001 as opposed to 666 incidents in 1987. Yet the number of attacks in which the terrorists intend to kill themselves along with their victims has grown from an average of 3 per year in the 1980's, to 10 per year in the 1990's, to more than 25 in both 2000 and 2001. And in terms of casualties, suicide attacks are far and way the most efficient form of terrorism. From 1980 to 2001, suicide attacks accounted for only 3 percent of terrorist incidents, but caused almost half of total deaths due to terrorism -- even if one excludes as an aberration the unusually large number of fatalities on 9/11”. Ibid., 2003
Ao analisar a eficiência desse método, Pape refere que a razão para se atribuir o sucesso ao ataque terrorista pelo suicídio reside, primeiro, na eficiência da ação na produção do resultado letal e no baixo número de perda de integrantes das organizações terroristas. Além disso, recorre-se ao terrorismo suicida em virtude dos custos humanos que tal modalidade de violência requer em contrapartida à forma de guerrilha convencional, que exige um elevado número de “soldados” para as campanhas107. Em verdade, a proporção é quase sempre favorável à organização
terrorista, traduzindo-se tal forma de ataque em um meio de sucesso na propagação da violência.
Embora seja um meio eficiente para se atingir os objetivos, há uma variável importante nesse processo: o suicida. Nesse aspecto, entra em debate o poder de convencimento das organizações terroristas em arregimentar voluntários dispostos a dar a vida pelos ideais de seu grupo. Então, como convencer alguém a dar a vida por uma “causa”? Parte dessa tarefa, já se adiantou, não é difícil, pois é cumprida pelo próprio ocidente, quando emprega meios de destruição massivo contra a população, na chamada “guerra global contra o terrorismo”, sob o argumento justificador-legitimador de “guerra contra la ideologia inhumana y sanguinaria del terrorismo global”, orientada também sob a máxima de uma “guerra preventiva”, tendo aí os maiores exemplos as ações militares desenvolvidas pelos Estados Unidos108. Essas empreitadas americanas se destacaram a partir de 1991, com a
Guerra do Golfo, quando foram feitas não menos de 150 (cento e cinquenta) mil vítimas, não apenas em solo iraquiano, como também em terras palestinas, jordanianas, sudanesas e egípcias.
Essas ações permitiriam concluir que o terrorismo expressaria a vontade profundamente irracional de obter resultado de modo mais cruel, destrutivo e violento, sem o mínimo de respeito pela vida, na medida em que o terrorista suicida, sobretudo o Palestino, seria a expressão emblemática da irracionalidade, do fanatismo e do nihilismo terrorista, porque a vida do kamikaze perderia todo valor diante de seus próprios olhos109. Todavia, longe de ser essa somente a razão do
107 PAPE, Robert. A. Dying to Kill Us. The New York Times, New York, 22 Sept. 2003. Disponível
em: <http://www.nytimes.com/2003/09/22/opinion/dying-to-kill-us.html>. Acesso em: 05 set. 2017.
108 Cfe. ZOLO, Danilo. La justicia de los vencedores: de Nuremberg a Bagdad. Traducción de Elena
Bossi, revisada por Pablo Eiroa. Madrid: Trotta, 2007. p. 202-241.
terrorismo suicida. Pelo contrário, há outras questões políticas, econômicas e sociais que alimentam o suicídio altruísta no terrorismo.
Por isso, é aceitável a defesa do argumento de Robert Pape no sentido de que o terrorismo suicida não é um fenômeno irracional, não teve origem na religião, nem na pobreza ou no subdesenvolvimento, mas, em sua maioria, representa uma resposta organizada contra as séries de ações militares em território oriental, reproduzindo um ciclo de ataques intermináveis. A verdade é que o terrorista suicida não é um louco, como se costuma estereotipá-lo. O Dr. Jarrold Post, da George Washington University, e ex-chefe da Central Intelligence Agency's Center for Analysis of Personality and Political Behavior in Terrorism, afirma que o terrorista suicida age pela necessidade de pertencer a um grupo que o receba, o aceite e o aprove, fazendo-o encontrar seu lugar dentro dele. Isso faz com que o terrorista dê um significado à sua vida e siga os ideais do seu novo grupo social, e, com isso, possa alcançar uma renovação de sua vida e se sentir importante e comprometido com a causa do grupo. Quando se integram ao grupo, os terroristas suicidas “sentem que se tornarão heróis, que seus parentes e colegas irão chorar de emoção em razão de sua coragem absoluta em morrer por uma causa”, além da crença de que “irão desaparecer, mas estão convictos agora que deixarão suas marcas em algum lugar, tornando-se o orgulho de todos aqueles que não morreram”110.
A conclusão a que se pode chegar é a de que, dessa forma, o ser humano consegue ultrapassar, de forma voluntária e consciente, o instinto natural de sobrevivência e autopreservação, para dar sua vida em nome de um grupo, que, por meio de uma “lavagem cerebral”, o persuadiu, o converteu e o convenceu, a partir de técnicas de condicionamento psicológico, que se notabiliza por um discurso fanático de ódio, geralmente alicerçado em preceitos religiosos fundamentalistas, recrutando ainda crianças os futuros dispersores do ódio e da violência.
O resultado desse processo é o fortalecimento de uma relação odiosa entre esses povos e países do ocidente, realimentando um sentimento de resistência, ódio e vingança, em um processo de larga escala, culminando em sucessivos atentados violentos suicidas.
Essa estratégia funciona como um processo autofágico – e é por isso que existem as campanhas para recrutamento de terroristas –, que vai destruindo os
110 CARDOSO, Silvia Helena. A mente do terrorista suicida. Cerebrum: New York, 2001. Disponível
grupos terroristas, a partir de “troca de mortes”. Essa “troca de mortes” faz parte de um estratagema do terrorismo de manter constantes ataques, embora tenha a certeza de que não pode vencer seus “inimigos”.
De certa forma, isso se assemelha a uma constatação feita por Baudrillard, no sentido de que existe uma mensagem secreta dos terroristas, e essa mensagem secreta estaria justificada em razão da premissa implícita de que o terrorismo “nunca vencerá o sistema em termos de relação de força”, fazendo surgir a reação da resposta de uma morte por outra morte igual ou superior, desafiando o sistema “pela